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A homofobia nunca e o caminho

Fandom: Favela

Criado: 11/09/2026

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Gosto Amargo

A claridade da manhã invadia a fresta da veneziana com a força de uma faca quente, cortando a penumbra abafada do quarto. O som distante dos canos de descarga estalando nas vielas e o eco distante de uma caixa de som que ainda insistia em tocar funk no pé do morro misturavam-se à dor pulsante nas têmporas de Felipe. Ele estava sentado na beira da cama desfeita, os cotovelos apoiados nos joelhos, com a cabeça baixa.

A boca tinha um gosto horrível. Não era apenas o traço seco do uísque barato misturado com energético que tinha bebido na quadra; era algo que parecia impregnado na sua garganta, uma queimação que nenhuma quantidade de saliva conseguia engolir.

Felipe levantou-se em um salto brusco, sentindo a tontura quase derrubá-lo, e caminhou cambaleante até a pia minúscula do banheiro. Abriu a torneira no máximo, recolheu a água turva nas mãos em concha e esfregou a boca com uma violência desesperada. Enxaguou uma, duas, quatro vezes, usando os nós dos dedos para quase arrancar a pele dos lábios. Olhou-se no espelho rachado acima da pia: os olhos castanhos injetados, o cabelo castanho bagunçado caindo sobre a testa e aqueles traços jovens, quase delicados, que ele tanto odiava quando alguém reparava. Felipe sempre fazia questão de falar grosso, de andar de peito inflado, de rir com desprezo de qualquer um que demonstrasse fraqueza e de tratar qualquer garota que cruzasse seu caminho como mero objeto descartável, tudo para enterrar qualquer suspeita sobre aquela carcaça que julgava "fofa demais" para o lugar onde vivia.

Mas agora, olhando para o reflexo, uma onda violenta de náusea subiu pelo peito.

— Que merda... que porra você fez? — sussurrou para si mesmo, cuspindo no ralo com nojo.

A lembrança veio em um golpe seco, sem aviso. O calor sufocante do quartinho nos fundos do depósito de bebidas, as caixas de cerveja empilhadas até o teto, a tranca enferrujada estalando quando Gabriel bateu a porta.

Gabriel Santino. O cara que andava pelo asfalto e pelo morro como se fosse dono do ar que todo mundo respirava. Alto, com ombros largos cobertos de tatuagens que subiam pelo pescoço até a mandíbula quadrada, Gabriel era o tipo de sujeito que impunha respeito pelo medo e pela marra. Jamais baixava a cabeça, vivia cercado de mulheres a quem tratava com um desdém agressivo, sempre cuspindo comentários sujos sobre qualquer homem que não se encaixasse na sua régua de masculinidade torta.

No topo da laje, a cerca de duzentos metros dali, Gabriel observava o sol subir sobre o emaranhado de telhados de amianto. Estava sem camisa, uma bermuda larga caindo no quadril, um cigarro de palha aceso entre os dedos calejados. As cinzas caíam sobre o concreto gasto enquanto ele soltava a fumaça lentamente contra o vento seco da manhã.

Por fora, a expressão dele era a mesma máscara de pedra, arrogante e impenetrável. Mas, por dentro, Gabriel sentia um turbilhão que jamais admitiria em voz alta para homem nenhum na terra. O corpo dele ainda parecia eletrificado. Onde Felipe havia tocado, a pele parecia febril. Ele lembrava com uma nitidez perturbadora da sensação de ter as mãos enterradas nos cabelos curtos de Felipe, empurrando-o para baixo, sentindo o calor e o ritmo desesperado, a quebra completa de qualquer barreira que ele mesmo jurava ser inquebrável.

Gabriel fechou os olhos por um segundo, engolindo a saliva a seco. Ele não queria apenas lembrar; a constatação aterrorizante era que ele queria de novo. Aquele garoto de boca suja e olhar arrogante, que sempre tentava bater de frente nas rodas de conversa, havia sido completamente dele ali no escuro. E Gabriel tinha adorado cada segundo, muito mais do que jamais havia gostado de qualquer mulher que já deitou na sua cama.

— Que ideia torta... — murmurou Gabriel, sacudindo a cabeça para espantar o pensamento, mas sem conseguir apagar o meio sorriso cínico que brotou no canto da boca. — O moleque acha que manda em alguma coisa.

