
Vamos lá
Fandom: Love the dark
Criado: 13/09/2026
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Rótulos que a Noite Não Apaga
O espelho do banheiro era um tribunal silencioso, e Clara era sempre a ré condenada.
Ela encarava o próprio reflexo sob a luz amarelada e trêmula, detestando cada curva acentuada, cada dobra que a camiseta folgada e desbotada tentava, em vão, esconder. Suas mãos tremiam ao tocar os quadris largos. As marcas de estrias pareciam mapas de caminhos que ela nunca escolhera percorrer. Havia uma época em que ela acreditava que seu corpo era apenas uma casa onde sua alma morava, mas o mundo exterior fizera questão de derrubar essa ilusão parede por parede.
Depois do término, a depressão não se instalara de repente; ela chegara como uma maré lenta e densa, inundando os cantos escuros do seu quarto até que levantar da cama se tornasse uma tarefa hercúlea. Clara parara de pentear os cabelos com frequência, de cozinhar refeições de verdade, de rir. As cortinas permaneciam cerradas durante dias para bloquear a luz do sol de Los Angeles, uma cidade que parecia exigir juventude eterna, magreza estrita e uma pele sem falhas.
E havia o apelido.
Aquele sussurro cruel que corria pelas esquinas do bairro, pelos corredores da academia de dança e pelas caixas de comentários anônimos da internet: a puta gorda do Chris.
Aquelas palavras cortavam mais fundo do que qualquer lâmina. Doía porque ninguém se importava com as noites em que ela ficara acordada preparando compressas mornas para as lesões musculares dele, ou com o dinheiro do aluguel que ela dividira centavo por centavo quando ele não tinha nada além de um sonho nas pistas de dança underground. Para os outros, ela era apenas a garota acima do peso que tivera a audácia de prender o homem cobiçado por todas, a figura indesejada ao lado do astro em ascensão.
No passado, quando o amor ainda ardia entre os dois, Chris a protegia com dentes e unhas. Clara conseguia se lembrar com nitidez quase dolorosa da noite em que um garoto em uma festa sussurrara aquela mesma ofensa. Chris jogara o copo no chão, avançara contra o sujeito e quebrara o nariz dele contra o capô de um carro, gritando para quem quisesse ouvir que ninguém ousaria falar da mulher dele daquela forma. Ele a puxara para o peito arfante, beijara o topo de sua cabeça e dissera que ela era perfeita, que as pessoas apenas tinham inveja de sua luz.
Mas a luz havia se apagado. E as mãos que antes a defendiam agora pertenciam a outro mundo.
O celular sobre a pia de mármore vibrou. A tela iluminou-se com uma notificação do Instagram. Era um perfil de fofocas locais sobre dança urbana e celebridades da cena. Com a respiração curta e um pressentimento amargo no peito, Clara destravou o aparelho.
A manchete saltou diante de seus olhos como um soco no estômago: O novo casal de ouro: Chris e Dytto assumem namoro em evento de rua.
Abaixo do texto, havia uma galeria de fotos em alta definição. Dytto parecia esculpida em marfim. Delicada, com pernas finas e longas, movimentos suaves até mesmo ao estar parada, a famosa “boneca robótica” dos palcos. Na imagem principal, Chris a segurava pela cintura mínima com uma familiaridade que esmagou os pulmões de Clara. Ele sorria daquele jeito preguiçoso e brilhante, olhando para Dytto como se estivesse contemplando um troféu de valor inestimável.
Clara rolou para os comentários sem conseguir se conter, uma masoquista em busca do próprio veneno.
“Finalmente ele arrumou alguém do nível dele.”
“Nossa, nem se compara com a ex horrorosa dele kkkk.”
“Aquele peso morto finalmente saiu do caminho. A Dytto é perfeita.”
As lágrimas escorreram quentes e pesadas pelas bochechas de Clara, caindo na porcelana fria da pia. Ela desligou o aparelho com tanta força que o plástico estalou. O ar no apartamento parecia sufocante, rarefeito. Uma náusea violenta subiu pela garganta, misturada com uma solidão tão vasta que ela achou que suas pernas cederiam ali mesmo.
— Por que você ainda se importa? — sussurrou para o vazio, a voz embargada e trêmula. — Ele nunca mais vai olhar para trás.
Clara lavou o rosto com água gelada, tentando desesperadamente apagar o calor da humilhação. Sabia que não podia ficar trancada ali o dia todo; faltavam remédios em sua despensa e comida para o gato que adotara nas semanas mais difíceis do término. Colocou um casaco largo de moletom cinza, puxou o capuz bem sobre os olhos inchados e saiu para a rua.
