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Fandom: True blood

Criado: 13/09/2026

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Sombras de Sangue e Veludo

O calor de Renard Parish era sufocante, daqueles que grudavam na pele como melaço e faziam até as cigarras parecerem cansadas nos galhos dos carvalhos. Mas Clara caminhava pela calçada empoeirada com um sorriso nos lábios. Era assim que ela sobrevivia em Bon Temps: sorrindo, oferecendo doçura em um lugar que parecia feito de espinhos e julgamentos hipócritas.

Clara nunca havia se encaixado no padrão das beldades sulistas. Ela não usava os vestidos rodados tamanho trinta e seis que pareciam flutuar nas garotas magras do coral da igreja batista, nem tinha aquela cintura minúscula que os rapazes da cidade gostavam de segurar nas noites de sábado no Merlotte’s. Clara tinha curvas fartas, coxas grossas que roçavam uma na outra ao andar, seios pesados e uma barriga macia que as beatas da cidade adoravam apontar com o canto dos olhos enquanto sussurravam atrás dos leques de papelão. "Lá vai a gordinha", diziam, rindo baixinho entre um gole de chá gelado e outro.

Mas Clara nunca se deixara amargar. Ela tinha um coração que transbordava generosidade, mãos habilidosas que assavam as melhores tortas de noz-pecã do condado e uma alegria radiante que muitos confundiam com ingenuidade.

E, durante meses, ela tivera um segredo. Um segredo alto, pálido, com olhos da cor do mar do norte e dentes afiados como adagas de marfim: Eric Northman.

O poderoso xerife da Área Cinco. O antigo guerreiro viking que dominava vampiros e humanos com um simples erguer de sobrancelha. Nos braços gélidos dele, entre lençóis de cetim negro em um apartamento isolado em Shreveport, Clara se sentira adorada de uma forma que ninguém em Bon Temps jamais entenderia. Ele afundava os dedos em suas carnes macias, beijava cada dobra de seu corpo com uma possessividade que a deixava sem fôlego e sussurrava palavras antigas em sueco contra sua pele quente.

Contudo, havia uma barreira invisível e intransponível. Eric a queria na escuridão. Ele a desejava a quatro paredes, onde ninguém pudesse vê-lo devorar uma mortal curvilínea e comum. Ele nunca a levou ao palco do Fangtasia. Nunca a apresentou a Nan Flanagan ou aos outros xerifes como sua companheira. Para o mundo dos mortos-vivos e para a alta corte sobrenatural, Clara não existia; era apenas um brinquedo aconchegante que ele visitava para fugir do tédio milenar. Quando Clara, certa vez, pediu timidamente para acompanhá-lo a uma reunião pública, a resposta de Eric fora fria como a geada:

— Não confunda meu apetite com compromisso, Clara. Há certas aparências que um governante deve manter.

Aquilo havia rasgado sua alma, e eles haviam terminado. Ou, pelo menos, Clara achava que tinha terminado. Mas o coração é um órgão tolo, e a saudade a consumira por semanas. Quando Pam, por puro capricho ou conveniência, pediu para que Clara fosse até Shreveport entregar um pacote urgente com documentos lacrados que tinham sido deixados em Bon Temps, Clara sentiu uma ponta de esperança ridícula. Talvez, ao vê-la, Eric percebesse que a frieza de sua solidão milenar precisava do calor dela.

A viagem até Shreveport pareceu eterna. O sol já havia se posto fazia horas quando Clara estacionou seu velho carro perto do Fangtasia. O clube brilhava com luzes de néon escarlates e roxas, cuspindo batidas eletrônicas pesadas contra a noite úmida. O cheiro de cerveja barata, perfume doce, feromônios e o odor ferroso de Tru:Blood sintético flutuava no ar denso do estacionamento.

