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Fandom: Nar
Criado: 13/09/2026
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Frequência Oculta
A luz do anel de LED refletia nas pedrinhas prateadas dos piercings na sobrancelha de Lis e fazia o vermelho vivo das pontas de seus cachos parecer quase incandescente. Na tela do computador, o chat rolava em uma velocidade impossível de acompanhar; milhares de mensagens por segundo subiam freneticamente enquanto ela soltava uma gargalhada escandalosa, jogando a cabeça para trás.
— Não, cara, vocês estão de sacanagem! — Lis gritou no microfone profissional, batendo a palma da mão tatuada na mesa. — Se aquele boss me acertar mais uma vez com aquela marreta invisível, eu juro por Deus que deleto o jogo e viro monja budista. Puta que pariu, que hitbox desgraçado!
O contador indicava cento e oitenta mil pessoas assistindo simultaneamente à transmissão ao vivo. Para o mundo, ela era a streamer caótica de vinte e um anos com dois milhões de seguidores: desbocada, estilosa em sua camiseta extragrande de death metal, correntes pesadas no pescoço e anéis grossos em quase todos os dedos. Uma força da natureza em constante combustão.
A porta do quarto abriu sem ruído. Lis nem precisou olhar para saber quem era.
Itachi entrou em passos silenciosos, vestindo uma calça de moletom cinza e uma camiseta preta de manga comprida dobrada nos antebraços. O cabelo escuro caía solto emoldurando o rosto de traços perfeitamente angulados e calmos. Ele segurava uma caneca fumegante de chá de camomila. Ficou parado fora do alcance da câmera, encostado no batente da porta, apenas observando-a com aquele olhar escuro e indecifrável que só ele tinha.
Lis olhou de relance para ele e sentiu o calor subir pelo pescoço. Deu uma piscadela quase imperceptível em sua direção.
— Bom, seus degenerados, por hoje é só — ela anunciou, abaixando o fone de ouvido até o pescoço e passando a língua pelos dois piercings snake bites no lábio inferior. — Minha cota de estresse diário já estourou. Bebam água, não façam merda e quem mandar superchat pedindo para eu latir vai levar ban permanente. Falou!
Com alguns cliques rápidos, a tela de encerramento subiu e o botão de transmissão mudou para cinza. A enorme iluminação branca se apagou, deixando o quarto banhado apenas pela penumbra aconchegante dos LEDs roxos nas prateleiras.
Lis soltou um longo suspiro, afundando na cadeira ergonômica, e esticou os braços para o alto, sentindo as costas estalarem.
— Achei que você fosse quebrar o teclado — a voz de Itachi ecoou, mansa, com aquele tom grave e pausado que parecia desacelerar o próprio tempo.
Ele caminhou até ela, pousando a caneca na mesa antes de parar atrás da cadeira. As mãos grandes e firmes dele foram direto para os ombros dela, massageando a tensão acumulada com uma precisão que fez Lis fechar os olhos e soltar um gemido quase indecente de alívio.
— Aquele jogo foi programado por chimpanzés drogados, juro — resmungou ela, jogando a cabeça para trás até encostar no abdômen dele. Ela olhou para cima, enxergando o queixo bem desenhado e o olhar suave dele. — Valeu pelo chá, senhor perfeição.
Itachi inclinou-se ligeiramente, os olhos pretos semicerrados com um toque de diversão seca.
— Se você não dormir, vai ficar insuportável amanhã. Mais do que o normal.
— Olha a audácia! — Lis riu, erguendo a mão cheia de anéis para segurar a nuca dele, puxando-o para baixo.
Itachi não resistiu. Cedeu com a facilidade de quem adorava a gravidade que Lis exercia sobre ele. Os lábios se encontraram com a fome calma e profunda que caracterizava os beijos dele; a língua dele explorou a dela sem pressa, roçando de leve nas pequenas esferas de aço dos piercings da boca dela. Um arrepio correu pela espinha de Lis. Itachi aprofundou o toque, uma de suas mãos subindo para a lateral do rosto dela, os dedos embrenhando-se nos cachos volumosos, acariciando a nuca sensível.
Quando se afastaram, a respiração dela estava curta.
— Você devia ir para a cama — disse ele em voz baixa, o polegar deslizando devagar pelo lábio inchado dela. — Já passa da uma.
Um aperto desconfortável se instalou no estômago de Lis. A lembrança bateu como um balde de água fria: ela precisava estar de pé às seis da manhã.
— É... — Ela desviou o olhar, pegando a caneca para disfarçar. — Tenho que acordar cedo amanhã. Dia puxado.
