
Laços e Feromônios
Fandom: Omegaverse
Criado: 10/09/2026
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O Gosto Amargo da Capital
A transição entre o interior e a capital não tinha sido apenas uma mudança de quilômetros no mapa; fora um choque de realidade que desceu pela garganta como cinzas secas. Na pequena cidade de onde os quatro vieram, cercada por morros verdes e uma calmaria quase tediosa, castas eram meras formalidades burocráticas registradas em prontuários médicos aos cinco anos. A esmagadora maioria de noventa e cinco por cento de betas tornava qualquer tentativa de imposição biológica quase ridícula. Alfas não precisavam rosnar para provar autoridade, e ômegas não caminhavam com o medo cravado na base da nuca.
A capital, contudo, cheirava a concreto molhado, combustível queimado e feromônios agressivos.
O campus da universidade era um monstro de proporções brutais. Prédios cinzentos de arquitetura rígida erguiam-se como fortalezas isoladas, divididos não apenas por áreas de estudo, mas por uma linha invisível e cruenta de poder. Ali, a minoria de alfas e ômegas parecia concentrada em uma densidade quase sufocante. Pela primeira vez na vida, o quarteto sentiu o ar denso da hierarquia: os olhares invasivos, a medição descarada de força e a submissão quase coreografada de quem já havia sido quebrado antes mesmo do final do primeiro semestre.
Eli puxou a alça da mochila com mais força contra o peito, quase desaparecendo dentro do casaco de lã bege, grande demais para seu corpo esguio. Seus olhos verdes varriam o pátio central com um nervosismo palpável, desviando instantaneamente sempre que cruzavam com qualquer figura mais alta ou de ombros largos.
— Tem muita gente... — murmurou Eli, a voz quase inaudível sob o murmúrio constante das centenas de estudantes que cruzavam a praça. — É sempre assim nesse horário?
— São só idiotas fingindo que têm algum lugar importante para ir — respondeu Kyle, ao seu lado.
Kyle não se encolhia. Pelo contrário. O ômega dominante mantinha a postura ereta, os cabelos vermelhos desgrenhados caindo rebeldes sobre a testa e os olhos castanhos faiscando desafio contra qualquer um que ousasse encará-lo por mais de dois segundos. Ele vestia uma jaqueta de couro surrada e coturnos pesados, pisando no piso de pedra com a intenção clara de fazer eco. Ele já havia notado como os outros ômegas andavam pelo campus: ombros encurvados, queixos colados ao peito, as glândulas odoríferas cobertas por golas altas ou bloqueadores sintéticos baratos que cheiravam a remédio amargo. Aquilo embrulhava seu estômago. Se algum alfa achava que ele faria o mesmo só por ter nascido sob a mesma casta, teria uma bela surpresa de dentes afiados.
— Não precisa encarar todo mundo como se fosse arrancar a garganta deles no dente, ruivo — uma voz suave e baixa soou atrás dele, acompanhada por uma mão grande e morna que pousou com firmeza na base de seu pescoço, acariciando ali com uma familiaridade que desarmou Kyle instantaneamente.
Arthur deu um passo à frente, alinhando-se a Kyle. O alfa de cabelos pretos jogados para trás e olhos de um azul gelado mantinha a expressão calma, quase apática, que a maioria confundia com passividade. Ele vestia roupas simples e confortáveis, carregando a mochila de TI sobre um ombro só. Arthur não emitia ondas arrogantes de feromônios para marcar território como os outros alfas faziam naquele pátio fedorento, mas sua presença ao redor de Kyle era uma âncora indiscutível.
Kyle relaxou o maxilar, inclinando a cabeça de leve para encostar a bochecha no ombro de Arthur, buscando aquele breve contato físico que silenciava o zumbido irritante da cidade. O cheiro de Arthur — madeira úmida e chuva fresca — era a única coisa limpa naquele lugar.
— Se eu não encarar, eles acham que têm espaço para respirar perto de mim — retrucou Kyle, embora seu tom tivesse perdido a agressividade, amolecido pelo toque de Arthur.
— Ninguém vai mexer com você, cara — surgiu Marcus, aparecendo com dois copos de café gelado e um saco de papel pardo com o logotipo de uma padaria do centro. Ele sorria com a facilidade de quem achava que o mundo inteiro era uma extensão da sua sala de estar. Alto, largo, com ombros que chamavam a atenção até através do moletom pesado da atlética, o alfa dominante parecia ter saído direto de um cartaz de recrutamento esportivo. — E se tentarem, você provavelmente bate neles antes mesmo de eu conseguir soltar a minha mochila.
