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Brigas intrigas

Fandom: Os drake

Criado: 13/09/2026

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RomanceDramaAngústiaCiúmesLinguagem ExplícitaEstudo de PersonagemRealismo
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Faíscas e Cinzas

O reflexo no espelho do quarto devolvia a Karen uma imagem que há muito tempo ela não via com tanta nitidez. O vestido terracota, colado ao corpo, abraçava cada uma de suas curvas acentuadas, valorizando o quadril largo, a cintura fina e o busto farto. Sua pele preta reluzia sob a luz quente do abajur, hidratada e impecável, enquanto os cabelos longos e escuros desciam em ondas perfeitas até a altura da cintura. Karen era uma mulher deslumbrante, do tipo que parava qualquer ambiente sem precisar dizer uma única palavra.

Mas, nos últimos sete meses, grande parte daquela deusa havia ficado em segundo plano para dar lugar à mãe devota do pequeno Liam.

Liam era o centro do seu universo, o fruto mais precioso e turbulento de uma história de amor que parecia ter saído de um furacão. O relacionamento com Gustavo Henrique, o Kabrinha, sempre fora uma montanha-russa desgovernada. Eram duas personalidades vulcânicas: o ciúme dele beirava a insanidade, a possessividade queimava em cada olhar, e o gênio forte de Karen não abaixava a cabeça para homem nenhum. O resultado não poderia ter sido outro senão brigas épicas, portas batidas e um ponto final que, no fundo, nenhum dos dois aceitava de verdade.

Desde o término, as coisas funcionavam sob uma trégua frágil e cheia de regras rígidas criadas por Gustavo. Ele fazia questão absoluta de ver o filho todos os dias, mas não admitia que uma babá cuidasse do menino. Para ele, Liam deveria ser criado exclusivamente pela mãe ou pela avó materna. Por isso, para não olhar na cara de Karen e reacender as brigas, o rapaz visitava o bebê apenas quando a mãe dela estava em casa, usando a ex-sogra como intermediária para manter o orgulho intacto.

O telefone vibrou na cômoda, interrompendo os devaneios de Karen. Era a terceira chamada de vídeo de Hillary naquela tarde.

Karen suspirou, pegou o aparelho e atendeu, ajeitando o brinco de argola dourada. A imagem de Hillary, esposa de Buzeira e sua confidente de longa data, surgiu na tela com óculos de sol na cabeça e uma taça na mão.

— Mulher, cadê você? — disparou Hillary, ajeitando o cabelo. — A matinê já tá esquentando, o som tá naquele pique e a casa já tá cheia. Você me prometeu que vinha!

— Hillary, eu já te disse que não sei se é uma boa ideia — respondeu Karen, enquanto conferia a bolsa de passeio de Liam sobre a cama. — Minha mãe viajou para o interior e minhas irmãs foram passar o fim de semana fora. Eu tô sozinha com o Liam. Onde já se viu levar um bebê de sete meses pra um rolê cheio de som alto e gente bêbada?

— Para de palhaçada, Karen! — retrucou Hillary com carinho, mas em tom de cobrança. — Você sabe muito bem que a minha casa é uma fortaleza. O som tá alto na piscina, mas a parte de cima tá silenciosa, o quarto de hóspedes já tá pronto com berço portátil e ar-condicionado só esperando o Liam dormir. Eu coloquei a nossa amizade na mesa, você precisa sair dessa caverna!

— Você sabe o motivo real de eu estar insegura, não se faça de desentendida — Karen cruzou os braços, encarando a amiga pela tela. — Se o Gustavo sonhar que eu coloquei os pés aí, ele derruba a sua casa. Ele é louco, você conhece o homem que eu tive em casa.

— Mas ele não vai saber, criatura! — garantiu Hillary, aproximando o rosto da câmera com ar conspiratório. — Eu perguntei pro Buzeira três vezes. O Buzeira jurou pela vida dele que o Kabrinha tá na Zona Leste gravando conteúdo e fechando parceria de clipe o dia inteiro. Ele não pisa aqui hoje de jeito nenhum. Confia em mim, amiga. Amizade acima de tudo, lembra? Eu nunca te colocaria numa furada.

Karen olhou para o berço, onde Liam estava sentado brincando com um mordedor em formato de leãozinho, vestido com um charmoso macacão de linho azul-bebê. Ela realmente precisava respirar, sentir-se mulher de novo, rever os amigos e escapar da rotina sufocante de quatro paredes.

— Se ele aparecer lá, Hillary, eu juro que mato você e o Buzeira — avisou Karen, estreitando os olhos.

— Não vai aparecer, meu amor! Vem logo, tô te esperando no portão!