O ar da tarde estava fresco, mas o vento parecia carregar o escárnio da cidade. Cada pessoa que cruzava seu caminho parecia saber, parecia julgar o formato dos seus passos pesados. Ela tentava manter o olhar cravado nas calçadas de concreto, contando as frestas para não enlouquecer.
O caminho até a farmácia passava ao lado do pátio aberto do centro recreativo, um espaço arborizado com pistas de skate e uma praça onde os dançarinos locais costumavam treinar e relaxar entre as gravações. Clara pretendia acelerar o passo para evitar qualquer rosto familiar, mas o destino sempre fora um carrasco implacável.
— Clara!
A voz infantil cortou o ar como um sino cristalino.
Antes que ela pudesse erguer os olhos, um impacto pequeno e caloroso colidiu contra suas pernas. Clara olhou para baixo, o coração saltando na garganta, e viu um par de olhos castanhos brilhantes, cabelos cacheados desalinhados pelo vento e um sorriso banguela e radiante.
Era Noah.
O filho de seis anos de Chris a abraçava pelas coxas com uma força comovente, afundando o rosto no tecido de seu moletom como se ela fosse a coisa mais segura do planeta inteiro. Clara sentiu a garganta apertar tanto que mal conseguia respirar. Durante os três anos em que vivera com Chris, Noah a chamara de porto seguro. Clara curara seus joelhos ralados, contara histórias sobre estrelas cadentes até ele dormir e secara suas lágrimas quando a mãe biológica desaparecera de vez de sua vida.
Noah não se importava com o peso dela. Noah achava que os braços gordinhos de Clara eram os melhores travesseiros do mundo.
— Meu amor… — murmurou ela, ajoelhando-se no chão áspero sem se importar com a poeira, envolvendo o menino em um abraço desesperado. O cheiro de sabonete infantil e xampu de maçã encheu seus pulmões, trazendo de volta uma torrente de memórias doces que agora só deixavam cicatrizes.
— Você sumiu, Clara! — reclamou a criança, afastando-se apenas o suficiente para encará-la com beicinho. — Papai disse que você estava viajando, mas você nunca mais foi me buscar na escola. Eu desenhei aquele dragão que você me ensinou, sabia? Tá na geladeira!
— É mesmo? — A voz de Clara quebrou, uma lágrima traiçoeira escorrendo pelo canto do olho. Ela tentou forçar um sorriso carinhoso. — Você… você usou as cores que eu falei?
— Usei vermelho e azul! — Noah assentiu com entusiasmo puro. — Quando você vai voltar pra casa? Eu não gosto quando é outra pessoa que faz o café da manhã. Ninguém faz as panquecas redondinhas igual você.
Clara abriu a boca para responder, mas as palavras viraram pó. Como explicar a uma criança de seis anos que o castelo havia desmoronado? Como dizer que ela havia sido expulsa do reino para dar lugar a uma nova rainha?
— Noah!
O tom de advertência veio de trás. Clara congelou no chão, sentindo um arrepio gélido percorrer sua espinha.
Ela ergueu o olhar lentamente. Chris caminhava em direção a eles, usando calças de moletom pretas, tênis caros e uma jaqueta corta-vento que acentuava seus ombros largos e definidos. O rosto dele, com a barba por fazer perfeitamente desenhada, carregava uma mistura desconfortável de surpresa, culpa e irritação.
E ao lado dele, com os braços cruzados de forma elegante, estava Dytto.
De perto, ela parecia ainda mais surreal. Tinha um porte delicado, ossos finos visíveis na clavícula, os cabelos caindo em ondas perfeitas e uma expressão curiosa, quase indiferente, nos olhos amendoados. Vestia um top esportivo e calças largas de dança que pareciam flutuar ao redor de sua cintura minúscula.
Clara sentiu-se como uma montanha de barro parada diante de duas estátuas de cristal. A vergonha ardeu em seu peito, fazendo seu estômago afundar.
— Noah, eu falei para não sair correndo assim — disse Chris, parando a dois passos de distância. Os olhos dele encontraram os de Clara por uma fração de segundo, mas ele desviou rapidamente, desconfortável.
— Mas papai, é a Clara! — o menino insistiu, puxando a mão dela com força, recusando-se a soltar. — Fala pra ela vir jantar com a gente hoje! Por favor!