Itachi permaneceu imóvel, os olhos fixos nela, atentos demais. Nada passava despercebido por ele, e esse era o maior terror de Lis.
— No escritório de novo? — perguntou ele, casual, mas com aquele peso analítico sob as palavras.
— Uhum. Inventário do mês. Um inferno burocrático de planilhas. — A mentira saiu tão afiada quanto todas as outras que vinha contando nos últimos seis meses, mas o gosto amargo na boca nunca diminuía.
Itachi não disse nada de imediato. Apenas levou uma mecha do cabelo vermelho dela para trás da orelha repleta de argolas.
— Você trabalha demais nesse lugar. E quase nunca fala sobre ninguém de lá.
— É porque é um bando de velho chato digitando número fiscal, Tachi — ela rebateu rápido demais, forçando um sorriso descontraído e se levantando. — Minha cota de interação social eu gasto nas lives e com você. O resto é só pra pagar a anuidade da minha dignidade.
Ele deu um meio sorriso cético, mas não insistiu. Apenas a puxou pela cintura, beijando o topo de sua cabeça.
— Vamos dormir, então.
Às seis e quinze da manhã, o apartamento estava mergulhado em um silêncio gélido.
Lis se esgueirou pela cozinha na ponta dos pés, usando coturnos velhos, uma calça jeans preta larga e um casaco moletom cinza que engolia sua silhueta. Havia prendido o cabelo em um coque alto e bagunçado, escondendo grande parte das pontas vermelhas, e tirara os piercings da sobrancelha e do nariz, deixando apenas as argolinhas discretas na boca e orelhas.
Olhou para a cama antes de sair. Itachi dormia de bruços, o peito nu subindo e descendo com serenidade. Era a visão mais linda do mundo, e a culpa rasgou o peito de Lis por um segundo. Mas ela engoliu o nó na garganta, fechou a porta trancando-a com cuidado e desceu para o metrô.
Quarenta minutos depois, ela passava pelo portão de ferro discreto nos fundos de um bairro industrial nobre.
A fachada do prédio de tijolos escuros tinha apenas uma placa de acrílico fosco e elegante: Pleasure Lab – Importação e Distribuição.
Lis destrancou a porta dos fundos, desativou o alarme e respirou o cheiro característico do lugar: essências de baunilha, morango com champanhe, borracha vulcanizada, couro legítimo e silicone médico esterilizado.
Ali, ela não era a "Lis", a garota da Twitch com milhões de visualizações e fãs histéricos. Ali, ela era a supervisora do setor de expedição e qualidade da maior distribuidora de produtos eróticos premium da região.
Ela organizava os lotes, conferia pedidos de atacado, testava o funcionamento dos motores e a vedação à prova d'água de vibradores caríssimos e despachava remessas para sex shops de luxo do país inteiro.
Ganhava uma grana espetacular com isso — um dinheiro limpo, dela, que vinha desde antes de seu canal estourar e que a ajudara a comprar o apartamento e manter a mãe em outra cidade sem precisar de patrocinador enchendo o saco.
Mas como explicar isso para Itachi?
Itachi vinha de uma família tradicional, de linhagem fechada, impecável e conservadora. Embora ele mesmo tivesse se distanciado dos negócios dos pais para seguir seu próprio caminho independente, Lis morria de medo de que a visão dele sobre ela mudasse. Uma coisa era ele achar sua estética alternativa e suas piadas sujas adoráveis. Outra completamente diferente era descobrir que ela passava quatro manhãs por semana cercada de dildos de trinta centímetros, arreios de bondage, plugs anais cravejados de strass e estimuladores clitorianos por sucção de ar.
Ela tinha pavor de ver decepção ou nojo naqueles olhos escuros.
— Bom dia, máquina de moer conteúdo — saudou Tenten, a dona da distribuidora, saindo do escritório com uma prancheta debaixo do braço e um copo de café na mão. — Chegou a nova linha de silicone líquido da Alemanha. Dez caixas no depósito dois. Precisamos checar os números de série e separar os pedidos da loja física da frente.
— Já tô indo — Lis respondeu, tirando o moletom pesado e ficando apenas de regata preta, exibindo as tatuagens pontilhadas nos braços. — Os sugadores com aquecimento térmico saíram ontem?
— Todos. O lote inteiro esgotou em duas horas. O povo tá carente e com frio, aparentemente.
Lis soltou uma risada genuína, colocando as luvas de nitrilo preto.
— O capitalismo tardio encontra o orgasmo mecânico. Poético. Vou descarregar as caixas.