Desligando a chamada, Karen respirou fundo. Pegou um casaco leve para o filho, organizou as mamadeiras térmicas e desceu para a garagem. O coração, no entanto, batia num ritmo descompassado, como um aviso primitivo de que o destino adorava zombar de planos perfeitos.

A viagem até a mansão de Buzeira durou cerca de quarenta minutos. Quando o portão automático se abriu, o som grave do trap já vibrava no chão de concreto. Seguranças organizavam os carros de luxo na entrada, e o clima de festa dominava os jardins. Karen estacionou o veículo em uma vaga discreta, desceu e tirou Liam com cuidado do bebê-conforto, ajeitando-o no colo com a bolsa pendurada no ombro.

Ela caminhou em direção à entrada social com a cabeça erguida. O sol de fim de tarde banhava sua pele escura, conferindo-lhe um brilho quase etéreo. Cada passo dado com suas sandálias de salto médio chamava a atenção das pessoas espalhadas pelo gramado. Homens viravam o pescoço descaradamente, e mulheres mediam a concorrência com olhares atentos. Karen era um espetáculo à parte.

— Amiga! — Hillary correu até ela no hall de entrada, longe do barulho ensurdecedor da área externa. — Meu Deus, você tá maravilhosa! Olha esse corpo, parece que nem pariu há sete meses! E esse príncipe, dá aqui pro titia esmagar!

Hillary pegou Liam no colo, enchendo o menino de beijos na bochecha gordinha. Liam deu uma risadinha banguela, encantado com a agitação ao redor.

— Ele tá bem calminho agora, acabou de mamar — disse Karen, sorrindo e ajeitando a alça do vestido. — Mas onde é que eu deixo as coisas dele antes de ir falar com o pessoal?

— Sobe lá na primeira suíte à direita, pode deixar tudo arrumado. Daqui a pouco eu levo ele pra dormir um soninho — explicou Hillary, ainda distraída com o pequeno. — Buzeira tá ali na churrasqueira, vai lá dar um oi enquanto eu mostro o Liam pras meninas.

Karen subiu as escadas com tranquilidade, deixou a bolsa de Liam devidamente organizada no quarto espaçoso e silencioso, conferiu a temperatura do ambiente e desceu novamente. Sentia uma leveza que há meses não experimentava. Respirou o ar fresco ao atravessar a ampla porta de vidro que dava acesso à área da piscina.

O ambiente era regado a risadas altas, fumaça de narguilé subindo no ar, taças de champanhe e garrafas de uísque espalhadas pelas mesas de madeira. Karen sorriu discretamente, caminhando para cumprimentar Buzeira e alguns conhecidos.

No entanto, o sorriso congelou em seus lábios antes mesmo que ela desse o quinto passo.

O mundo pareceu perder o som. Toda a música alta, as conversas paralelas e o burburinho da festa se transformaram em um zumbido distante e ensurdecedor.

Sentado em um dos lounges privativos à beira da piscina, com uma corrente pesada de ouro reluzindo contra a camiseta preta da marca, estava Gustavo Henrique. O boné virado para trás cobria parcialmente os olhos, mas a postura folgada e imponente era inconfundível.

E ele não estava sozinho.

Colada ao seu lado, praticamente sentada em seu colo, havia uma garota vestindo um biquíni minúsculo e uma saída de praia transparente. Ela sussurrava algo no ouvido de Gustavo, tocando-lhe o braço tatuado com uma intimidade que fez o estômago de Karen despencar em um abismo de ódio e humilhação. Kabrinha mantinha uma expressão séria, mas não se afastava; pelo contrário, segurava um copo de bebida com gelo enquanto ouvia a mulher com a maior naturalidade do mundo.

O sangue de Karen ferveu instantaneamente. Uma onda de calor subiu pelo seu pescoço, tingindo sua visão de vermelho.

— Gustavo Henrique não vinha, né? — murmurou ela para si mesma, sentindo o veneno da traição de expectativas queimar em suas veias.

Quase como se sentisse a queimação do olhar dela sobre si, Gustavo ergueu a cabeça lentamente.

Quando os olhos castanhos e penetrantes do rapaz encontraram os de Karen, o copo de uísque em sua mão quase escorregou. A expressão relaxada de Kabrinha se desfez em uma fração de segundo, sendo substituída por um choque puro que rapidamente deu lugar a uma fúria tempestuosa. Seu maxilar travou com tanta força que os músculos do rosto saltaram.

