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O acidente

Fandom: Wednesday

Criado: 11/09/2026

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Dor/ConfortoDramaAngústiaEstudo de PersonagemNoir GóticoCenário CanônicoFantasiaFatias de Vida
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O Preço Oculto da Vidência

O ar úmido do início da noite pairava pesado sobre os terrenos sombrios de Nunca Mais. Para Wandinha Addams, a atmosfera gótica sempre fora o cenário ideal para ultrapassar quaisquer limites que a razão humana julgasse sensatos. No centro do pátio de pedra, afastada das janelas dos dormitórios, ela mantinha os pés firmes e a coluna perfeitamente ereta, com seu uniforme cinza e preto imaculado.

Ela estava focada em forçar uma visão. Desde que os ecos do último trimestre haviam se dissipado, sua mente ansiava por decifrar uma nova teia de presságios. Segurando uma adaga antiga de prata contra a palma enluvada, fechou os olhos e forçou o canal psíquico a se escancarar.

O impacto não foi suave. Foi violento como uma guilhotina em queda livre.

Uma corrente elétrica brutal rasgou seu crânio, faiscando por sua espinha dorsal com a fúria de um raio condensado. Wandinha não gritou — ela recusava-se a conceder a qualquer dor o privilégio de sua voz —, mas seus pulmões esvaziaram-se de repente. O choque paralisou seus membros, cortando temporariamente a comunicação entre seu cérebro orgulhoso e o restante do corpo.

E então, o calor involuntário desceu.

O espasmo muscular na base de sua pélvis foi irreversível. Suas forças evaporaram no exato momento em que um fluxo quente e copioso rompeu todas as barreiras de sua dignidade. Ela sentiu o tecido de sua calcinha ensopar instantaneamente, transbordando para as meias pretas até escorrer pelo interior de suas coxas. Em questão de segundos, uma poça límpida e inegável manchava as lajes cinzentas sob suas botas pesadas.

Pior do que o calor humilhante foi o clique estridente de vozes que se aproximavam. Um grupo de alunos liderados por Bianca Barclay caminhava pelo arco lateral.

— Mas o que é aquilo? — sussurrou alguém, seguido por um riso abafado que soou como ácido fervente nos tímpanos de Wandinha.

— A gótica sinistra não conseguiu achar o banheiro a tempo? — zombou outro garoto.

Wandinha permaneceu imóvel, os olhos fixos no vazio, a respiração presa na garganta. Sua mente afiada planejou imediatamente dezessete métodos letais para cortar as cordas vocais de cada testemunha, mas a realidade física a ancorava ao chão: a umidade esfriava rapidamente contra suas pernas, transformando-se em um gélido monumento à sua fraqueza.

— Ei! Circulando, agora! — A voz aguda e estridente cortou o ar como uma lâmina colorida.

Enid Sinclair surgiu no pátio com passos decididos, as garras afiadas projetando-se levemente nas pontas dos dedos cor-de-rosa. O rosnado baixo da lobisomem fez os curiosos recuarem um passo.

— Vão cuidar da vida insignificante de vocês antes que eu resolva usá-los como arranhador de unhas! — esbravejou Enid, plantando-se de forma a bloquear a visão alheia.

Os alunos se dispersaram com murmúrios ressentidos. O silêncio que se instalou foi mil vezes mais opressor.

Enid virou-se devagar. Seus olhos azuis arregalaram-se de leve, repletos de choque e imediata compaixão. Sem dizer uma palavra desnecessária que pudesse quebrar a postura ríspida da amiga, ela tirou o próprio casaco longo de tricô multicolorido e o amarrou com firmeza ao redor da cintura de Wandinha, cobrindo o tecido encharcado.

— Vamos para o quarto — disse Enid em tom suave.

— Eu posso caminhar sozinha — respondeu Wandinha com uma frieza quase robótica, embora suas pernas tremessem levemente sob o choque neurológico residual.

— Eu sei que pode — retrucou Enid, sem contestar, mas mantendo-se colada ao lado dela em cada passo humilhante até o Quarto Ofélia.

