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Fandom: O jardineiro (netiflix 2025

Criado: 10/09/2026

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DramaAngústiaPsicológicoSombrioGótico SulistaEstudo de PersonagemDiscriminaçãoSuspenseNoir
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Flores de Carne e Cinza

A terra sob as unhas de Elmer era sempre fria, escura e pontuada por fragmentos de raízes mortas. Ele entendia a terra. Ela não exigia explicações, não pedia desculpas e recebia qualquer coisa que lhe fosse entregue — uma semente de hortênsia, restos de adubo ou um corpo que precisasse desaparecer sem deixar rastro. A terra não julgava o peso do que era enterrado.

Clara, por outro lado, parecia feita de calor excessivo, de vida demais acumulada em um espaço que a casa insistia em tentar diminuir.

Ela era gordinha, com curvas que transbordavam o tecido áspero e barato do uniforme de criada. Suas coxas roçavam uma na outra quando ela andava rápido pelos corredores de mármore, e ela passava metade do dia puxando a barra do avental para baixo, como se pudesse encolher, como se pudesse pedir perdão ao mundo por ocupar espaço. No entanto, havia nela um sorriso teimoso, quase infantil, que teimava em desabrochar mesmo quando as bandejas de prata pesavam em seus pulsos ou quando as humilhações da patroa cortavam mais fundo que uma lâmina de poda.

Elmer a observava da janela da estufa. Ele não sentia nada. Não sentia ternura, não sentia raiva, não sentia repulsa. O peito de Elmer era uma câmara vazia, um poço seco onde o vento entrava e não encontrava eco. Mas havia algo na textura de Clara — na maciez daquela carne que ele conhecia no escuro, no cheiro de sabão barato misturado com açúcar e suor — que desarmava a mecânica de seus dedos.

— Olhe para ela — a voz cortou o silêncio, vindo de trás dele.

Elmer não se virou. O perfume de alfazema seca e veneno de sua mãe era inconfundível. Rosalba caminhava com a postura rígida de quem governava um império de silêncios e segredos sujos, os passos ecoando contra os ladrilhos da estufa.

— Um saco de banha desajeitado — continuou a mulher, parando ao lado do filho, os olhos fixos na vidraça. Lá fora, Clara recolhia os lençóis brancos do varal, rindo sozinha de um pássaro que havia pousado na cerca. — Mal consegue carregar uma sopeira sem derramar. Ela fede a cozinha de pobre, Elmer. E, no entanto, você anda sujando os lençóis desta casa com ela.

O rosto de Elmer permaneceu impassível, esculpido em pedra cinzenta. Ele não negou. Não valia a pena gastar saliva com negativas óbvias. Rosalba sabia de tudo; as paredes daquela propriedade ouviam até o respirar das traças.

— Eu vi as manchas no colchão do barracão dos fundos — disse ela, com a voz descendo uma oitava, tornando-se uma lâmina sutil. — Pensei que você tivesse mais critério. Pensei que o trabalho que faço com você, desde que era um menino sem alma, tivesse servido para alguma coisa. Mas você se deixa levar por uma fêmea vulgar só porque ela abre as pernas sem cobrar nada?

Elmer piscou lentamente.

— Ela é quieta — respondeu ele, a voz ríspida, neutra.

— Ela é um verme — cuspiu a mãe. Rosalba deu um passo à frente, segurando o queixo de Elmer com dedos de ferro, forçando-o a olhar para ela. As unhas da mulher estavam perfeitamente lixadas em vermelho-escuro. — E vermes atraem sujeira. Ela sabe demais só por estar perto de você. Começa achando que tem intimidade, depois acha que tem direitos. Daqui a pouco vai querer sentar-se à mesa, ou pior, vai falar o que não deve na vila.

— Ela não fala nada.

— Ela vai morrer, Elmer.

A ordem não veio como um grito, mas como uma prescrição médica. Fria, exata, inegociável.

— O veneno comum ou a pá? — perguntou ele, o pulso tão estável quanto a água de um tanque estagnado.