Ele olhou para Karen de cima a baixo. Viu o vestido que delineava cada centímetro daquele corpo que ele ainda considerava seu por direito primitivo, viu a pele impecável, os lábios destacados pelo gloss e o porte altivo. Mas seu choque se transformou em combustão pura quando ele olhou para o lado e avistou Hillary descendo os degraus segurando Liam no colo.

Kabrinha empurrou o braço da garota que estava ao seu lado de forma tão brusca que ela quase se desequilibrou na espreguiçadeira.

— Ei, Gu, o que foi? — reclamou a mulher, surpresa.

Gustavo nem sequer olhou para trás. Ele colocou o copo sobre a mesa com uma pancada seca e se levantou com passos pesados, fuzilando Karen com o olhar. As pessoas ao redor começaram a notar a mudança drástica no clima. Buzeira, percebendo a aproximação catastrófica, tentou intervir colocando a mão no ombro do amigo.

— Calma aí, Kabrinha, o que que tá pegando...

— Tira a mão de mim, Buzeira — rosnou Gustavo, com a voz carregada de veneno, sem desviar os olhos de Karen por um milésimo de segundo.

Ele marchou na direção dela como uma fera pronta para o ataque. Karen não recuou um único centímetro. Pelo contrário: endireitou a coluna, ergueu o queixo e sustentou o olhar furioso do ex-companheiro com toda a altivez que possuía.

— Você tá louca? — foi a primeira coisa que Gustavo disparou assim que parou a menos de um palmo de distância dela, a voz baixa, rouca e tremendo de raiva. — Que porra você tá fazendo aqui vestida desse jeito?

Karen soltou uma risada fria e sarcástica, cruzando os braços e encarando-o bem nos olhos.

— Eu não te devo satisfação nenhuma da minha vida, Gustavo Henrique. Nem do lugar onde eu piso, nem do jeito que eu me visto. Abaixa esse tom pra falar comigo.

— Não devo satisfação? — Ele deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela, os olhos faiscando. — Você mete uma roupa dessa, que quase não cobre nada, e vem pra uma festa cheia de homem no meio do nada? Mas a minha preocupação maior nem é essa merda que você chama de roupa. Cadê o meu filho?

Nesse momento, Hillary se aproximou com Liam no colo, visivelmente pálida e sem jeito com a situação.

— Gustavo, calma, eu chamei ela... — tentou explicar Hillary.

Gustavo sequer esperou ela terminar. Estendeu os braços em um movimento firme e tirou Liam com cuidado do colo de Hillary. No exato instante em que tocou o filho, a agressividade de suas mãos sumiu, sendo substituída por um toque protetor e seguro. Ele aninhou a cabeça do menino contra o peito, mas seus olhos continuavam fixos em Karen, em chamas.

— Isso aqui não é lugar pra você, Karen! — disparou Gustavo, gesticulando com o queixo em direção à piscina. — E muito menos pro meu filho! Você tá sem juízo na cabeça? Um moleque de sete meses no meio de som estourando, gente chapada, mulher quase pelada e marmanjo bebendo? Você perdeu a noção de vez?

— Não ouse falar da minha maternidade, seu moleque! — Karen deu um passo em direção a ele, apontando o dedo na cara do rapaz sem medo nenhum do escândalo. — Eu cuido dele vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana! Minha mãe viajou, minhas irmãs saíram e eu não tenho uma babá porque o senhorito proibiu qualquer pessoa estranha de tocar no seu filho!

— Proibi mesmo! — rebateu ele, elevando a voz, fazendo algumas pessoas na área gourmet se calarem para assistir. — Meu filho não é criado por terceiros enquanto a mãe fica de gracinha por aí!

— Eu sou mãe, Gustavo, não sou prisioneira! — Karen descarregou a frustração acumulada de meses. — A Hillary me garantiu um quarto com ar-condicionado, isolamento acústico e berço pra ele descansar. Ele não passou cinco minutos perto dessa piscina barulhenta! E quem é você pra querer falar de ambiente adequado?

Karen virou o rosto com desprezo e apontou diretamente para a mulher de biquíni, que ainda observava tudo de longe com cara de deboche.

— Você tá muito preocupado com a presença do Liam aqui, né? — ironizou ela, com o olhar pingando veneno e ciúme velado. — Mas não tava nem um pouco preocupado quando tava todo esparramado ali no sofá, com aquela piranha pendurada no seu pescoço babando no seu ouvido! Você não tem vergonha na cara, Gustavo? É essa a postura do pai de família exemplar?

Ouvir aquilo acertou Kabrinha em cheio. Por um segundo, a raiva dele vacilou, dando lugar àquela faísca possessiva que sempre o consumia quando via Karen demonstrando que ainda se importava. Ele deu um meio sorriso cínico, embora o olhar continuasse pesado.

