
Meus sonhos
Fandom: Peter pan
Criado: 12/09/2026
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O Sussurro das Estrelas Proibidas
A noite na Terra do Nunca nunca era apenas escuridão; era um manto vivo, tecido com tons de safira profunda, névoa prateada e o brilho febril de estrelas que pareciam sussurrar segredos antigos. Sentada sobre a beirada de uma falésia de pedra polida, logo acima das águas misteriosas da Lagoa das Sereias, eu deixava meus pés balançarem sobre o abismo suave.
O vento noturno acariciava meus cabelos compridos e loiros, fazendo com que as mechas douradas dançassem ao redor dos meus ombros como fios de seda reluzentes. Meus olhos azuis contemplavam o reflexo da lua cheia que se partia em milhares de fragmentos luminosos na maré mansa. Eu sempre soubera que havia algo de encantador e doce na forma como eu via o mundo, e os Garotos Perdidos viviam dizendo que o meu sorriso tinha o poder de acalmar as feras da floresta. Mas, naquela noite, meu coração não procurava a paz inocente das histórias de ninar. Havia um tremor diferente correndo em minhas veias, um fogo sutil que nenhuma brincadeira infantil conseguia apagar.
Tudo havia começado como um faz de conta despretensioso. Eu era a contadora de histórias, a figura carinhosa que costurava bolsos imaginários e distribuía beijos em forma de dedais. No entanto, a Terra do Nunca tinha suas próprias regras secretas. Ela transformava quem permanecia sob seu céu por muito tempo. E, mais do que a própria ilha, era ele quem estava mudando tudo dentro de mim.
Um ruído quase imperceptível de folhas se partindo no ar quebrou o silêncio. Um aroma inconfundível de musgo fresco, folhas de carvalho e tempestade elétrica preencheu meus sentidos antes mesmo que eu pudesse me virar.
— Uma donzela tão bonita não deveria ficar sozinha à beira do precipício — murmurou uma voz rouca e divertida, bem perto do meu ouvido. — As sereias poderiam ficar com ciúmes da sua beleza e tentar puxar você para o fundo. E eu teria que cortar a cauda de cada uma delas.
Senti um arrepio delicioso descer pela minha nuca. Não precisei olhar para saber que ele estava ali, flutuando a meros centímetros do chão, com a leveza arrogante de quem desafiava a própria gravidade. Quando finalmente virei o rosto, encontrei os olhos verdes mais intensos que já existiram.
Peter Pan.
Ele aterrissou suavemente na rocha, recolhendo as pernas cruzadas com a agilidade de um felino selvagem. Seus cabelos castanhos claros eram curtos, desgrenhados pelo vento em um caos perfeitamente charmoso que caía sobre a testa. Havia nele aquele ar juvenil e atrevido de sempre, o sorriso de canto que zombava de reis e capitães piratas. Mas, sob a superfície de menino travesso, existia uma masculinidade latente, vibrante e perigosa, que parecia despertar com uma força avassaladora a cada novo crepúsculo.
— Eu não tenho medo das sereias, Peter — respondi docemente, sustentando o olhar verde penetrante que parecia querer desvendar até os meus pensamentos mais ocultos. — E sei muito bem que você não deixaria nada me acontecer.
Peter inclinou a cabeça para o lado, soltando uma risada curta, cheia de deleite e presunção.
— Tem tanta certeza disso, Wendy? — Ele engatinhou pela pedra até parar a poucos milímetros de mim. A proximidade repentina fez meu ar escapar. — E se eu decidir que você é travessa demais para ser protegida?
— Você não faria isso — provoquei de volta, deixando um meio sorriso iluminar meus lábios. — Quem contaria as melhores histórias para você dormir?
A expressão no rosto dele vacilou por uma fração de segundo, e algo sombrio, quase primitivo, substituiu a leviandade de sua postura. Peter estendeu a mão lentamente. Seus dedos calejados pelas batalhas e pelas cordas dos navios tocaram a curva da minha bochecha com uma delicadeza desconcertante. O contraste de sua força bruta com aquele carinho repentino paralisou meu fôlego.
— Eu não quero mais ouvir histórias para dormir, Wendy — sussurrou ele, a voz baixando para um tom aveludado e dominante que fez meu coração tropeçar no peito. — Histórias são para crianças.
— E nós não somos crianças? — perguntei em um fio de voz, incapaz de desviar meus olhos azuis dos dele.
Os dedos dele deslizaram pelo meu queixo, segurando-o com firmeza suficiente para que eu não pudesse me afastar, sem contudo me machucar. Era um gesto de posse, claro e inegável. Peter sempre fora territorial em relação à sua ilha e aos seus tesouros, mas a maneira como ele me segurava agora deixava explícito que eu era o seu tesouro mais precioso — e o único que ele jamais dividiria com ninguém.
— Talvez os rapazes sejam — disse ele, aproximando o rosto do meu até que pude sentir o calor de sua respiração contra minha boca. — Mas você e eu... nós somos diferentes.