Ao passar pelas portas dos fundos, usando a chave magnética que Pam lhe dera de má vontade, Clara seguiu pelo corredor estreito de concreto que dava acesso à área restrita. O som abafado da música pulsava através das paredes frias. Ela segurava a pasta de couro contra o peito generoso, o coração batendo descompassado.

No entanto, à medida que se aproximava da porta maciça de carvalho do escritório principal de Eric, um aroma estranho e sufocante começou a invadir seus sentidos. Não era apenas o cheiro habitual de madeira e colônia cara dele. Havia algo floral, cintilante, quase enjoativo, misturado ao calor cru de pele humana suada e ao ferro estaladiço de sangue fresco.

Era o cheiro inconfundível de Sookie Stackhouse.

Clara estacou. Seu estômago revirou violentamente.

Sookie. A adoradinha loira do Merlotte’s. A garota de fala mansa e dentes separados que todos na cidade tratavam como uma donzela de porcelana. Sookie, que tantas vezes olhara para o corpo de Clara com uma ponta de desdém complacente enquanto servia mesas, como se Clara fosse um peso morto no mundo dos homens bonitos.

A porta do escritório não estava totalmente trancada; uma fresta de três dedos permitia que a luz dourada do interior cortasse o chão cinzento do corredor.

E então, os sons vieram.

Não eram os sussurros controlados ou as respirações contidas de conversas sobre negócios do submundo. Eram gemidos molhados, profundos, entrecortados por arquejos ofegantes que Clara conhecia muito bem, mas que agora a faziam se sentir como se tivesse engolido vidro moído.

Com as mãos trêmulas, Clara deu um passo silencioso à frente e espiou pela abertura.

O cenário roubou todo o ar de seus pulmões.

Eric estava em pé contra a mesa monumental de mogno, com a camisa de linho aberta, exibindo o peito esculpido e marmóreo. E sobre a mesa, com as pernas delgadas e bronzeadas envoltas na cintura dele, estava Sookie. O vestidinho amarelo com margaridas que Sookie costumava usar para parecer inocente estava arrancado até os ombros, o tecido rasgado revelando sua pele clara.

Eric enterrava as presas na curva do pescoço de Sookie com uma fúria voraz, sugando o sangue dela com um deleite que Clara nunca vira nele. Sookie arqueava as costas, as unhas cravadas nos ombros largos do vampiro, soltando gemidos roucos enquanto ele a possuía com estocadas fortes, brutais e ritmadas.

— Eric... — suspirou a loira, a voz quebrando em puro êxtase —. Por favor... mais...

Eric rosnou, erguendo a cabeça manchada de escarlate. Os olhos dele ardiam em uma luxúria animalesca que parecia ultrapassar qualquer controle que o antigo xerife costumava fingir ter.

— Seu sangue... — murmurou o nórdico, a voz reverberando como um trovão abafado —. Não há nada neste mundo como você, Sookie. Minha fada. Minha pequena fada.

Clara deu um passo involuntário para trás. A pasta de couro escorregou de seus dedos dormentes, batendo contra o chão de concreto com um estalo seco e ecoante.

O som, embora sutil em meio à música distante, foi um estrondo nos ouvidos de predador de Eric.

Em uma fração de segundo, tão rápido que o olho humano mal pôde processar o borrão de movimento, Eric congelou. Ele virou o rosto para a fresta da porta, a boca gotejando sangue brilhante, as íris azuis dilatadas em uma fúria quase cega.

Sookie também abriu os olhos, ofegante e desgrenhada, tentando focar na penumbra além da porta.

Clara não conseguiu correr. Suas pernas pesadas pareciam coladas ao chão, o peso do choque ancorando seu corpo no inferno daquela descoberta. Com um rangido suave, a porta se abriu de vez.

Eric permaneceu onde estava por um momento, descendo de cima de Sookie com uma elegância letal e fria, puxando o zíper da calça com a calma insultante de quem não teme nenhuma alma viva ou morta. Seus olhos se cravaram em Clara. Não havia culpa. Não havia remorso. Havia apenas uma irritação calculada.

