
Meu amigos tão com fome (enhypen)
Fandom: enhypen, canibal
Criado: 12/09/2026
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Aroma de Ferro e Açúcar
A casa no topo da colina sempre cheirava a pinho, alfazema e um toque quase imperceptível de algo metálico. Era uma mansão de arquitetura sóbria, cercada por árvores altas cujas copas filtravam a luz da tarde, transformando os cômodos em refúgios de penumbra e silêncio. Para qualquer pessoa da cidade, aquele lugar era envolto em boatos misteriosos sobre sete garotos que raramente interagiam com os outros moradores. Para S/N, no entanto, era apenas o lar de seus melhores amigos.
Ela estava sentada no braço do grande sofá de veludo escuro da sala de estar, observando Ni-ki jogar videogame no tapete felpudo. Mais adiante, perto da janela alta, Sunghoon lia um livro de capa dura, a postura impecável e a expressão impassível que costumava afastar qualquer estranho, mas que para ela representava apenas concentração pura.
A maioria das pessoas teria fugido sem olhar para trás no momento em que a verdade viesse à tona. Mas S/N não era a maioria das pessoas.
Ela se lembrava com clareza da noite, três meses atrás, em que desceu até a despensa subterrânea à procura de um frasco de picles que Jay havia mencionado. Em vez de conservas comuns, ela encontrou a luz branca e clínica de um açougue particular, com ganchos brilhantes e bandejas meticulosamente seladas a vácuo. Ao lado da pia de aço inoxidável, Heeseung lavava as mãos cobertas de vermelho, enquanto Jungwon amarrava sacos plásticos escuros com a calma de quem apenas realiza uma tarefa doméstica.
Naquele dia, nenhum deles tentou negar. Heeseung simplesmente desligou a torneira, secou as mãos em um pano de prato imaculadamente branco e explicou, com uma serenidade estarrecedora, o que eles eram. Não eram vampiros de histórias infantis ou monstros sobrenaturais saídos de mitologias antigas; eram humanos, mas carregavam uma fome diferente, uma necessidade biológica implacável de carne humana para sobreviver.
Qualquer mente sã teria entrado em pânico, gritado ou corrido para a delegacia. S/N apenas se sentou nos degraus da escada e olhou para as próprias mãos, tentando processar o choque. Depois, olhou para o rosto apreensivo de Jungwon — o líder do grupo, sempre tão seguro, mas que na época parecia apavorado com a ideia de ser rejeitado por ela. No fim, ela não sentiu horror. O amor que nutria por eles, a lealdade cultivada ao longo de anos, simplesmente superou o tabu moral. Eles nunca haviam caçado ninguém inocente, apenas aqueles que a sociedade já havia esquecido ou descartado em becos escuros, e, acima de tudo, nunca haviam demonstrado qualquer traço de crueldade com ela.
— S/N, você está voando de novo — disse Sunoo, entrando na sala com um sorriso radiante e duas xícaras de chá nas mãos. Ele se aproximou, entregando-lhe uma das porcelanas quentes. — Se continuar pensando tanto, seu chá vai esfriar antes de dar o primeiro gole.
— Estava apenas pensando em vocês — respondeu ela, sorrindo e aceitando a xícara. — E no quanto essa casa consegue ser tranquila, mesmo com sete rapazes morando juntos.
— É porque nós somos muito bem educados — rebateu Jake, que descia as escadas com os cabelos castanhos desgrenhados e um suéter folgado. Ele se jogou ao lado de Ni-ki no chão, bagunçando os cabelos do mais novo. — Ou talvez seja porque o Jay não deixa ninguém fazer bagunça sem levar uma bronca de trinta minutos.
— Eu ouvi meu nome! — a voz vinda da cozinha soou alta e límpida, logo acompanhada pelo próprio Jay, que usava um avental preto amarrado na cintura. Ele segurava uma colher de pau. — Se alguém tem alguma reclamação sobre a organização desta casa, está convidado a assumir as refeições a partir de hoje.
— Nem pensar — disse Ni-ki rapidamente, sem tirar os olhos da tela do videogame. — Sua comida é a única coisa que me mantém vivo, Jay-hyung.
— Pelo menos você sabe demonstrar gratidão — Jay bufou, mas um sorriso discreto curvou o canto de seus lábios. Ele então olhou para S/N. — Você me ajuda a cortar os legumes para o seu jantar? O Sunghoon prometeu que ajudaria, mas resolveu fingir que não existe.
