
Amor
Fandom: Mulan
Criado: 12/09/2026
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Entre Sombras e Aço
O peso da armadura de seu pai parecia aumentar a cada passo que o cavalo dava na lama espessa daquela manhã cinzenta. A chuva fina molhava o tecido gasto que cobria seus ombros, mas Tatsuyo Nakamura mal piscava. Seus olhos pretos, atentos e afiados, fitavam a distância onde os primeiros estandartes do acampamento imperial tremulavam contra o vento gélido da montanha.
Ela não havia cortado os cabelos. Muitas pessoas diziam que para um homem ir à guerra, ele precisava cortar os laços com a vaidade, mas Tatsuyo sabia muito bem que incontáveis guerreiros mantinham suas longas mechas como sinal de força e virilidade, prendendo-as em coques austeros no alto da cabeça. Assim ela fizera. Seus cabelos negros e meio ondulados, que batiam na altura da cintura quando soltos, estavam agora puxados para trás em uma tensão dolorosa, firmados por uma faixa de couro e escondidos em parte sob o capacete de metal fundido. Sua pele parda brilhava levemente com o orvalho, e ela mantinha o queixo erguido para disfarçar o tremor de seus lábios.
Ela tinha vinte anos, media apenas um metro e sessenta e três e estava prestes a cometer a maior traição da sua vida para salvar o homem que mais amava.
— Ei! Ei, mocinha! Quer dizer, rapazinho! Acorda para a vida! — Um sussurro abafado e irritado ecoou de dentro da armadura, na altura do peito de Tatsuyo.
Tatsuyo engoliu em seco e baixou ligeiramente a cabeça, fingindo ajeitar as rédeas.
— Cala a boca, Mushu — murmurou ela entre os dentes, tentando não mover os lábios. — Estamos quase na entrada. Se alguém ouvir você, serei executada antes mesmo de tocar numa lança.
A cabeça vermelha e espalhafatosa do pequeno dragão emergiu por entre as placas de bronze, com os bigodes tremendo de indignação.
— Executada nada! Comigo ao seu lado, você é uma força da natureza! Um furacão de pura masculinidade ancestral! — Mushu gesticulou com as garras minúsculas antes de se esconder novamente, assustado com o trote de um guarda próximo. — Mas falando sério, Tatsuyo... quer dizer, Kai. Você precisa treinar essa postura. Homens de verdade andam como se tivessem pedras presas nas botas! Estufa esse peito! Não, espera, não estufa tanto, senão vão notar que você tem curvas onde só deveria ter músculo!
Tatsuyo suspirou, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. Ajustou as faixas apertadas que comprimiam seu peito sob a túnica grossa. A dor era constante, mas necessária.
— Kai Yume — repetiu ela para si mesma, baixando o tom de voz para um registro rouco e gutural. — Eu sou Kai Yume. Filho de Nakamura. Um soldado.
— Isso! Mais grosso! Pense em algo nojento! Cuspa no chão! — sugeriu Mushu de dentro da couraça.
— Eu não vou cuspir no chão, Mushu!
— Todos os homens cospem, é a linguagem universal da testosterona! E coce algo! Homens adoram coçar coisas em público!
Tatsuyo revirou os olhos e desmontou do cavalo com todo o cuidado para não cambalear sob o peso do ferro. O acampamento militar de Wu Zhong era um caldeirão caótico de terra batida, tendas brancas e fumaça de fogueiras que lutavam para queimar sob a umidade. Havia centenas de homens por toda parte: camponeses desajeitados, filhos de nobres arrogantes e mercenários mal-encarados. O cheiro de cavalo, metal enferrujado e suor acre permeava o ar.
Ela amarrou o cavalo em uma das estacas coletivas e seguiu em direção à longa fila de registro. O coração batia tão forte contra a armadura que Tatsuyo temia que o som pudesse denunciá-la. Ao redor, as conversas eram altas, pontuadas por risadas rudes e xingamentos.
— Olha aquele ali, tropeçando nos próprios pés! — gritou um homem troncudo mais à frente, empurrando um rapaz franzino que caiu de joelhos na lama.
