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Percy

Fandom: Percy Jackson

Criado: 10/09/2026

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Moedas de Bronze e Cães do Submundo

Se há uma coisa sobre a qual você pode ter certeza absoluta, é que eu não consigo ficar parada. De verdade. Se você me trancar em uma sala sem nada para fazer por mais de cinco minutos, é bem provável que eu comece a desmontar a maçaneta da porta ou a subir nas cortinas.

Meu nome é Anne. Tenho doze anos e, segundo o último laudo médico que meus tios guardavam com desgosto em uma gaveta trancada, sou um combo ambulante de TDAH gravíssimo e dislexia. Para mim, as letras em um livro não são palavras; são formigas dançantes que se recusam a fazer sentido. E a minha energia? Bem, parece que fui montada com um motor de corrida instalado em um corpo pequeno demais. Preciso me mexer, correr, falar. Adoro falar. Puxo assunto até com o poste se ele parecer minimamente receptivo.

Infelizmente, meus tios não eram nada receptivos.

Minha mãe morreu quando eu era bem pequenininha, tão pequena que minhas únicas memórias dela são a sensação de um abraço morno e um cheiro suave de brisa marítima. Do meu pai, nunca soube nada. Absolutamente nada. Nenhuma foto, nenhuma carta, nem mesmo um nome de batismo. Quando eu perguntava, meus tios — que eram as pessoas mais chatas, cinzentas e amargas do estado de Nova York — apenas bufavam, dizendo que ele era um "vagabundo imprestável que fugiu para o mar".

Com isso, acabei desenvolvendo uma rotina: eu entrava em uma escola nova, tentava me comportar, fazia amizade com todo mundo nos primeiros três dias e, invariavelmente, era expulsa por volta do quarto mês. Era quase pontual. Uma maldição matemática.

Minha última parada havia sido a Academia Preparatória Riverdale. E foi lá que conheci Ginny.

Ginny dizia ter treze anos, embora às vezes me olhasse com uma expressão tão antiga e paciente que parecia mais uma avó gentil disfarçada de adolescente. Ela tinha olhos cor de água de piscina e um cabelo castanho que cheirava inexplicavelmente a maresia e algas frescas, mesmo quando estávamos no meio do inverno cinzento. Desde o primeiro dia de aula, quando derrubei minha bandeja de almôndegas no colo do capitão do time de basquete, Ginny se sentou ao meu lado e puxou conversa.

Ela se tornou minha melhor amiga. Na verdade, minha única melhor amiga de verdade. Ginny não ligava quando eu começava a tagarelar sem parar sobre curiosidades marinhas ou quando eu batucava os pés no chão da sala de aula como se estivesse tocando uma bateria invisível. Ela estava sempre por perto. Sempre me vigiando com uma atenção esquisita, como se esperasse que eu fosse explodir a qualquer momento.

E, bem, tecnicamente quase explodi mesmo. No quarto mês de aula.

Aconteceu no laboratório de ciências. Nosso professor, o sr. Vane, estava nos mostrando reações químicas básicas. Eu estava entediada. Meu cérebro estava fervilhando, exigindo ação. Sem querer — juro pelos deuses que foi sem querer —, encostei na válvula mestra de pressão dos canos de água que passavam atrás da bancada. Senti um formigamento esquisito nas pontas dos dedos, uma atração quase magnética. No segundo seguinte, houve um estalo ensurdecedor e todos os canos do laboratório romperam ao mesmo tempo.

Foi um gêiser. A água não apenas vazou; ela pareceu me obedecer por um microssegundo, contornando a minha mesa e atingindo em cheio o sr. Vane e a parede de armários, inundando todo o corredor do segundo andar.

Dez minutos depois, eu estava sentada na sala do diretor, com água pingando do meu tênis.

O diretor, o sr. Harrison, era um homem de meia-idade com cabelos grisalhos e olhos muito atentos, que parecia cansado demais para alguém da sua profissão. Meus tios nem se deram ao trabalho de comparecer; apenas mandaram um e-mail autorizando a transferência imediata.

— Anne — disse o sr. Harrison, suspirando e apoiando os cotovelos na mesa de mogno. — Você é uma menina brilhante. Simpática, comunicativa, cheia de vida. Mas sabe que não pode continuar aqui depois de transformar o setor de ciências em um parque aquático.