— Use as mãos. Ou a corda. Sem barulho. Coloque-a na vala perto das macieiras antigas. Aquela terra precisa de adubo. Hoje à noite. Antes que amanheça, não quero mais ver essa criatura arrastando os calcanhares pela minha copa. Entendeu?

— Sim, senhora.

Rosalba soltou seu rosto com um tapinha desdenhoso na bochecha, limpando os dedos na saia como se tivesse tocado em fuligem, e saiu.

Ao meio-dia, o almoço foi servido na sala principal. O lustre de cristal tilintava suavemente com a brisa que entrava pelas portas francesas. Elmer sentou-se à extremidade da mesa longa, enquanto Rosalba lia uma carta. Clara entrou trazendo a travessa de porcelana pesada, os braços rechonchudos trêmulos sob a tensão. O vestido parecia mais apertado do que o normal, e havia marcas vermelhas em seu pescoço, fruto do calor sufocante do fogão a lenha.

— Deixe isso aí — ordenou Rosalba, sem levantar os olhos do papel.

Clara tentou colocar a travessa na mesa, mas a borda escorregou em seus dedos úmidos de suor. A louça bateu contra a madeira nobre com um som seco, derramando um pouco do caldo grosso sobre a toalha de linho engomada.

O ar congelou na sala.

— Incompetente — murmurou a patroa, pousando a carta com uma lentidão aterrorizante. — Você faz de propósito, não faz? Quer me mostrar que suas mãos gordas não servem para o trabalho nobre? Olhe para você. Parece uma porca prenha tentando dançar. Nem para limpar a própria sujeira você tem agilidade.

Clara encolheu os ombros, os olhos se enchendo instantaneamente de lágrimas. Ela engoliu o choro em seco, abaixando-se apressada, pegando um pano do bolso para tentar conter o estrago.

— Me... me perdoe, dona Rosalba — balbuciou ela, a voz fina e quebradiça. — Eu vou limpar... foi sem querer, o prato estava muito quente...

— Cale a boca. Suas desculpas são tão nojentas quanto o seu corpo. Olhe para o chão, recolha isso de joelhos. É o único lugar onde você não destoa tanto da paisagem.

Clara ajoelhou-se. Seus joelhos bateram no chão duro com um baque surdo. Suas mãos tremiam tanto que ela mal conseguia segurar o pano. E foi nesse momento, curvada, cercada pela própria humilhação, que ela ergueu os olhos castanhos e úmidos em direção a Elmer.

Era um olhar que ele já tinha visto em animais presos em armadilhas de mola. Havia dor, vergonha e um pedido mudo, desesperado: Socorro. Me tire daqui. Diga que eu sou gente.

Elmer olhou diretamente para aqueles olhos marejados. Seu peito não se moveu mais rápido. O coração continuava em seu compasso mecânico. Ele desviou o rosto, virando a cabeça para a janela ensolarada, observando um ramo de hera que precisava ser podado na parede externa.

Ele ouviu o suspiro entrecortado de Clara, a forma como ela baixou a cabeça e esfregou o chão até as pontas dos dedos ficarem em carne viva, enquanto a mãe continuava desfiando insultos sobre sua família, seu peso e sua inutilidade.

Clara nunca fora amada. Elmer sabia disso não porque ela tivesse contado com muitas palavras, mas porque dava para ver as marcas do descarte em cada gesto dela. Ela era a filha indesejada de uma costureira que fugira, a menina criada por favores, a mulher que comia as sobras no canto da despensa e ainda sorria se alguém lhe desse um pedaço de pão fresco. Qualquer migalha que Elmer lhe jogava no escuro era tratada por ela como se fosse um banquete celestial.

A noite caiu densa, trazendo uma névoa que subia do lago e cobria os jardins.

Elmer esperou a casa adormecer. Passava das duas da manhã quando ele desceu as escadas dos fundos. No bolso da jaqueta de lona, levava um pedaço fino de arame recozido, flexível o bastante para cortar a traqueia sem que houvesse tempo para um grito. Ele caminhou com os passos leves que a mãe lhe ensinara, cortando a escuridão até o pequeno anexo onde ficavam as acomodações dos criados — ou, no caso, o único quarto que Clara ocupava, cercado de ferramentas velhas e caixas de maçãs vazias.