As três horas seguintes passaram em um piscar de olhos. Lis adorava a rotina física daquele trabalho. Manusear os pacotes, conferir estoques, testar a vibração dos aparelhos recarregáveis em um ambiente onde ninguém a julgava nem pedia autógrafo era quase terapêutico.
Por volta das dez e meia, a funcionária da recepção da frente precisou sair para o almoço, e Lis assumiu temporariamente o balcão da boutique anexa à distribuidora. O espaço era iluminado por neon roxo suave e detalhes dourados, parecendo uma perfumaria chique de shopping, exceto pelo fato de que as prateleiras de vidro exibiam lingeries de vinil, algemas forradas de pelúcia e brinquedos de design futurista que custavam mais do que um salário mínimo.
Lis estava curvada sobre o balcão, abrindo uma caixa lacrada de um modelo novo: um estimulador duplo articulado em formato de golfinho, feito de silicone aveludado e com dez frequências de pulsação.
Ela ligou o aparelho para testar a bateria. O brinquedo emitiu um zumbido grave, vibrando com intensidade suficiente para fazer as chaves no balcão chacoalharem.
— Caralho, isso aqui na potência máxima deve reiniciar o sistema operacional de qualquer um — murmurou ela para si mesma, rindo baixinho enquanto ajustava a intensidade.
O sino de latão sobre a porta de entrada da loja tocou com um tilintar metálico e límpido.
— Bom dia! Só um segundo, já atendo — Lis falou sem erguer a cabeça, ocupada em desligar o botão do brinquedo, que teimava em continuar vibrando em sua mão enluvada. — Se estiver procurando a linha de óleos corporais, eles ficam na estante à esquerd...
— Você esqueceu a sua carteira no balcão da cozinha.
O mundo de Lis congelou. O chão sob seus coturnos pareceu se dissolver em um abismo sem fundo.
Aquela voz.
Não havia outra voz como aquela no planeta. Grave, pausada, calma como a calmaria antes do furacão.
Lis ergueu os olhos em câmera lenta, sentindo todo o sangue fugir de seu rosto de uma só vez. As pontas dos dedos congelaram dentro das luvas pretas.
Parado bem no meio do corredor principal, entre uma prateleira de chicotes de couro e um display com três modelos diferentes de masturbadores masculinos com textura realista, estava Itachi.
Ele vestia sua jaqueta jeans escura, as mãos enfiadas nos bolsos e a expressão absolutamente ilegível. Os olhos escuros varreram o teto, as luzes roxas, os manequins vestidos com corpetes transparentes, desceram para as prateleiras de dildos de vidro temperado e, finalmente, pousaram em Lis.
Mais especificamente, na mão de Lis. Que ainda segurava um vibrador rosa choque em forma de golfinho, zumbindo em frequência média.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor.
O coração de Lis martelava tão forte na garganta que ela achou que fosse vomitar. Seus lábios se entreabriram, mas som nenhum saiu. O pânico puro e absoluto paralisou cada terminação nervosa de seu corpo.
Itachi deu dois passos lentos à frente. O rangido da sola de seus sapatos no piso de madeira ecoou pelo salão silencioso.
Ele parou a menos de um metro do balcão, ergueu uma das mãos e colocou a carteira de couro desgastada de Lis sobre o vidro.
Depois, inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, encarando o brinquedo na mão dela.
— Então — começou ele, a voz num tom perigosamente suave —, essas são as planilhas fiscais?
Lis engoliu em seco. Com um reflexo desesperado, apertou o botão do aparelho com tanta força que o desligou, jogando-o para dentro da caixa aberta com um baque surdo.
— T-Tachi... — A voz dela falhou grotescamente, perdendo toda a pose da streamer descolada. — O que... o que você tá fazendo aqui?
— Você saiu sem dinheiro e sem documento. — Ele manteve o tom neutro, mas havia uma faísca fria e afiada no fundo daquelas pupilas negras. — Vi o comprovante de entrega da semana passada na gaveta do quarto com esse endereço. Pensei que você estivesse prestando serviço administrativo para uma transportadora.
Lis sentiu as bochechas arderem como brasa viva. A vergonha era esmagadora, sufocante. Ela recuou um passo, cruzando os braços sobre o peito numa postura defensiva inconsciente.
— Eu posso explicar — gaguejou ela, odiando a si mesma por soar tão fraca. — Não é... quer dizer, é exatamente o que parece, mas não do jeito que você tá pensando! Eu não... eu só organizo as coisas, testo o material, vendo no atacado...
— Por que você mentiu para mim, Lis?