— Eu não fiz de propósito, sr. Harrison — expliquei, balançando as pernas freneticamente na cadeira. — O cano simplesmente… estourou! Parecia que a água estava viva, com raiva, sei lá. Eu sei que soa loucura.

— Não soa loucura para mim, criança — murmurou ele, em um tom tão baixo que quase não ouvi.

Ele abriu a gaveta central de sua escrivaninha. Em vez de uma carta de expulsão ou uma advertência, ele tirou algo pequeno e metálico. Colocou sobre a mesa e deslizou na minha direção.

Era uma moeda. Parecia uma daquelas moedas gregas antigas que a gente vê em museus, feita de um metal pesado e dourado, com o desenho de um tridente de um lado e ondas bravias do outro.

— O que é isso? — perguntei, franzindo o cenho. — Um suborno para eu ir embora mais rápido?

— Um recurso de emergência — respondeu o sr. Harrison, com uma seriedade que me fez parar de balançar as pernas. — É bronze celestial, Anne. Se estiver em apuros reais, jogue-a para o alto. O destino cuidará do resto. Agora vá. E não olhe para trás.

Saí da sala atordoada, segurando a moeda que parecia estranhamente quente na palma da minha mão. Guardei-a no bolso do casaco assim que encontrei Ginny me esperando nos degraus de entrada da escola.

— Expulsa de novo? — perguntou ela, ajeitando a mochila nas costas.

— Recorde pessoal: três meses e vinte e oito dias — brinquei, tentando parecer despreocupada, mas meu coração estava apertado. — Meus tios vão me trancar no porão desta vez.

— Eles não vão ter essa chance — disse Ginny. Sua voz não tinha o tom brincalhão de costume. Estava tensa, afiada.

Começamos a caminhar pela calçada em direção ao ponto de ônibus. A tarde estava caindo, e uma névoa espessa e anormal começava a subir do asfalto, abafando os sons da cidade. O ar cheirava a ozônio e… carne podre.

— Ginny, você está sentindo esse cheiro? — perguntei, parando de repente.

— Anne, continue andando — ela ordenou, pegando firme no meu braço. Seus dedos estavam frios como gelo. — Precisamos sair da rua aberta. Agora.

— O que está acontecendo? Você está me assustando.

Ginny parou e me encarou. Havia algo diferente nos olhos dela; a pupila parecia mais dilatada, refletindo tons esverdeados como o fundo de uma enseada marinha.

— Eu preciso te contar a verdade, mas você tem que prometer não surtar — disse ela rapidamente. — Eu não tenho treze anos. E não sou humana. Sou uma náiade, uma ninfa do mar.

Pisquei uma, duas vezes. Minha mente hiperativa tentou processar a informação, mas travou.

— Uma ninfa? Tipo… das historinhas de fadas? Ginny, você bateu a cabeça na aula de ginástica?

— Não são fadas, são mitos gregos! — rebateu ela, irritada. — Os deuses do Olimpo são reais, Anne. Monstros são reais. E você não é uma garota normal com déficit de atenção e dislexia. Seu cérebro foi moldado para o grego antigo e para reflexos de batalha. Você é uma meio-sangue. Uma semideusa.

Dei uma risada nervosa.

— Semideusa? Eu não consigo nem passar em matemática! Quem seria meu pai, o deus do fracasso escolar?

— Não brinque com isso — cortou ela, olhando por cima do meu ombro com pânico genuíno. — Seu pai é alguém muito importante. Importante e proibido. O cheiro do seu sangue finalmente atraiu algo grande demais. Olhe.

Eu me virei devagar.

Saindo do beco estreito entre dois prédios comerciais, havia uma criatura que definitivamente não constava em nenhum livro de biologia. Tinha o tamanho de um rinoceronte, o corpo peludo e musculoso de um mastim negro colossal, olhos vermelhos brilhando como brasas incandescentes e uma mandíbula cheia de presas afiadas que gotejavam uma saliva fumegante que corroía o cimento onde caía.

— Um cão infernal — sussurrou Ginny, a voz tremendo. — Corra, Anne!