A porta de madeira lascada não tinha tranca. Bastava empurrar.

Elmer empurrou.

O rangido foi quase imperceptível. A luz da lua entrava pela janela pequena, desenhando quadrados prateados sobre a colcha desbotada. Clara estava sentada na beirada da cama, ainda com a camisola simples de algodão que deixava seus ombros redondos e sardentos à mostra. Ela estava com uma bacia de água fria no chão, passando um pano úmido nos joelhos esfolados pelo chão da sala.

Quando a porta se abriu, ela se assustou, cobrindo o colo com as mãos. Mas, ao ver a silhueta alta de Elmer, a tensão em seus ombros cedeu. O rosto manchado de lágrimas secas se transformou, e aquele sorriso bobo, trêmulo e genuíno, tentou aparecer.

— Elmer... — sussurrou ela, levantando-se devagar. — Você veio.

A mão dele entrou no bolso. Os nós dos dedos tocaram o arame frio.

— Você não devia estar acordada — disse ele, a voz saindo baixa, quase engolida pelas vigas de madeira do teto.

— Eu não conseguia dormir — respondeu ela, dando um passo em direção a ele, sem se importar com a camisola transparente sob o luar. Ela não tinha a elegância das mulheres que visitavam a mansão, mas havia uma verdade dolorosa em sua pele, nas dobras de sua cintura, na maciez vulnerável de seu estômago. — Meus joelhos estão ardendo tanto... A sua mãe ficou tão brava comigo hoje.

Elmer deu mais um passo à frente. O arame já estava desenrolado entre os dedos da mão direita, oculto pela lateral de sua perna. Bastavam dois segundos. Um passo largo, o braço ao redor do pescoço, o joelho cravado nas costas dela.

— Ela é exigente — disse ele, aproximando-se.

— Ela me odeia, Elmer — murmurou Clara, e a voz dela fraquejou. Ela estava a menos de um palmo dele agora. Ela estendeu a mão, hesitante, e tocou o peito da jaqueta de lona dele. Os dedos dela estavam quentes, cheirando a sabão de coco e camomila. — Às vezes eu acho que se eu sumisse daqui, ninguém nem ia notar. Só você... talvez você notasse, não é? Quem ia abrir a porta da estufa para você de manhã?

O olhar dela se ergueu para o dele. Os olhos castanhos eram grandes, brilhantes de água, despidos de qualquer maldade ou suspeita. Ela não via um assassino. Não via o monstro que a mãe havia moldado. Ela via um homem que, de vez em quando, a abraçava no silêncio.

Elmer sentiu o arame pressionar sua própria palma, cortando de leve a epiderme.

— Eu notaria — mentiu ele. Ele não sentiria falta, sabia disso. A terra cobriria a falta.

Clara soltou um suspiro trêmulo, quase um soluço de alívio, e encostou a testa no ombro dele. O peso do corpo dela desabou contra o dele — um corpo macio, pesado, desamparado.

— Me beija — pediu ela num sussurro aflito, as mãos subindo para a nuca dele, os dedos afundando em seus cabelos curtos. — Por favor, Elmer. Só um pouco. Só para eu esquecer o que ela me disse hoje. Só para eu não me sentir tão... tão errada.

A mão de Elmer, aquela que segurava o arame mortal, vacilou.

O metal escorregou silenciosamente de seus dedos, caindo sobre o tapete de trapos sem emitir ruído algum.

Ele não sentia amor. Não sentia compaixão. Mas havia uma fome primitiva naquilo, um curto-circuito biológico que sua mãe nunca conseguira extirpar com seus treinamentos de frieza. Quando Clara o beijava com aquele desespero faminto, a boca dela quente e úmida contra a dele, o mundo deixava de ser uma sequência de ordens e alvos.