A pergunta veio direta, sem rodeios, desprovida de gritos ou drama, o que a tornava cem vezes mais devastadora. Itachi não parecia enojado; ele parecia contrariado por ter sido mantido no escuro.
— Porque eu achei que você ia me achar uma aberração! — explodiu ela em um sussurro exasperado, os olhos queimando com lágrimas não derramadas de pura frustração. — Olha pra você, Itachi! Você é centrado, inteligente, a porra de um lorde, e eu sou... isso aqui! Uma garota cheia de metal na cara que fala merda na internet de noite e passa o dia separando pinto de borracha e algema de pelúcia pra ganhar dinheiro! Eu achei que você ia ter nojo de mim, caralho!
As palavras ecoaram pelo salão perfumado com essência de baunilha.
Lis sustentou o olhar dele, com o peito subindo e descendo descompassado, esperando o pior. Esperava que ele virasse as costas, que fizesse um comentário depreciativo ou simplesmente fosse embora com aquela frieza cortante que ela sabia que ele reservava para o resto do mundo.
Em vez disso, a expressão impassível de Itachi vacilou.
A sobrancelha dele se ergueu milimetricamente. Ele deu a volta pelo balcão com passos deliberados, invadindo o espaço restrito dos funcionários como se fosse o dono do lugar. Lis tentou dar outro passo para trás, mas suas costas encontraram a parede forrada de caixas de estoque.
Itachi parou a poucos centímetros dela. Ele era mais alto, o corpo largo projetando uma sombra densa sobre ela, mas não havia ameaça em sua postura — apenas uma intensidade esmagadora.
Ele ergueu a mão e, com uma lentidão calculada, puxou a ponta da luva preta de Lis, retirando-a e deixando os dedos dela expostos. Em seguida, tocou a pele quente da bochecha dela com os nós dos dedos, fazendo-a estremecer.
— Você realmente é idiota às vezes — murmurou ele.
— O quê? — Lis piscou, desarmada.
— Eu namoro uma mulher que passa horas gritando com estranhos na internet usando uma camiseta do Cannibal Corpse e que quase me mordeu na semana passada porque eu comi o último pedaço de pizza — disse ele, a voz rasteira, com aquele humor seco e sarcástico que a desestabilizava completamente. O canto da boca dele se curvou em um meio sorriso quase invisível. — Você realmente achou que brinquedos sexuais fariam diferença?
Lis ficou boquiaberta.
— Mas... você não tá puto?
— Estou puto porque você mentiu para mim por seis meses — corrigiu ele, o olhar escurecendo um tom, descendo da boca dela para o decote da regata preta, onde a respiração acelerada dela fazia o peito subir e descer. — E porque você achou, por um segundo sequer, que eu teria nojo de qualquer coisa que envolva você.
A mão dele deslizou da bochecha dela para a nuca, puxando-a para frente com firmeza, eliminando qualquer distância restante. Lis soltou um suspiro trêmulo quando o calor do corpo dele a envolveu.
— Tachi... a gente tá no meu trabalho — sussurrou ela, embora suas mãos já estivessem subindo para o peito da jaqueta dele, segurando o tecido com força.
Itachi olhou para a porta de entrada da loja, depois para a tranca automática no painel ao lado do balcão. Ele esticou o braço com calma e apertou o botão vermelho. A fechadura disparou com um estalo metálico pesado, e a placa de "Aberto" na vitrine se apagou.
Ele voltou a encará-la, os olhos brilhando com uma possessividade calma e perigosa que fez o baixo ventre de Lis queimar instantaneamente.
— A loja está fechada para inventário — disse ele, a voz rouca roçando a concha da orelha dela enquanto seus lábios desciam pelo pescoço tatuado de Lis, mordiscando de leve a pele sensível logo abaixo da mandíbula. — E você vai me mostrar exatamente como funcionam todas as frequências daquele aparelho que você estava segurando.
Lis deixou escapar um gemido abafado quando as mãos dele apertaram seus quadris, prensando-a contra o balcão. A vergonha que sentira minutos antes se transformou em uma onda inebriante de eletricidade pura.
— Tem certeza? — provocou ela, recuperando o fôlego e o deboche característico, sorrindo contra os lábios dele enquanto puxava a gola de sua camiseta. — Aquele golfinho não perdoa ninguém, senhor Uchiha.
Itachi apenas sorriu — aquele sorriso raro e devastador que reservava exclusivamente para ela — antes de calar a boca de Lis com um beijo que prometia quebrar muito mais do que apenas o silêncio daquela manhã.
