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História militar

Fandom: Erick Pulgar

Criado: 11/09/2026

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RomanceDramaDor/ConfortoPsicológicoSobrevivênciaEstudo de PersonagemRealismoPós-Apocalíptico
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Fronteiras Invisíveis

A poeira avermelhada do solo seco parecia ter se tornado parte permanente do ar. Ela grudava no tecido grosso dos uniformes, nos para-brisas trincados dos caminhões de suprimentos e na pele suada dos homens e mulheres que tentavam conter o colapso humanitário na fronteira. O calor do meio da tarde pesava como chumbo sob a lona das tendas improvisadas, onde o choro exausto de dezenas de crianças se misturava ao murmúrio rouco de centenas de adultos esperando por alimento, água potável e atendimento médico.

Erick Pulgar mantinha-se de pé sobre a traseira elevada de um veículo militar leve, com os braços cruzados atrás das costas e a coluna perfeitamente ereta. Aos trinta e sete anos, o capitão do Exército Chileno conhecia aquele cenário melhor do que gostaria. Suas botas estavam limpas na medida do possível, o queixo raspado com precisão e os olhos escuros, estreitos e analíticos, rastreavam cada centímetro da linha de distribuição com a lentidão calculada de um predador vigilante.

Para a maioria das pessoas, aquele aglomerado era pura desordem. Para Erick, era uma equação de risco. Se a fila leste avançasse rápido demais, a segurança perimetral colapsaria em dez minutos. Se o caminhão de medicamentos não descarregasse antes do anoitecer, haveria tumulto. Protocolos não existiam para burocratizar o sofrimento; existiam para garantir que todos saíssem vivos dali.

— Capitão Pulgar — chamou o sargento Morales pelo rádio tático preso ao colete de Erick. — Temos uma situação no Setor Quatro. Um perímetro foi quebrado perto dos contêineres de quarentena.

Erick descarrilou o olhar da fila de água imediatamente, pressionando o comunicador no ombro.

— Qual a gravidade? Quem autorizou a passagem?

— Ninguém autorizou, capitão. É a psicóloga brasileira. Ela acabou de cruzar a linha de segurança desarmada.

Erick não respondeu de imediato. Apenas respirou fundo, soltando o ar devagar pelas narinas para não deixar que a irritação nublasse seu julgamento.

A brasileira.

Ele já havia lido a ficha dela antes mesmo de as equipes civis aterrissarem: Gabrielly Santos, trinta anos, anos de experiência em ONGs e zonas de conflito, fluente em quatro idiomas e, de acordo com o relatório preliminar que chegara à sua mesa, com um histórico preocupante de desconsiderar a cadeia de comando sempre que achava necessário.

Erick desceu do veículo com agilidade silenciosa e marchou em direção ao Setor Quatro, com passos largos e firmes que faziam os soldados subalternos abrirem espaço instintivamente.

Ao dobrar a esquina dos contêineres de carga, o capitão viu o que havia provocado o alarme.

Um menino de não mais que seis anos, pele morena coberta de pó e roupas rasgadas, estava encolhido sob o eixo enferrujado de um reboque quebrado. Segurava um pedaço afiado de metal enferrujado contra o peito, chorando sem emitir quase nenhum som — o tipo de choro desidratado e aterrorizado que antecede o choque. Dois soldados chilenos estavam a três metros de distância, hesitantes, com as mãos repousadas preventivamente sobre as coronhas dos fuzis, sem saber como agir sem assustá-lo ainda mais.

E, a apenas um metro do menino, sentada diretamente na poeira quente da terra, estava Gabi.

Ela usava uma calça cáqui surrada, botinas desgastadas e uma camiseta branca com as mangas dobradas, revelando a pele dourada pelo sol tropical de seu país natal. Os cabelos escuros estavam presos em um coque frouxo, com alguns fios úmidos colados à testa. Ela não olhava para os soldados armados nem parecia notar os passos pesados das botas de Erick que se aproximavam.

— Não se aproxime, capitão — disse ela em um tom calmo, sem sequer virar a cabeça. Como se tivesse sentido a presença dele pelo ar. — Ele não fala espanhol. É quéchua. E cada vez que um homem fardado dá um passo, o coração dele bate rápido demais para o tamanho do corpo.

