
Fumaça, Uísque e Sangue
Birmingham não perdoava os fracos, e Small Heath era o próprio inferno coberto de fuligem. Quando desembarquei naquela estação cinzenta, carregando apenas uma mala gasta de couro e a certeza de que precisava de um recomeço, percebi de imediato o peso daquele lugar. No entanto, eu tinha uma vantagem sobre a maioria dos homens que rastejavam pelas ruas de paralelepípedos: eu sabia exatamente o efeito que minha aparência causava. Alto, com traços marcados, lábios cheios e um olhar que parecia despir qualquer um antes mesmo de um cumprimento, eu não passava despercebido.
Conseguir trabalho no pub The Garrison foi surpreendentemente fácil. Harry, o dono nominal do estabelecimento, me olhou de cima a baixo com um suspiro conformado, reconhecendo que um rosto como o meu atrairia clientes, mas não demorou cinco minutos antes de puxar meu braço para um canto escuro perto dos barris de cerveja.
— Escute com atenção, rapaz — sussurrou Harry, os olhos arregalados de puro pavor. — Tem uma família que manda em tudo aqui. Os Shelby. Os Peaky Blinders. Quando eles entrarem por aquela porta, você baixa a cabeça. Não encare, não puxe conversa e, pelo amor de Deus, fique longe de Thomas e Arthur. Eles destroem tudo o que acham bonito demais.
Eu apenas sorri, limpando um copo com o pano úmido.
— Vou me lembrar disso, Harry.
Mas eu não me afastei. Pelo contrário.
Na primeira vez em que os dois cruzaram as portas duplas do pub, o silêncio caiu pesado sobre o salão. Arthur Shelby entrou como uma tempestade contida, com o bigode cerrado, ombros largos e aquela aura animalesca e imprevisível de quem podia quebrar uma garrafa na cabeça de alguém só pelo prazer de ouvir o estalo. Logo atrás veio Thomas Shelby. Thomas era diferente; seu terno impecável parecia uma armadura, a boina de abas caídas escondia olhos azuis gélidos e penetrantes, e o cigarro entre os dedos queimava devagar, como se até o fogo respeitasse o seu ritmo.
Eles se sentaram na mesa reservada nos fundos. Quando me aproximei para servir a garrafa de uísque irlandês, não abaixei a cabeça. Mantive meus olhos fixos nos de Thomas enquanto enchia o copo dele, sentindo o calor quase sufocante do olhar faminto de Arthur queimando a lateral do meu pescoço.
— O novo garçom tem coragem — comentou Arthur, com a voz rouca e gutural, apoiando os cotovelos pesados na madeira rústica da mesa.
— Não é coragem, Arthur — respondeu Thomas, sem desviar os olhos azuis do meu rosto, a voz calma e aveludada carregando uma autoridade absoluta. — É consciência do próprio valor.
A partir daquela noite, o jogo começou. Eles passaram a frequentar o The Garrison mais do que o normal. Thomas sentava-se sozinho para me ver passar entre as mesas, tragando seu cigarro e me despindo com um cálculo preciso a cada movimento. Arthur era mais direto: me puxava pelo colarinho na passagem para a adega, me prendendo contra a parede de tijolos frios apenas para respirar contra a minha boca e murmurar baixarias ardentes no meu ouvido.
Não demorou para que a tensão explodisse. Primeiro foi Arthur, numa noite chuvosa em que o pub já havia fechado, fodendo-me com ferocidade contra o balcão encharcado de uísque. Depois foi Thomas, no silêncio meticuloso de seu escritório, me fazendo gemer em sua mesa enquanto segurava minha cintura com dedos de ferro. E, eventualmente, os três juntos.
Havia apenas uma regra implícita que eu nunca aceitei: o dinheiro.
Mais de uma vez, Thomas tentou empurrar notas grossas de libras esterlinas no bolso do meu colete após uma noite febril. Arthur já havia tentado me dar maços amarrotados manchados de fumo. Eu sempre jogava as notas no chão diante dos dois.
— Eu me deito com vocês porque eu quero — eu dizia, encarando os dois homens mais temidos de Birmingham com o queixo erguido. — Não sou uma vadia de esquina e não sou um dos seus negócios. Se quiserem pagar por alguém, vão até as docas.
Isso os enlouquecia. Arthur rosnava, irritado por não conseguir me comprar, e Thomas apenas me encarava com aquele meio sorriso fascinado, intrigado pela insolência de um garoto que não tinha medo da morte.