No quarto de Felipe, o garoto socou a parede de reboco com tanta força que os nós dos dedos esfolaram, deixando um rastro vermelho no tijolo cru.

A humilhação ardia mais que a ressaca. Ter se ajoelhado. Ter olhado para cima e visto o olhar prepotente de Gabriel nos olhos dele. Ele se lembrava de como a bebida e a adrenalina do baile tinham turvado tudo até que a provocação mútua no canto do bar virasse puxão de camisa, respiração colada e, de repente, uma urgência animalesca que nenhum dos dois conseguiu frear. Felipe lembrava de fechar a boca em torno dele, dominado por uma onda de impulso e raiva, e agora odiava cada fibra da própria existência por ter cedido.

Ele vestiu uma camisa preta larga, calçou os chinelos e saiu do barraco batendo a porta de lata com estrondo. Precisava de ar, precisava ver gente, precisava reafirmar que continuava sendo o mesmo sujeito temido e desbocado de sempre.

A ruela estava movimentada. Meninos corriam descalços empinando pipa na laje baixa, enquanto o cheiro de café passado e pastel frito subia das portas abertas. Felipe descia a ladeira em passos pesados, os punhos enfiados nos bolsos da bermuda. Cruzou com uma garota que morava no mesmo beco, alguém que na semana anterior tinha tentado puxar conversa com ele.

— Bom dia, Felipe — disse ela, sorrindo timidamente.

Felipe nem sequer diminuiu o passo. Lançou-lhe um olhar carregado de escárnio, medindo-a de cima a baixo como se fosse lixo.

— Sai do meu caminho, garota — disparou ele, com a voz ríspida e rouca. — Não me enche a porra do saco logo cedo.

A menina murchou na hora, abaixando a cabeça e apertando o passo em direção contrária. Felipe sentiu uma pontada de satisfação vazia. Era assim que as coisas funcionavam. Ninguém mandava nele. Ele era homem, o pegador da área, o cara que não dava moral para ninguém. O veneno que cuspia nos outros servia para mascarar o pânico de que alguém enxergasse através da casca e visse o que havia acontecido horas antes.

Ao se aproximar do bar da esquina, onde os caras costumavam se juntar para beber cerveja no final da manhã, o estômago de Felipe deu um solavanco violento.

Gabriel estava lá.

Sentado em uma cadeira plástica vermelha, apoiado com os braços abertos na mesa de lata, Gabriel parecia uma estátua de arrogância pura. Conversava com dois caras mais velhos, rindo alto de alguma piada pesada sobre uma mulher da comunidade vizinha. Felipe tentou fingir que não o viu, estufando o peito e preparando-se para passar direto como se o outro fosse invisível.

No entanto, assim que a sombra de Felipe tocou o chão da calçada, os olhos escuros de Gabriel se fixaram nele. O riso de Gabriel sumiu, dando lugar àquele olhar pesado, territorial, que parecia arrancar as roupas e a alma de quem estivesse na mira.

Gabriel deu um gole na garrafa de cerveja e a colocou com força sobre a mesa.

— E aí, Meneses — chamou Gabriel, com a voz grave ressoando por cima do barulho do tráfego.

Felipe estancou. Sentiu o sangue ferver e gelar ao mesmo tempo. As mãos tremeram dentro dos bolsos, mas ele virou o rosto lentamente, exibindo sua melhor expressão de nojo.

— O que você quer, Santino? — respondeu Felipe, cuspindo no chão de cimento ao lado.

Gabriel inclinou a cabeça para o lado, os olhos brilhando com uma malícia contida que fez as pernas de Felipe quase vacilarem. O homem alto levantou-se devagar, esticando a coluna e mostrando os músculos tensos sob as tatuagens. Os outros sujeitos na mesa nem prestaram atenção, acostumados com o jeito folgado de Gabriel.

Ele deu três passos largos, parando a menos de meio metro de Felipe. A diferença de altura era evidente; Gabriel precisava abaixar o queixo para encará-lo, o que só deixava a situação mais insuportável para o mais baixo.

— Fala baixo, moleque — disse Gabriel, o tom quase suave, mas carregado de uma pressão sufocante. — Perdeu o respeito foi?