Erick parou a cinco passos. Sua postura era rígida como pedra.

— Senhorita Santos, você violou a área restrita de isolamento mecânico — declarou ele, a voz grave e perfeitamente controlada ecoando com a autoridade nata de quem comanda batalhões. — Aquele eixo pode ceder a qualquer momento. Ordenei que os civis ficassem atrás da linha amarela.

Gabi finalmente virou o rosto para encará-lo. Os olhos castanhos dela eram grandes, expressivos e desconcertantemente firmes. Não havia medo neles, nem a reverência automática que Erick estava acostumado a receber de subordinados e civis apavorados. Havia apenas uma determinação serena e quase desafiadora.

— O eixo não vai ceder nos próximos cinco minutos, capitão. Mas se você mandar seus soldados puxarem esse menino à força, ele vai se cortar com essa chapa de ferro e pegar uma infecção que a sua enfermaria improvisada não tem antibiótico suficiente para tratar.

— Há protocolos de extração rápida para situações de recusa — insistiu Erick, sem alterar o tom, embora os músculos de sua mandíbula tivessem se contraído. — Nós lidamos com segurança primeiro.

— O senhor lida com segurança — rebateu ela suavemente, voltando os olhos para a criança. — Eu lido com o que resta de humanidade depois que a segurança falha.

Antes que Erick pudesse intervir, Gabi tirou do bolso da calça uma pequena maçã seca que havia guardado da sua própria ração de almoço. Ela não estendeu a mão na direção do menino. Apenas colocou a fruta sobre a terra, a meio caminho entre eles, e começou a cantarolar baixinho uma melodia simples, rítmica, quase infantil.

Erick cruzou os braços, observando. Como estrategista, tudo em seu cérebro gritava que aquilo era imprevisível, lento e potencialmente perigoso em uma base que podia entrar em colapso logístico a qualquer instante. Mas, conforme os segundos se arrastavam sob o sol escaldante, algo aconteceu.

O menino piscou as lágrimas para longe. O pedaço de metal enferrujado baixou alguns centímetros. Gabi continuou cantarolando, mantendo o corpo relaxado, as palmas das mãos abertas sobre as pernas cruzadas, numa postura universal de rendição e acolhimento.

Em menos de dois minutos, o pequeno garoto arrastou-se para fora do reboque. Ele não pegou a maçã imediatamente; engatinhou até o colo de Gabi e enterrou o rosto contra a camiseta dela, soluçando convulsivamente. Ela apenas o envolveu com os braços, apoiando a mão na nuca do menino com um carinho maternal que parecia pertencer a outro mundo, um mundo longe de guerras e fronteiras fechadas.

Gabi ergueu-se devagar com o menino nos braços, acomodando o peso dele no quadril. A criança agora segurava a maçã com força, os olhos fechados contra o ombro da psicóloga.

Ela caminhou até Erick. Por ser mais alto, ele precisava inclinar a cabeça para encará-la, mas a proximidade permitiu que ele visse os detalhes: o cansaço desenhado ao redor dos olhos dela, a respiração compassada e a certeza absoluta nos seus passos.

— Pronto, capitão — murmurou ela em espanhol com leve sotaque português, olhando diretamente em seus olhos escuros. — Situação desarmada sem disparar um tiro, sem gastar recursos e sem quebrar nenhuma perna. Agora, se me der licença, vou levar o Mateo para a tenda de hidratação.

Erick sustentou o olhar dela por um longo instante. O silêncio entre eles foi denso, carregado de uma tensão que nenhum dos soldados ao redor ousava interromper.

— Sargento Morales — ordenou Erick, sem desviar os olhos de Gabi. — Acompanhe a senhorita Santos até o Setor Médico. E assegure-se de que ninguém a aborde até que ela conclua a triagem da criança.

— Sim, senhor! — respondeu o sargento, batendo continência.

Gabi assentiu com um leve movimento de cabeça, um gesto quase imperceptível de reconhecimento, e seguiu em frente. Erick ficou imóvel, observando o rastro de poeira que ela deixava para trás até que a silhueta desaparecesse atrás da lona azul da tenda hospitalar.