Mas tudo ruiu na semana passada.
Arthur havia exagerado na cocaína e no uísque barato. Chegou ao bar bufando, descontrolado, e quando fui tentar acalmá-lo nos fundos, ele me empurrou contra a madeira com força excessiva, agarrando meu queixo até doer e gritando ordens como se eu fosse um de seus capangas descartáveis. Thomas apareceu no corredor e, em vez de interferir, apenas ficou observando, deixando o irmão extravasar a loucura dele em cima de mim para testar até onde ia meu limite.
Aquele foi o limite.
Eu acertei um tapa seco no rosto de Arthur, empurrei-o com força suficiente para desequilibrá-lo e encarei os dois com desprezo.
— Acabou — declarei, limpando o lábio que havia cortado de leve. — Nem um toque. Nem uma palavra fora do cardápio. Nenhum dos dois encosta em mim de novo até aprenderem a me tratar como um homem, e não como saco de pancadas.
E entrei em greve.
Foram seis dias de puro inferno em Small Heath.
Eu mantive minha palavra rigidamente. Servia os copos, limpava as mesas, recolhia o dinheiro e sequer olhava nos olhos deles. E a família Shelby pagou um preço caríssimo por isso.
Thomas, que costumava ser a personificação da calma estratégica, estava intratável. John me contou, aos sussurros na ponta do balcão, que Thomas havia quebrado duas cadeiras numa reunião com os Lee e quase disparou contra um fornecedor por causa de um atraso insignificante. Arthur, por sua vez, estava incontrolável. Havia espancado três homens até quase a morte no beco ao lado do pub só porque um deles olhou na direção dele de forma errada. Polly chegou a me procurar no fim do expediente, fumando seu cigarro longo e me encarando com olhar astuto:
— O que quer que você esteja fazendo com aqueles dois, resolva — ordenou Polly, com uma pontada de exaustão na voz. — Eles estão destruindo metade da cidade e o humor deles está custando dinheiro à nossa companhia.
No sétimo dia, eu decidi que o castigo havia sido suficiente.
Esperei até que o Garrison estivesse completamente vazio. Tranquei as portas pesadas, apaguei a maior parte das luzes a gás, deixando apenas uma lâmpada âmbar acesa sobre a mesa dos fundos, e servi três copos com o melhor uísque de corte da reserva privada de Thomas. Sentei-me no estofado de couro escuro, desabotoei os três primeiros botões da minha camisa branca e esperei.
Eles não demoraram. Ouviram o clique da tranca secundária e entraram juntos, pela porta dos fundos.
Arthur tirou a boina e a jogou sobre uma mesa vazia, com os olhos vermelhos, a respiração pesada como a de um touro enjaulado. Thomas entrou logo atrás, fechando o sobretudo devagar. As sombras da sala desenhavam o contorno tenso de suas mandíbulas.
— A greve acabou? — perguntou Thomas, a voz baixa, perigosa, enquanto dava passos lentos em minha direção.
— Depende — respondi, apoiando os braços no encosto do sofá, deixando o peito exposto. — Vocês aprenderam a lição?
— Nós aprendemos que você é um desgraçado insolente — rosnou Arthur, já cortando o espaço entre nós em passadas largas, arrancando o paletó e jogando-o no chão. — E que eu passei a porra da semana inteira pensando em partir você ao meio.
— Arthur — Thomas advertiu em tom baixo, mas seus próprios olhos azuis traíam sua compostura; brilhavam com uma urgência predatória. — Deixe-o falar.
— Eu não quero falar, Tommy — murmurei, sustentando o olhar dele enquanto eu mesmo começava a desamarrar as botas. — E sei que nenhum de vocês quer também.
Não houve mais avisos. Arthur me agarrou antes mesmo que eu pudesse pisar no chão. Suas mãos calejadas e ásperas se fecharam em minha nuca, puxando minha cabeça para trás com uma possessividade brutal enquanto sua boca colidia com a minha. O beijo de Arthur tinha gosto de tabaco forte, uísque e puro desespero; ele mordeu meu lábio inferior, enfiando a língua de forma gananciosa, soltando um gemido rouco e baixo quando passei as mãos por seus ombros largos.