Sunghoon nem sequer levantou os olhos das páginas.
— Eu disse que ajudaria se você não fizesse perguntas sobre a trama do livro a cada dois minutos.
S/N riu, colocando a xícara sobre a mesa lateral e levantando-se com entusiasmo.
— Eu ajudo, Jay. Deixe ele em paz com a literatura dele.
Na cozinha ampla, o cheiro de ervas finas e caldo de frango fervendo sobre o fogão de ferro preenchia o ar. Para ela, Jay sempre preparava refeições comuns, feitas com os ingredientes mais frescos que o dinheiro podia comprar no mercado central da cidade. Era um ritual sagrado para ele: garantir que S/N estivesse bem alimentada, saudável e segura sob o teto deles.
— O Heeseung e o Jungwon ainda estão na cidade? — perguntou ela, puxando uma tábua de madeira pesada e alcançando a cesta de pimentões e cebolas.
— Foram resolver algumas pendências com a entrega de suprimentos da próxima semana — explicou Jay, mexendo o molho na panela grande. A expressão dele suavizou-se, e ele a olhou de soslaio. — Eles devem voltar antes do anoitecer. Você tem certeza de que não se importa de ficar aqui enquanto nós... bem, você sabe?
— Jay, já conversamos sobre isso centenas de vezes — respondeu S/N, pegando a faca de chef mais afiada do suporte de madeira. A lâmina reluziu sob a iluminação quente da bancada. — Eu sei quem vocês são. Eu já vi tudo o que há para ver e continuo aqui por escolha própria. Vocês são minha família. Eu confio em vocês mais do que confio em mim mesma.
O rapaz parou de mexer o molho por um instante. Seus olhos castanhos, geralmente tão controlados e intensos, exibiram uma centelha de afeto genuíno.
— Às vezes eu acho que você é a pessoa mais corajosa do mundo, S/N. Ou a mais inconsequente.
— Talvez um pouco dos dois — gracejou ela, posicionando uma maçã grande sobre a tábua para picá-la para a sobremesa que planejava fazer mais tarde.
A conversa continuou em um ritmo confortável. Do outro cômodo, vinham as risadas ocasionais de Jake e os resmungos fingidos de frustração de Ni-ki. O clima na casa era de pura serenidade doméstica. Era a ilusão perfeita de normalidade que S/N havia aprendido a amar e proteger. Ela nunca tivera medo dos olhos deles, nunca recuara diante dos segredos obscuros que eles guardavam trancados a sete chaves. Para ela, o Enhypen era um porto seguro.
Até aquele exato segundo.
A maçã escorregou sob a pressão da faca. A casca lisa e encerada desviou a lâmina afiada em um ângulo imprevisível. Em uma fração de segundo, a faca de aço alemão cortou a polpa da fruta e desceu violentamente de encontro à palma da mão esquerda de S/N.
O corte foi profundo, rasgando a pele macia da base do polegar até o meio da mão.
— Ai! — exclamou ela em um reflexo involuntário de dor, soltando a faca, que bateu na madeira com um baque seco antes de rolar até o chão.
O silêncio que se seguiu não foi imediato, mas se propagou como uma onda gélida.
O sangue jorrou com força, vivo, quente e escarlate, escorrendo pelos dedos dela e pingando pesadamente sobre a bancada branca. O som de cada gota acertando a superfície límpida — plop, plop, plop — pareceu ecoar por toda a estrutura da mansão.
No fogão, a colher de pau caiu das mãos de Jay. O pedaço de madeira bateu no chão com um estalo que soou ensurdecedor.
S/N pressionou a mão ferida contra o peito, cerrando os dentes com a ardência aguda.
— Droga, Jay, eu sou um desastre... Você tem uma gaze por perto? Eu acho que foi bem fundo...
Jay não respondeu.
Quando S/N ergueu os olhos para encará-lo, o ar ao seu redor pareceu subitamente rarefeito. A figura acolhedora do amigo que cozinhava havia desaparecido por completo. Jay estava imóvel, os ombros tensos como molas prestes a arrebentar, o peito subindo e descendo em respirações curtas e descompassadas. Suas pupilas estavam tão dilatadas que a íris escura quase sumira, transformando seus olhos em poços negros e insondáveis. As narinas dele se expandiam, inalando o vapor metálico que subia da ferida dela.
— Jay...? — chamou ela, a voz saindo mais fraca do que pretendia.