Assim que a porta foi trancada, o peso da situação desabou sobre o quarto dividido entre trevas e arco-íris. Wandinha retirou as botas com rigidez calculada, recusando-se a olhar para o chão manchado ou para os próprios trajes.

— Não precisa me olhar como se eu fosse um animal atropelado — disse Wandinha, dirigindo-se ao banheiro. — Foi apenas uma sobrecarga sináptica. Uma anomalia passageira.

— Eu não estou te julgando, Wandinha — afirmou Enid, encostando-se ao batente enquanto a morena começava a tirar a roupa ensopada com dedos estranhamente dormentes. — Mas você tem que admitir... para alguém que adora tortura, deixar escapar um riozinho no meio do pátio foi uma escolha bem dramática de cena.

Wandinha lançou-lhe um olhar que teria incinerado uma floresta inteira.

— Mais uma palavra espirituosa, Enid, e eu uso seus lençóis cor-de-rosa como mortalha.

— Tá bom, tá bom! — Enid ergueu as mãos em rendição, embora um sorriso afetuoso e ligeiramente zombeteiro ainda curvasse seus lábios. — Só estou tentando quebrar o gelo. Ou a poça. Desculpe, parei!

O que Wandinha esperava ser apenas um incidente isolado, no entanto, revelou-se um pesadelo prolongado. Naquela mesma noite, enquanto dormia, o reflexo psíquico voltou em ondas silenciosas. Ela despertou às quatro da manhã, não pelo frio, mas pela sensação abominável de estar deitada sobre um colchão encharcado. Seu corpo havia perdido inteiramente o tônus esfincteriano; os nervos simplesmente não respondiam mais aos sinais da bexiga.

A visita discreta à enfermaria no dia seguinte, arranjada sob ameaça de morte a qualquer um que vazasse a informação, confirmou o pior diagnóstico. A médica dos excluídos foi direta: o surto psíquico havia danificado temporariamente as vias neurais que controlavam sua continência. Seriam semanas, talvez meses, de reabilitação. Até lá, o controle voluntário era nulo.

A solução médica chegou em um pacote discreto, mas que para o orgulho de Wandinha parecia uma sentença de forca: fraldas geriátricas descartáveis de alta absorção.

De volta ao quarto, o pacote jazia sobre a escrivaninha preta como uma afronta pessoal. Wandinha encarava o plástico com aversão assassina.

— Eu me recuso a vestir essa abominação acolchoada — declarou ela, os braços cruzados sobre o peito. — Prefiro que meu corpo definhe até a desidratação completa.

— Se você não beber água, você morre, sua boba — disse Enid, sentando-se na beirada da cama com as pernas cruzadas. — E não é o fim do mundo! Olha pelo lado positivo: pelo menos elas são brancas. Combina com a sua paleta monocromática fúnebre.

— A sua tentativa de me animar é uma agressão aos meus sentidos — sibilou Wandinha.

— Wandinha, escuta — interveio a loira, a voz abandonando o tom brincalhão e adotando a doçura genuína que desarmava até a mais fria das criaturas. — Você está doente. Seus poderes pregaram uma peça no seu corpo. Ninguém lá fora precisa saber. Eu cuido de tudo, trago as tarefas, despisto todo mundo. Mas você precisa aceitar a ajuda.

O silêncio reinou no cômodo. Wandinha baixou os olhos escuros para as próprias mãos. Sentir-se indefesa era uma experiência nauseante, mas ter Enid testemunhando sua fragilidade sem repulsa causava um estranho e desconfortável calor em seu peito gélido.

Com um suspiro quase imperceptível, Wandinha pegou o pacote e entrou no banheiro.

Ajustar a peça grossa e barulhenta ao redor dos quadris foi o ato mais penoso que já executara. As fitas adesivas grudavam com um ruído plástico irritante. Por baixo da saia rodada e das meias pretas até os joelhos, o volume parecia gigantesco e flagrante, embora no espelho quase nada se notasse sob as dobras do tecido escuro.