Ao mesmo tempo, senti os passos calmos de Thomas pararem atrás de mim. Os dedos frios e precisos de Tommy deslizaram sob o tecido da minha camisa, traçando a curva da minha coluna com firmeza calculada, descendo até puxar a barra da calça, desabotoando-a sem pressa, mas com força inabalável.
— Você quase fez este império queimar esta semana, sabia disso? — sussurrou Thomas em meu ouvido, a voz rouca vibrando contra a minha pele sensível, enquanto sua mão envolvia meu membro já rígido por cima do linho. — A cidade inteira sofreu porque nós estávamos morrendo de fome de você.
Um gemido abafado escapou da minha garganta contra os lábios de Arthur. Eu adorava aquele tom sensual e ameaçador de Thomas tanto quanto adorava a ferocidade de Arthur.
— Então me fodam — sussurrei entre os dois, arqueando as costas contra o peito de Thomas enquanto Arthur descia os beijos pesados pela linha da minha mandíbula até o peito. — Mas os dois. Ao mesmo tempo. Sem esperar a vez de ninguém.
Thomas soltou uma risada curta e sombria contra meu ombro.
— Não tínhamos a menor intenção de esperar.
Eles me despiram sem qualquer delicadeza desnecessária. Fui empurrado de joelhos sobre o estofado largo de veludo do camarote privado, com a pele brilhando sob a fraca luz âmbar. Arthur não perdeu um segundo: ajoelhou-se na minha frente, abrindo a própria braguilha e libertando seu membro grosso e latejante, puxando meu queixo para cima para que eu o encarasse.
— Engole tudo — ordenou Arthur, os olhos dilatados de pura luxúria. — Mostra que sentiu minha falta, porra.
Abri a boca sem hesitar, acolhendo o calor imenso de Arthur. O contraste era alucinante: enquanto eu envolvia a carne quente dele, sentindo sua respiração engatar e suas mãos se enterrarem nos meus cabelos, Thomas já estava atrás de mim. Senti o estalo de uma garrafa de óleo de massagem que ele costumava guardar ali, e logo os dedos compridos e firmes de Thomas começaram a me preparar com lentidão torturante.
Um gemido grave e abafado vibrou na minha garganta, reverberando contra o pênis de Arthur. Eu soltava aqueles sons que eles tanto amavam: gemidos baixos, quentes, roucos, carregados de entrega absoluta.
— Isso, garoto... — murmurou Arthur com a voz trêmula de prazer, os quadris empurrando suavemente contra a minha boca. — Geme desse jeito pra mim. É essa porra desse som que não me deixou dormir a semana inteira.
Atrás de mim, Thomas adicionou mais um dedo, pressionando o ponto exato dentro de mim que me fez estremecer inteiro.
— Tão apertado — sussurrou Thomas, inclinando-se para morder a curva do meu ombro, marcando a pele com os dentes. — Você sabe exatamente como nos enlouquecer. Agora abre para mim.
Não houve trégua. Quando Thomas se posicionou e começou a empurrar para dentro, lentamente, alargando-me com uma determinação fria e implacável, o mundo pareceu se dissolver em eletricidade pura. Soltei o membro de Arthur com um arquejo entrecortado, jogando a cabeça para trás no ombro de Thomas enquanto ele afundava até a base dentro de mim, preenchendo cada centímetro com precisão cirúrgica.
— Porra... Tommy... — meu gemido ecoou rouco pelo salão vazio, quebrando o silêncio da noite.
Thomas segurou meus quadris com força implacável, seus nós dos dedos quase brancos pela pressão.
— Não ouse parar — ordenou Tommy entre dentes cerrados, iniciando estocadas profundas e ritmadas. — Arthur, pega ele.
Arthur não precisava de ordens. Ele se inclinou sobre mim, puxando meu rosto de volta para sua boca, me beijando com fúria animal enquanto usava as mãos para guiar meu membro com uma pegada firme e ritmada, sincronizada perfeitamente com os golpes profundos que Thomas desferia por trás.
A sensação de ser dominado e consumido pelos dois homens mais perigosos da Inglaterra era avassaladora. O calor dos corpos deles, o cheiro de suor, uísque e o perfume caro de Thomas criavam uma atmosfera quase sufocante. Cada estocada de Tommy me fazia choramingar baixinho de prazer, um som quente e sexy que arrancava rosnados do fundo do peito de Arthur.