Pela primeira vez em meses de operação, o capitão Pulgar sentiu que havia perdido o controle absoluto de uma situação. E o mais incômodo de tudo era admitir para si mesmo que a mulher estava certa.


A noite caiu sobre o acampamento trazendo consigo uma queda abrupta de temperatura, típica das regiões semiáridas da fronteira. As lâmpadas amarelas movidas a geradores rangiam com o vento frio, lançando sombras longas sobre os corredores de terra batida.

Passava da meia-noite quando Erick terminou sua última ronda perimetral. Como de costume, ele não conseguia dormir antes de verificar pessoalmente as grades, o estoque de combustível e os postos de sentinela. Seu uniforme agora estava sem o colete tático pesado, vestindo apenas a camisa camuflada com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando os braços fortes marcados por algumas tatuagens discretas.

Ao passar pela tenda de apoio psicológico e recreação infantil, uma fresta de luz chamou sua atenção. A maioria dos civis já estava recolhida nos alojamentos há horas.

Erick afastou a lona pesada da entrada com cautela.

Gabi estava lá dentro, sentada em um caixote de madeira em frente a uma mesa improvisada com tábuas e latões de óleo. Havia dezenas de folhas de papel espalhadas à sua frente, cheias de desenhos feitos com giz de cera por crianças refugiadas: casas destruídas, sóis escuros, figuras humanas sem rosto. Ela segurava uma caneca de metal fumegante com as duas mãos, olhando fixamente para um dos desenhos.

Ela não pareceu surpresa quando os passos dele soaram no assoalho de borracha.

— Se veio me dar uma advertência formal por quebrar o protocolo hoje cedo, capitão, por favor, seja breve — disse ela sem levantar os olhos, a voz rouca pelo cansaço do dia inteiro de trabalho. — Meu turno acabou há quatro horas, mas essas pastas de relatórios parecem se multiplicar sozinhas.

Erick parou a dois passos da mesa, mantendo as mãos nos bolsos da calça militar.

— Não vim lhe dar advertência, senhorita Santos.

Gabi ergueu os olhos, arqueando uma sobrancelha com genuína curiosidade.

— Não? Pensei que comandantes como o senhor não deixassem passar nem um botão fora do lugar.

— Sou responsável por quatrocentos soldados e quase três mil civis sob custódia temporária nesta área — respondeu ele com sua habitual sobriedade, puxando um caixote vazio com o pé e sentando-se à frente dela, com os cotovelos apoiados sobre os joelhos. — Se eu não for rígido com o perímetro, as milícias locais entram, a comida acaba antes da semana terminar e este lugar vira um necrotério a céu aberto. Minha rigidez mantém essas crianças vivas.

Gabi colocou a caneca sobre a mesa e inclinou-se para a frente, diminuindo a distância entre os dois.

— E a sua rigidez quase fez aquele menino se matar hoje de manhã, Erick.

Ouvir seu primeiro nome pronunciado com a cadência suave do português soou estranho para ele. Fazia anos que ninguém o chamava apenas de Erick em uma zona de operação. Todos usavam seu posto ou seu sobrenome. O capitão encarou a mulher com intensidade renovada.

— Foi um risco calculado — disse ele.

— Não existe risco calculado quando se lida com a mente de uma criança que viu a própria casa queimar — retrucou Gabi com firmeza, mas sem agressividade. — O medo não obedece à hierarquia militar. Você não pode dar uma ordem para que a dor pare de existir e esperar que ela bata continência para você.

Erick soltou um meio sorriso quase invisível no canto dos lábios, o primeiro sinal de relaxamento em sua expressão severa.

— Você fala com muita certeza para quem está no meio de uma zona de desastre pela primeira vez neste setor.

— Não é meu primeiro setor, capitão. Já estive no Haiti, já estive em comunidades no interior do meu país onde o poder público simplesmente não existe. O sofrimento muda de sotaque, mas a raiz é sempre a mesma: o desamparo.

Erick olhou para os papéis na mesa. Um dos desenhos mostrava duas figuras pequenas de mãos dadas, cercadas por manchas vermelhas.

— O que diz aí? — perguntou ele em voz baixa, apontando com o queixo.

Gabi deslizou o papel na direção dele.