Pela primeira vez em meses, um arrepio gélido e primitivo percorreu a espinha de S/N.
Antes que Jay pudesse dar um passo, a porta da cozinha foi invadida. Sunghoon estava ali. Ele não caminhara; movera-se com uma rapidez anormal, quase espectral. O livro que segurava com tanto esmero havia sido deixado no chão da sala. Sua boca estava ligeiramente entreaberta, e uma linha fina de saliva brilhava no canto de seus lábios. Seus olhos, antes calmos e reflexivos, estavam fixos exclusivamente na mão ensanguentada de S/N.
Logo atrás dele, surgiram Jake e Ni-ki. O semblante descontraído e juvenil dos dois havia sido varrido, substituído por expressões que S/N jamais imaginara ver direcionadas a ela. Eram olhares de lobos que avistavam a presa ferida na neve. Olhos vazios de racionalidade, consumidos por uma necessidade ancestral, faminta e avassaladora.
— Que cheiro... é esse? — sussurrou Ni-ki, a voz rouca, quase irreconhecível, carregada de uma fascinação doentia.
— S/N... — murmurou Sunoo, aparecendo no corredor. O rosto doce do garoto estava retorcido em uma batalha interna visível. Ele cravava as unhas nas próprias palmas das mãos, tremendo, lutando contra o impulso que parecia gritar em cada fibra do seu corpo. — O que você... o que você fez?
O sangue dela não parava de pingar. O odor de ferro puro, misturado ao calor do corpo vivo, inundava a cozinha. Não era a carne congelada ou processada que eles compravam e preparavam para manter a sobrevivência em segredo. Era vida fresca, latejante, pura e doce.
Sunghoon deu o primeiro passo em direção a ela. Não era o passo gracioso de quem deslizava no gelo, mas o avanço lento e calculado de um predador encurralando a caça.
— Jay... Sunghoon... parem — pediu S/N, recuando um passo até que suas costas colidiram contra o balcão oposto. O coração dela batia tão forte nas têmporas que quase abafava os próprios pensamentos.
Pela primeira vez desde que descobrira a verdade sobre eles, o terror a atingiu com a força de um maremoto. Não era um medo abstrato ou filosófico; era a constatação biológica, gravada no DNA humano há milhares de anos, de que ela estava diante de monstros que poderiam rasgá-la em pedaços antes que ela conseguisse piscar.
— Está cheirando tão bem... — Jake murmurou em transe, dando dois passos à frente. Seus dedos se fecharam no ar, imitando o gesto de segurar algo frágil. — Tão doce. Nunca senti nada assim. É diferente de tudo.
— Afastem-se! — a voz de Jay cortou o ar como um chicote, mas ele próprio parecia prestes a quebrar. Ele deu um passo à frente, interpondo-se entre S/N e os outros três, mas seu pescoço continuava virado na direção da garota, os olhos brilhando em um delírio faminto enquanto olhava para as gotas vermelhas que manchavam a blusa dela. — Nós... nós não podemos. Vocês sabem que não podemos!
— Mas Jay... olha para ela — sibilou Ni-ki, dando mais um passo. As veias do pescoço do rapaz mais novo estavam sobressaltadas. — É só um pouco. Ela tem tanto...
— Cale a boca, Ni-ki! — gritou Sunoo, segurando a própria cabeça com as duas mãos, embora seus próprios olhos não conseguissem se desviar do pulso de S/N. — Não diga isso! Ela é a S/N! É a nossa S/N!
A confusão sensorial e o desespero tornaram o ar sufocante. S/N sentiu lágrimas de puro pânico queimarem em seus olhos. Ela olhava para os amigos — os mesmos garotos que a cobriam com cobertores quando ela adormecia assistindo filmes, que preparavam chocolate quente quando ela estava triste — e só conseguia enxergar dentes afiados, pupilas dilatadas e uma fome voraz que não reconhecia amizade, amor ou lealdade.
Ela tentou alcançar o pano de prato para estancar a ferida, mas suas mãos tremiam tanto que ela acabou esbarrando em um copo de vidro. O copo caiu no azulejo, estilhaçando-se com um estalo agudo.
O barulho serviu como um gatilho.
Sunghoon avançou.
— Não! — gritou S/N, encolhendo-se e fechando os olhos com força, esperando a dor do primeiro golpe.
O impacto veio, mas não contra ela.
Dois corpos colidiram violentamente contra a bancada. O som de rosnados abafados e carne contra carne ecoou pela cozinha.