Não demorou para que a primeira onda de êxtase me atingisse com violência, derramando-me contra o abdômen tenso de Arthur, enquanto Thomas rugia baixinho contra meu pescoço, despejando-se quente e profundo dentro de mim.
Mas aquela era apenas a primeira rodada.
Eles não me deram tempo para respirar. Antes mesmo que meus batimentos desacelerassem, Arthur me puxou pela cintura, me virando de costas sobre a mesa de madeira redonda. Os copos de uísque tombaram, derramando o líquido dourado na madeira, mas ninguém se importou. Arthur ergueu minhas pernas, apoiando-as em seus ombros largos, e sem qualquer aviso prévio, afundou em mim com uma força brutal e desesperada.
O impacto me fez soltar um grito abafado, seguido por um gemido longo e rouco que fez as veias do pescoço de Arthur pulsarem. Ele fodia rápido, cru, como se estivesse tentando marcar minha alma, enquanto Thomas permanecia em pé ao lado da mesa, desabotoando o colete, com aquele olhar azul fumegante focado unicamente no modo como meu corpo aceitava seu irmão. Thomas aproximou-se, segurando minha mão, entrelaçando nossos dedos com uma intimidade que contrastava violentamente com a brutalidade dos quadris de Arthur, oferecendo-me a boca para beijos lentos e viciosos enquanto eu era preenchido.
A noite se transformou em um borrão febril de suor, fumaça e gemidos baixos ecoando nas sombras do pub.
Foram sete rodadas exaustivas, implacáveis e gloriosas.
Em uma delas, Thomas e Arthur me tomaram com uma sincronia quase perversa: Thomas penetrando fundo e lentamente por trás, enquanto Arthur guiava meu corpo e reivindicava minha boca e meus lábios com uma sede insaciável, até que nenhum de nós soubesse onde começava um e terminava o outro. Na quinta rodada, estávamos no chão, sobre o pesado tapete persa da sala privada, meus gemidos se tornando quase inaudíveis de tão roucos, o calor emanando de nossos corpos embaçando as vidraças altas do The Garrison.
Eles me usavam, me viravam, trocavam de posições e exigiam que eu continuasse olhando nos olhos deles a cada orgasmo compartilhado. Não havia pressa. Não havia trégua. Havia apenas a fome acumulada de dias de distância, purgada através de pele, atrito e possessão mútua.
Quando a sétima rodada finalmente chegou ao fim, a primeira luz cinzenta e pálida do amanhecer começava a invadir as frestas das cortinas pesadas de Small Heath.
Eu estava jogado de lado no estofado, completamente exausto, coberto de suor, com marcas vermelhas e roxas espalhadas pelo pescoço, peito e coxas, sentindo uma dor deliciosa e profunda pulsando no baixo ventre. Minha garganta arranhava de tanto gemer ao longo daquelas horas intermináveis.
Arthur estava deitado ao meu lado, um braço pesado jogado protetoramente sobre a minha cintura, a respiração finalmente calma, quase adormecido com a testa encostada nas minhas costas nuas.
Thomas estava sentado na borda do assento, com a calça abotoada pela metade e a camisa branca amassada aberta até o peito. Ele acendeu um cigarro com o isqueiro dourado, o estalo do metal quebrando o silêncio sagrado daquela manhã.
Ele deu uma longa tragada, soltando a fumaça cinzenta em direção ao teto alto do pub, e então virou a cabeça para me olhar. Seus olhos azuis, antes gélidos, carregavam agora um calor profundo e satisfeito, uma reverência silenciosa que nenhum outro homem em Birmingham jamais receberia de Thomas Shelby.
— Nunca mais faça greve — disse ele, a voz tão rouca e baixa quanto a minha, estendendo a mão para afastar suavemente uma mecha de cabelo grudada pelo suor na minha testa.
Eu soltei um riso cansado, sentindo o peso reconfortante do corpo de Arthur me ancorando, e apoiei a cabeça na perna de Thomas.
— Depende — respondi com a voz quase sumida, sorrindo contra a pele dele. — Comportem-se, e eu não precisarei.
Arthur resmungou algo ininteligível durante o sono, apertando o braço ao redor de mim com ainda mais força, como se temesse que eu desaparecesse no ar cinzento da manhã. Thomas apenas deu outra tragada no cigarro, e pela primeira vez em muito tempo, um sorriso genuíno e calmo tocou seus lábios finos enquanto a cidade começava a acordar lá fora.