— É do Mateo. Aquele garoto de hoje cedo. As duas figuras são ele e a irmã mais velha. Eles se perderam no meio da travessia há três dias. Ele achava que os seus soldados iam prendê-lo porque ele não conseguiu segurar a mão dela quando o caminhão acelerou. Ele achava que a culpa era dele.

O silêncio caiu pesado na tenda. Do lado de fora, o vento uivava contra a lona, mas dentro daquele pequeno espaço iluminado, o mundo parecia ter encolhido.

Erick encarou o desenho por um longo tempo. O capitão conhecia a perda. Carregava suas próprias cicatrizes sob o tecido camuflado, dores de missões passadas que ele havia trancado em compartimentos estanques na sua mente para poder continuar funcionando como uma máquina de liderança. Mas ver a dor traduzida no traço tosco de uma criança desarmava suas defesas de uma forma que ele não esperava.

— O sargento Morales localizou a irmã dele — disse Erick, ainda olhando para a folha.

Gabi congelou, os olhos brilhando na luz fraca.

— O quê?

Erick finalmente levantou a cabeça para encará-la. Seus olhos castanhos encontraram os dela com uma honestidade desarmante.

— Pedi para cruzar os dados dos registros da Cruz Vermelha no Setor Dois depois do que aconteceu hoje. Ela está na enfermaria pediátrica do acampamento norte, com desidratação leve. Amanhã cedo podemos transferi-la para cá.

Gabi o encarou, estupefata. Por um momento, a mulher articulada e destemida parecia não ter palavras. O peito dela subiu e desceu com uma respiração funda, e um sorriso genuíno, suave e emocionado, surgiu em seus lábios.

— Você fez isso? Depois de tudo o que eu disse sobre você ser rígido demais?

— Eu disse que minha prioridade é a segurança da operação — rebateu Erick, embora a frieza de sua voz tivesse se dissolvido quase por completo. — E manter as pessoas inteiras também faz parte da missão. Até mesmo as crianças que quebram o perímetro.

Gabi riu baixo, balançando a cabeça. O som foi leve, quase musical, cortando a aspereza da noite do acampamento como um raio de sol inesperado.

— O senhor é uma caixinha de surpresas, capitão Pulgar.

— Sou apenas um homem fazendo o meu trabalho, Gabrielly.

— Não — disse ela com calma, sustentando o olhar dele de uma maneira que fazia o ar parecer mais escasso entre eles. — Um homem comum apenas seguiria as regras escritas no manual. Você se importa. Só tem medo de que os outros percebam isso.

Erick sustentou o olhar, sentindo uma pontada sutil na boca do estômago. Aquela mulher conseguia enxergar através da carcaça militar que ele havia passado quinze anos construindo. Ela via a responsabilidade que pesava em seus ombros, a solidão das decisões difíceis e a necessidade desesperada de proteger a todos antes de pensar em si mesmo.

E, estranhamente, ele não sentiu vontade de erguer os escudos de novo.

— Você deveria dormir — disse ele, levantando-se devagar para recuperar o equilíbrio de suas próprias certezas. — Amanhã o comboio médico chega às cinco da manhã. Vamos precisar de você descansada para acalmar as crianças na triagem.

Gabi também se levantou, cruzando os braços e encarando-o com um brilho desafiador e cúmplice nos olhos.

— Eu vou estar pronta, capitão. Contanto que você prometa não colocar soldados com armas na minha frente enquanto eu estiver conversando com elas.

Erick parou diante da saída da tenda. Olhou para trás por cima do ombro, os olhos fixos nela por uma fração de segundo mais longa do que o estritamente profissional.

— Posso garantir que vou tentar — respondeu ele, a voz baixa e rouca. — Boa noite, Gabi.

— Boa noite, Erick.

O capitão saiu para a noite fria, puxando o ar gelado para os pulmões. O vento continuava cortante e a missão humanitária continuava sendo um pesadelo logístico e emocional prestes a explodir a qualquer instante. Mas, enquanto caminhava de volta ao seu alojamento, Erick Pulgar percebeu algo que mudaria o rumo de todos os dias que viriam pela frente: aquela brasileira obstinada acabara de invadir seu perímetro de segurança mais bem guardado. E, pela primeira vez na vida, ele não tinha intenção de expulsar o invasor.

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