Ele estreitou os olhos verdes, examinando cada traço do meu rosto, descendo pelo meu pescoço até onde o tecido fino da minha camisola de dormir se encontrava com a pele alva. Um lampejo de ciúme repentino e inexplicável brilhou em seu semblante.
— Hoje à tarde, na floresta — começou ele, a voz carregada de um tom acusatório e ríspido —, eu vi como aquele índio olhou para você quando lhe entregou o ramo de lírios d'água.
Não pude conter uma risada baixa, encantada com a sua súbita irritação.
— Foi apenas um gesto de cortesia, Peter. Ele estava me agradecendo pelo remédio que fiz para o tornozelo dele.
— Não me importa o motivo! — rosnou ele baixinho, seus dedos apertando meu queixo com uma autoridade possessiva que, em vez de me assustar, fez um calor doce se espalhar pelas minhas entranhas. — Você não pertence à tribo dele. Você não pertence àquela gente sem asas. Você é a minha Wendy. Meus olhos são os únicos que podem admirar o seu rosto. Entendeu?
Havia uma ferocidade genuína em suas palavras. Peter não aceitava que nada nem ninguém cruzasse as fronteiras daquilo que considerava seu. E, naquele instante, cercada pela magia silenciosa da noite, eu percebi que não queria pertencer a mais ninguém no universo. Minha doçura natural encontrou a tempestade dele e, em vez de recuar, acolheu-a.
— Eu sou sua, Peter — sussurrei com sinceridade, pousando minha mão sobre o peito dele, sentindo as batidas aceleradas e descompassadas de seu coração pulsando sob a túnica de folhas. — Sempre fui. Mas você precisa parar de agir como se eu fosse fugir a qualquer momento.
Peter relaxou a mandíbula tensa ao sentir meu toque. Um suspiro trêmulo escapou de seus lábios e a dureza possessiva se desfez, dando lugar a uma vulnerabilidade que ele só permitia que eu visse. Ele inclinou a cabeça e descansou a testa contra a minha, fechando os olhos verdes por um longo momento.
— O mundo lá fora é cruel, Wendy — murmurou ele, acariciando os fios longos do meu cabelo loiro, enrolando uma mecha sedosa entre os dedos com adoração. — Eles tentam roubar a luz das pessoas. Tentam fazê-las esquecer como voar. Se eles colocassem as mãos em você, transformariam esse seu sorriso em cinzas. Eu mataria qualquer homem que tentasse tirar você de mim.
— Ninguém vai me tirar daqui — afirmei, erguendo a mão livre para acariciar a linha forte de sua bochecha. Ele se inclinou contra meu toque, como um predador domesticado pelo afeto. — Não enquanto você me segurar.
Ele abriu os olhos. O verde esmeralda brilhava agora com uma fome que não pertencia ao universo das brincadeiras de piratas ou das caçadas na selva. Havia um magnetismo denso entre nós, uma atração gravitacional muito mais poderosa do que o pó das fadas. O romance pueril que nos unira nas noites de Londres havia amadurecido sob as copas das árvores gigantes da Terra do Nunca, transformando-se em uma paixão ardente e inexplicável.
De repente, com um movimento rápido e imperioso, Peter se levantou e puxou-me pela mão, erguendo-me da pedra com facilidade assombrosa.
— Venha comigo — ordenou ele, o sorriso desafiador e galanteador voltando aos seus lábios.
— Para onde? Já está tarde, Peter...
— A noite pertence a nós, Wendy — interrompeu ele, enlaçando minha cintura com os dois braços fortes e puxando-me firmemente contra o seu peito. O contato de nossos corpos fez meu estômago dar voltas. — Vou lhe mostrar o coração da ilha. Um lugar onde nem mesmo as estrelas se atrevem a bisbilhotar sem a minha permissão.
Antes que eu pudesse responder, ele deu um passo para trás, mergulhando no vazio da falésia. Soltei um pequeno grito de surpresa que morreu na garganta quando a sensação de gravidade zero nos envolveu. O vento rugiu ao nosso redor, mas Peter não nos deixou cair. Com um simples pensamento feliz e um brilho dourado de fada que dançou ao nosso redor, ele nos impulsionou para cima.
Voamos.
Mas aquele voo não se parecia em nada com o primeiro, quando cruzamos os céus de Londres rindo com meus irmãos. Havia uma intimidade vertiginosa na forma como Peter me conduzia pelos ares. Ele me mantinha colada a si, guiando nossos corpos através das correntes térmicas noturnas com domínio absoluto. Sentir o corpo dele contra o meu, o calor de sua pele contra a brisa fria das altitudes, era uma sensação avassaladora.
Cruzamos o mar de copas escuras da floresta até nos aproximarmos do vulcão adormecido no centro da ilha. Ali, escondida entre fendas ancestrais e cascatas de lianas brilhantes, havia uma clareira suspensa, cercada por orquídeas luminescentes que emitiam uma luz violácea suave e hipnotizante.
