
PULGAR & CARRASCAL
Fandom: Jogadores de Futebol
Criado: 13/09/2026
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Linhas Cruzadas no Asfalto Quente
Doze anos de casamento no submundo do crime não eram mantidos com promessas vazias; eram sustentados por sangue, lealdade e um pacto inquebrável selado ainda nos primeiros meses de paixão. Quando Erick Pulgar e Jorge Carrascal uniram suas vidas e suas rotas de tráfico no Rio de Janeiro, juraram que a podridão dos negócios jamais ultrapassaria as portas do quarto que dividiam. Erick, com noventa por cento do corpo coberto por tatuagens que narravam sua linhagem tradicional no Chile e homenageavam a família, era a rocha bruta, o pitbull temido por qualquer um que ousasse pisar no sudeste brasileiro. Já Jorge carregava a ginga malandra de Cartagena, o bronzeado impecável, o sorriso fácil e as mechas loiras estilizadas em um topete milimetricamente alinhado. Por baixo do homem carismático que adorava dançar salsa e cozinhar para a mãe, dona Olga, existia um estrategista impiedoso que começou de baixo — lavando chão de padaria e entregando encomendas para alimentar o pequeno Santino — até erguer seu próprio império.
Ambos se completavam com a precisão de um disparo certeiro. Até aquela tarde.
A cúpula das máfias estava reunida em um casarão histórico no Alto da Boa Vista. Os jardins imensos, cercados pela Mata Atlântica e adornados por um lago sereno, serviam de palco para negociações que definiriam a entrada dos cartéis europeus na América do Sul. Erick estava acostumado a lidar com aliados de confiança como Arrascaeta, Varela, Pedro e Ortiz, mantendo as rédeas firmes no continente. Jorge, porém, trazia na bagagem uma longa história com o Velho Mundo, fruto dos anos em que viveu na Itália aprendendo tudo o que sabia sobre a arte do crime organizado.
Enquanto Erick ajustava os detalhes da segurança com os homens de preto perto da entrada, Jorge caminhou distraidamente em direção ao lago. Foi quando seus olhos castanhos pousaram sobre uma figura alta, vestindo um terno italiano de corte impecável.
Um brilho nostálgico acendeu no rosto do colombiano. Sem hesitar, Carrascal avançou em passos silenciosos e envolveu o homem por trás em um abraço caloroso e apertado.
— Adivinha quem é, desgraçado? — murmurou Jorge, rindo contra o tecido fino do terno.
Mateo Marcone congelou por um milésimo de segundo antes de relaxar completamente. Ele se virou nos braços do colombiano com um sorriso largo, puxando Jorge para um abraço ainda mais apertado.
— Mio dio, Jorgito! — exclamou o italiano, segurando o rosto de Carrascal entre as mãos com uma familiaridade assustadora. Os dedos de Mateo deslizaram pela nuca do colombiano, acariciando a pele tatuada, antes de descerem para a bochecha corada pelo sol. — Você não mudou nada. Continua o mesmo moleque atrevido de Nápoles.
Com naturalidade e afeto genuíno, Mateo inclinou a cabeça e plantou um beijo suave e demorado na testa de Jorge, que apenas sorriu de volta, retribuindo o toque no ombro do europeu.
A cem metros dali, Erick Pulgar parou no meio de uma frase. O olhar escuro do chileno, habitualmente frio e calculista, transformou-se em puro breu. A mandíbula travou com tanta força que os músculos do pescoço saltaram. Erick conhecia o marido melhor do que qualquer um; sabia que Jorge era expansivo e afetuoso, mas aquilo não era a cortesia de um anfitrião. Havia memória muscular naqueles toques. Havia intimidade demais. Intimidade de pele com pele.
Jorge acenou na direção do marido, chamando-o com aquele sorriso provocador que sempre desarmava Erick. Desta vez, porém, o chileno caminhou como um predador prestes a rasgar uma garganta.
— Erick, esse é o Mateo Marcone — apresentou Jorge, a voz melodiosa transbordando animação. — Filho de Don Santiago. Mateo assumiu a família depois que o velho partiu. Mateo, esse é Erick Pulgar. Meu marido.
Mateo estendeu a mão, medindo a silhueta colossal e coberta de tinta de Pulgar.
— É um prazer, Pulgar. Jorge me disse que ainda estava casado com você por telefone. Confesso que fiquei surpreso... Manter uma fera dessas na coleira por doze anos exige muito talento, não é, Jorgito?
Erick apertou a mão do italiano com uma força quase esmagadora, os olhos cravados nos dele sem pestanejar.