Uma gargalhada geral se espalhou pela multidão. Tatsuyo tentou passar despercebida pela lateral, mas o homem troncudo, encorajado pelo público, virou-se bruscamente e esbarrou nela de propósito.
O impacto a fez vacilar. Sendo consideravelmente mais baixa que a maioria ali, ela teve que fincar os pés na lama para não cair.
— Olha por onde anda, tampinha! — rugiu o homem, aproximando o rosto avermelhado do dela. — O que foi? O bebê esqueceu a chupeta em casa?
Tatsuyo cerrou os dentes. O instinto mandava recuar e pedir desculpas como sempre fora ensinada a fazer em sua aldeia, mas a voz de Mushu disparou em sua mente como um sino estridente: Mostre quem manda! Dê uma cabeçada nele! Não deixe barato!
Ela fechou as mãos em punhos cobertos de couro e ergueu os olhos pretos, encarando o valentão com uma frieza que nem sabia que possuía.
— Se você tivesse a visão tão aberta quanto essa boca — disse Tatsuyo, forçando sua voz mais áspera —, teria me visto passar.
O silêncio caiu instantaneamente ao redor deles. O grandalhão arregalou os olhos, chocado com a audácia do novato magro.
— Ora, seu moleque atrevido... — Ele ergueu um punho do tamanho de um melão, pronto para desferir um golpe devastador.
Tatsuyo se preparou para esquivar, mas antes que a briga começasse, o som de um chicote estalando no ar quebrou a tensão como um trovão. O cavalo que surgiu em seguida era negro como a noite, e a figura sobre ele fez com que todos os recrutas se endireitassem num reflexo imediato de pavor e respeito.
— Já chega — ressoou uma voz firme, autoritária e perigosamente calma.
O homem baixou o punho imediatamente, recuando dois passos na lama. Tatsuyo respirou fundo e olhou para cima, encontrando a causa daquele silêncio absoluto.
Era o capitão.
Ele desmontou com uma agilidade fluida que traía o peso da armadura ornamental que usava. Tinha um metro e oitenta de pura imponência física, com uma pele branca impecável que contrastava de maneira fascinante com os cabelos curtos, repicados e alvos como a primeira neve do inverno. Seus olhos castanhos escuros pareciam lâminas afiadas, perscrutando cada homem ali como se medisse o valor de suas vidas em segundos.
Aquele era Kuro. O capitão mais jovem a comandar uma guarnição inteira na fronteira norte, famoso tanto por sua genialidade tática quanto por sua intensidade implacável.
Kuro caminhou até o centro da confusão, tirando as luvas de couro com uma lentidão calculada. Por baixo da couraça ajustada, mesmo sob as camadas militares, ficava evidente o porte incrivelmente musculoso; o abdômen esculpido e rígido que a farda mal conseguia disfarçar desenhava-se com nitidez a cada respiração controlada. Havia uma aura quase predatória nele, um vigor que transbordava em confiança.
Ele parou primeiro diante do bruto que tentara agredir Tatsuyo.
— Qual é o seu nome, soldado? — perguntou Kuro, a voz suave, mas carregada de uma promessa de dor.
— Chen, senhor! — gaguejou o homem, suando frio.
— Chen. Parece que você tem muita energia para gastar antes mesmo de começarmos os treinamentos. Se quiser lutar sem ordens, posso colocá-lo para limpar as latrinas com as próprias mãos até que seus braços caiam. O que acha?
— N-não, senhor! Me perdoe, capitão!
— Ótimo. Volte para a fila antes que eu mude de ideia.
Chen curvou-se apressadamente e correu como um cão assustado. Kuro então virou-se devagar, seus olhos castanhos pousando diretamente sobre Tatsuyo.
O ar pareceu sumir dos pulmões dela. O capitão tinha apenas vinte e quatro anos, mas carregava o peso de um líder experiente. No entanto, havia algo a mais em seu olhar. Um brilho divertido, quase descarado, que varreu Tatsuyo da cabeça aos pés sem a menor cerimônia.
