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Família vôlei(caos)

Fandom: Vôlei

Criado: 10/09/2026

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Madrugadas em Família

A meia-noite já havia ficado para trás há muito tempo, mas o relógio na parede da sala parecia correr em câmera lenta. Na penumbra iluminada apenas pela luz fraca do abajur de canto, Julia Bergmann sentia os braços dormentes enquanto tentava, em vão, fazer o pequeno Noah adormecer. O bebê de cinco meses estava completamente vermelho de tanto chorar, com os punhos cerrados e o rostinho loiro empapado em lágrimas, soltando berros agudos que pareciam ecoar por toda a casa.

— Pelo amor de Deus, filho, o que você quer? — murmurou Julia, a voz carregada de um cansaço melodramático enquanto balançava o corpo de um lado para o outro na rede. — A mamãe já te deu peito, já trocou fralda, já cantou em três línguas diferentes. Se você não dormir agora, eu vou começar a chorar junto com você e juro que sou mais escandalosa.

No sofá logo em frente, com seus quase dois metros de altura esticados de forma desajeitada entre as almofadas, Ekaterine Antropova suspirou profundamente. Paciente por natureza, mas já sentindo o peso das horas sem descanso após uma rotina pesada de treinos, a loira se levantou com a agilidade graciosa que só uma jogadora de vôlei do calibre dela possuía.

— Deixa comigo um pouco, Ju — disse Kate em tom baixo, aproximando-se da rede com passos calmos. — Você tá com as costas travadas desde as dez da noite. Vem cá, meu carrapato loirinho, vem com a mamãe.

Julia suspirou aliviada e entregou a pequena trouxinha agitada para a esposa. Kate ajeitou Noah contra o peito largo, apoiando a cabecinha miúda na curva do pescoço, e começou a caminhar em círculos largos pela sala. As passadas compridas e o balanço ritmado costumavam funcionar como mágica, mas Noah não parecia nada disposto a colaborar. O menino continuava em um acesso de raiva genuíno, gritando contra a blusa de algodão de Kate, os olhos semicerrados e irritados.

Kate tentou niná-lo, sussurrou palavras em russo, fez sons suaves, mas o choro apenas aumentou de tom, ameaçador.

— Ah, não, você puxou a teimosia da sua mãe ruiva, não é possível — brincou Kate, rindo baixinho com aquele humor seco característico, embora suas sobrancelhas loiras já começassem a se juntar na famosa expressão de quem estava prestes a perder a paciência. — Olha o pulmão desse garoto. Já dá pra botar na linha de passe para gritar com o levantador.

— Não coloca a culpa na minha genética maravilhosa, Antropova! — Julia rebateu da rede, esticando os braços para cima e espreguiçando-se com um muxoxo dengoso. — Ele é loiro igual a você, o temperamento explosivo com certeza veio do lado russo da família.

— Toma ele de volta então, sua dramática — retrucou Kate, entregando Noah com cuidado de volta aos braços de Julia. — Ele só quer saber de você hoje. Tá com cara de que quer peito e briga ao mesmo tempo.

Julia ajeitou o bebê no colo mais uma vez, posicionando-o junto ao seio com um suspiro conformado. Foi necessária mais de uma hora inteira de paciência, insistência e sussurros carinhosos para que Noah finalmente parasse de se debater e começasse a sugar, ainda soluçando entre uma mamada e outra. O choro ensurdecedor diminuiu para um lamento baixinho, manhoso e cansado, até que o ritmo de sua respiração começou a suavizar.

Enquanto isso, no andar de cima, Léo já havia começado a se remexer com o barulho. O primogênito de sete anos, com seus cachos ruivos idênticos aos de Julia e a curiosidade sem limites, tinha descido os primeiros degraus da escada com os olhinhos sonolentos. Kate, vendo a cena a tempo, interceptou o menino no corredor, pegou-o no colo e o levou de volta para a cama, contando uma história improvisada sobre bolas de vôlei voadoras até que o garoto pegasse no sono pesado novamente.

Lá embaixo, Julia prendeu a respiração. Com movimentos milimetricamente calculados, dignos de uma ponteira experiente lidando com uma bola colada na rede, ela afastou Noah do peito e o acomodou nas dobras macias do tecido da rede. O pequeno deu um último suspiro trêmulo e virou a bochecha corada para o lado, quase dormindo.

Sem fazer o menor barulho, Julia desceu da rede na ponta dos pés. Kate desceu as escadas logo em seguida, calçando pantufas, e as duas seguiram em direção à luz acolhedora que vinha da cozinha espaçosa.