— Ninguém me mantém na coleira, Marcone. Nem o Jorge.
O clima pesou instantaneamente. Durante a reunião na sala principal, onde o acordo de expansão da família Marcone pelos portos brasileiros seria ratificado, Erick fez o impensável. Quando a proposta foi posta à mesa — uma transação multimilionária que já havia sido pré-aprovada pelo casal dois dias antes —, o chileno simplesmente acendeu um charuto e soltou a fumaça com desdém.
— Não temos interesse — sentenciou Erick, com a voz rouca ecoando na sala. — A rota do Sudeste está fechada para a máfia italiana.
Os murmúrios se espalharam pela mesa. Jorge encarou o marido, os olhos arregalados de choque.
— O que você está dizendo, Erick? Já tínhamos analisado a logística. Está tudo alinhado.
— Eu disse não, Jorge. O assunto está encerrado.
— Não está encerrado porra nenhuma! — rebateu o colombiano, batendo a mão espalmada sobre o mogno da mesa. — Eu tenho a liderança desta operação tanto quanto você. Nós vamos fazer a ponte.
— Você não vai autorizar porra nenhuma neste estado sem a minha assinatura — rosnou Erick, olhando nos olhos do marido como se ele fosse um estranho. — E a minha resposta é definitiva.
Antes que um tiroteio começasse entre os dois chefes, um figurão da máfia paulista interveio, aceitando fechar o acordo com os Marcone e desviando a rota para São Paulo. Mateo apenas assentiu com elegância, embora seus olhos zombeteiros buscassem Jorge a todo instante.
Ao final do encontro, nos jardins, Mateo despediu-se de Carrascal enquanto Erick observava de longe, fumando o resto do charuto.
— Vou ficar no Rio por uns dias, Jorge. Quero conhecer a cidade — avisou Mateo.
— Vamos almoçar amanhã — sugeriu Jorge, tentando abafar a humilhação que acabara de passar na cúpula. — Em um restaurante discreto na orla. Quero que você reveja o Santino. Ele já está com dezoito anos.
Mateo abriu um sorriso nostálgico, os olhos brilhando.
— O pequeno Santino... Meu pai teria dado a vida para conhecer o neto. Ele tinha tanto orgulho de você, Jorgito.
Erick, que se aproximava a passos lentos, ouviu a última frase. As sobrancelhas grossas se juntaram em uma expressão de fúria cega.
— Neto? — interveio Pulgar, a voz gélida. — Desde quando meu filho é neto de um mafioso italiano morto?
Mateo deu um passo atrás, erguendo as mãos em tom conciliador, mas com um meio sorriso cínico.
— Modo de falar, senhor Pulgar. Modo de falar. Até amanhã, Jorge.
A viagem de volta para a mansão na Barra da Tijuca foi um silêncio sufocante. Assim que as portas duplas de ferro da residência se fecharam atrás deles, o inferno foi liberado.
— Que porra foi aquela, Jorge?! — explodiu Erick, arrancando o paletó e atirando-o contra o sofá de couro. — Que caralho de intimidade era aquela com aquele almofadinha de merda? A mão na sua nuca, beijinho na testa... Você tá de palhaçada com a minha cara?!
— Baixa o seu tom para falar comigo, Erick! — rebateu Jorge aos berros, a postura relaxada desaparecendo para dar lugar à frieza do homem de Cartagena. — Você me desautorizou na frente de todo mundo! Nós tínhamos um plano de expansão, e você jogou tudo no lixo por causa de um ataque ridículo de ciúmes!
— Ataque de ciúmes?! — Erick avançou, encurralando o marido contra a parede do corredor. A diferença de tamanho era imensa, mas Jorge não recuou um único centímetro. — E que caralhos de história é essa de que o pai dele ia amar conhecer o "neto"? Hein? Por que você nunca me falou dessa proximidade doentia com essa família?
Jorge engoliu a seco, desviando o olhar por uma fração de segundo.
— Don Santiago cuidou de mim quando eu cheguei na Itália sem um tostão no bolso — explicou Carrascal, a respiração acelerada. — Eu não sabia nem destravar uma Beretta, caralho! O velho foi como um pai para mim. O nome do Santino foi em homenagem a ele. Não tem nada a ver com o Mateo.
— E com o Mateo? — Erick aproximou o rosto do dele, os olhos cravados nos de Jorge com uma intensidade doentia. — Não teve nada com aquele desgraçado? Olha na minha cara e diz que eram só amigos.
Jorge hesitou. O silêncio que se instalou foi mais pesado do que qualquer disparo.
