
The new ghostface
Fandom: ORIGINAL
Criado: 13/09/2026
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O Sussurro dos Trilhos Mortos
— Tira ele do carro! — berrou Noah, a voz rachando em um tom histérico que fez os ouvidos de Josh zumbirem. — O banco é macio, a massagem cardíaca não funciona aqui! Tira ele agora!
Kael não pensou. Ele não respirava, não sentia os cacos de vidro que rasgavam suas mãos ao se apoiar na carcaça torta da porta traseira. Ele enfiou os braços por baixo dos ombros inertes de Victor, puxando aquele corpo flácido e pesado contra o próprio peito. O cheiro de ferro puro, chuva ácida e suor frio subiu em uma lufada nauseante.
— Me ajuda! — Kael soluçou, tropeçando na lama espessa da plataforma desativada. — Noah, caralho, segura as pernas dele!
Sophia desceu em um salto pelo lado do passageiro, a lanterna pesada oscilando descontroladamente em sua mão trêmula. O feixe amarelado cortou a escuridão, revelando o piso rachado de concreto sob a marquise de zinco enferrujada da velha estação.
— Aqui! — gritou ela, apontando para uma área relativamente seca, longe do barro que escorria dos barrancos. — Coloca ele aqui!
Eles deitaram Victor de costas sobre o chão gélido. A cabeça dele pendeu de lado, sem qualquer resistência muscular. Sob o feixe da lanterna, a pele outrora morena e vibrante de Victor parecia cinza-chumbo, quase translúcida. Os lábios entreabertos estavam azulados, manchados de um líquido escuro que começava a secar em seus cantos.
Noah caiu de joelhos com tanta força sobre o concreto que o barulho dos ossos batendo ecoou na estrutura oca da estação. Ele entrelaçou os dedos, apoiou a base da palma da mão sobre o esterno ensanguentado de Victor e esticou os braços.
— Um, dois, três, quatro... — Noah começou a empurrar com todo o peso do corpo, o suor pingando das pontas de seus óculos trincados.
A cada compressão violenta, ouvia-se o estalo nauseante das cartilagens costais cedendo, um barulho seco de gravetos partindo sob uma bota pesada.
— Noah, você tá quebrando ele! — gritou Josh, encolhido contra uma das pilastras de ferro fundido, com os olhos desorbitados pelo pânico.
— Cala a boca, Josh! — rugiu Noah, sem interromper o ritmo brutal. — Se as costelas não estalarem, a compressão não tá sendo profunda o suficiente! Dezesseis, dezessete, dezoito... Kael, limpa as vias aéreas dele! Tira o sangue da boca dele!
Kael ajoelhou-se ao lado da cabeça de Victor. Ele enfiou os dedos trêmulos na boca do rapaz, retirando coágulos espessos que bloqueavam a faringe. Não havia nojo, não havia medo de contaminação; havia apenas a fome animalesca e primitiva de manter aquela vida amarrada à sua.
— Trinta! — ofegou Noah, jogando o tronco para trás por uma fração de segundo. — Ventila!
Kael pinçou o nariz de Victor, selou seus lábios ensanguentados sobre aquela boca gélida e soprou duas vezes com força desesperada. O peito de Victor ergueu-se de forma artificial e frouxa antes de desabar novamente.
— De novo! — ordenou Noah, retomando a massagem. — Um, dois, três...
— Volta, Victor... — murmurava Kael, as lágrimas lavando a lama e o sangue seco em suas próprias bochechas, os punhos cerrados batendo no concreto a cada segundo de silêncio. — Você disse que ia quebrar as minhas pernas, seu filho da puta arrogante. Volta e quebra. Volta, porra!
— Vinte e oito, vinte e nove, trinta! — gritou Noah, arfando como se o ar daquela serra fosse feito de vidro moído. — Ventila, Kael!
Mais duas insuflações. Kael sentiu o gosto amargo e metálico da morte penetrar em sua garganta.
Nada. O pulso carotídeo continuava inexistente. Apenas o silêncio lúgubre, entrecortado pelo tamborilar furioso das gotas de chuva que perfuravam as goteiras da cobertura de metal.
— Não para, Noah! — Kael avançou para empurrar o amigo e assumir as compressões, mas Noah o barrou com o antebraço, cuspindo sangue do próprio lábio mordido.