— Nunca tive respeito por você — rebateu Felipe, entre dentes, os olhos fixos nos de Gabriel. — Sai da minha frente.

Gabriel deu mais um passo, forçando Felipe a recuar meio centímetro. O cheiro de sabonete barato e fumo de corda que vinha de Gabriel era o mesmo que estava no quarto trancado do baile. O peito de Gabriel quase tocava o de Felipe.

— Tem certeza que quer bancar o brabo aqui na rua? — murmurou Gabriel, baixo o suficiente para que apenas os dois ouvissem. Os olhos dele desceram rapidamente para os lábios de Felipe e voltaram a subir. — Ontem você não tava falando grosso assim não.

A menção velada fez o estômago de Felipe arder em ácido puro. A raiva o cegou. Ele avançou um centímetro, enfiando o indicador no peito tatuado de Gabriel, ignorando o perigo palpável.

— Cala essa tua boca suja — sibilou Felipe, a voz tremendo de puro ódio. — Aquilo foi uma merda. Foi o álcool, nada além disso. Eu tenho nojo daquilo, tenho nojo de você e de qualquer vagabundo igual a você. Entendeu? Se você abrir esse teu bico imundo pra falar qualquer coisa, eu te quebro na porrada.

Gabriel não se moveu. O dedo de Felipe pressionado contra o seu esterno não o incomodava em nada. Pelo contrário: ver o garoto espumando de raiva, os olhos cheios de um desespero agressivo, só aumentava a sensação doentia de controle que Gabriel sentia desde a madrugada. Gabriel não tinha vergonha do que tinha feito; para ele, ter Felipe de joelhos havia sido a confirmação do seu poder, e a intensidade daquilo havia grudado na sua mente feito piche quente.

Gabriel soltou um riso curto pelo nariz, cínico e desdenhoso. Segurou o pulso de Felipe com uma rapidez assustadora, apertando os ossos finos com força suficiente para machucar, mas sem fazer alarde.

— Tira a mão de mim, caralho — rosnou Felipe, tentando puxar o braço, mas a pegada de Gabriel era de ferro.

— Escuta aqui, moleque — disse Gabriel, colando o rosto ao dele, os dentes quase encostando na orelha de Felipe. — Tu pode latir o quanto quiser pros outros aqui fora. Pode pagar de brabo, pode xingar mulher, pode falar as merdas que tu quiser pra fingir que é homem. Mas a gente sabe o que rolou lá dentro.

Felipe cerrou os dentes até doer a mandíbula, recusando-se a soltar um gemido de dor pelo aperto no pulso.

— Eu odeio você — cuspiu Felipe, fitando Gabriel nos olhos com todo o rancor acumulado. — Odeio o que aconteceu. Se pudesse voltar atrás, eu arrancava a porra da minha própria língua antes de encostar em você.

O olhar de Gabriel escureceu por uma fração de segundo, tocado por uma faísca de frustração que ele rapidamente escondeu sob sua arrogância habitual. Ele não gostou de ouvir aquilo, mas o desafio em si o excitava.

— É mesmo? — Gabriel soltou o pulso de Felipe com um tranco desdenhoso. — Então lava essa língua direito, Meneses. Porque a gente ainda vai se cruzar muito por aí.

Felipe recuou dois passos, massageando o pulso dolorido, o peito subindo e descendo com força. Olhou ao redor rapidamente, com pavor de que alguém tivesse entendido o teor da conversa, mas o beco continuava em sua rotina barulhenta de sempre.

— Vai se foder, Santino — disparou Felipe, antes de dar as costas e acelerar o passo pelo asfalto quente.

Gabriel continuou parado no mesmo lugar, observando as costas de Felipe se afastarem ladeira abaixo. O garoto andava rígido, os ombros tensos, exalando aquela postura forçada de valentão que tentava esconder o estrago deixado para trás.

Gabriel levou a mão à boca, limpando os lábios com o dorso do polegar, e sentiu o coração acelerar no peito de uma forma que ele julgava impossível para um sujeito como ele. Ele não ia esquecer. E, por mais que Felipe jurasse ódio até o fim dos seus dias, Gabriel sabia, com a certeza fria dos predadores, que aquele nó não se desfaria tão fácil.

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