Um silêncio pesado desceu sobre a praça. Algumas pessoas que passavam por perto começaram a diminuir o passo, reconhecendo Chris e Dytto, e os olhares logo se voltaram para a garota ajoelhada no chão. Clara podia quase ouvir as risadinhas abafadas, as fofocas começando a circular em tempo real. A sombra do apelido pairava no ar como um cheiro de queimado.
Dytto deu um passo à frente, olhando para Clara com uma simpatia educada, mas claramente distante.
— Oi — disse Dytto, com uma voz suave e melodiosa. — Você deve ser a Clara. O Noah fala bastante de você.
Clara tentou engolir a saliva, mas a boca estava seca demais. Ela se levantou devagar, sentindo as articulações protestarem sob o próprio peso, e puxou as mangas do casaco para cobrir as mãos trêmulas. O contraste entre ela e a garota ao lado de Chris era quase cômico de tão cruel.
— Olá — respondeu Clara, mal conseguindo projetar a própria voz.
Chris pigarreou, as mãos nos bolsos, o olhar fixo no chão de cimento antes de finalmente encará-la com uma frieza comedida que Clara nunca vira naqueles olhos durante os anos que passaram juntos.
— Não sabia que você ainda vinha por esse lado da cidade — comentou ele, o tom neutro, quase formal. Nada do homem que um dia sangrara para defendê-la restava ali. Apenas a casca de alguém que parecia ansioso para que ela desaparecesse.
— Eu só estava indo até a farmácia — murmurou Clara, recuando meio passo.
— Clara, você não respondeu! — Noah puxou a barra do moletom dela mais uma vez, os olhos suplicantes. — Você vai hoje, não vai? Por favor…
O peito de Clara se partiu em dezenas de pedaços pequenos. Ela abaixou-se novamente, ficando na altura dos olhos de Noah, ignorando a plateia invisível que os assistia. Com os dedos carinhosos, ela ajeitou uma mecha de cabelo da testa do menino.
— Eu não posso hoje, meu amor — disse ela baixinho, lutando contra o nó que sufocava sua garganta. — O papai tem planos novos agora. Mas eu tenho muito orgulho de você, tá bom? Continua desenhando aquele dragão. Nunca para de desenhar.
— Mas por quê? — O lábio inferior de Noah começou a tremer, e as primeiras lágrimas infantis brotaram nos olhos dele. — Eu quero você lá.
— Noah — Chris interveio, sua voz um pouco mais ríspida, pegando o menino pelo ombro com delicadeza, mas firmeza. — Chega. Já conversamos sobre isso. A Clara está ocupada com a vida dela agora. Vamos.
Clara olhou para Chris. Por um segundo minúsculo, os olhos dele vacilaram sob o peso do olhar dela. Ele sabia o quanto Noah dependia daquele afeto; sabia o quanto Clara dera de si para aquela família que nunca fora legitimada pela sociedade. Mas Chris não a defendeu dos sussurros que começavam a circular entre o grupo de dançarinos parados a poucos metros. Ele apenas colocou a mão protetora no ombro de Dytto, como se dissesse ao mundo inteiro a quem pertencia sua lealdade agora.
— Foi um prazer te conhecer, Clara — disse Dytto com polidez cristalina, sorrindo de forma profissional antes de se virar para acompanhar Chris.
— Vamos, garoto — Chris insistiu, puxando suavemente o filho que relutava a cada passo.
— Clara! Não vai embora! — Noah gritou, chorando abertamente agora, olhando por cima do ombro do pai enquanto era afastado.
As pessoas ao redor observavam o espetáculo. Clara ouviu o riso contido de uma garota encostada na cerca de arame, seguido por um murmúrio malicioso:
— Olha lá… a coitada ainda achava que ele ia querer aquele trambolho de volta. A Dytto é outro nível.
As palavras chicotearam suas costas com violência implacável. Mas Chris não se virou para quebrar o nariz de ninguém desta vez. Ele continuou andando, com a postura reta, a mão ao redor do ombro fino de Dytto, ignorando o filho que chorava e a mulher que deixara para trás em ruínas.
Clara permaneceu imóvel na calçada, o vento frio castigando seu rosto molhado de lágrimas. Ela abraçou o próprio corpo com força, apertando o casaco largo contra o peito dolorido, tentando conter o colapso iminente de tudo o que ainda restava dentro de si.
O mundo havia decidido o seu valor com base no tamanho de sua cintura e na maldade de suas fofocas. E o homem que um dia prometera salvá-la das trevas acabara de fechar a porta, deixando-a do lado de fora, no mais profundo e silencioso frio.