Marcus parou ao lado de Eli e seu sorriso imediatamente mudou de tom, perdendo a arrogância jovial e tornando-se caloroso, quase bobo. Ele estendeu o saquinho de papel na direção do namorado.
— Peguei aqueles folhados de canela que você gosta antes de vir do bloco de Educação Física. Ainda estão mornos.
Eli piscou, surpreso, e as pontas de suas orelhas ganharam uma tonalidade rosada adorável.
— Você foi até o outro lado do campus só para comprar isso? — perguntou Eli, pegando o pacote com as mãos delicadas. Seus dedos roçaram os de Marcus, e um pequeno arrepio de alívio percorreu sua espinha.
— Não foi nada, loirinho — Marcus deu de ombros, alargando o sorriso enquanto seus olhos dourados brilhavam com devoção pura. — Eu sabia que você estaria estressado com a aula de teoria da arquitetura. E café puro é horrível, toma o seu com leite.
Arthur observou a cena em silêncio, cruzando os braços. Havia algo desconfortável no ar que parecia escapar do radar de Marcus. Enquanto o amigo brilhava sob a atenção dos veteranos do departamento de esportes — que viviam acenando para ele e tentando arrastá-lo para festas exclusivas de repúblicas —, Arthur via além da fachada reluzente da universidade. Ele via os grupinhos de alfas veteranos no topo das escadarias do prédio de Engenharia observando calouros como hienas escolhendo a presa mais gorda. Ele via a forma como os mesmos caras que batiam nas costas de Marcus no vestiário olhavam para Eli agora: como se avaliassem a vulnerabilidade de um ômega que não pertencia ao círculo de ferro deles.
Arthur conhecia a si mesmo. Tinha despertado tarde, aos dezoito anos, quando a maioria já estava acostumada com a própria pele. Sabia que não se encaixava no padrão agressivo que a sociedade da capital exigia dos de sua casta. Ele não queria uma alcateia, não queria dominar ninguém e desprezava a necessidade patética de rosnar para provar valor. No bloco de TI, ele passava despercebido a maior parte do tempo, mas sabia que sua recusa em interagir ou se curvar aos veteranos de sua área já começava a incomodar. Eles chamavam sua calma de arrogância. E alfas da capital odiavam alfas que não jogavam o jogo deles.
— O intervalo está acabando — avisou Arthur, olhando para o relógio de pulso antes de seus olhos azuis voltarem-se para o ruivo. — Você tem aquela aula prática de mecânica dos sólidos agora, não tem?
Kyle soltou um suspiro pesado, revirando os olhos.
— Tenho. Três horas trancado num laboratório com quarenta alfas e betas que acham que ômega só serve para decorar prateleira de troféus. O professor passou metade da última aula olhando para mim como se estivesse esperando eu começar a chorar por causa de uma equação diferencial.
— Mostra para eles do que você é feito — disse Arthur, a voz baixa carregada de uma confiança silenciosa que sempre acertava Kyle no peito com a força de um soco. Arthur levou a mão até o rosto do ruivo, os dedos compridos traçando a linha de sua mandíbula. — Mas não se mete em brigas desnecessárias. Não gaste sua energia com idiotas que não durariam dez minutos no seu lugar.
Kyle sorriu, um sorriso torto e afiado, descansando o peso do rosto na palma da mão do namorado.
— Se eles não atravessarem meu caminho, eu deixo eles inteiros. Prometo.
Eli olhou para os dois, sentindo aquela pontada familiar de admiração. Kyle era tão seguro, tão implacável. Ele queria conseguir ser assim. Queria não congelar toda vez que passava pelo corredor do prédio de Arquitetura e sentia a pressão pesada de feromônios alheios forçando o ar contra seus pulmões.
— Ei — Marcus chamou baixinho, inclinando-se para o loiro enquanto os outros dois conversavam. Ele tocou a ponta do nariz de Eli com carinho. — Depois das aulas eu venho te buscar no seu bloco. Não volta sozinho para o dormitório hoje, tá? Vai ter aquele trote estúpido perto da biblioteca e eu não quero você no meio daquela bagunça.
— Eu posso te esperar lá dentro da biblioteca — respondeu Eli, a voz suave carregada de um apelo tímido. — É silencioso. Ninguém grita lá dentro.
— Perfeito. Eu passo lá e te resgato — Marcus piscou, roubando um selinho rápido dos lábios de Eli antes que o ômega pudesse protestar contra a demonstração pública de afeto, deixando-o ainda mais vermelho. — Você é o cara mais inteligente daquele prédio, Eli. Não deixa ninguém te fazer esquecer disso.
As palavras de afirmação eram o combustível que mantinha Eli de pé, e Marcus sabia exatamente como entregá-las sem esforço.
