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Criado: 11/09/2026

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Sob a Pele da Farda

A noite em Sorriso parecia não ter esfriado nem um único grau. O calor permanecia retido no asfalto e nas paredes de alvenaria, pesado como um cobertor embebido em óleo diesel. Anthony mal conseguiu pregar os olhos. Cada vez que puxava o ar seco, sentia o fantasma da boca de Lucas pressionada contra a lateral de seu pescoço. Perto das cinco da manhã, o alarme do celular tocou estridente, quebrando o zumbido monótono do ventilador.

Ele pulou da cama com o coração na boca. Foi até o pequeno espelho do banheiro, ligou a lâmpada amarelada e engoliu em seco. A marca avermelhada ainda estava ali, vívida contra a pele parda.

— Desgraçado... — xingou entredentes, passando os dedos trêmulos pela marcação.

Tomou um banho rápido na água morna que descia da caixa d’água superaquecida. Vestiu a farda da Escola Militar Tiradentes: a camisa impecavelmente passada pela mãe, a calça de sarja resistente e o cinto de lona com a fivela dourada. Ele abotoou a gola até o último botão possível, sentindo o tecido rígido sufocar seu pescoço na tentativa desesperada de esconder o rastro do dia anterior. Calçou os coturnos pretos, lustrados até refletirem a luz fraca do quarto, ajeitou a boina sobre a cabeça raspada e respirou fundo.

Do lado de fora, a cidade já começava a pulsar ao ritmo dos caminhões bi-trens cortando a BR-163, levantando a poeira avermelhada que manchava tudo. Anthony pegou a bicicleta enferrujada e pedalou rumo ao colégio. O sol nascia no horizonte plano, imenso e implacável sobre o mar de lavouras ao redor do município. A cada pedalada, uma pontada de desespero cravava em seu estômago.

Quando avistou os portões monumentais da Escola Tiradentes, seus músculos travaram. Alunos marchavam em pequenos grupos, todos idênticos com seus cabelos cortados na máquina um e fardas engomadas, saudando os monitores policiais com continências mecânicas. Anthony prendeu a bicicleta no bicicletário e desceu com o olhar fixo no chão, os punhos cerrados dentro dos bolsos da calça tática.

Ele sentia os olhares. Podia ser apenas a sua paranoia comendo sua mente, mas os risinhos abafados perto da cantina pareciam carregar o peso de mil condenações. Gabriel, um garoto corpulento do nono ano, estava encostado em uma pilastra com outros dois alunos, todos rindo alto enquanto olhavam em sua direção.

Anthony ignorou, virou as costas e acelerou o passo contornando o bloco das salas de aula. Ele seguiu para trás do ginásio poliesportivo, um lugar ermo onde o muro alto fazia sombra e o chão de terra batida acumulava folhas secas e bitucas de cigarro jogadas pelos alunos mais velhos.

Lucas já estava lá.

Ele estava encostado na parede descascada, chutando pedregulhos com a biqueira de aço do coturno. O cabelo preto raspado destacava o desenho anguloso da mandíbula e os olhos castanhos, quase pretos, brilhando com uma insolência crua. Quando viu Anthony se aproximar, um sorriso de lado — debochado, irritante e perigoso — cortou o rosto de Lucas.

— Olha aí o soldadinho traumatizado — disse Lucas, sem se desencostar do muro. — Achei que você ia amarelar e meter um atestado hoje.

— Cala essa boca de bosta, Lucas — Anthony rebateu na hora, parando a dois passos de distância, a voz saindo em um sussurro agressivo. — Você acha que isso aqui é brincadeira, né? O Gabriel tá lá no pátio olhando pra mim como se eu fosse uma piada.

— E você ligou pra aquele gordo inútil? — Lucas deu um passo à frente, diminuindo a distância entre os dois. Ele era apenas meio centímetro mais alto, mas se portava como se fosse dono do mundo. — Deixa que olhe. Deixa que fale.

— Deixa que fale o caralho! — Anthony avançou, empurrando o peito de Lucas contra a alvenaria áspera. — A gente combinou ontem. Você prometeu que a gente ia dar um jeito de calar a boca de todo mundo. Se meu pai souber de qualquer boato, ele me quebra no meio, tá me ouvindo? Ele me arrebenta!

Lucas nem sequer piscou com o empurrão. Em vez de recuar, agarrou o colarinho de Anthony com força, puxando-o para perto até que suas respirações se misturassem. O cheiro de sabonete ruim e pasta de dente barata de Anthony preencheu o espaço entre eles.

— Você é frouxo demais, Anthony — murmurou Lucas, a voz rouca e baixa, os olhos cravados nos dele. — Sempre tremendo na base. Mas quando a gente tá trancado na cabine do banheiro, você não fica com esse medo todo de mim, fica?

O estômago de Anthony deu uma volta violenta. A proximidade fazia seu corpo inteiro queimar de um jeito que o enchia de ódio e vergonha.