Na grande mesa de madeira, Gabi e Lucas Bergmann conversavam em tom baixo, ambos segurando canecas térmicas com chá. Gabi estava sentada de pernas cruzadas na cadeira, gesticulando animadamente, enquanto Lucas ouvia com atenção, rindo de vez em quando. Ao verem as duas donas da casa entrarem com olheiras profundas, os dois visitantes não seguraram o riso.

— Sobreviveram à tempestade? — perguntou Gabi, abrindo aquele sorriso largo e acolhedor que iluminava qualquer ambiente. — Achei que a gente ia ter que chamar os bombeiros para resgatar vocês duas daquele quarto. O Noah tem a potência vocal de um ginásio lotado.

— Nem me fale — murmurou Julia, puxando uma cadeira e se jogando nela com todo o drama que seu corpo de quase um metro e noventa permitia. — Eu dei à luz uma sirene. Tenho certeza absoluta de que meus tímpanos não funcionam mais da mesma forma.

Kate sentou-se ao lado da esposa, puxando uma jarra de água fresca e servindo um copo para si mesma e outro para Julia.

— Ele só estava irritado porque queria atenção exclusiva — disse Kate, embora um sorriso carinhoso traísse sua pose séria. — Mas o Léo apagou de vez agora. Aquele lá dorme até se cair uma bola de ferro no telhado.

— Vocês são loucas, na moral — Gabi comentou, apoiando o queixo na mão e olhando para o casal com um brilho travesso nos olhos. — Dois filhos em meio a temporadas de clubes, seleção nacional e viagens intermináveis. Quero ver quando a Julia inventar de ter o terceiro. Porque do jeito que o Léo é apegado e o Noah é carente, logo depois que nascer o terceiro eles vão começar a fazer campanha e pedir o quarto filho. Aí eu quero sentar de camarote para ver o caos absoluto!

Julia arregalou os olhos verdes, encarando a capitã da seleção com puro deboche.

— Vira essa boca para lá, Gabriela! Nem de brincadeira você fala uma atrocidade dessas. Meu útero fechou para balanço, passou uma tranca e jogou a chave no fundo do oceano Pacífico. Se eu tiver mais um, eu simplesmente me mudo para a quadra e durmo embaixo da rede de vôlei. A Kate que lute para criar a creche inteira sozinha.

— Ah, engraçadinha — Kate revirou os olhos azuis, cutucando a costela de Julia com o cotovelo. — Como se você conseguisse ficar longe deles por mais de dois dias sem me ligar chorando de saudade no FaceTime.

A risada correu leve entre os quatro. O clima da madrugada trazia uma atmosfera íntima e tranquila, perfeita para longas conversas onde as horas deixavam de importar. Falaram sobre a última temporada, as expectativas para o próximo ciclo olímpico, fofocas de bastidores das quadras internacionais e as dificuldades naturais de conciliar a maternidade com a alta performance atlética. Lucas e Gabi faziam perguntas sobre a rotina com dois meninos, tiravam dúvidas sobre a logística de creches na Europa e ouviam as explicações detalhadas de Kate sobre como organizavam os horários de treino e sono.

Em determinado momento, Lucas se virou para a irmã mais velha, genuinamente curioso.

— E como estão as coisas na preparação física nova, Ju? Você tinha comentado que mudou de academia semana passada.

Julia tomou um gole de água antes de responder, animada com o assunto.

— Nossa, muito melhor! O treinador de lá é excelente, ele ensina super bem. Ele tem uma visão ótima de biomecânica, montou umas séries específicas para a minha impulsão sem sobrecarregar o joelho operado. O cara sabe muito, explica cada movimento na régua, tem uma paciência inacreditável para me corrigir.

Na mesma hora, a expressão de Kate mudou. O ar descontraído evaporou do rosto da russa, substituído por uma expressão fria, a mandíbula travada e os olhos fixos na toalha de mesa. Ela cruzou os longos braços sobre o peito e não emitiu um único som, exalando aquela frieza repentina que Julia conhecia como a palma da mão.

Julia percebeu a mudança no mesmo instante. Com um sorriso de canto, provocador e debochado, ela inclinou a cabeça para encarar a esposa.

— Que cara é essa, Ekaterine? Por que você ficou brava de repente?

— Não é nada — Kate respondeu de imediato, a voz seca, olhando para o lado oposto da mesa.

— Ah, claro que não é nada. Imagina se fosse — Julia zombou, revirando os olhos e cutucando o joelho de Kate por baixo da mesa. — Lucas só perguntou da academia e você já tá vestindo essa carcaça de general soviético. Amor, para com isso. Eu sei muito bem que isso é ciúmes bobo. Meu corpo é só seu, você sabe perfeitamente disso. A gente já conversou sobre isso por causa daquele ocorrido de antes e você sabe que não tem nada a ver. Deixe disso, mulher!