Kuro deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. Tatsuyo precisou erguer a cabeça para encará-lo, sentindo o calor que emanava do corpo do homem à sua frente. Kuro inclinou-se ligeiramente, observando as feições dela com uma curiosidade descarada que beirava a provocação.
— E você... — disse ele, com um meio sorriso que curvou apenas o canto de seus lábios bem desenhados. — Quem é você, novato?
— Kai Yume, senhor — respondeu ela de pronto, lutando para manter a voz grave e uniforme.
Kuro semicerrou os olhos. Ele deu mais meio passo, tão perto que Tatsuyo pôde sentir o cheiro dele: uma mistura de óleo de ferro, couro limpo e algo surpreendentemente amadeirado e quente. O capitão cruzou os braços sobre o peitoral definido, o movimento fazendo os músculos de seus ombros largos flexionarem contra a túnica escura.
— Kai Yume... — repetiu Kuro, saboreando as palavras como se provasse uma fruta exótica. Seus olhos desceram brevemente pelo pescoço de Tatsuyo, detendo-se por um milissegundo na linha da mandíbula suave e na textura da pele parda antes de voltarem aos olhos pretos dela. — Nunca vi mãos tão delicadas em alguém que veio lutar uma guerra. E essa pele... quase não viu sol de verdade, viu? De onde você é?
Um rubor involuntário tentou subir pelas bochechas de Tatsuyo, mas ela cerrou os maxilares para conter a vergonha. Havia um tom malicioso na voz dele, uma insinuação descarada que a pegou totalmente desprevenida. O homem não estava apenas avaliando um soldado; ele parecia genuinamente intrigado com a graciosidade quase feminina daquele suposto garoto.
— Sou do sul, capitão — respondeu Tatsuyo, sustentando o olhar com firmeza obstinada. — Minha família trabalha com tecelagem e arquivos. Mas meu pai serviu ao imperador, e eu estou aqui para cumprir o dever dele. Minhas mãos podem ser suaves, mas aprendem rápido.
Kuro soltou um riso baixo, rouco e provocador, que fez um arrepio estranho correr pela espinha de Tatsuyo. Ele estendeu a mão com uma lentidão calculada e, com dois dedos, tocou a ponta do queixo dela, erguendo o rosto de Tatsuyo para a luz cinzenta.
O toque foi quente. Quente demais. E durou mais tempo do que qualquer inspeção militar justificaria.
— Tecelagem, é? — Kuro murmurou, os olhos castanhos brilhando com um divertimento quase indecente enquanto analisava a boca de Tatsuyo. — Isso explica o rosto bonito. Se os invasores fossem vencidos por olhares bonitos, Kai Yume, você já teria vencido metade da guerra para nós.
Dentro da armadura de Tatsuyo, Mushu se contorceu de agonia e sussurrou desesperado contra suas costelas:
— Ai, meus ancestrais sagrados... esse cara tá flertando com você ou tá tentando te devorar vivo?! Não deixa ele pegar no seu queixo, dá um tapa nessa mão atrevida!
Tatsuyo não deu um tapa, mas deu um passo firme para trás, rompendo o contato físico e prestando uma continência tensa, mas perfeita.
— Estou aqui para empunhar a espada, senhor. Não para ser enfeite de acampamento.
A audácia da resposta fez com que os soldados ao redor prendessem a respiração mais uma vez. Kuro franziu a testa por uma fração de segundo, surpreso pela rejeição firme, mas logo seu sorriso arrogante voltou, ainda mais largo. Ele parecia ter gostado da resposta. Gostado até demais. A chama em seus olhos aumentou, revelando o homem competitivo e ligeiramente libertino por trás da farda impecável.
— Vamos ver se essa sua língua afiada consegue acompanhar os seus braços quando estivermos no campo, Kai — disse o capitão, baixando a mão e voltando-se para o resto dos homens que observavam a cena.
