
Ffhfgh
Fandom: Booktok
Criado: 10/09/2026
Tags
Dedicatória Exclusiva
O cheiro de livro novo misturado ao aroma artificial de café barato e ao calor humano característico do pavilhão do Riocentro era, para qualquer pessoa normal, uma receita infalível para uma crise de claustrofobia. Para Clara, no entanto, aquilo era o mais próximo do paraíso que a Terra poderia oferecer.
Ela ajustou a alça da ecobag que pesava impiedosamente contra seu ombro, sentindo o tecido afundar um pouco na blusa preta de veludo que delineava suas curvas. Clara era gordinha, vaidosa e tinha total consciência do próprio charme; usava uma saia plissada escura, botas de solado tratorado e uma jaqueta de couro estrategicamente aberta. Era o uniforme não oficial de quem passava madrugadas devorando histórias de moral duvidosa, máfias implacáveis e homens fictícios que queimariam o mundo por suas mulheres.
E, ironicamente, o homem da vida real que faria exatamente isso por ela estava a menos de cinquenta metros de distância, cercado por seguranças, luzes de ring light e uma centena de câmeras de celular histéricas.
Clara olhou para a sacola abarrotada em sua mão. Dentro dela, repousavam pelo menos seis calhamaços de pura depravação literária: romances com aviso de gatilho do tamanho de um testamento, capas pretas com detalhes em hot stamping dourado e vilões que fariam qualquer terapeuta chorar. E todas aquelas preciosidades haviam sido pagas com o cartão de crédito preto fosco que repousava no fundo de sua bolsinha de lado.
O cartão de Erand.
Ela não pôde conter um sorriso ladino ao se lembrar da cena no quarto de hotel naquela manhã. Erand ainda estava com a voz rouca de sono, o cabelo escuro despenteado sobre os olhos e os lençóis enrolados na cintura, quando jogou o retângulo de plástico sobre o colo dela.
— Compre tudo o que você quiser — murmurara ele, puxando-a de volta para a cama pelo quadril, afundando o rosto na curva macia do pescoço dela. — Principalmente aqueles livros com caras perigosos e moralmente cinzentos que você finge que lê pelo enredo. Se faltar limite, você me liga, mas acho difícil estourar.
— Você não tem vergonha de patrocinar a minha perversão literária? — provocara ela, rindo enquanto tentava se desvencilhar dos braços fortes dele para não se atrasar.
— Eu tenho vergonha é de não ser o único cara tóxico que você acha atraente — rebatera ele com um beijo estalado, daquele jeito meio torto e arrogante que fazia a internet inteira entrar em colapso coletivo diariamente.
Erand era o homem do momento no BookTok. Desde que Kelly, uma das maiores autoras nacionais da atualidade, o escolheu pessoalmente como o fancast oficial de Desenfreados, a vida dele virou de cabeça para baixo. Ele tinha a estrutura óssea perfeita, o maxilar quadrado, a altura imponente e o olhar cínico que personificava com perfeição o protagonista que Kelly havia escrito. Ele era o sonho de consumo de nove entre dez leitoras da plataforma.
Mas Clara o conhecera antes daquele furacão todo explodir de verdade.
Fora na Bienal do ano anterior. Clara estava parada diante de um estande independente, folheando um livro, quando trocou um olhar longo demais com o rapaz alto que tomava conta de uma das pontas do espaço. Ela já o seguia no Instagram há meses, admirando silenciosamente suas fotos conceituais e os vídeos ocasionais de leituras. Não teve coragem de dizer nada naquele dia, mas o destino — ou o algoritmo — foi implacável. Erand passou a noite inteira procurando por ela nas fotos marcadas do evento até achar a conta de Clara, onde fotos de resenhas bem-humoradas se misturavam a selfies confiantes e vídeos de leituras de dark romance.
A primeira mensagem dele na DM fora direta: “Você me encarou por três minutos inteiros no pavilhão verde e foi embora sem falar um ‘oi’. Achei falta de educação literária.”
A partir dali, foram mensagens intermináveis, chamadas de vídeo na madrugada e encontros discretos longe dos holofotes. Quando a carreira de Erand como influenciador e modelo de capas explodiu, decidiram em comum acordo manter o namoro em segredo. A internet era um tribunal cruel, e o BookTok conseguia ser assustadoramente obsessivo. Erand odiava esconder que era completamente louco pela namorada, mas Clara prezava sua paz.
Quem acabou descobrindo tudo foi a própria Kelly, a autora. O que poderia ter sido uma saia justa profissional transformou-se na amizade mais improvável e deliciosa do ano. Kelly e Clara conversavam todos os dias pelo WhatsApp, trocando fofocas sobre o meio editorial e rindo das crises de ciúmes bobas de Erand.
E foi uma mensagem de Kelly que fez o telefone de Clara vibrar naquele exato momento.
“Mulher, onde você tá? O seu homem tá aqui assinando marcador há três horas e a cara dele de cu tá quase estragando as fotos das leitoras kkkkkk vem salvar o evento!”