Gabi escondeu um sorriso atrás da caneca de chá, enquanto Lucas pigarreou, ligeiramente sem jeito com o clima familiar tão escancarado. Kate sustentou o olhar de Julia por alguns segundos, tentando manter a pose de poucos amigos, mas o canto de seus lábios vacilou diante do olhar confiante e debochado da ruiva.

— Eu só não gosto de intimidade excessiva, Julia, você sabe como você é espaçosa — murmurou Kate, fingindo irritação, mas relaxando os ombros.

— Espaçosa não, simpática e focada na minha performance atlética — Julia rebateu piscando para ela.

Antes que Kate pudesse retrucar com alguma ironia afiada, um choro agudo cortou o silêncio do corredor. Noah havia acordado novamente, inconsolável.

Julia jogou a cabeça para trás, bufando em puro drama.

— Não é possível! Esse menino tem radar para quando eu tô ganhando uma discussão!

Ela se levantou apressada da mesa e foi até a sala na velocidade da luz. Ajoelhou-se ao lado da rede e começou a afagar o peito do bebê com desespero controlado.

— Shh... calma, meu amor, fala baixo. Vai acordar o seu irmão! O Léo acabou de pegar no sono pesado, não faz isso com a mamãe...

Noah, no entanto, abriu ainda mais a boca, esperneando. Julia pegou o menino nos braços com certa dificuldade e voltou até o batente da porta da cozinha, olhando para Kate com uma mistura de exaustão e divertimento.

— Meu bem, ele já tá querendo abusar de novo. Ele não quer dormir, ele quer farra, isso sim!

Gabi olhou para o relógio de pulso e levantou-se da cadeira, espreguiçando-se demoradamente.

— Gente, o papo tá maravilhoso, mas se eu não for deitar agora, amanhã não consigo nem dar um manchete no treino. Vou subir, tá? Ju, boa sorte com o monstrinho loiro. Kate, paciência com a sua ruiva.

— Boa noite, Gabi — Kate sorriu, levantando-se também. — Durma bem.

— Boa noite, capitã — Julia acenou com a mão livre.

Lucas também se levantou, mas hesitou, olhando em volta como se procurasse o momento certo para falar. Julia levou Noah de volta para a sala e se ajeitou na rede espaçosa. Kate a seguiu e deitou-se ao seu lado, as duas se encaixando com a facilidade de quem já fazia aquilo há anos, dividindo o espaço generoso da rede artesanal com o bebê no meio.

Antes que Lucas subisse as escadas, ele caminhou até a sala, parando ao lado da rede com as mãos nos bolsos da bermuda e uma expressão visivelmente hesitante.

— Ju... posso falar com você um segundo? É rapidinho, prometo.

Julia olhou para o irmão, notando o tom mais sério e tímido em sua voz. Kate, percebendo a necessidade de privacidade e sempre atenta aos filhos, aproveitou a deixa para se desenroscar da rede com cuidado.

— Eu vou lá em cima rapidinho checar se o choro do Noah não acordou o Léo mesmo. Já volto — avisou Kate, dando um beijo carinhoso na têmpora de Julia antes de subir os degraus em silêncio.

Quando os passos de Kate sumiram no andar superior, Lucas puxou um banquinho de madeira e sentou-se perto da rede. Ele passou a mão pelo cabelo ruivo, muito parecido com o da irmã, e respirou fundo.

— Fala, maninho. O que foi? Tá com cara de quem viu assombração — Julia disse, ajeitando a cabeça de Noah em seu ombro.

— É que... bem, eu preciso de um conselho e acho que só você pode me ajudar sem me zoar até o ano que vem — Lucas começou, a voz bem baixa. — Eu acho que tô gostando da Gabi. Sabe... com outras intenções. Não só como amiga ou como a capitã fodona que joga com você.

Julia piscou os olhos verdes, surpresa de verdade por um instante. O lado debochado quase falou mais alto, mas ao ver a vulnerabilidade sincera no rosto do irmão mais novo, ela suavizou o olhar.

— Jura, Lucas? Desde quando isso?

— Faz um tempo já. Mas eu sou meio travado com isso, e pra piorar eu nem sei direito qual é a sexualidade dela. Ela nunca fala muito da vida pessoal na minha frente, e eu fico com medo de dar em cima, ser inconveniente, passar vergonha e ainda estragar o clima entre a gente.

Julia soltou uma risadinha suave, cheia de carinho e um pouco de pena do irmão. Ela tocou o braço de Lucas com afeto.