Kuro caminhou até o centro do pátio, desabotoando as fivelas de sua capa pesada e jogando-a sobre um caixote de provisões com um gesto teatral. Em seguida, desatou a couraça superior de metal, revelando uma túnica fina e colada ao corpo que deixava muito pouco para a imaginação. O desenho impressionante dos músculos do abdômen, o talhe rígido do tronco e os braços fortes e cheios de cicatrizes ficaram à mostra para quem quisesse ver. O homem claramente gostava de exibir a forma impecável que conquistara com anos de treino brutal.
Ele virou-se para a tropa desorganizada, a voz assumindo o comando absoluto mais uma vez.
— Vocês acham que são homens porque receberam uma convocação do imperador? — bradou Kuro, caminhando entre as fileiras de novatos assustados. — Vocês acham que sabem o que é honra? O que eu vejo aqui é um bando de garotos assustados, moleques mimados e camponeses que mal sabem segurar uma enxada, quanto mais uma lança!
Tatsuyo permaneceu imóvel na fila, os olhos fixos na postura dominante do capitão. Ela odiava admitir, mas a presença daquele homem era quase hipnótica. Ele dominava o espaço como um predador em seu território.
— Nosso inimigo atravessou a muralha — continuou Kuro, a voz cortando o vento frio. — Eles não têm piedade. Eles não se importam com quem vocês foram no passado. A partir de hoje, sob o meu comando, vocês vão comer terra, vão sangrar e vão desejar nunca ter nascido. Aqueles que sobreviverem aos meus treinos... talvez, apenas talvez, se tornem homens de verdade!
Ele parou novamente, girando nos calcanhares e lançando um último olhar direto para Tatsuyo. Seus olhos castanhos brilharam com um desafio silencioso, uma promessa velada de que não tiraria os olhos daquele jovem insolente do sul.
— Peguem suas armas no depósito. O treino começa ao meio-dia — ordenou Kuro friamente. — Se alguém se atrasar, vai correr dez léguas com sacos de areia nas costas. Dispensados!
Os recrutas começaram a se dispersar em um turbilhão de murmúrios assustados e passos apressados. Tatsuyo soltou o ar que nem percebera que estava prendendo, sentindo os joelhos finalmente tremerem sob o peso da armadura.
Ela caminhou para longe da multidão, abrigando-se sob a sombra de uma lona lateral para recuperar o fôlego.
— Pela barba sagrada do Grande Dragão de Pedra! — Mushu colocou a cabeça para fora da gola, abanando-se dramaticamente com uma das garras. — Que homem é aquele?! Ele é perigoso, Tatsuyo! Você viu o jeito que ele olhou pra você? Ele tem cara daquele tipo de nobre depravado que coleciona favoritos no harém! Se você não engrossar essa voz e começar a se cobrir de lama, aquele branquelo vai descobrir tudo antes da hora do almoço!
— Cala a boca, Mushu... — Tatsuyo pressionou a mão contra o peito, sentindo o próprio coração galopar descontrolado. Não apenas pelo medo de ser descoberta, mas pela memória persistente do toque firme e quente dos dedos de Kuro contra a sua pele.
Ela tocou o queixo onde os dedos dele haviam pousado momentos antes. Havia desafio naqueles olhos castanhos, mas também havia uma atenção que ela definitivamente não precisava atrair se quisesse sair daquela guerra com a cabeça ainda sobre os ombros.
— Ele não vai descobrir nada — afirmou ela, erguendo a cabeça e ajustando o coque alto sob o elmo de metal. — Eu vou treinar mais duro que todos eles. Ele vai me ver como um soldado, e nada mais.
— Tomara que sim, garota — resmungou Mushu, escondendo-se de volta sob as placas frias da armadura. — Porque se ele resolver treinar você no mano a mano, não sei se vai ser a espada dele que você vai ter que desviar!
Tatsuyo revirou os olhos, apertou as correias de couro das manoplas e marchou em direção ao arsenal. Kai Yume tinha acabado de chegar ao inferno, e o comandante daquele lugar parecia mais do que disposto a testar cada um dos seus limites.