— Clara — disse ele, a voz num tom cortante como gelo ártico —. Você não deveria estar aqui.

Sookie sentou-se na borda da mesa, ajeitando o vestido rasgado com mãos trêmulas, mas assim que seus olhos encontraram os de Clara, a surpresa se transformou em algo diferente. A telepatia de Sookie parecia trabalhar em silêncio; Clara quase podia sentir a mente invasora da loira lendo a humilhação, a dor e o luto que transbordavam em seu peito.

Um pequeno sorriso satisfeito e condescendente curvou os lábios finos de Sookie.

— Ora, ora... — disse Sookie, a voz carregada de um sotaque sulista arrastado e melífluo —. Clara? O que você faz espionando os outros pelo buraco da fechadura?

Clara apertou as mãos em punhos, as unhas cravando na palma carnuda até doer. Ela tentou engolir o nó que queimava em sua garganta, recusando-se terminantemente a deixar as lágrimas caírem na frente daqueles dois.

— Eu vim trazer documentos que Pam pediu — respondeu Clara, e, para sua própria surpresa, sua voz saiu firme, embora rouca de dor —. Não fazia ideia de que o xerife estava ocupado transformando a mesa de trabalho em um curral.

Os olhos de Eric se estreitaram em uma advertência perigosa.

— Cuidado com a língua, humana. O fato de termos compartilhado uma cama não lhe dá o direito de me insultar em meu próprio domínio.

— Compartilhado uma cama? — repetiu Sookie, rindo baixinho enquanto descia da mesa e caminhava descalça até ficar ao lado de Eric, tocando o braço dele de forma possessiva. — Eric, querido... você andou se rebaixando a isso? Céus, Clara, você sempre foi tão... farta, mas eu não sabia que tinha gosto por monstros. Embora, pelo visto, nem ele tenha querido você por muito tempo, não é?

O veneno disfarçado de inocência bateu no peito de Clara como um soco. Ali estava a garota que a cidade inteira jurava ser uma santa, escorrendo maldade e superioridade, deliciando-se em ver a rival esmagada sob seus pés descalços.

Clara olhou para Sookie, medindo a silhueta magra, os ossos da clavícula proeminentes sob o vestido amarrotado, e depois olhou para Eric. O grande e imponente Eric Northman, reduzido a um cão babando por causa de um punhado de sangue com gosto de flor.

— Não precisa se preocupar, Sookie — disse Clara, mantendo a cabeça erguida, os ombros largos empinados com uma dignidade que Eric nunca vira nela —. O que ele fez comigo foi no escuro, porque ele é um covarde que tem medo do que os outros vampiros vão pensar se o virem com uma mulher de verdade, e não com uma garotinha magrela que parece ter saído de uma escola primária.

O rosto de Sookie empalideceu de raiva.

— Sua vaca gorda e atrevida... — sibilou Sookie, dando um passo à frente.

— Chega — ordenou Eric, a voz estrondando pelo escritório com o poder de comando de sua linhagem.

Sookie parou no mesmo instante, embora ainda lançasse olhares furiosos na direção de Clara. Eric fixou seu olhar em Clara, a postura ereta, mas havia um vinco tênue entre suas sobrancelhas loiras. Ele estava acostumado com humanos que tremiam, que choravam ou que se humilhavam diante de sua presença majestosa. Clara, que sempre fora tão macia, tão doce, tão acolhedora... parecia feita de ferro naquele momento.

— Você veio entregar algo — disse Eric, apontando para a pasta caída aos pés dela —. Entregue e vá embora. Não quero vê-la em Shreveport novamente.

Clara soltou uma risada curta, amarga e livre.

— Não precisa se preocupar, Eric. Eu não pisaria nesta cloaca de novo nem que você rastejasse de joelhos até Bon Temps implorando pelo meu toque.