Quando saiu, o passo hesitante traía seu desconforto visceral. Cada movimento produzia um farfalhar abafado.

— Como eu me pareço? — perguntou ela, a voz monocórdica tentando mascarar a humilhação.

— Como a mesma garota assustadora e psicótica de sempre — garantiu Enid, levantando-se e ajeitando a barra da saia de Wandinha com cuidado fraternal. — Só que agora à prova de vazamentos. Não se preocupe, eu sou seu cofre. O que acontece no Ofélia, morre no Ofélia.

— Se não morrer, eu mesma cuidarei para que haja um enterro — murmurou Wandinha, sentindo um alívio relutante diante da lealdade inabalável da colega.

A rotina nos dias seguintes transformou-se em um teste diário de resiliência e paciência para ambas. A perda total de controle significava que acidentes ocorriam sem aviso prévio. Mais de uma vez, sentada à máquina de escrever, Wandinha simplesmente sentia a fralda esquentar e expandir sob seu peso, sem que um único músculo tivesse obedecido à sua vontade de conter o fluxo.

Nesses momentos, ela cerrava os dentes e continuava datilografando suas histórias macabras com ferocidade redobrada, enquanto Enid, discretamente, colocava uma toalha limpa sobre a cadeira ou preparava um chá para quando ela precisasse fazer a troca.

A loira não perdia a chance de aliviar a tensão com seu humor característico, servindo de contraponto essencial à amargura da morena.

— Sabe de uma coisa? — comentou Enid certa tarde, enquanto dobrava uma pilha de roupas lavadas. — Aquele garoto da terceira fileira da aula de botânica estava reclamando de alergia a pólen. Se ele soubesse que você senta na primeira fila com o poder de inundar a sala inteira sem mover um músculo da face, ele teria muito mais medo de você.

Wandinha ergueu uma sobrancelha, os dedos parados sobre as teclas de metal.

— Eu não preciso de fluídos corporais para aterrorizar medíocres, Enid. Mas admito que a perspectiva de usá-los como arma biológica tem certo apelo prático.

— Ai, que nojo! — Enid gargalhou, atirando uma almofada felpuda que Wandinha desviou com a precisão de uma estátua. — Só você para pensar nisso como arma!

No entanto, o objetivo final de Wandinha nunca fora acomodar-se àquela condição. O orgulho dos Addams exigia restauração. Após duas semanas de dependência absoluta do algodão e do plástico, ela deu início ao seu processo obstinado de reabilitação — o seu "desfralde", como Enid gostava de chamá-lo para a eterna irritação de Wandinha.

O método da jovem gótica para recuperar o controle era tão rigoroso quanto um manual medieval de penitência.

— Eu estabeleci um cronograma — anunciou Wandinha, exibindo uma folha de papel pardo coberta com sua caligrafia afiada e precisa. — O corpo humano responde a reflexos condicionados. De hora em hora, eu me sentarei no sanitário e forçarei as sinapses a restabelecerem a ponte entre a mente e o sistema excretor. Sem distrações. Sem falhas.

— Você está planejando adestrar a sua própria bexiga como se fosse um cachorro bravo? — perguntou Enid, inclinando a cabeça com curiosidade.

— Como se fosse uma víbora rebelde que precisa ser domada — corrigiu a morena com severidade.

O treinamento começou imediatamente. A cada sessenta minutos cravados no relógio de pêndulo, Wandinha marchava até o banheiro privativo. Sentada com a postura impecável e a expressão de quem comanda um exército fúnebre, ela concentrava sua energia psíquica na parte inferior do abdômen, tentando ignorar a sensação de futilidade que os primeiros dias trouxeram.

Nas primeiras tentativas, os resultados foram frustrantes. Muitas vezes, nada acontecia durante os vinte minutos cronometrados de concentração estrita, apenas para a fralda esquentar cinco minutos após retornar à escrivaninha.

Após um desses episódios particularmente desanimadores, Enid encontrou Wandinha no banheiro, os punhos cerrados contra a pia, os olhos fixos no reflexo escuro com uma fúria silenciosa que quase trincava o espelho.

