
Iniciativa de Combate e Outros Acidentes de Verão
A Kombi azul-desbotada do pai de Roger finalmente cuspiu uma nuvem de fumaça preta e morreu diante dos portões enferrujados da casa de praia. O calor de janeiro desceu sobre os seis adolescentes como uma toalha molhada e fervente assim que o motor silenciou.
— Glória a Deus nas alturas, se eu ficasse mais cinco minutos com a perna do Nicolas prensando a minha, eu ia ter que amputar essa porra! — esbravejou Bea, chutando a porta emperrada até que ela cedesse com um estalo metálico.
Ela saltou para a calçada de areia grossa. Baixinha, com os cabelos vermelhos flamejando sob o sol do meio-dia e a armação redonda dos óculos escorregando pelo nariz suado, Bea parecia um dínamo inesgotável. Usava uma regata larga de uma banda obscura de hardcore, bermuda folgada e All Star sem cadarço. Ajeitou os óculos com o dedo médio, varrendo a fachada desgastada da casa com um sorriso largo de quem já previa o caos absoluto dos próximos sete dias.
— Cala a boca, anã de jardim — resmungou Nicolas, saindo logo atrás com uma mochila jogada no ombro, antes de se virar para estender a mão para Babi. — Minha perna é um monumento nacional, você deveria pagar ingresso só pra encostar nela.
— Monumento a quê? À desnutrição? — rebateu Bea, soltando uma gargalhada escandalosa, daquelas que faziam as pessoas na rua virarem a cabeça para procurar o alarme de incêndio.
— Parem de latir antes que os vizinhos chamem a carrocinha, por favor — pediu Vitor, descendo do banco do carona com a calma quase irritante de um monge budista. Ele ajustou a alça do violão e respirou fundo o ar salgado. — Uma semana. É tudo o que temos. Tentem não se matar nas primeiras quatro horas.
— O Vitor tá certo — decretou Roger, saindo do banco do motorista e batendo a palma das mãos na lataria. O dono da casa já parecia ter entrado no modo anfitrião caótico. — Regra número um da mansão dos horrores: quem quebrar a descarga, conserta com a própria mão. Regra número dois: a cerveja no freezer é do meu tio, se encostarem lá, eu vendo os órgãos de vocês no mercado negro.
Enquanto todos se empurravam para pegar as bagagens no bagageiro, Vinícius desceu com mais calma pelo lado de trás. Ele tropeçou no próprio tênis na descida, praguejou baixinho com um riso envergonhado e logo correu até o porta-malas. Tinha a pele morena queimada pelo sol do trajeto, o corpo gordinho preenchendo confortavelmente uma camiseta cinza do Senhor dos Anéis, e cabelos escuros bagunçados que teimavam em cair sobre os olhos.
Ao ver Bea puxando com dificuldade uma mala imensa de rodinhas que claramente pesava o dobro do seu próprio corpo, os olhos dele brilharam em preocupação.
— Deixa que eu levo isso aí, Bea. Você vai desmontar sua coluna no primeiro dia de viagem — disse Vini, aproximando-se com aquele meio sorriso tímido que sempre desarmava qualquer tempestade.
A expressão carrancuda e agressiva de Bea evaporou no mesmo segundo. O contraste era quase cômico: a garota que segundos atrás parecia pronta para morder a canela de Nicolas agora virava uma poça de manteiga derretida, recolhendo os braços e deixando que ele tomasse a alça da mala.
— Não precisa bancar o herói, Vini, eu dou conta — murmurou ela, o tom de voz baixando três oitavas para um timbre suave que ninguém no grupo, além dele, jamais recebia.
— Eu sei que dá — respondeu ele, tocando de leve o ombro dela enquanto puxava o peso com facilidade. — Mas eu quero levar.
Babi, encostada no capô da Kombi enquanto Nicolas beijava seu pescoço, assistia à cena com um olhar afiado e conspiratório. Ela cutucou o namorado com o cotovelo.
— Viu isso? — cochichou ela.
— O quê? O Vini sendo o burro de carga da Bea? Coisa mais normal do mundo — Nicolas deu de ombros, roubando um selinho.
— Você é muito tapado, amor, na moral. Olha a cara dela. A Bea tá pronta pra latir e pedir carinho na barriga. Eles tão assim faz três meses, se não se pegarem nessa casa, eu mesma tranco os dois no armário.
— Não subestime a capacidade deles de rolarem vinte natural em lerdeza — Vitor comentou baixinho ao passar por eles carregando duas caixas térmicas, sem sequer olhar para trás.
A casa de praia era exatamente o que se esperava de um refúgio de veraneio que pertencia à família de Roger há trinta anos: paredes de tijolo aparente, cheiro de maresia misturado com desinfetante de lavanda, redes na varanda e um ventilador de teto na sala que girava com um ruído cadenciado, parecendo um helicóptero prestes a cair.