Eu não precisei que ela repetisse. Meus instintos, aqueles que os médicos diziam ser puro "impulso descontrolado", assumiram o controle total. Minhas pernas dispararam antes que meu cérebro pudesse formular um único pensamento coerente.

Corremos desesperadamente pelos quarteirões. O barulho das patas pesadas da besta estalando no asfalto ecoava logo atrás de nós, acompanhado por rosnados que faziam meus ossos vibrarem. Ginny tirou do bolso uma pequena flauta de junco e começou a tocar uma melodia frenética. Raízes de árvores urbanas e poças de chuva na sarjeta tentaram se erguer para atrasar o monstro, mas o cão infernal simplesmente esmagava tudo com o próprio peso.

— Para onde estamos indo? — gritei, sem fôlego, o ar queimando meus pulmões.

— Para Long Island! Para o Acampamento Meio-Sangue! — gritou ela de volta. — É o único lugar seguro para pessoas como você!

Não sei como conseguimos, mas pegamos atalhos, cruzamos cercas e nos enfiamos por trilhas de mata fechada conforme a cidade ficava para trás. O tempo parecia distorcido. Minhas pernas doíam, o suor ardia nos meus olhos, mas o pavor me mantinha em movimento.

Horas pareceram se passar em minutos. De repente, estávamos subindo uma colina íngreme coberta de grama alta. No topo, destacava-se um pinheiro gigantesco contra o céu noturno, com algo dourado brilhando em seus galhos mais baixos.

— Estamos quase lá! — ofegou Ginny, apontando para a árvore. — Passe daquele pinheiro, Anne! A barreira mágica vai te proteger!

Mas o monstro não nos daria essa chance.

Com um salto aterrador que cobriu dezenas de metros, a fera negra voou sobre nossas cabeças e aterrissou pesadamente entre nós e o pinheiro, bloqueando o topo da colina. O impacto fez o chão tremer.

Ginny tentou avançar, conjurando um jato de água lamacenta com sua magia, mas o cão infernal apenas bateu sua pata dianteira maciça, arremessando minha amiga contra uma rocha. Ela caiu inconsciente na grama, imóvel.

— Ginny! — gritei, o terror se transformando em uma fúria incandescente.

A criatura rosnou, voltando a atenção para mim. Os olhos vermelhos queimavam com uma fome insaciável. Deu um passo à frente, abaixando a cabeça para me dilacerar.

Eu não tinha para onde correr. Minhas costas estavam contra o declive da colina. Foi então que minha mão, enfiada no bolso do casaco, encravou os dedos na moeda que o sr. Harrison havia me dado.

Se estiver em apuros reais, jogue-a para o alto.

Eu não pensei. Tirei o pedaço circular de metal e o lancei para cima com toda a força que me restava.

A moeda girou no ar, brilhando como uma faísca dourada sob a luz da lua. Quando atingiu o ápice do arco, ela não caiu como metal comum; ela se expandiu, desdobrando-se com um zumbido agudo e metálico. O que desceu em direção à minha mão aberta não foi uma moeda, mas o cabo revestido de couro de uma espada perfeitamente balanceada.

A lâmina era feita de bronze reluzente, emanando um brilho suave e mortal.

No instante em que meus dedos envolveram o punho, algo mudou dentro de mim. O medo não sumiu, mas foi empurrado para o fundo da minha mente por uma clareza absoluta e cortante. Minha postura se ajustou sozinha; meus pés encontraram firmeza na terra úmida. Parecia que eu havia nascido segurando aquela arma.

O cão infernal atacou. Ele saltou com as mandíbulas abertas, direto na jugular.

Eu não hesitei. Deslizei pela grama molhada por baixo do monstro, bem na trajetória do salto, e ergui a espada de bronze celestial com as duas mãos.

A lâmina rasgou o ventre da criatura com um sibilo suave, como se cortasse manteiga quente. Mas o monstro era rápido demais. No mesmo movimento, as garras traseiras da fera me atingiram de raspão no peito e no ombro, rasgando meu casaco e minha pele com a força de um aríete.

Fui jogada a metros de distância, rolando pela terra. A dor foi imediata, lancinante e quente, roubando todo o ar dos meus pulmões.