Clara parou no meio do corredor movimentado, desviando de um carrinho cheio de brindes, e digitou rapidamente:
“Tô na fila.”
A resposta de Kelly veio em segundos, acompanhada de três figurinhas de choque:
“Como assim na fila??? Clara, você tem crachá VIP, criatura! Entra pelos fundos!”
Clara sorriu, sentindo uma pontinha de adrenalina pura subir pela espinha.
“Qual a graça de ser a namorada secreta se eu não puder humilhar o ego dele em público fingindo que sou só mais uma leitora emocionada? Me espera. Já tô quase chegando na mesa.”
Kelly visualizou e mandou apenas um: “MEU DEUS DO CÉU EU VOU GRAVAR ISSO.”
A fila para a sessão de autógrafos de Desenfreados era monumental. Centenas de garotas seguravam seus exemplares com post-its coloridos colados nas laterais, discutindo em voz alta sobre as cenas mais picantes do livro.
— Amiga, você viu o braço dele de camisa preta hoje? — comentou uma menina logo à frente de Clara, balançando a amiga pelos ombros. — Ele tá literalmente o Matteo! Se aquele homem olhar para mim do jeito que olhou pras primeiras da fila, eu desmaio no chão do pavilhão, juro por Deus.
Clara mordeu o lábio inferior para não cair na gargalhada. A garota não sabia, mas aquele "Matteo" implacável deixava a toalha molhada em cima da cama e chorava de rir assistindo a vídeos de cachorrinhos desastrados no TikTok.
A fila andou rápido nos minutos seguintes, impulsionada pela organização rígida do evento. Conforme se aproximava do tablado elevado onde Kelly e Erand estavam sentados, Clara pôde vê-los com clareza.
Kelly usava um vestido vermelho fabuloso, sorrindo com simpatia para cada leitora, autografando sem parar com sua caneta dourada. Ao lado dela, Erand era a personificação do perigo estético. Camisa preta com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando o antebraço forte e as veias saltadas, os primeiros botões abertos na medida certa e aquele olhar semicerrado que parecia analisar a alma de qualquer um. Ele sorria para as fotos, mas Clara conhecia cada microexpressão daquele rosto. Ele estava exausto, com fome e visivelmente entediado.
Kelly foi a primeira a erguer os olhos da pilha de páginas e avistar Clara. A autora arregalou os olhos sutilmente, tossiu para disfarçar o riso e cutucou a perna de Erand por baixo da mesa longa.
Erand mal moveu o tronco, apenas respirou fundo, preparando-se para atender a próxima fã.
— Próxima, por favor! — chamou a assistente de produção.
Clara deu um passo à frente. Ela empurrou para trás uma mecha do cabelo ondulado, ajeitou a postura, destacando intencionalmente a curva da cintura e o decote modesto da blusa de veludo, e colocou um exemplar novinho em folha de Desenfreados sobre a mesa.
— Oi — disse Clara, afinando a voz em um tom teatralmente tímido. — É um prazer enorme conhecer vocês.
Erand nem ergueu a cabeça de imediato. Puxou o livro com a mão esquerda, girando a caneta preta entre os dedos longos.
— Oi, querida, tudo bem? Para quem é o au...
Ele travou.
A frase morreu na garganta no instante em que ele olhou para cima e os olhos castanhos dele colidiram com os de Clara. O piloto automático de celebridade da internet desligou em um milésimo de segundo. A boca dele se entreabriu de leve, a postura relaxada e desinteressada sumiu, e a caneta quase escapou de seus dedos.
Kelly cobriu a boca com a mão, virando o rosto para o lado oposto para não gargalhar no microfone de lapela que estava usando.
— Clara? — sussurrou ele, a voz caindo uma oitava inteira, o espanto dando lugar a uma intensidade que fez os pelos dos braços dela se arrepiarem.
— Meu nome é Clara, sim! — respondeu ela, falando alto o suficiente para a assistente ouvir, sustentando um sorriso radiante e descarado. — Sou muito sua fã, Erand. Da Kelly também, claro! A escrita dela é maravilhosa, mas você... você realmente dá vida ao personagem.
A assistente achou fofo e sorriu; as garotas logo atrás na fila suspiraram com a declaração. Kelly quase engasgou com a própria saliva.
Erand cerrou os olhos escuros, e um vinco perigoso se formou entre suas sobrancelhas. O choque inicial foi substituído por uma fagulha de puro deleite possessivo. Ele encostou as costas na cadeira, cruzou os braços e a encarou de cima a baixo, demorando-se intencionalmente na curva do quadril dela e no tecido preto que ele próprio ajudara a vestir horas antes.
— Ah, é? — disse Erand, e o tom de sua voz não tinha nada de profissional; era arrastado, rouco e terrivelmente íntimo. — Muito minha fã?
— Demais — continuou Clara, apoiando as duas mãos na borda da mesa e inclinando-se para a frente, diminuindo a distância entre eles. — Eu amo livros perigosos. Homens de moral questionável. Sabe como é, né?