— Nós... tivemos um caso. Há muitos anos — admitiu Jorge, soltando o ar devagar. — Uma coisa rápida quando eu morava lá.
Erick sentiu o estômago queimar com ferro em brasa.
— Quanto tempo durou essa merda?
Jorge cruzou os braços, tentando manter a compostura.
— Durou até um tempo depois... Até aquela viagem que eu fiz para Roterdã, para resolver a remessa da cúpula.
Erick arregalou os olhos, a mente trabalhando em velocidade vertiginosa. Ele ligou os pontos imediatamente.
— A viagem de Roterdã? Nós já estávamos trabalhando juntos! Você já ficava comigo, Jorge! Você passou três semanas a mais na Europa jurando que estava em negociação!
— Eu não deitei com ele depois que a gente assumiu nada sério, Erick! — gritou Jorge, apontando o dedo na cara do chileno. — Foi antes da gente oficializar qualquer coisa! Foi muito bom, foi gostoso na época, mas acabou! Era passado!
— "Bom e gostoso"? — Erick deu uma risada de puro escárnio, um som amargo e venenoso que ecoou pelas paredes da casa. — Ah, então foi muito "bom e gostoso"? Que maravilha saber que você ainda se lembra de cada detalhe com tanto carinho! Por isso aquele filho da puta pegou na sua nuca como se ainda mandasse na sua bunda?!
— Vai se foder, Erick! — Jorge empurrou o peito maciço do marido com as duas mãos, tremendo de ódio. — Eu nunca dei motivos para você duvidar de mim em doze anos de casado! Nunca olhei para o lado! Você está criando fantasmas na sua cabeça doentia!
Antes que a discussão descambasse para a violência física, o celular criptografado de Erick tocou no bolso. O chileno puxou o aparelho, encarou a tela e depois fitou o marido com desprezo absoluto.
— Tenho mais o que fazer nos galpões do que ficar aqui ouvindo você lembrar de como gozava gostoso no pau de outro homem.
— Vai pro inferno, seu desgraçado! — berrou Jorge.
Erick deu as costas sem olhar para trás. Naquela noite, Jorge dormiu no quarto de hóspedes, com a porta trancada por dentro.
O café da manhã no dia seguinte foi um funeral. A mesa farta da varanda parecia congelada. Erick lia relatórios no tablet sem tocar no café; Jorge bebia seu suco em silêncio mortal, a mandíbula tensa. O clima só mudou quando passos barulhentos ecoaram pela escada e Santino surgiu. O rapaz de dezoito anos tinha a mesma altura de Jorge, os cabelos bagunçados e o sorriso radiante que herdara do pai colombiano.
— Bom dia, coroas! — disse o garoto, roubando uma torrada da mesa.
— Bom dia, meu amor — Jorge suavizou a expressão, puxando o filho para um beijo estalado na bochecha. — Se arruma depois. Você vai almoçar comigo.
— Opa, almoço grátis? — Santino riu, servindo-se de café. — Onde a gente vai?
— Você vai rever um amigo muito especial do papai — disse Jorge, encarando Erick de soslaio. — Da Itália.
Erick abaixou o tablet, soltando uma risada seca e cortante.
— É, garoto. Vai lá — disparou o chileno com o veneno escorrendo da língua. — Vai conhecer o homem que quase virou seu pai.
Santino franziu a testa, totalmente perdido na dinâmica tóxica que não compreendia.
— Como assim, pai Erick? Do que você tá falando?
Jorge se levantou da cadeira com tanta violência que a madeira rangeu contra o piso de mármore.
— Você está passando dos limites, Erick. Já chega dessa merda.
Sem esperar resposta, Jorge puxou o filho pelo braço e saiu da mesa, deixando Erick sozinho com sua fúria surda.
Durante o almoço na Marina da Glória, Jorge tentou focar na alegria de Santino. O rapaz ficou absolutamente fascinado pelo charme e pelas histórias de Mateo, rindo com o italiano misturado ao espanhol e prestando atenção nos relatos das antigas máfias europeias. Quando voltaram para casa ao entardecer, Santino entrou na sala tagarelando sem parar.
Erick estava sentado no sofá, um copo de uísque pela metade na mão.
— Pai Erick, você não tem noção! — exclamou Santino, jogando a jaqueta sobre a poltrona. — O tio Mateo é muito foda! Ele me contou um monte de história lá de Palermo e me chamou para passar as férias na Sicília ano que vem. Ele disse que me ensina a pilotar lancha rápida nas docas deles!
Erick sentiu como se estivessem esmagando suas vísceras. O pitbull da máfia, o homem que comandava centenas de soldados armados até os dentes, teve que engolir a seco o veneno enquanto ouvia o filho — o menino que ele criou, que protegeu com a própria vida — chamar aquele desgraçado de "tio".