Peter pousou com suavidade sobre o tapete de musgo aveludado e me soltou apenas o suficiente para que meus pés tocassem o chão. Seus braços, no entanto, continuaram repousando em volta da minha cintura, recusando-se a criar qualquer distância real entre nós.
— O que você acha? — perguntou ele, os olhos brilhando de expectativa, como um garoto que acabara de oferecer um reino de presente.
— É... o lugar mais mágico que já vi — respondi maravilhada, olhando para as flores que pulsavam com luz própria, projetando sombras delicadas e misteriosas nas paredes de rocha coberta de hera. — Como você encontrou isso?
— Eu criei isso — confessou ele em tom confidencial, dando um passo à frente e me forçando a recuar suavemente até que minhas costas encontrassem o tronco macio de uma árvore milenar. — A Terra do Nunca muda conforme a minha vontade, lembra? E eu precisava de um lugar que fosse digno de você. Sem os rapazes gritando por comida. Sem Gancho. Sem ninguém. Apenas nós.
Engoli em seco, fascinada e ligeiramente intimidada pela intensidade daquele garoto-homem. Minha doçura sempre fora minha maior força, mas diante do olhar dominador de Peter, sentia-me desarmada.
— Por que você precisava de um lugar assim, Peter?
Ele deu mais um passo, eliminando qualquer espaço restante. Nossos corpos estavam pressionados um contra o outro, respirando o mesmo ar carregado de mistério floral. Peter levou uma das mãos à lateral do meu pescoço, seus dedos deslizando para a nuca e embrenhando-se nos meus longos cabelos loiros, inclinando meu rosto ligeiramente para trás.
— Porque eu cansei de fingir, Wendy — declarou ele, a voz rouca vibrando contra a minha pele. — Cansei de fingir que você é apenas a mãe dos rapazes. Cansei de fingir que aquele dedal que você me deu em Londres foi apenas uma piada.
Lembrei-me perfeitamente daquela noite fria no meu quarto de infância, quando lhe entregara um dedal de metal e ele acreditara ser um beijo. Mas o tempo da inocência cega havia terminado.
— Você aprendeu o que é um beijo de verdade, não aprendeu? — perguntei, sentindo meu pulso disparar como as asas de um colibri.
— Aprendi — respondeu ele, aproximando os lábios a uma distância torturante dos meus. Seus olhos verdes faiscavam com uma mistura perigosa de desejo e reverência. — E odeio a ideia de que você possa dar esse beijo para qualquer outra pessoa. Você é minha. Meu coração nunca bateu por nada além da aventura, até você entrar na minha vida. Agora, a única aventura que eu quero... é você.
A confissão crua, despida de qualquer arrogância infantil, quebrou as últimas barreiras do meu pudor. Aquele amor não era mais uma fábula para adormecer crianças; era um fogo real, tempestuoso e eterno como a própria ilha.
— Então tome o que é seu, Peter — sussurrei com ternura infinita, entrelaçando meus braços ao redor de seu pescoço.
Ele não hesitou mais. Com uma urgência que há muito reprimia, Peter selou seus lábios nos meus.
O contato foi como a colisão de dois mundos. Não havia nada de infantil em seu beijo; era ardente, faminto e arrebatador. Sua boca tomou a minha com autoridade e destreza, enquanto suas mãos seguravam minha cintura com força, como se quisesse me fundir à sua própria existência para que eu jamais pudesse voar para longe dele.
Entreguei-me àquele beijo com todo o carinho e a paixão que guardara em meu peito desde o momento em que ele pousara no parapeito da minha janela. Minhas mãos acariciavam seus cabelos curtos e castanhos, sentindo a respiração dele falhar quando passei os dedos pela curvatura de seus ombros rijos. Ele gemeu baixinho contra meus lábios, aprofundando o contato, revelando um lado doce e necessitado sob a couraça de líder indomável.
Quando finalmente nos separamos em busca de fôlego, nossas frontes permaneceram unidas. O ar ao nosso redor parecia carregado de eletricidade estática e as flores bioluminescentes brilhavam mais intensamente, respondendo às batidas aceleradas de nossos corações.
Peter abriu os olhos lentamente. Aquele brilho infantil e travesso ainda estava lá, mas agora era temperado por uma devoção inabalável e apaixonada.
— Você nunca vai me deixar, não é? — perguntou ele, e pela primeira vez ouvi uma súplica camuflada em seu tom dominante. — Diga que nunca vai voltar para aquele mundo cinzento.
Acariciei seus lábios avermelhados pelo nosso beijo, sorrindo com toda a doçura e amor que transbordavam da minha alma.
— Eu não pertenço mais ao mundo cinzento, meu capitão — respondi suavemente, olhando no fundo de suas esmeraldas vivas. — Eu pertenço à Terra do Nunca. Eu pertenço a você.
Peter sorriu, aquele sorriso glorioso e arrogante que outrora desafiara o destino, mas que agora pertencia inteiramente a mim. Ele me puxou para mais perto, beijando a curva do meu pescoço enquanto a noite mágica se desdobrava ao nosso redor, selando para sempre o mistério de um amor que nunca conheceria o fim.