— É inútil — disse Wandinha, a voz mais baixa e rouca do que o habitual, revelando uma rachadura rara em sua carapaça de ferro. — Meus próprios nervos traem minha vontade. Sou uma casca patética e disfuncional.

Enid aproximou-se devagar, parando atrás dela. Suas mãos coloridas repousaram suavemente sobre os ombros tensos e pontudos de Wandinha. Pela primeira vez na vida, a Addams não se esquivou do toque físico.

— Não diga isso — sussurrou Enid com firmeza carinhosa. — Você derrotou o Crackstone. Você desvendou assassinatos que a polícia inteira não conseguiu resolver. Você é a garota mais teimosa, brilhante e assustadora deste planeta. Acha mesmo que um punhado de nervos preguiçosos vai vencer você?

Wandinha respirou fundo, absorvendo o calor reconfortante que emanava da amiga.

— O processo é degradante.

— O processo é temporário — corrigiu Enid. — E quer saber de uma coisa? Da próxima vez, você não vai apenas se concentrar na raiva. O controle vem do equilíbrio, não só da força bruta. Tenta relaxar um pouco. Eu sei que relaxar é quase um pecado capital para você, mas tenta.

A morena assentiu levemente, um gesto quase imperceptível, mas que para Enid valia mais do que mil agradecimentos formais.

Guiada pela persistência e pelo suporte silencioso da companheira de quarto, a rotina continuou nos dias seguintes com pequenas adaptações. Wandinha passou a associar o treino à meditação sombria, permitindo que o fluxo psíquico se acalmasse em vez de explodir em fúria.

A primeira vitória tangível aconteceu numa terça-feira chuvosa.

Sentada no sanitário, sem o ruído das zombarias ou a pressão do pátio, Wandinha fechou os olhos, respirou o ar úmido e enviou um comando claro e consciente. Um leve estalo elétrico percorreu sua espinha — não de dor, mas de conexão restabelecida.

Um fluxo curto, voluntário e inteiramente controlado respondeu ao seu estímulo.

Ela abriu os olhos devagar. Um brilho de satisfação vingativa cintilou em suas pupilas escuras.

Quando abriu a porta do banheiro, Enid estava roendo as unhas coloridas, sentada na cama. Ao ver a postura da colega, a loira saltou em pé.

— E então? — perguntou ela, ansiosa.

Wandinha endireitou a gola preta do uniforme, erguendo o queixo com toda a arrogância recuperada de sua linhagem ancestral.

— A víbora finalmente aprendeu a obedecer ao seu encantador.

Enid soltou um gritinho animado e deu um salto, quase abraçando a morena, mas conteve-se a tempo de evitar um ferimento com um abridor de cartas, limitando-se a bater palmas frenéticas.

— Ai, meu Deus! Isso é incrível! O desfralde oficial começou! Nós precisamos comemorar! Eu posso postar no blog sem citar nomes, tipo "um amigo venceu uma grande batalha médica secreta"?

— Se você fizer isso, Enid, a sua morte deixará de ser uma hipótese distante para se tornar meu projeto prioritário deste fim de semana — alertou Wandinha, sem nenhuma surpresa na ameaça, embora o canto sutil de sua boca demonstrasse que o veneno nas palavras era puramente teatral.

— Valeu a pena tentar! — riu a loira, sentando-se de novo na cama.

Ainda levariam mais algumas semanas até que as fraldas pudessem ser completamente aposentadas em favor da segurança total de sua independência corporal. Mas, naquela noite, deitada sob os lençóis escuros de sua cama de dossel, Wandinha Addams não sentia o peso sufocante da humilhação que a abatera no pátio.

Havia feridas em seu orgulho, sem dúvida. Mas havia também a certeza inabalável de que, mesmo nas circunstâncias mais grotescas e desprovidas de dignidade, o quarto meio fúnebre e meio colorido de Nunca Mais abrigava algo infinitamente mais forte do que qualquer fraqueza física: a lealdade incondicional da única pessoa capaz de transformar suas piores ruínas em um triunfo compartilhado.

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