
The new ghostface
Fandom: ORIGINAL
Criado: 13/09/2026
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Linhas Cruzadas e Outros Pecados
A luz âmbar dos postes antigos de Santa Cruz do Pinhal sempre falhava no mesmo trecho da Avenida das Palmeiras. Às sete da noite, a cidade parecia simplesmente desligar a tomada: o comércio da praça cerrava as portas de ferro com estrépito metálico, a fumaça de pastel frito do bar da esquina diminuía e as sombras da mata que cercava o município engoliam as calçadas esburacadas.
Era o tipo de lugar onde a privacidade não passava de uma gentileza social temporária. Todo mundo sabia quem estava devendo no armazém, quem havia traído quem atrás das arquibancadas do estádio municipal e qual família guardava os segredos mais podres debaixo de tapetes caros.
Naquela sexta-feira, os fundos do Cine Vitória — um cinema decadente dos anos 1960 com metade das lâmpadas de néon queimadas — serviam de ponto de encontro.
Victor estava recostado contra a lataria fria do Opala preto que havia pertencido ao seu irmão mais velho. Tinha um cigarro entre os dedos esguios, os olhos escuros e afiados acompanhando cada movimento da rua como se estivesse diante de um tabuleiro de xadrez do qual conhecia de cor todas as peças. Havia um magnetismo quase arrogante na sua postura; aos vinte anos, cursando um último ano escolar que prolongara por puro desdém burocrático, Victor falava com a segurança de quem acreditava ser imune à mediocridade ao redor.
— Você está encarando a rua como se esperasse um desfile militar — comentou Kael, aproximando-se.
Kael era meio palmo mais alto, ombros largos moldados pelo time de futsal e por brigas de rua mal resolvidas, vestindo uma jaqueta de couro surrada que cheirava a chuva e gasolina. Seus olhos não saíam de Victor, com uma intensidade possessiva que dispensava qualquer tipo de anúncio.
— Não espero um desfile — respondeu Victor, soprando a fumaça para cima, o canto dos lábios desenhando um meio sorriso cínico. — Só estou conferindo se o tédio dessa cidade finalmente atingiu o nível letal.
— Se matar de tédio fosse possível, o Noah já teria morrido de overdose estatística — disparou Josh, surgindo da penumbra do beco enquanto equilibrava uma garrafa de refrigerante e um pacote aberto de amendoim. — Sabiam que, segundo o gênio ali, a taxa de lâmpadas queimadas na estrada da represa subiu vinte por cento? Um perigo sem precedentes para a integridade da nossa juventude transviada.
Noah vinha logo atrás, ajeitando os óculos de aro fino, com a tela do celular iluminando seu rosto pálido e focado. Aos dezoito anos, parecia carregar o peso de investigações invisíveis sob as pálpebras cansadas.
— Zombe o quanto quiser, Josh — rebateu Noah, a voz metódica cortando o ar frio da noite. — Mas a prefeitura não corta a manutenção pública do setor sul há dez anos. Se os refletores do posto desativado foram rompidos na fiação, foi por ação humana. Não por desgaste. Alguém cortou os cabos na terça-feira.
— Claro — soltou Sophia, descendo os três degraus da saída de emergência do cinema, os braços cruzados sobre o casaco de lã vermelho. — Porque temos um supervilão local conspirando para que adolescentes não comprem cerveja clandestina no escuro. Brilhante dedução, Noah.
Sophia tinha uma presença impecável. Inteligente de um jeito calculista, ela sabia exatamente onde pisar e com quem falar para manter sua influência intacta, embora Victor sempre notasse a hesitação sutil em seus ombros toda vez que o celular dela vibrava no bolso.
— Eu não disse que é um vilão — retrucou Noah, sério. — Disse apenas que coisas que parecem aleatórias raramente são.
— Você assiste a fitas demais, garoto — disse Josh, enchendo a boca de amendoim. — Se começar uma trilha sonora de violinos esganiçados, me avise antes. Quero ter tempo de correr para a direção oposta da garota loira.
— Em filmes de terror, quem faz a piadinha é o primeiro a perder a traqueia — provocou Victor, dando a última tragada no cigarro e esmagando a bituca sob a bota de couro.
Kael deu um passo à frente, quase bloqueando o espaço entre Victor e os outros, como fazia por puro reflexo territorial.
— Ninguém vai perder nada — disse Kael, a voz baixa, áspera, carregada de uma firmeza desconfortável. — Não enquanto eu estiver por perto.
— Que romântico — ironizou Sophia, arqueando uma sobrancelha perfeitamente delineada. — Quase me sinto segura. Mas se vocês dois terminaram a sessão de testosterona, a Letícia avisou que vai dar uma festa na casa do lago dos pais dela. Meia-noite.