O cão infernal soltou um ganido agonizante. O corte profundo da lâmina dourada começou a desintegrar seu corpo de dentro para fora, transformando carne, osso e pelo em uma nuvem grossa de poeira amarelada e brilhante. O vento da colina soprou, e a criatura simplesmente deixou de existir, virando pó que se espalhou na noite.

Eu tentei me levantar, mas a força havia abandonado meu corpo. O sangue ensopava minha blusa. Minha visão começou a embaçar, enchendo-se de manchas escuras.

Rastejei alguns metros pela grama, puxando o corpo centímetro por centímetro, até cruzar a linha invisível logo abaixo do grande pinheiro. Vi luzes ao longe — tochas, chalés com arquitetura grega e um grande pavilhão iluminado no vale.

Depois disso, o mundo simplesmente se apagou.


Quando abri os olhos novamente, a primeira coisa que notei foi o cheiro. Não havia mais terra molhada ou carne podre. O ar tinha um aroma doce de morangos frescos, mel e ervas medicinais que pareciam acalmar a garganta só de respirar.

Eu estava deitada em uma cama incrivelmente macia, coberta com lençóis brancos e limpos. Meus ferimentos no ombro e no peito estavam enfaixados com um cuidado cirúrgico, e a dor aguda havia diminuído para uma queimação suportável e dormente.

Pisquei contra a claridade suave que entrava pelas janelas de madeira. Quando virei o rosto para o lado, quase dei um pulo para fora do colchão.

Havia um garoto sentado em um banquinho bem ao lado da minha cama, inclinando-se para a frente enquanto examinava uma prancheta de madeira. Ele parecia ter uns treze anos, talvez um pouco mais velho que eu. Tinha cabelos loiros ondulados que pareciam capturar a luz do sol de um jeito quase impossível, pele bronzeada e olhos azuis brilhantes e acolhedores. Ele vestia uma camiseta laranja com os dizeres Acampamento Meio-Sangue desbotados no peito.

Assim que me movi, os olhos dele se voltaram para mim, e ele sorriu. Foi um sorriso tão genuíno e caloroso que, por um segundo, esqueci que quase tinha virado petisco de cachorro gigante na noite anterior.

— Ei — disse ele, com uma voz suave e melodiosa. — Vá com calma. Você perdeu bastante sangue e bebeu quase dois copos inteiros de néctar antes de apagar de vez.

Eu me encolhi contra os travesseiros, puxando o lençol até o queixo e olhando para ele como se ele fosse outro monstro disfarçado.

— Quem é você? — disparei, a voz um pouco rouca pelo desuso. — Onde eu estou? Cadê a Ginny? Ela está viva? Meus tios sabem onde eu estou? E o que diabos era aquele cachorro do tamanho de uma van?

O garoto soltou uma risada baixa, nem um pouco abalado pela minha metralhadora habitual de perguntas. Ele deixou a prancheta de lado e cruzou os braços com calma.

— Ginny está ótima. Náiades se recuperam rápido perto da água; ela já foi ver o lago de canoagem — tranquilizou-me ele, gesticulando suavemente para que eu respirasse fundo. — Seus tios mortais não fazem a menor ideia de onde você está, e isso é o melhor para eles e para você. O cachorro era um cão infernal, e você fez um trabalho impressionante mandando ele de volta para o Tártaro sendo tão nova.

Ele se inclinou um pouco mais, estendendo uma mão para mim em um gesto amigável.

— Você está na enfermaria do Acampamento Meio-Sangue, o único lugar seguro do mundo para gente como a gente. E eu sou Jake. Jake Grace, filho de Apolo.

Olhei para a mão dele e depois para o rosto luminoso do garoto. Meu coração, que estava batendo como o motor desgovernado de sempre, finalmente começou a desacelerar em um ritmo quase tranquilo.

Pela primeira vez em toda a minha vida de expulsões, hiperatividade e perguntas sem resposta, tive a estranha sensação de que não precisava mais correr.

Estiquei minha mão trêmula e apertei a dele.

— Anne — respondi, tentando um sorriso pequeno. — Só… Anne. Ao que parece, filha de algum problema muito grande.

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