— Ah, então o problema é ela? — provocou ele, aproximando o rosto do dela de novo, segurando Liam com um braço e encarando-a bem de perto. — Tá com ciúme, Karen? Tá incomodada de me ver vivendo a minha vida enquanto você tentou vir aqui pra me provocar?

— Me poupe do seu ego ridículo! — disparou Karen, sentindo o cheiro familiar do perfume dele invadir seus sentidos e desestabilizar suas certezas. — Eu nem sabia que você tava aqui! Se eu soubesse que você ia pisar nessa casa, eu não tinha chegado nem a dez quilômetros daqui. Eu tenho nojo desse seu joguinho barato!

— Não é joguinho nenhum, porra! — Gustavo perdeu a paciência de vez, ajeitando o bebê nos braços enquanto o rosto se aproximava ainda mais. — O bagulho é reto: você não fica aqui. Nem você, nem ele. Isso não é festa pra mulher minha, muito menos pra mãe do meu filho desfilar como se tivesse solteira e na pista!

— Eu sou solteira, Gustavo! — gritou ela, a paciência rompendo os últimos limites. — A gente terminou há meses, bota isso na sua cabeça dura de uma vez por todas! Você não manda em mim, não manda no meu corpo e não decide o que eu faço!

— Você é mãe do Liam! — ele vociferou de volta, os peitos quase colados, a respiração de ambos ofegante e entrecortada. A tensão entre os dois era palpável, densa o suficiente para cortar com uma faca; não era apenas raiva, era a pura eletricidade de dois corpos que se conheciam nos mínimos detalhes e que ainda ardiam de desejo reprimido.

— E você é o pai, mas tava ali agindo como se não tivesse filho nenhum no mundo! — Karen rebateu, as lágrimas de raiva quase transbordando dos olhos escuros, mas que ela engoliu por puro orgulho. — Me dá o meu filho agora. Eu vou embora.

— Você não vai embora sozinha com ele nesse estado — retrucou Gustavo, recuando um passo e protegendo Liam, que olhava para os pais assustado com a gritaria. — Eu vou levar ele pra minha casa. E você vai junto, querendo ou não, porque nós dois vamos resolver essa palhaçada agora.

— Eu não vou a lugar nenhum com você, Gustavo Henrique! — Karen tentou alcançar o bebê, mas Gustavo desviou o corpo com agilidade.

— Hillary! — chamou Gustavo, sem desviar os olhos de Karen. — Pega a bolsa das coisas do moleque lá em cima. Agora.

Hillary olhou para Karen, indecisa e morrendo de culpa.

— Não precisa pegar nada, Hillary! — ordenou Karen, furiosa. — Eu vim com o meu carro e vou voltar com o meu filho!

— Você não vai dirigir tremendo desse jeito nem fodendo — Gustavo falou baixo, a voz agora cortante como lâmina, assumindo o controle da situação como sempre fazia quando perdia a paciência. Ele encarou Buzeira, que já estava ao lado deles tentando acalmar os ânimos. — Buzeira, manda um dos moleques levar o carro dela lá pra minha goma. Agora.

— Deixa que eu cuido disso, irmão — assentiu Buzeira, fazendo sinal para um dos seguranças. — Vão lá pra dentro resolver isso, pelo amor de Deus, tá todo mundo olhando.

Karen sentiu o peito arder. Ela olhou para a piscina, olhou para os convidados curiosos, olhou para a garota que tentava disfarçar a frustração por ter sido abandonada no sofá e, finalmente, olhou para o rosto obstinado e controlador de Gustavo.

Ele estava furioso, irracional de ciúmes pelo vestido que ela usava, consumido pela posse que ainda julgava ter sobre ela. E o pior de tudo: no fundo do seu peito acelerado, Karen sabia perfeitamente que aquela tempestade inteira só existia porque nenhum dos dois havia conseguido apagar o fogo que os destruía e os unia na mesma medida.

— Eu odeio você — sibilou ela, entre os dentes cerrados, as bochechas coradas pela adrenalina.

Gustavo sustentou o olhar, aproximou os lábios do ouvido dela para que apenas ela escutasse o timbre rouco que costumava arrepiar sua espinha na calada da noite:

— Odeia porra nenhuma. Entra logo na porra do carro antes que eu esqueça que a gente tá no meio da rua.

Sem esperar resposta, ele deu as costas segurando Liam com extrema delicadeza, caminhando a passos largos em direção à saída da mansão. Karen bufou, ajeitou a alça do vestido e marchou atrás dele, sabendo que a verdadeira guerra estava apenas começando.

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