— Eu não vou parar! — Noah gritou, jogando o peso para baixo em um novo ciclo de trinta compressões. O som das costelas estalando se repetiu. — Um... dois... três...
Sophia, que mantinha o foco da lanterna cravado no peito rasgado de Victor, de repente congelou.
Lá em cima, a uns duzentos metros pela estrada de rodagem que serpenteava a montanha, um som grave e ritmado cortou o uivo do vento.
O ronco pesado de um motor a diesel.
Josh levou as duas mãos à cabeça, puxando os próprios cabelos até a raiz arder.
— Ele deu meia-volta... — sussurrou o garoto, a voz afinando em um falsete que beirava a loucura. — Ele percebeu que a gente não capotou na curva... Ele tá descendo para cá!
— Continua, Noah! — implorou Kael, ignorando o ruído lá fora, os olhos fixos na mandíbula imóvel de Victor.
— Vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove... — Noah caiu para o lado, os braços em espasmo de fadiga muscular total. — Respira por ele, Kael! Agora!
Kael mergulhou sobre Victor novamente. Uma. Duas insuflações profundas.
Por dois segundos intermináveis, o mundo pareceu parar em um abismo suspenso.
De repente, o corpo de Victor arqueou-se com violência inumana.
Um som borbulhante e cavernoso rompeu de sua traqueia, seguido por um acesso de tosse dilacerante que expeliu sangue espesso e saliva contra o rosto de Kael. Victor puxou o ar em um uivo sibilante, seus olhos arregalando-se em direção à escuridão do teto, as íris desorientadas, o peito subindo e descendo em espasmos caóticos de pura sobrevivência biológica.
— Ele voltou! — exclamou Noah, a voz desmoronando em um choro infantil enquanto pressionava os dedos contra a jugular de Victor. — O pulso voltou! Fraco, filiforme, mas tá batendo!
Kael apoiou a testa no ombro molhado de Victor, os soluços sacudindo suas costas retalhadas por cacos de vidro.
— Eu peguei você — murmurava Kael, a mão acariciando os cabelos ensopados do outro. — Eu peguei você, desgraçado...
— Não comemora ainda — cortou Sophia, a voz cortante como navalha.
Ela desligou a lanterna de metal com um estalo seco.
A escuridão engoliu a plataforma abandonada no mesmo instante, restando apenas os contornos prateados das vigas enferrujadas banhadas pela tempestade.
Lá em cima, no corte da ribanceira que dava para o leito ferroviário, dois fachos de luz amarela e impiedosa varreram a copa dos eucaliptos. O monstro de aço desacelerava. O ruído do motor a diesel agora era um ronronar contínuo, vibrando no solo lamacento e nas paredes decrépitas da estação.
— Ele vai descer pelo desvio de cascalho — disse Sophia, os olhos adaptando-se à penumbra. — Josh, ajuda o Noah a pegar o Victor. Kael, pega a toalha. A gente tem que entrar no galpão de triagem antes que os faróis dele iluminem essa plataforma.
— Eu não consigo carregar ele... — balbuciou Josh, as pernas bambas batendo uma contra a outra. — Eu tô tremendo muito, Sophia...
Kael se ergueu do chão em um movimento brusco. Mesmo machucado, a adrenalina injetava chumbo em seus músculos. Ele agarrou o colarinho ensanguentado de Josh e o prensou contra uma viga de ferro com violência.
— Você vai calar essa porra dessa boca e vai segurar os pés dele — rosnou Kael, a poucos centímetros do rosto lívido de Josh. — Ou eu te deixo amarrado nos trilhos para servir de isca enquanto a gente corre. Você escolhe, Josh. Agora.
Josh engoliu em seco, as lágrimas escorrendo pela ponta do nariz arrebitado. Ele assentiu em um movimento rígido e desesperado de cabeça.
— Eu seguro. Eu seguro ele.
Entre Noah e Josh, eles ergueram a parte inferior do corpo de Victor, enquanto Kael sustentava o tronco e a cabeça pálida, cuidando milimetricamente da ferida estancada por panos imundos. Victor gemia a cada movimento, a respiração curta chiando como uma folha de papel sendo rasgada a ferro quente dentro de seus pulmões.