— A casa do lago? — Noah franziu o cenho. — Fica a três quilômetros do último orelhão funcionando na rodovia. Sem sinal de operadora se o vento virar.
— Ótimo — completou Victor, abrindo a porta do carro com um estalo seco. — Assim ninguém precisa fingir que tem amigos melhores para ligar. Entrem.
O motor do Opala rugiu, engolindo a calmaria da praça. Ninguém ali imaginava que Letícia não iria à própria festa.
A casa dos Viana ficava no final de uma alameda cercada por eucaliptos gigantescos, cuja copa densa bloqueava a pouca luz da lua. Era uma construção de dois pavimentos, cheia de janelas de vidro temperado e varandas de madeira, isolada de qualquer vizinho por pelo menos quatrocentos metros de pasto úmido.
Letícia estava na cozinha espaçosa. Uma garrafa de vinho branco repousava aberta na bancada de granito enquanto ela separava taças. O som de um CD de rock alternativo tocava baixo na sala de estar, misturando-se ao gotejar persistente da torneira que ela não conseguira fechar direito.
O telefone fixo, instalado na parede ao lado da despensa, tocou.
O som estridente da campainha metálica rompeu o silêncio da casa, fazendo Letícia estremecer. Ela secou as mãos em um pano de prato e hesitou por um segundo. Quase ninguém usava o telefone fixo hoje em dia, exceto operadores de telemarketing da capital ou sua mãe, que estava viajando para Belo Horizonte.
Ela tirou o fone do gancho.
— Alô?
Apenas uma respiração suave respondeu do outro lado. Não parecia afobada; soava controlada, ritmada, quase meditativa.
— Alô? — repetiu ela, a voz endurecendo com irritação adolescente. — Se for você de novo, Josh, juro por Deus que coloco salitre na sua cerveja.
— Você acha que o Josh teria repertório para planejar algo que realmente te surpreendesse, Letícia?
A voz não era distorcida por máquinas baratas, mas parecia vir de uma garganta que encontrava um prazer mórbido em cada consoante. Era calma, rouca, modulada em uma elegância fria. Uma voz masculina, sem sotaque evidente, soando quase íntima.
Letícia paralisou. Olhou instintivamente para a janela escura da cozinha, onde seu próprio reflexo a encarava de volta.
— Quem é? É da escola?
— Uma pergunta tão previsível — respondeu o interlocutor, acompanhado por um som suave de estalo, como se ele estivesse passando a unha sobre uma superfície rígida. — As pessoas sempre querem rótulos. "Quem é você?", "o que você quer?". Mas ninguém pergunta o que realmente importa.
— O que você quer? — ela insistiu, o coração acelerando contra as costelas.
— Eu acabei de dizer que essa pergunta é medíocre — disse a voz, com um tom de leve desapontamento pedagógico. — Mas já que você insiste: eu quero saber se você trancou a porta dos fundos depois de recolher a roupa do varal às cinco e meia.
O sangue de Letícia congelou instantaneamente. As pontas dos dedos dela formigaram com a descarga violenta de adrenalina.
Às cinco e meia da tarde ela estava recolhendo roupas. Não havia ninguém por perto. Ninguém além do vento e da mata.
— Você está me vigiando? — A voz dela saiu em um sussurro engasgado. — Seu doente... eu vou ligar para a polícia! Meu pai está no andar de cima, ele tem uma espingarda!
— O seu pai está em São Paulo, fechando a compra de um lote de gado — rebateu o homem, sereno. — E a espingarda calibre doze dele fica no armário embutido do quarto de hóspedes, descarregada, porque ele guarda os cartuchos dentro de uma lata de biscoitos amanteigados na despensa. Ao lado de onde você está agora.
Letícia deu um passo trôpego para trás. O fone escorregou levemente de sua orelha, úmido de suor. O terror primitivo a paralisou por três batimentos cardíacos inteiros.
— Quem é você...? — choramingou ela, as lágrimas quentes queimando suas bochechas.
— Vamos fazer um jogo — sugeriu a voz, suave, paciente. — Uma charada moral para testar seu raciocínio sob pressão. Pequenas cidades são fascinantes, sabia? Todo mundo comete pecados minúsculos e passa a vida rezando para que os vizinhos não descubram. Você, por exemplo. O que acha que doeria mais: a vergonha de ter a sua hipocrisia exposta para o colégio inteiro... ou o frio do aço cortando a sua pele?
— Por favor... — ela implorou, o pânico tomando conta de sua garganta.
— Escolha, Letícia. Decisões revelam o caráter. A reputação ou a carne?