— É mesmo, garoto? Que bom — respondeu Erick, com a voz tão baixa e controlada que parecia um sussurro mortal. — Muito legal.
Jorge passou direto pela sala sem sequer cruzar os olhos com o marido, caminhando a passos firmes em direção ao seu escritório no andar de cima.
A noite caiu densa e úmida sobre o Rio de Janeiro. Passava das onze quando o telefone de Erick vibrou insistentemente na mesa de centro. Ele atendeu no segundo toque.
— Fala — ordenou.
— Chefe, temos uma situação aqui em Santos — disse a voz tensa do seu capitão de confiança de São Paulo. — Um carregamento pesado da família Marcone acabou de atracar no cais quatro. Eles estão desembarcando contêineres com a nossa escolta.
Erick se colocou de pé num salto, o copo de cristal quebrando-se contra o tapete.
— Quem caralhos autorizou isso?! Eu vetei essa operação ontem!
— O patrão Jorge, chefe... Ele assinou o despacho digital há duas horas usando os códigos master da organização. Ele deu o aval total.
Erick desligou a chamada sem dizer outra palavra. A raiva cegou completamente sua visão periférica; ele subiu as escadas da mansão pisando com tanta força que os degraus pareciam tremer sob seu peso. Ele arrombou a porta do quarto principal com o ombro.
Jorge estava de costas, despindo a camisa de linho e vestindo uma regata preta, preparando-se para se deitar.
— Você perdeu a porra do juízo, Jorge?! — rugiu Erick, invadindo o quarto como uma tempestade. — Você liberou as docas de Santos para os italianos?! Pelas minhas costas?! Eu disse que aquela merda estava vetada!
Jorge virou-se devagar. Não havia medo em seus olhos; havia apenas desafio, a arrogância refinada de quem sabia exatamente o poder que ostentava.
— Eu não fiz nada pelas suas costas. Fiz pelo sistema oficial — retrucou o colombiano com a voz incrivelmente calma. — A rota de Santos também é minha, Erick. Eu coloquei metade do capital para comprar aquela alfândega. Você vetou o acordo por pirraça de menino mimado. Eu tomei a decisão executiva que vai render quinze milhões de euros para a nossa organização. Se você não quis assinar, eu assinei por nós dois.
Erick riu alto, uma risada quebrada, aproximando-se até que os dois ficassem a centímetros de distância. As veias do pescoço de Pulgar pulsavam violentamente.
— Quinze milhões de euros... Você realmente acha que é por causa de dinheiro? — O chileno cuspiu as palavras, o ciúme corroendo o resto de sanidade que lhe restava. — Porra, o pau desse desgraçado deve ser muito gostoso mesmo, pra você não superar até hoje!
O silêncio que se seguiu foi cortante como uma lâmina na garganta.
Jorge parou. O ar pareceu escapar de seus pulmões. Lentamente, ele ergueu a cabeça e fixou os olhos escuros nos de Erick, sem piscar. A calmaria em sua postura era mais aterrorizante do que qualquer grito.
— Repete — sussurrou Carrascal, a voz saindo entre os dentes travados. — Repete a merda que você acabou de falar, Erick.
Erick sentiu o baque da própria inconsequência. Ele sabia que havia ultrapassado a linha que eles nunca, em doze anos, haviam cruzado. Mas o ódio, o orgulho ferido e o veneno que corria em suas veias eram fortes demais para permitir um recuo. O chileno apenas sustentou o olhar, impassível, a mandíbula dura como aço.
Jorge deu um passo à frente, colando o peito no do marido. Ele ergueu o queixo, aproximando a boca do ouvido de Pulgar. O hálito quente de Jorge bateu contra a pele tatuada do pescoço do chileno, e com uma frieza cruel, cortante e calculada, o colombiano sussurrou:
— Pois saiba que foi. O pau do Mateo foi um dos melhores em que eu já sentei na minha vida toda.
Jorge recuou um passo, encarando o rosto lívido de Erick, e deu-lhe as costas com um sorriso amargo nos lábios. Ele caminhou calmamente em direção à porta aberta, saindo para o corredor escuro.
Dois segundos depois, o eco violento de um abajur de bronze se estilhaçando com força colossal contra o espelho do closet fez as paredes do corredor tremerem, seguido pelo som agudo e interminável de milhares de cacos de vidro caindo no chão.
Jorge não olhou para trás. Continuou caminhando pelo corredor escuro, com as mãos firmes e o casamento por um fio.