Sophia correu à frente, empurrando uma porta dupla de madeira carcomida que dava acesso ao saguão interno da estação de Santa Cruz do Pinhal. As dobradiças enferrujadas gemeram em protesto, um som agudo que fez o estômago de todos congelar.
Eles entraram na escuridão fétida do edifício.
O ar ali dentro era pesado, saturado de mofo antigo, fuligem e carcaças de pombos apodrecendo nos cantos. Ao fundo, fileiras de guichês de passagens com vidros martelados e madeiramento quebrado pareciam bocas desdentadas assistindo ao cortejo fúnebre do grupo.
Sophia guiou o grupo até o antigo depósito de bagagens, uma sala nos fundos cercada por grades de aço e com uma única janela alta que dava para o pátio de manobras.
Eles depositaram Victor sobre uma mesa comprida de madeira pesada, usada décadas atrás para carimbar fardos de café. O jovem tossiu fracamente, a mão procurando a borda da madeira com dedos que já voltavam a perder a temperatura.
— Sophia... — sussurrou Noah, limpando o vidro dos óculos na barra da camisa encharcada. — Ele precisa de drenagem torácica. O sangue tá acumulando no espaço pleural. É questão de minutos até o pulmão colapsar de novo.
— Não tem agulha de descompressão aqui, Noah! — rebateu Sophia, mantendo-se rente à fresta da porta, observando o saguão escuro. — A única coisa que a gente tem é que sobreviver aos próximos dez minutos.
Lá fora, o barulho do motor da caminhonete morreu de repente.
A quietude que se seguiu foi pior do que o choque do para-choque de ferro contra o Opala. O único som restante era o choro constante do céu caindo sobre as telhas de amianto quebradas da estação.
Ploc... ploc... ploc...
Passos pesados esmagaram o cascalho do leito ferroviário.
Calçados pesados. Solado de borracha dura afundando na lama.
— Ele desceu do carro — sussurrou Josh, agachado debaixo da mesa de madeira, abraçando os próprios joelhos.
Kael olhou ao redor no escuro, os olhos caçando qualquer coisa que pudesse ser transformada em letalidade. Seus dedos encontraram uma barra de ferro de quase um metro, pontiaguda em uma das extremidades — uma alavanca de mudança de trilhos abandonada encostada na parede de tijolos aparentes. Ele a pesou na mão; o metal era denso, áspero de óxido, mortal se empunhado com precisão.
— Kael, não — sussurrou Noah, lendo a intenção no semblante sombrio do amigo. — Ele tem o dobro do seu peso, tá armado e provavelmente tem visão noturna ou uma lanterna tática. Se você for para o confronto aberto, ele te estripa como fez com o Victor.
— E você quer que a gente faça o quê? — retrucou Kael, a voz descendo a um murmúrio perigoso e viperino. — Fique esperando feito ratos nessa despensa até ele jogar gasolina por baixo da porta e queimar todo mundo vivo?
No canto da mesa, a mão gélida de Victor moveu-se. Seus dedos envolveram o pulso de Kael com uma força surpreendente, quase desesperada.
Kael se inclinou imediatamente sobre o amigo ferido.
— Victor? Fala comigo.
— O... o galpão três... — sussurrou Victor, cada sílaba acompanhada por uma bolha de sangue que estourava em seus lábios.
Sophia virou-se no mesmo instante, aproximando-se da mesa.
— O que tem no galpão três, Victor?
— Os tambores... — Victor forçou o ar para fora, os olhos fixando-se no teto alto e sombrio. — Os tambores da fazenda... nunca foram para a represa... Meu irmão... mentiu na fita...
O ar pareceu evaporar da pequena sala de bagagens.
Sophia deu um passo para trás, as costas batendo contra as prateleiras de ferro enferrujado.
— O quê? — ela balbuciou.
— Meu irmão... descarregou o veneno aqui... — continuou Victor, as lágrimas de dor escorrendo para dentro de seus canais auditivos. — Há dez anos... A estação velha... era o depósito... O pai da Sophia... pagou a concessão da ferrovia... para enterrar tudo debaixo da plataforma...
Um calafrio glacial desceu pela espinha de Noah. As peças quebradas do quebra-cabeça hediondo de Santa Cruz do Pinhal finalmente colidiam com uma crueza estarrecedora.