— Clara... — advertiu ele, as presas deslizando sutilmente para fora da gengiva, um aviso visual do perigo mortal que ele representava.

— O que você vai fazer? Me matar? — desafiou ela, sem recuar um milímetro. Seus olhos castanhos brilharam no rosto redondo e corado de adrenalina. — Mate-me, então. Mostre para ela o quão nobre você é. Mas nós dois sabemos a verdade, Eric. Você não me assumiu porque você é fraco. Você precisa do status, precisa do glamour, precisa de uma fada exótica para alimentar seu ego patético porque, no fundo, você é apenas um cadáver vazio que tem pavor de qualquer coisa que seja real.

Um silêncio sepulcral engoliu o escritório.

Sookie parecia chocada demais para falar, a boca aberta, os olhos correndo de Clara para o vampiro viking. Ninguém falava com Eric Northman daquele jeito. Ninguém sobrevivia àquela audácia.

A mandíbula de Eric se contraiu. Por um instante que pareceu durar séculos, uma sombra de algo complexo cruzou seus olhos nórdicos: surpresa, fúria e, talvez, o vislumbre tardio de uma perda que sua mente imortal não queria reconhecer. Ele se lembrava do calor genuíno daquele corpo que a cidade desprezava, do riso despretensioso que Clara dava quando ele a beijava, de como ela o tocava sem medo, sem exigir sangue ou poder em troca, apenas querendo dar carinho a um homem que esquecera o que era ser amado.

Mas ele era Eric Northman. E ele já havia feito sua escolha.

— Saia — disse ele em um sussurro baixo, quase inaudível, mas carregado de uma frieza definitiva —. Agora.

Clara olhou para a pasta no chão. Em vez de pegá-la para entregar com reverência, ela chutou o couro com a ponta da sapatilha, fazendo-o deslizar alguns centímetros na direção dos sapatos impecáveis dele.

— O recado da Pam está aí — disse Clara, limpando uma única lágrima teimosa que escorreu por sua bochecha antes que eles pudessem comemorar sua dor —. E vocês dois se merecem. Uma menina amarga que acha que o mundo gira em torno dela e um monstro oco que só sabe se alimentar de ilusões.

Sem esperar por uma resposta, sem baixar a cabeça e sem correr, Clara deu meia-volta. Seus passos ecoaram firmes pelo corredor de concreto, ressoando contra as batidas estridentes da boate.

Atrás dela, ouviu a voz estridente de Sookie começar a reclamar:

— Eric, você vai deixar ela falar assim comigo? Você ouviu o que ela me chamou?

Mas a resposta de Eric, se houve alguma, foi engolida pelas sombras do Fangtasia.

Ao cruzar as portas dos fundos e sair para a noite úmida da Louisiana, o ar quente bateu no rosto de Clara. O peso em seu peito era esmagador; a dor da traição rasgava suas entranhas como se garras de vampiro a tivessem aberto ao meio. Mas, conforme caminhava até seu carro sob as copas escuras dos pinheiros, algo novo começou a brotar em meio aos escombros de seu coração bondoso.

Ela olhou para o reflexo embaçado na janela do carro. Viu as bochechas coradas, as curvas do corpo que tantos tentavam fazer parecer feias, a luz teimosa em seus próprios olhos.

Eles achavam que ela era pouca coisa. A cidade achava que ela não valia nada porque não cabia nos moldes deles. Eric achava que podia guardá-la em um armário escuro e trocá-la pelo brilho falso de uma fada.

Clara abriu a porta do veículo, sentou-se atrás do volante e respirou fundo, puxando todo o oxigênio vivo da noite.

Eles estavam errados. Ela era humana, ela era quente, e ela valia infinitamente mais do que aquele ninho de sombras geladas.

Ligando o motor, Clara pisou no acelerador e deixou o Fangtasia para trás, decidida a nunca mais permitir que nenhum homem, vivo ou morto, a fizesse se sentir pequena em um mundo onde ela nascera para ser imensa.

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