Ela largou o fone, deixando-o oscilar pelo fio espiralado enquanto batia contra a parede com pancadas rítmicas e ocas. Letícia correu em direção à porta da frente. Seus sapatos derraparam no chão encerado da sala de estar. As luzes da casa piscaram subitamente — um curto-circuito premeditado — e mergulharam os cômodos em uma penumbra cinzenta.
O som de vidro estilhaçando ecoou na copa.
Ela alcançou a maçaneta da porta principal. Trancada pela chave tetra. Com as mãos trêmulas, tentou girar a trava, mas o trinco emperrou na madeira estufada pela umidade.
— Não, não, não... — ela soluçava, forçando a maçaneta com os ombros.
Atrás dela, os passos surgiram.
Não eram passos apressados. Eram lentos. Deliberados. O som de solas de borracha pesadas sobre os cacos de vidro espalhados na cozinha.
Letícia se virou, colando as costas contra a porta de madeira maciça.
Na penumbra da sala, iluminada apenas pelos faróis distantes de algum caminhão na rodovia que projetavam sombras alongadas pelas cortinas, uma silhueta se desenhou. Alta. Vestia uma capa escura que ocultava completamente o formato do corpo, o tecido pesado engolindo os contornos dos ombros. E no rosto, reluzindo com uma brancura espectral e inexpressiva, uma máscara lisa e cadavérica, com orifícios escuros onde deveriam estar os olhos e uma fenda vertical perturbadora para a boca.
A figura segurava uma lâmina de caça longa, o metal fosco refletindo a escuridão.
— Você escolheu errado — disse a voz, vinda de trás da máscara, o mesmo tom calmo e aterrorizante da chamada telefônica. — Você correu para a porta trancada em vez de pular a janela aberta da sala. O pânico emburrece até os mais inteligentes.
Letícia gritou, um grito agudo que rasgou a noite de Santa Cruz do Pinhal, mas que morreu sufocado pela densidade dos eucaliptos antes que pudesse alcançar qualquer ouvido humano.
A figura deu dois passos rápidos. O corte foi preciso, teatral e impiedoso.
Às nove da manhã do sábado, a praça central parecia um formigueiro revirado com vara de ferro.
Fitas amarelas com os dizeres "ISOLAMENTO POLICIAL" bloqueavam a entrada da estrada da represa. Duas viaturas da Polícia Militar e um carro descaracterizado da Polícia Civil estavam estacionados em frente ao boteco do Seu Ademir, onde os velhos da cidade cochichavam com expressões sombrias.
Victor estava encostado na mureta da igreja, os braços cruzados dentro da jaqueta escura. Seus olhos não desgrudavam do movimento na esquina. Havia uma tensão elétrica no ar, o tipo de estática que precede um temporal destrutivo.
Kael estava a menos de um palmo dele, tenso, os punhos cerrados dentro dos bolsos. Parecia um cão de guarda esperando a ordem para morder.
— Disseram que a empregada encontrou o corpo — murmurou Josh, com a voz desprovida de qualquer vestígio de sarcasmo habitual. Ele roía as unhas, o rosto pálido. — Minha mãe falou que tinha sangue espalhado pelo teto da copa. A Letícia... cara, a gente conversou com ela ontem no recreio.
— Foi homicídio qualificado — corrigiu Noah, aproximando-se com passos rápidos, segurando uma prancheta improvisada com anotações amassadas. Ele parecia ter passado a noite em claro. — O delegado Souza pediu reforço de Belo Horizonte. Não foi assalto. Nada foi levado. Nem as joias da mãe dela, nem os computadores. Quem fez isso queria uma audiência.
— Você fala como se estivesse analisando um episódio de série, Noah — atacou Sophia, que acabara de chegar. Ela usava óculos escuros, mas o tremor nas mãos enquanto segurava a bolsa era evidente para qualquer um que soubesse onde olhar. — A Letícia foi massacrada. E você está aqui com um caderno tentando parecer um detetive de filme noir?
— Eu estou tentando entender o que a polícia é estúpida demais para ver! — retrucou Noah, com a voz subindo de tom. — Há três meses, aquele vigia noturno da fábrica desativada foi encontrado no rio com os tendões cortados. A polícia disse que foi afogamento acidental de bêbado. Mês passado, a dona da farmácia sumiu e acharam o carro dela queimado na serra. E agora a Letícia. Não são fatos isolados!
— Cala a boca, Noah — ordenou Kael, dando um passo intimidador na direção dele. — Tem policiais por toda a praça. Se você continuar gritando essas teorias imbecis, eles vão achar que você sabe demais sobre o assunto.
Noah recuou um centímetro, mas não abaixou os olhos.