— A água... — murmurou Noah, o horror desfigurando suas feições acadêmicas. — O lençol freático da cidade inteira passa por baixo desse pátio de manobras. Eles não jogaram nada na represa porque a fiscalização estadual vigiava a bacia hidrográfica. Eles enterraram tudo aqui, no centro morto do vale!
— E o assassino... — completou Kael, apertando a barra de ferro até a articulação dos nós de seus dedos estalar — ...é alguém que perdeu a família por causa dessa contaminação.
— A filha do caseiro — sussurrou Sophia, as mãos cobrindo a boca. A voz dela mal passava de um tremor inaudível. — O Dr. Arnaldo falou na gravação... A menina que estava na UTI em Pouso Alegre vomitando sangue... O caseiro da fazenda dos Viana se chamava Matias... Ele sumiu semanas depois que a menina morreu...
CRACK.
Um galho seco partiu-se logo do lado de fora da janela alta do depósito de bagagens.
A respiração de todos parou simultaneamente.
A sombra alongada de uma silhueta alta bloqueou momentaneamente a pouca luz que entrava pela clarabóia quebrada da estação. O reflexo fosco da máscara branca oscilou através das teias de aranha que cobriam o vidro engordurado da sala.
Ele não estava procurando a esmo.
Ele conhecia aquele lugar.
O assassino parou bem diante da porta de madeira que separava o saguão principal do depósito de bagagens. O silêncio durou uma eternidade de três segundos, preenchido apenas pelo gotejar ritmado da tempestade.
Lentamente, uma lâmina longa e curva de facão de desbaste surgiu pela fresta entre as duas portas de madeira carcomida. O metal deslizou suavemente para cima, erguendo a tranca rústica de ferro com a familiaridade de quem já estivera ali centenas de vezes.
A tranca caiu com um estalo metálico surdo.
A porta rangeu nos gonzos, abrindo-se para fora em uma lentidão sádica.
No limiar da porta, emoldurado pela escuridão abissal do saguão abandonado, o homem parou. O sobretudo de lona preta pingava uma mistura grossa de água da chuva e óleo. A máscara moldada em gesso branco e inexpressivo ocultava qualquer traço de humanidade, deixando entrever apenas a voracidade sombria de dois olhos injetados que refletiam o terror dos jovens acuados.
Em sua mão direita, o facão de cortar cana reluzia com um gume recém-afiado.
Em sua mão esquerda, ele segurava um isqueiro de latão antigo e desgastado.
Com o polegar enluvado, ele abriu a tampa do isqueiro com um estalo inconfundível.
A pequena chama amarela tremulou na penumbra fétida do galpão, iluminando não apenas a máscara cadavérica do homem, mas também o chão de madeira sobre o qual todos estavam pisando.
O assoalho do depósito de bagagens estava completamente encharcado.
Não por água da chuva.
Mas por uma poça reluzente e iridescente de querosene e solvente industrial, que escorria de três tambores de ferro tombados estrategicamente nos cantos da sala — armados horas antes para quando a caçada chegasse ao seu inevitável final.
A voz que saiu por trás do gesso da máscara não era mais uma gravação distorcida de toca-fitas. Era um som rouco, queimado por anos de silêncio e fumaça tóxica, arrastando-se pelo ar frio como uma sentença lavrada em sepulturas rasas.
— O sangue de vocês — disse o vulto, os olhos fixando-se em Sophia com um peso absoluto e condenatório — vai purificar o que os seus pais apodreceram.
Kael deu um passo à frente, erguendo a barra de ferro pontiaguda com os nós dos dedos brancos de fúria, o corpo trêmulo de adrenalina e ódio enquanto cobria Victor com a própria sombra.
— Dá mais um passo, seu desgraçado — rugiu Kael, sentindo o calor da tempestade quebrar lá fora em um trovão estrondoso que sacudiu as estruturas apodrecidas da estação —, e eu vou fazer você engolir esse ferro até sair pelo fundo do seu crânio.
O assassino não recuou. Seus dedos afrouxaram sobre a tampa do isqueiro, e a chama bailou no ar, a milímetros de encontrar o vapor inflamável que cobria o assoalho.