— Sei exatamente como é — retrucou ele, os olhos brilhando em desafio. Ele puxou o livro para mais perto, abriu na primeira página e destampou a caneta. — E o que você quer que eu escreva nessa dedicatória, Clara?
— Deixe a sua imaginação mandar — ela murmurou, sustentando o olhar. — Algo que você diria para alguém que tem você nas mãos.
Ao lado deles, Kelly bateu a mão na mesa, fingindo ajustar os marcadores de página.
— Gente, o ar condicionado desse pavilhão quebrou ou sou só eu? — Kelly soltou, com uma risadinha nervosa, antes de puxar o livro para si também. — Deixa eu assinar primeiro, Clara! É uma honra ter uma leitora tão... dedicada... aqui hoje.
Kelly rabiscou sua assinatura elegante e escreveu rapidamente: “Você é louca e eu te amo, obrigada por aguentar essa criatura”.
Quando Kelly devolveu o exemplar, Erand tomou a caneta. Ele não escreveu uma frase clichê de agradecimento. Ele olhou para Clara, os lábios curvados em um meio sorriso quase lascivo que Clara sabia muito bem o que significava, e rabiscou algo com sua caligrafia firme e angulosa.
Ele fechou o livro e deslizou-o de volta para ela.
— Prontinho. Agora... a foto — disse a assistente, apontando o celular de Clara.
— Ah, sim, a foto! — Clara fingiu empolgação.
Ela deu a volta na bancada, posicionando-se entre Kelly e Erand. Kelly passou o braço pelos ombros dela, abraçando-a com calor genuíno de amiga. Mas foi quando o braço de Erand envolveu a cintura de Clara que o chão pareceu sumir sob seus pés.
Ele não a abraçou de forma polida e distante como fazia com as outras leitoras. A mão pesada e quente de Erand espalmou-se com força contra a lateral do quadril dela, puxando o corpo macio de Clara firmemente contra a lateral do seu tronco, colando-a nele sem deixar um único milímetro de espaço entre os dois.
Clara prendeu a respiração. A respiração dele bateu quente contra o topo de sua cabeça.
— Você está brincando com fogo, garota — sussurrou ele, tão baixo que apenas ela pôde ouvir sobre o barulho ensurdecedor do pavilhão. — Entrar nessa fila? Falar daquele jeito comigo na frente de todo mundo?
— Você adora — provocou ela em um sussurro quase inaudível, sorrindo radiante para a câmera.
— Eu adoro você — respondeu ele, apertando os dedos na carne farta da cintura dela antes de soltar um suspiro pesado. — Mas quando esse evento acabar e a gente voltar pro hotel, você vai pagar cada segundo dessa gracinha. Eu não passei o dia inteiro aguentando luz na cara para você vir me provocar e achar que sai ilesa.
O flash do celular disparou três vezes.
— Ficou linda! — anunciou a assistente, devolvendo o aparelho.
Erand soltou a cintura dela devagar, quase com relutância, as pontas dos dedos arrastando-se pela jaqueta de couro dela até o último segundo. Ele ajeitou a gola da camisa preta, voltando a vestir a máscara impecável do fancast mais cobiçado da bienal, mas seus olhos nunca deixaram os de Clara.
— Obrigada, Kelly! Obrigada, Erand! — disse Clara com uma piscadela descarada para a amiga.
— Obrigada você, Clara — Kelly respondeu, limpando uma lágrima invisível de tanto rir. — Aproveita o resto da feira!
— Pode deixar. Vou gastar mais um pouquinho no estande de dark romance.
Erand soltou um riso anasalado, balançando a cabeça em negação.
— Não gaste tudo em um lugar só, fã misteriosa — disse ele, a voz carregada de duplo sentido. — Guarde um pouco de energia para mais tarde.
Clara pegou seu livro, deu meia-volta e caminhou pelo corredor de saída sob o olhar pesado e faminto de Erand, que a acompanhou até onde a vista alcançava, ignorando os protestos da assistente para chamar a próxima da fila.
Assim que se afastou da multidão e encontrou um canto mais calmo perto de um dos pilares de concreto do pavilhão, Clara encostou-se na parede fria, o coração batendo descompassado contra as costelas. Ela abriu a capa de Desenfreados, ansiosa para ver o que ele havia escrito.
Abaixo da assinatura dele, onde deveria haver apenas um "Com carinho", estava a letra inconfundível de Erand:
“Você pode fingir que é só uma leitora na frente delas, Clara. Mas você sabe muito bem quem manda na porra toda aqui. O livro pode ser da Kelly, mas o monstro dele pertence inteiramente a você.
P.S.: Deixe a porta do quarto destrancada. Eu vou chegar em vinte minutos.”
Clara fechou o livro contra o peito, sentindo o rosto queimar em um tom escarlate delicioso. Ela olhou para a sacola cheia de romances sombrios pendurada em seu braço e depois para a dedicatória fresca.
Definitivamente, a Bienal daquele ano acabara de ganhar o seu melhor plot twist.