— Larga de ser asqueroso — Anthony rosnou, tentando soltar a mão de Lucas de sua gola, mas sem fazer força real para empurrá-lo para longe. — Aquilo lá... é diferente.

— É a mesma coisa. Só que lá você não tem que pagar de machão pra ninguém — Lucas soltou o colarinho dele abruptamente, ajeitando a própria camisa da farda com um safanão debochado. — Mas relaxa. Eu não sou idiota. Eu não vou deixar aqueles merdas acharem que eu sou viado. Muito menos que eu tenho algum caso com você.

— E qual é a porra do plano, então? — Anthony cruzou os braços, tentando controlar o tremor nas próprias pernas.

— A formatura vai começar daqui a dez minutos — Lucas disse, o tom de voz mudando para algo frio, calculista e cruel. — O pátio vai estar cheio. Quando a gente entrar em forma, eu vou começar a zoar o moleque novo do sexto ano, aquele que todo mundo sabe que é afeminado. Vou esculachar ele de verdade. E aí, quando o Gabriel ou qualquer um vier rir ou perguntar sobre ontem, eu vou falar que foi um desafio de aposta. Vou dizer que a gente tava imitando aquele meme nojento e que você quase vomitou porque achou repugnante.

Anthony sentiu um gosto amargo subir pela garganta. O moleque novo a quem Lucas se referia era um menino miúdo, tímido, que já vivia sendo empurrado pelos cantos pelos veteranos.

— A gente precisa mesmo foder aquele moleque? — Anthony perguntou, desviando o olhar. — Ele nem faz nada pra ninguém.

— Ou é ele, ou é a gente, seu idiota! — Lucas aumentou o tom, dando um passo incisivo e apontando o dedo na cara de Anthony. — Você quer que a tropa inteira caia matando em cima de você? Quer que chamem seu pai aqui na diretoria militar? Quer que te expulsem da escola por "conduta indecorosa"? Acorda pra vida, Anthony! Isso aqui é o Mato Grosso. Se você não for o predador, você é a caça. E eu não vou ser caça de ninguém.

As palavras de Lucas eram como estilhaços de vidro, cortantes e cruéis, mas tinham uma lógica brutal que Anthony não conseguia refutar. Naquele colégio, onde a disciplina era imposta pelo medo e a masculinidade era medida pela capacidade de humilhar os mais fracos, a fraqueza era uma sentença de morte social.

— Tá — Anthony cedeu, a voz fraca. — E o que eu faço?

— Você entra na onda — Lucas sorriu, aquele sorriso escroto que fazia Anthony querer socá-lo e beijá-lo ao mesmo tempo. — Seja o Anthony de sempre. Debochado, violento, boca suja. Se o Gabriel abrir o bico, você manda ele tomar no cu e chama ele pra sair na mão lá fora. Eles têm que ter medo de abrir a boca.

O toque estridente da sirene ecoou pelo pátio do colégio, avisando que faltavam cinco minutos para a formatura matinal. O som agudo reverberou no concreto do ginásio, fazendo os dois garotos se endireitarem quase por puro reflexo militar.

— Vamos — disse Lucas, ajeitando a boina na cabeça e puxando o tecido da farda para tirar os vincos. — Hora do show.

Eles caminharam lado a lado, mantendo uma distância segura de meio metro entre os ombros, saindo de trás do ginásio como dois cães de briga farejando perigo.

O pátio principal era uma laje imensa a céu aberto. O sol já castigava sem piedade, fazendo o calor subir do chão em ondas visíveis. Mais de quinhentos alunos se organizavam em pelotões, dispostos por turma e série, ombro a ombro, em filas impecavelmente alinhadas. O som de coturnos batendo no chão e comandos secos de "Atenção!", "Cobrir!", "Descansar!" ecoava pelos alto-falantes sob a supervisão atenta dos sargentos monitores.

Lucas e Anthony entraram no pelotão do oitavo ano. Gabriel estava na fila ao lado, apenas a três pessoas de distância. Assim que Anthony ocupou seu lugar na formação, sentiu os olhos de Gabriel cravados nele.

— E aí, beijoqueiro? — Gabriel murmurou baixo, com um sorriso escrachado no rosto, aproveitando que o sargento estava de costas corrigindo o alinhamento da ponta da fila. — Dormiu bem pensando no teu namoradinho?

O sangue de Anthony ferveu instantaneamente, subindo como labareda pelas orelhas. Mas antes que ele pudesse responder, Lucas deu um passo em falso de propósito para o lado, quebrando a formação milimétrica e encarando Gabriel com os olhos dilatados de puro ódio fingido.

— Que foi que você falou aí, seu gordo arrombado? — a voz de Lucas não saiu sussurrada; ela cortou a fileira com uma violência desmedida, atraindo imediatamente a atenção de todos os garotos ao redor.

— Lucas! Em forma! — gritou um dos alunos xerifes do pelotão, mas ninguém ali tinha coragem real de se meter na frente dele.