Ele segurou a cintura farta de Clara com as duas mãos, apertando a carne macia, puxando-a contra o próprio corpo rígido. Clara deu um gemido abafado contra os lábios dele, um som que misturava alívio e dor, entregando-se com a voracidade de quem finalmente encontra água num deserto de humilhações.

Eles caíram sobre a cama estreita.

O estrado rangeu sob o peso duplo. Elmer não era delicado; seus movimentos eram metódicos, pesados, mas Clara recebia cada investida como se fosse uma prece. Ela enterrava as unhas nas costas dele, arqueando o corpo roliço, oferecendo cada curva, cada imperfeição que a patroa tanto zombava, como se aquilo fosse a única coisa de valor que ela possuía no mundo para lhe dar.

— Elmer... — ela choramingava entre os beijos, as pernas envolvendo os quadris dele com força, puxando-o para mais fundo. — Meu Deus, Elmer... você não tem vergonha de mim, tem? Me diz que você não tem...

Ele não respondeu. Não podia dar o que não tinha dentro de si. Em vez de palavras, ele cobriu a boca dela com a sua, afogando os lamentos dela na respiração compartilhada, no suor que colava a pele dela na dele. No escuro, a mente de Elmer ficava em branco. O quarto, a ordem da mãe, a cova aberta esperando perto das macieiras — tudo se dissolvia sob a temperatura absurda que Clara emanava.

Quando terminou, o silêncio retornou ao quarto, quebrado apenas pela respiração pesada de ambos.

Clara adormeceu quase instantaneamente, com a cabeça pousada no peito nu de Elmer, um braço gordinho passado protetoramente sobre a barriga dele. Ela parecia em paz, o rosto rechonchudo relaxado, livre das sombras de medo que carregava durante o dia.

Elmer ficou deitado, olhando para as tábuas do teto.

O calor dela estava passando para ele, queimando-lhe o lado esquerdo do corpo. Ele mexeu os dedos da mão direita. Lembrou-se do arame caído no chão. Lembrou-se do olhar de Rosalba, da promessa de sangue, da tarefa inacabada.

Ele suspirou. Um suspiro ralo, sem sentimento.

Com cuidado para não acordá-la, ele retirou o braço dela de cima de si e levantou-se. Vestiu as calças, a jaqueta e calçou as botas. Abaixou-se, recolheu o pedaço de arame do tapete e guardou-o no bolso.

Olhou para a cama mais uma vez. Clara dormia profundamente, a camisola torta no corpo, um sorriso quase imperceptível nos lábios inchados. Tão fácil. Tão indefesa que matá-la seria quase um ato de covardia mecânica, como arrancar uma flor que cresceu entre duas pedras.

Ele abriu a porta e saiu para a noite fria.

O orvalho já cobria a grama. Elmer caminhou até o pomar, onde o buraco aberto o esperava sob a copa retorcida de uma macieira antiga. Ele olhou para a cova rasa, para a terra fresca revirada ao lado.

Não hoje.

Ele guardou a pá no galpão, sabendo muito bem o que aconteceria pela manhã. Sua mãe desceria as escadas, veria Clara servindo o café — com os mesmos passos desajeitados, o mesmo avental puído, a mesma subserviência aterrorizada — e saberia que o filho havia falhado.

Pela terceira vez naquela semana, ele havia falhado.

E quando a mãe voltasse a cuspir insultos no rosto de Clara, e quando Clara voltasse a olhar para ele com aqueles olhos suplicantes procurando qualquer faísca de humanidade que justificasse as noites passadas no barracão, Elmer faria exatamente o mesmo.

Ele viraria a cara.

Ele olharia para o horizonte, para as folhas que caíam, para a terra que esperava pacientemente pelo fim de todos eles. Porque, no fundo, ele sabia: mais cedo ou mais tarde, ele teria que matá-la. Era a sua natureza. Mas, enquanto a noite não chegasse para cobrar o preço final, ele voltaria àquele quarto para se queimar no único fogo que sua alma vazia conseguia tolerar.

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