Depois de uma disputa acirrada pela divisão dos quartos, que quase terminou em uma sessão de tribunal informal intermediada por Vitor, ficou decidido: Babi e Nicolas ficariam com o menor quarto de casal dos fundos por motivos óbvios de preservação da paz pública; Roger e Vitor ocupariam o mezanino com dois colchões de solteiro; e Bea e Vini dividiriam o quarto maior da frente, onde havia uma cama de casal antiga e um colchão inflável.
— Nem vem de graça, hein, Vini — brincou Roger da escada. — Qualquer gemido fora do tom eu jogo balde de água fria nos dois pela janela do mezanino.
— Vai se foder, Roger! — berrou Bea lá de dentro, arremessando uma almofada desgastada na direção da escada. Ela acertou a quina da parede, arrancando risos de todos.
No quarto, porém, o clima era completamente diferente. A brisa que vinha da praia fazia as cortinas de renda fina dançarem devagar, trazendo o som ritmado das ondas que quebravam a poucas quadras dali. O calor da tarde começava a amenizar, deixando uma luz dourada banhar o assoalho de madeira clara.
Bea sentou-se na beirada da cama rangente, passando a mão pelos cabelos ruivos suados e observando Vini ajoelhar-se no chão para inflar o colchão com uma bomba de pé mecânica. O movimento ritmado dos ombros largos dele, o suor brilhando na curva do pescoço moreno e a concentração infantil no rosto redondo faziam o estômago dela dar cambalhotas estranhas. Ela já havia ficado com outros garotos na escola, colecionava uma fama meio injusta de ser desapegada e sem freio na língua, mas ali, olhando para Vinícius, sentia-se uma novata desajeitada que nem sequer sabia onde colocar as mãos.
— Vini — chamou ela, a voz saindo mais fina do que pretendia.
Ele pausou o pé sobre a bomba e olhou para cima, afastando uma mecha úmida da testa.
— Fala, ruiva.
— Você não precisa dormir no chão. A cama é grande pra caralho.
Vinícius parou por um segundo inteiro. O rubor subiu rápido pelas bochechas dele, contrastando com o tom moreno da pele. Ele olhou para o colchão pela metade, depois para a cama de molas, e engoliu em seco.
— Ah... você que sabe. Eu não quero te deixar desconfortável. Você sabe como eu me mexo, pareço uma jamanta dormindo.
— Larga de ser idiota — disse ela, batendo a mão espalmada no colchão macio e rindo de leve, sem a habitual agressividade pública. — A gente já dormiu na mesma barraca jogando RPG no sítio do Vitor mil vezes. Desde quando você tem medo de dormir perto de mim?
— Não é medo — retrucou ele, a voz baixando um tom, tornando-se mais aveludada. Ele se levantou, limpando os joelhos poeirentos, e deu dois passos lentos até a beirada da cama, ficando de pé bem na frente dela. — É só que... sei lá. As coisas tão meio diferentes, não tão?
O ar entre os dois pareceu gelar e ferver no mesmo instante. Bea ergueu a cabeça para sustentar o olhar dele. Perto assim, ela podia sentir o cheiro característico de Vini — uma mistura reconfortante de sabonete neutro, desodorante amadeirado e o salitre da praia. Os olhos dele eram castanhos muito escuros, amendoados, e carregavam uma ternura que fazia a casca grossa dela se estilhaçar sem qualquer esforço.
— Diferentes como? — perguntou ela, sentindo o coração martelar descompassado contra a caixa torácica.
Antes que Vini pudesse responder, a porta do quarto foi escancarada com tudo, batendo violentamente contra o batente.
— Praia! Praia agora ou eu começo a tacar fogo nas coisas! — gritou Roger, usando óculos de sol espelhados e segurando uma bola de futebol murcha embaixo do braço.
Bea saltou para trás como se tivesse levado um choque de duzentos e vinte volts, xingando em três línguas diferentes.
— Filho da puta, Roger! Bate na porra da porta antes de entrar, seu arrombado!
— Que porta, mulher? Isso aqui é uma comunidade hippie agora! — Roger riu, completamente alheio — ou fingindo muito bem estar alheio — ao ar denso que cortara pela raiz. — Cinco minutos lá embaixo, os pombinhos. Vamos ver o pôr do sol.
O mar estava agitado, as ondas quebrando com força na areia escura típica do litoral sul. O céu começava a manchar-se de tons de lavanda, laranja e rosa profundo. Enquanto Roger e Nicolas disputavam uma altinha desastrosa com a bola murcha e Babi tirava dezenas de fotos na beira da água, Vitor sentou-se na canga ao lado de Bea, que enterrava os pés na areia fria com os braços cruzados sobre os joelhos.
Vini havia entrado na água até a cintura, enfrentando as ondas com um sorriso largo, rindo sozinho toda vez que a espuma branca o atingia no peito.
— Ele fica bonito com essa luz, né? — soltou Vitor casualmente, sem tirar os olhos do horizonte.
Bea quase engasgou com a própria saliva. Olhou de soslaio para o amigo, com os olhos estreitos por trás das lentes dos óculos.
— Do que você tá falando, monge de araque?