— Ou talvez você esteja com medo de que eles comecem a fazer as perguntas certas, Kael. Onde você estava depois das dez ontem? Você sumiu depois que saímos do cinema.
O ar entre os dois pareceu estalar. Kael avançou meio passo, a mandíbula travada, os olhos faiscando em um ódio puramente instintivo.
— Repete isso — rosnou Kael, a voz baixa e perigosa. — Repete para ver se seus óculos continuam inteiros no seu rosto.
— Chega — interveio Victor, com uma calma gelada que parecia desarmar a histeria ao redor.
Ele não levantou a voz, mas todos pararam para ouvi-lo. Victor olhou primeiro para Noah, depois para Kael, seus olhos avaliando cada centímetro das reações dos dois.
— Se começarmos a apontar dedos uns para os outros na praça pública, facilitamos o trabalho de quem quer que esteja nos observando — disse Victor, os lábios apertados em desdém.
— Quem disse que tem alguém nos observando? — perguntou Sophia, ajeitando os óculos escuros, a voz vacilando ligeiramente.
Victor deu um sorriso fino, desprovido de qualquer calor humano.
— Uma cidade com doze mil habitantes. Uma garota morta dentro de casa com as janelas abertas e nenhuma impressão digital identificada até agora. Quem fez isso sabia a rotina dela, sabia que os pais estavam fora e sabia exatamente por onde escapar sem cruzar com a ronda noturna na rodovia. — Victor fez uma pausa, o olhar recaindo sobre cada um de seus amigos. — O assassino não caiu do céu. Ele almoça nas mesmas mesas que nós. Toma café na mesma padaria. E, muito provavelmente, está nos olhando agora.
Um silêncio pesado desabou sobre o grupo. Até mesmo Josh parecia ter esquecido como respirar por um momento.
O celular de Victor vibrou dentro do casaco.
Um toque seco, insistente. Ele tirou o aparelho do bolso lentamente. Na tela fosca, o visor brilhava com a inscrição: NÚMERO DESCONHECIDO.
Kael olhou para a tela por cima do ombro de Victor, a testa franzindo em um vinco agressivo.
— Quem é a essa hora? — perguntou Kael, estendendo a mão instintivamente como se fosse tomar o aparelho.
Victor recuou um passo milimétrico, afastando-se do toque de Kael. O gesto foi sutil, mas carregado de uma frieza que não passou despercebida por Sophia, que estreitou os olhos.
Victor deslizou o dedo pela tela verde e levou o telefone ao ouvido.
— Fala.
Do outro lado, não havia barulho de tráfego, nem de vento. Apenas o zumbido mecânico de uma linha vazia, seguido por aquela mesma voz rouca, suave e assustadoramente cortês que estivera na casa do lago poucas horas antes:
— Belo discurso na praça, Victor. Você sempre foi tão fascinado pelo controle, não é? Acha que consegue antecipar a mente humana porque lê livros demais e julga as pessoas de menos.
Victor manteve a expressão congelada, mas seus músculos se retesaram de uma forma que Kael notou no mesmo instante.
— Quem é você? — perguntou Victor, a voz calculada para não demonstrar fraqueza diante dos quatro amigos que o encaravam em pânico crescente.
— Uma testemunha — respondeu a voz, acompanhada por um riso baixo, quase melodioso. — Apenas alguém curioso para saber por que você deixou de mencionar para o seu amiguinho Kael onde você realmente estava entre as onze e a meia-noite de ontem. Você mente muito bem, Victor. Mas até os melhores mentirosos tropeçam quando o palco começa a queimar.
A linha caiu.
Um tom de ocupado rítmico e vazio começou a apitar no ouvido de Victor: tu-tu-tu-tu.
— Victor? — Kael tocou no braço dele, dessa vez com firmeza bruta. — O que foi? Quem era?
Victor baixou o aparelho devagar. Pela primeira vez na vida, seus olhos não demonstravam superioridade absoluta. Ele olhou para a igreja antiga, para as esquinas lotadas de vizinhos sussurrantes e, finalmente, para os rostos de Kael, Sophia, Noah e Josh.
Nenhum deles parecia totalmente inocente. Nenhum deles parecia inteiramente seguro.
— Era um trote — mentiu Victor, guardando o telefone no bolso e forçando o mesmo sorriso arrogante de sempre, embora sua garganta estivesse seca como cal. — Só um idiota sem nada melhor para fazer.
Mas enquanto o vento soprava a poeira da praça contra suas pernas, Victor soube, com a precisão letal de um bisturi, que o jogo acabara de começar. E que em Santa Cruz do Pinhal, o próximo a atender a chamada pagaria com a própria vida.