— Ai, Luquinhas... você é uma figura. Olha, vou ser muito honesta com você para poupar o seu coraçãozinho. A Gabi é maravilhosa, é uma das melhores pessoas que eu conheço na vida, mas ela não tem interesse em homens, maninho. Ela é lésbica, ou pelo menos completamente voltada para mulheres. Ela nunca escondeu isso de quem é próximo.

Lucas arregalou ligeiramente os olhos e soltou um suspiro longo, que pareceu misturar decepção e um imenso alívio por finalmente ter uma resposta clara.

— É... sério mesmo?

— Cem por cento sério — Julia confirmou com um sorriso compreensivo. — Se você tentar alguma coisa romântica, vai ser um baita fora, sem chance nenhuma de dar certo. Mas como amiga? Ela é incrível. Guarda esse carinho e admiração por ela desse jeito, porque ela gosta muito de você como o meu irmão gente boa. Não cria expectativa onde não tem como florescer, tá bem?

Lucas assentiu lentamente, rindo de si mesmo com um toque de vergonha.

— Droga. Bem que eu desconfiava, mas a ilusão às vezes é mais forte. Valeu pelo toque, Ju. Sério mesmo. Melhor saber por você agora do que pagar mico na frente dela.

— Sempre às ordens para salvar você dos seus próprios desastres amorosos — Julia piscou, em tom de troça.

Passos suaves soaram na escada e Kate reapareceu na sala, parando perto do arco da porta.

— Léo tá no décimo sono, nem se mexeu — anunciou a loira, sorrindo de leve.

— Perfeito — Lucas disse, levantando-se do banquinho e parecendo bem mais leve. — Bom, vou subir antes que o sol nasça. Boa noite para vocês duas. E boa noite, sargentinho Noah.

— Boa noite, Lu — disseram as duas quase ao mesmo tempo.

Lucas subiu as escadas e o silêncio da noite voltou a reinar sobre a casa. Apenas o tique-taque suave do relógio marcava o compasso das quase duas horas da madrugada.

Kate se aproximou da rede e deitou-se novamente ao lado de Julia. O tecido firme envolveu os corpos das duas atletas, mantendo-as aconchegadas e quentes. Noah estava no meio, deitado de lado, completamente aninhado contra os seios fartos de Julia.

O menino agora mamava com vontade, mas o abuso mencionado por Julia estava em pleno andamento: Noah puxava o leite com avidez por alguns segundos, de repente soltava o bico do peito com um estalo estalado, virava o rostinho para Kate e abria um sorriso banguela e vitorioso, soltando pequenos gritinhos de pura satisfação e achando a maior graça da situação.

Kate não resistiu. O semblante sério que ela tentava manter derreteu completamente. A loira começou a fazer cócegas de leve na barriguinha do filho, piscando um dos olhos e soltando risadinhas baixas para incentivá-lo.

— Olha só quem resolveu ficar todo exibido para a outra mãe — Kate sussurrou, acariciando os finos fios loiros de Noah com a ponta dos dedos longos. — Agora não tá mais com raiva do mundo, né, seu espertinho?

Noah soltou outra risadinha com o bico de fora, babando um pouco no peito de Julia antes de tentar morder de brincadeira.

Julia, com os olhos já semicerrados de tanto sono, quase desmaiando de exaustão, não conseguiu segurar a risada frouxa diante daquela palhaçada dos dois.

— Meu bem... vai dormir, pelo amor de Deus — Julia murmurou para o bebê, com uma voz pastosa e sonolenta, enquanto acariciava as costas gordinhas dele. — Amanhã você brinca com a sua mãe Kate o dia inteiro. Hoje ela já quase teve um ataque por ciúmes do meu personal, agora ela tá aqui te incentivando a me fazer de brinquedo. Dorme, meu amor...

Kate riu baixinho contra o ombro de Julia, beijando a pele macia da ruiva antes de apoiar a mão protetora sobre as costas do filho.

— Deixa ele, Ju. Ele só queria ver a gente junta.

Com o ambiente em paz, o balanço suave e constante da rede e o calor dos corpos entrelaçados, a agitação de Noah finalmente perdeu força. O menino abocanhou o peito uma última vez, sem gracinhas, sugando de forma ritmada e preguiçosa até que os olhinhos azuis pesassem de vez. A boquinha se soltou suavemente, a respiração ficou profunda e regular, e o abuso da madrugada finalmente chegou ao fim.

Apoiando a cabeça no peito de Kate, enquanto os braços cercavam Noah em segurança, Julia fechou os olhos com um longo suspiro de contentamento. Kate envolveu as duas em um abraço firme e quente, beijou os cabelos vermelhos da esposa e fechou os olhos também. Em poucos minutos, embaladas pelo silêncio reconfortante da casa e pelo amor caótico que haviam construído juntas, as três dormiam profundamente.

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