Quando S/N abriu os olhos, viu Heeseung prendendo Sunghoon contra o armário com o braço firme contra a garganta do mais novo. Na entrada da cozinha, Jungwon segurava Ni-ki pelas costas, puxando o caçula para longe com uma força descomunal, enquanto o garoto se debatia em um frenesi cego.
Heeseung respirava pesadamente. Ele usava um sobretudo escuro, recém-chegado da rua, e seus olhos também estavam brilhando em uma tonalidade perigosa ao inalar o sangue fresco no ar. As veias de seu rosto estavam marcadas, e a mandíbula estava tão trincada que os músculos pareciam prestes a se romper. Mas ele mantinha o controle através de um esforço sobre-humano que fazia suas mãos tremerem.
— Todos vocês... para fora da cozinha — ordenou Heeseung, a voz vibrando em uma frequência tão autoritária e gutural que arrepiou até o último fio de cabelo de S/N. — Agora!
— Hyung... o sangue dela... — Jake tentou argumentar, a voz quebrando em uma súplica miserável.
— Eu mandei saírem! — rugiu Heeseung, empurrando Sunghoon para o lado e encarando cada um deles com uma ferocidade implacável. — Jungwon, tire eles daqui. Tranque a porta da sala. Não me façam esquecer quem nós somos!
Jungwon, que também lutava bravamente contra o próprio reflexo animal, assentiu com os dentes cerrados. Com a ajuda de Sunoo, que parecia a ponto de chorar de aflição, eles empurraram Jake e Ni-ki para fora da cozinha, seguidos por Sunghoon, que ainda lançou um último olhar faminto e devastado sobre a poça carmesim antes de a porta de correr ser puxada com força, isolando o ambiente.
O silêncio que sobrou na cozinha era pesado, quebrado apenas pela respiração ofegante de Heeseung e pelo soluçar silencioso de S/N.
Jay ainda estava parado a dois metros dela. Ele havia caído de joelhos, as mãos apoiadas no chão ensanguentado, o corpo curvado em agonia enquanto lutava para não rastejar em direção aos pés dela.
— Eu sinto muito... — murmurou Jay, com a voz embargada pela dor do controle absoluto. — S/N... me desculpe... me desculpe...
Heeseung deu as costas a Jay e caminhou lentamente até S/N. Ele se aproximou com cuidado, como alguém que se aproxima de um animal assustado, mas seus próprios passos eram rígidos, a batalha interna evidente em cada linha de sua expressão. Ele retirou o lenço de seda do bolso do sobretudo.
— Não olhe para mim com medo — disse Heeseung, a voz falha, quase inaudível, traindo a tentação violenta que ainda martelava sua mente. — Por favor, S/N. Qualquer coisa, menos isso.
Ele estendeu a mão com cautela extrema. Seus dedos tocaram o pulso dela, e S/N não pôde evitar um estremecimento violento, recuando milímetros contra o balcão. O toque de Heeseung era frio como gelo, e a garota sentiu o tremor nas pontas dos dedos dele.
— Eu vou cuidar disso — sussurrou ele, os olhos cravados firmemente nos olhos dela, recusando-se conscientemente a olhar para a ferida aberta que continuava a manchar a pele alva. — Mas você precisa segurar a respiração. E precisa lembrar de quem nós somos quando essa névoa passar.
Com uma precisão dolorosa e rápida, ele envolveu o tecido escuro ao redor da palma da mão dela, apertando com firmeza para estancar o fluxo de sangue. O alívio momentâneo da pressão e a barreira visual do tecido sobre a ferida pareceram quebrar, aos poucos, o transe animalesco que havia se apossado da casa.
Jay soltou um longo suspiro no chão, desabando de bruços enquanto tentava acalmar os próprios batimentos.
S/N olhou para o lenço encharcado, depois para o rosto pálido de Heeseung, cujas veias lentamente começavam a recuar. O coração dela ainda disparava no peito como o de um pássaro enjaulado.
A ilusão havia se desfeito para sempre. Ela não estava entre humanos excêntricos que possuíam uma dieta incomum; ela estava no meio de predadores adormecidos. E, enquanto sentia a dor latejante na mão cortada, ela finalmente compreendeu a verdade: a única coisa que a mantinha viva ali dentro não era a natureza deles, mas a frágil, dolorosa e quase impossível força de vontade que eles tinham para amá-la.