A separação durante o dia era a parte mais difícil da nova rotina. Na pequena cidade natal, dividiam a mesma sala de aula desde a infância, respirando o mesmo ar e almoçando nas mesmas mesas de piquenique sob as árvores do pátio escolar. Aqui, a logística da universidade parecia desenhada para despedaçar qualquer senso de segurança prévia.
Dormitórios segregados por casta. Aquela era a regra que Kyle mais odiava.
O prédio dos ômegas ficava no extremo leste do campus, cercado por portões altos, controle biométrico rigoroso e seguranças que agiam como carcereiros disfarçados de protetores. Supostamente era para "garantir a integridade física e o sossego durante os ciclos", mas Kyle via aquilo exatamente pelo que era: um cercado para mantê-los sob vigília. Do outro lado, a quase vinte minutos de caminhada rápida, ficava o bloco dos alfas, um complexo cavernoso que fedia a suor, competitividade e desodorante barato.
Encontros íntimos precisavam ser minuciosamente calculados. Visitas cruzadas entre os prédios exigiam autorizações prévias humilhantes ou esquemas elaborados para burlar a portaria noturna, o que significava que o desejo acumulado ao longo da semana quase sempre explodia em cantos escuros, banheiros desativados ou nos finais de semana raros em que conseguiam juntar dinheiro para pagar por um quarto de motel barato fora do perímetro acadêmico.
— A gente se vê no jantar — disse Kyle, afastando-se relutante do toque de Arthur, sentindo o vazio frio onde a mão do alfa estivera momentos antes. — Não deixa o Marcus comer a sua parte da comida de novo.
Arthur deu um meio sorriso, assentindo.
— Não vou deixar. Te vejo às sete.
Eles se separaram em direções opostas. Marcus seguiu em passos largos e enérgicos rumo ao ginásio, enquanto Arthur caminhava com calma em direção aos prédios escuros de ciências exatas. Kyle e Eli andaram juntos por mais alguns metros, compartilhando um silêncio confortável até chegarem à bifurcação que separava a Arquitetura da Engenharia.
— Se precisar de qualquer coisa, me manda mensagem — Kyle avisou, pousando a mão firme no ombro de Eli e apertando de leve. — Qualquer coisa, entendeu? Não fica engolindo sapo de veterano babaca.
Eli assentiu com um sorriso pequeno, segurando o saco de pães contra o peito.
— Eu sei me cuidar, Kyle. Boa aula para você também.
Kyle observou o amigo entrar no prédio envidraçado de Arquitetura antes de virar as costas e seguir em direção ao seu próprio inferno particular.
O bloco de Engenharia tinha o cheiro característico de graxa, solvente e uma quantidade enjoativa de feromônios alfas disputando dominância no ar estagnado dos corredores. Kyle respirou fundo, ajustou a alça da mochila e ergueu o queixo. Conforme avançava pelo corredor principal, sentiu os olhares pousarem nele como lâminas cegas. Um grupo de quatro veteranos, todos alfas, estava encostado nos armários de metal perto da porta do laboratório.
A conversa entre eles morreu no instante em que Kyle se aproximou.
Kyle sentiu a onda invisível de feromônios pesados se expandir na sua direção — um teste clássico, uma tentativa rasteira de forçar um ômega a baixar a cabeça e admitir a fragilidade biológica da sua condição. O cheiro deles era agressivo, queimado, como borracha chamuscada.
O ruivo parou por uma fração de segundo. Seus olhos castanhos cravaram-se no alfa mais alto do grupo, o que parecia liderar a postura intimidadora. Kyle não encolheu os ombros. Em vez disso, seu próprio cheiro — denso, cortante, carregado da pura dominância de um gene que raramente se manifestava em ômegas — explodiu silenciosamente no ar, ácido e intransigente como uma centelha prestes a tocar pólvora.
A expressão zombeteira no rosto do veterano desmoronou em um instante de puro choque biológico. O alfa deu meio passo para trás, o instinto animal vacilando diante da presença que se recusava terminantemente a ser subjugada.
Kyle sustentou o olhar por mais dois batimentos cardíacos, deixou escapar um riso anasalado e desdenhoso, e passou direto por eles, abrindo a porta do laboratório com um empurrão firme.
Ele sabia que aquilo não acabaria ali. A universidade não tolerava anomalias, e um ômega que não abaixava a cabeça era a maior anomalia que aquele lugar poderia abrigar. Mas, enquanto caminhava até sua bancada de trabalho sob o silêncio atordoado da sala, Kyle sentiu apenas o sangue ferver de antecipação.
Se eles queriam uma guerra de castas, descobririam muito em breve que dentes afiados não eram privilégio exclusivo dos alfas.