— Cala a boca, xerife — Lucas cuspiu as palavras, sem tirar os olhos de Gabriel. — Tô perguntando o que esse merda falou aí. Fala na minha cara, Gabriel. Vai! Fala que eu sou viado que nem aquele projeto de bicha do sexto ano pra você ver se eu não arranco seus dentes na calçada da saída!

Gabriel empalideceu levemente. A agressividade desproporcional de Lucas pegou todos de surpresa. O sorriso zombeteiro de Gabriel murchou, transformando-se em uma expressão de dúvida e receio.

— Porra, Lucas, calma aí... tava só zoando por causa de ontem — Gabriel tentou recuar, sentindo que a situação fugia do controle.

— Zoando o caralho! — foi a vez de Anthony explodir, dando um passo à frente com o rosto transfigurado por uma careta de deboche venenoso. Ele sentiu uma onda de adrenalina ácida tomar conta de si. — Você acha que eu sou viado igual a você, seu bosta? A gente tava tirando onda com a cara daqueles merdas da tarde, apostando quem tinha coragem de encenar a idiotice mais nojenta sem vomitar. E você vem encher o meu saco? Lava essa sua boca imunda antes de falar de mim, seu filho da puta!

Vários garotos da fileira soltaram vaias e risos de aprovação, ecoando o clássico comportamento de matilha. "Nossa, tomou de graça", sussurrou alguém atrás deles. O teatrinho sujo estava funcionando. O ódio cego e a virulência que destilaram transformaram a lembrança do beijo proibido em uma piada grotesca e "hétero", onde a única regra era o choque e o escárnio.

— O que está acontecendo aí atrás?! — a voz cavernosa do Sargento Dias ecoou pelos megafones, cortando qualquer tentativa de resposta de Gabriel. O sargento marchou em direção ao pelotão do oitavo ano, a cara amarrada e os olhos faiscando disciplina. — Silêncio na fileira! Posição de sentido!

Imediatamente, o pelotão congelou. Lucas e Anthony colaram os calcanhares, estufaram os peitos e olharam para a frente, fixando os olhos em um ponto vazio no horizonte, assumindo a postura do soldado modelo. A respiração de ambos ainda vinha pesada, os punhos colados às coxas.

O sargento parou na frente de Lucas, farejando a tensão no ar.

— Algum problema aqui, aluno Lucas? — perguntou o sargento, com um tom de quem adoraria aplicar cinquenta flexões no asfalto quente.

— Nenhum problema, senhor! — Lucas respondeu no mais perfeito tom regulamentar, a voz firme, sem vacilar por um milésimo de segundo. — Apenas corrigindo um equívoco na tropa, senhor!

O sargento olhou de Lucas para Anthony, depois para Gabriel, que estava vermelho como um tomate e mantinha os olhos arregalados de medo.

— Menos vinte pontos na ficha disciplinar para quem abrir a boca de novo antes do hino — o sargento rosnou e deu meia-volta, marchando de volta ao palanque.

Os alto-falantes começaram a chiar, tocando os acordes marciais do Hino Nacional Brasileiro. Centenas de vozes jovens começaram a cantar em uníssono sob o sol inclemente que queimava as cabeças raspadas.

Enquanto cantava a letra decorada mecanicamente desde o primeiro ano, Anthony sentiu seu estômago afundar em um abismo sem fim. Eles haviam vencido. Tinham empurrado a desconfiança para baixo do tapete usando o método mais baixo e eficiente que conheciam: a violência verbal, a mentira e a humilhação pública. Gabriel nunca mais tocaria no assunto. Ninguém mais teria coragem de insinuar nada. Estavam a salvo.

Mas o gosto daquela vitória era cinza, com sabor de cinzas e podridão.

Anthony virou minimamente os olhos de lado, sem mover a cabeça da posição de sentido. Ele olhou para Lucas.

Lucas continuava encarando o nada, entoando o hino com fervor robótico, a mandíbula travada. Mas sob a gola da camisa, uma gota solitária de suor descia lentamente, traçando o mesmo caminho que o medo percorrera na noite anterior. Por uma fração de segundo, os olhos de Lucas também se desviaram para o canto.

Eles se entreolharam. Não havia triunfo naquele olhar. Havia a cumplicidade mórbida de dois cúmplices de um assassinato — o assassinato de quem eles realmente eram, perpetrado todas as manhãs para que pudessem continuar existindo naquele inferno de soja e farda.

Lucas deu uma piscadela quase imperceptível antes de voltar a olhar para a bandeira tremulando no mastro central.

Anthony engoliu o nó na garganta, cerrou os dentes até a mandíbula doer e continuou cantando. Ele odiava Lucas. Odiava a Escola Tiradentes. Odiava a poeira sufocante de Sorriso e, acima de tudo, odiava a si mesmo por saber que, na primeira oportunidade que tivessem de se esconder naquele banheiro fedorento do bloco D, ele deixaria aquele mesmo garoto cruel tocá-lo outra vez.

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