— Você sabe muito bem do que eu tô falando, Bea — respondeu Vitor, soltando uma risada curta e soprada. — Você passa o ano inteiro ameaçando quebrar o nariz de qualquer um que fale alto perto de você, mas quando ele tropeça, você quase se joga no chão pra servir de tapete.
— Ele é meu amigo, porra. Eu só cuido dele porque ele é um bobão indefeso.
— O Vini tem um metro e setenta e pesa quase oitenta quilos, Beatriz. Ele não é indefeso. E você não olha pra amigos como se quisesse devorar eles vivos e pedir desculpas em seguida.
Bea afundou a cabeça entre os joelhos, praguejando em um sussurro abafado.
— Eu sou muito previsível?
— Pra quem presta atenção? Sim — Vitor apoiou a mão suavemente nas costas dela. — Mas ele é mais inseguro do que você pensa. O Vini acha que você tá muito além do alcance dele. Você é a garota que já namorou gente mais velha, que vai pras festas, que não leva desaforo pra casa. Ele acha que é só o nerd gordinho com quem você joga D&D no sábado à noite.
— Mas ele não é só isso — disparou ela, erguendo o rosto num ímpeto, a voz embargada por uma intensidade feroz. — Ele é o cara mais incrível que eu já conheci. Ele me escuta, Vitor. Tipo... de verdade. Ele lembra do nome do meu primeiro cachorro e do personagem de RPG que eu criei quando tinha doze anos. Ele não tenta me moldar, não tenta me fazer ser mais quieta, não tenta me fazer ser menininha. Eu sou completamente louca por aquele idiota.
— Então para de fingir que é uma fortaleza inexpugnável e rola a porra do dado, Bea. Se você não der o primeiro passo, ele vai passar a semana inteira dormindo com medo de respirar perto de você.
Vitor levantou-se, bateu a areia das pernas e caminhou em direção a Babi e Nicolas, deixando-a sozinha com o som ensurdecedor das ondas.
Minutos depois, Vinícius saiu da água, sacudindo a cabeça e espirrando gotas salgadas para todos os lados. Ele caminhou até ela, tiritando um pouco pelo vento fresco que começava a soprar.
— A água tá congelando — disse ele, com os dentes quase batendo, mas exibindo aquele sorriso adorável que deixava seus olhos apertados.
Sem dizer uma palavra, Bea pegou a toalha grande e felpuda que trouxera e se levantou. Ela passou o tecido pelos ombros largos de Vini e, com uma delicadeza que surpreenderia qualquer pessoa que a visse berrando no dia a dia, começou a secar os cabelos dele. Suas mãos pequenas e ágeis bagunçavam os fios pretos enquanto ele permanecia imóvel, com a respiração suspensa, fitando o rosto dela a poucos centímetros de distância.
— Você é um desastre, Vinícius — murmurou ela, tirando os próprios óculos para limpá-los do vapor antes de recolocá-los. — Entra na água nesse frio e depois fica aí, parecendo um filhote de cachorro molhado.
— Você tá cuidando de mim de novo — ele observou baixinho, a voz rouca pela maresia.
Bea parou os movimentos. As mãos dela pousaram sobre a toalha, logo acima da clavícula dele. O mar roncava alto atrás deles, mas no pequeno espaço que os separava, o silêncio era absoluto.
— Eu sempre cuido de você — respondeu ela, olhando fixamente nos olhos escuros dele, recusando-se a desviar o olhar desta vez.
— Por quê?
A pergunta pairou no ar, frágil e perigosa. Vini deu um passo mínimo à frente, quebrando a distância de segurança. As mãos dele subiram hesitantes e pousaram na cintura de Bea. Os dedos dele eram quentes contra o tecido fino da regata dela, e a pressão firme fez o pulso de Bea acelerar até a garganta.
— Porque se eu não cuidar... quem vai notar o quanto você é incrível? — a voz dela quase falhou, mas ela sustentou o tom. — E porque eu odeio a ideia de qualquer outra pessoa chegar perto de você antes de mim.
Vini abriu a boca para falar, chocado pela franqueza visceral dela, mas antes que qualquer palavra saísse, um grito estridente vindo do calçadão quebrou o transe.
— Ô casal vinte! — berrou Nicolas, gesticulando freneticamente. — O Roger conseguiu acender a churrasqueira e já tá queimando a carne! Se vocês não subirem agora, só vai sobrar carvão com farofa!
Eles se entreolharam. Bea soltou um longo suspiro, deixando a cabeça cair contra o peito úmido de Vini por um segundo, derrotada pelo timing terrível dos amigos. Vini soltou uma risada baixa, vibrando sob o toque dela, e passou um braço pelos ombros miúdos da ruiva, puxando-a contra si em um abraço protetor enquanto começavam a caminhada de volta pela areia.
— A gente tem a semana toda, Bea — sussurrou ele no topo da cabeça vermelha dela, beijando seus fios desajeitadamente.
Ela sorriu contra a camiseta dele, sentindo uma onda de antecipação queimar no peito, muito mais quente do que o sol do meio-dia.
— É bom mesmo — retrucou ela, passando o braço pela cintura dele e apertando forte. — Porque a minha paciência acabou faz tempo, Vinícius.
