
Fora de Foco
O som ritmado dos cliques no teclado mecânico e o murmúrio grave e constante da voz de Vinnie funcionavam como uma canção de ninar estranhamente reconfortante. Clara estava afundada sob o edredom pesado, sentindo o cheiro característico dele — uma mistura inebriante de sabonete amadeirado, desodorante fresco e o aroma quente de sua pele.
O quarto estava quase completamente às escuras, quebrado apenas pela iluminação suave dos dois monitores e por uma fita de LED azul-escura colada atrás da mesa. No canto do quarto, longe do ângulo direto da webcam de alta definição, a cama king-size de Vinnie parecia uma ilha particular onde o resto do mundo não existia.
Clara se mexeu devagar, sentindo o tecido macio do moletom cinza dele, que cobria quase metade de suas coxas. Ela adorava quando ele simplesmente estendia uma de suas roupas largas sem que ela precisasse pedir. Por baixo do cobertor, seu corpo curvilíneo encontrava um descanso raro.
Ser gordinha em uma cidade repleta de modelos esculpidas a bisturi e dietas rigorosas sempre fora um peso invisível sobre seus ombros. Quando olhava no espelho, Clara via suas dobras, a maciez do quadril largo, a barriga que não era plana e os braços cheios de vida e curvas. E, embora tentasse ignorar os padrões, a insegurança era uma erva daninha que insistia em brotar nos cantos escuros de sua mente.
Especialmente quando se tratava dele.
Vinnie Hacker. O garoto que metade da internet idolatrava, o rosto esculpido, os cachos rebeldes, os olhos castanho-esverdeados profundos e o corpo coberto de tatuagens que arrancava suspiros de milhões de garotas ao redor do planeta.
Para o mundo, ele era o galã inalcançável das redes sociais.
Para Clara, ele era apenas o menino que ela conhecia desde a adolescência. As mães dos dois eram melhores amigas de longa data, daquelas que compartilhavam cafés da tarde, segredos e férias em família. Clara e Vinnie tinham crescido sob a sombra dessa amizade familiar, rindo em almoços de domingo e trocando olhares tímidos que, com o passar dos anos e a mudança dele para o próprio apartamento em Los Angeles, haviam se transformado em algo completamente diferente.
Eles não namoravam oficialmente. Pelo menos, não perante o público. Eles se pegavam, dividiam noites inteiras de conversas sussurradas, pedidos de comida na madrugada e carinhos demorados que faziam o coração de Clara bater na garganta. Sempre que a saudade apertava ou ele tinha uma folga na rotina caótica, Vinnie pegava o carro, passava na casa dela e a trazia para o seu refúgio particular.
Ninguém podia saber. Era um pacto silencioso, doloroso, mas necessário.
Clara sabia perfeitamente o que a internet faria com ela. Já tinha visto de perto a crueldade dos comentários de ódio direcionados a qualquer mulher que chegasse a menos de dois metros de Vinnie. Se descobrissem que a garota que passava as noites na cama dele não parecia uma modelo de passarela, os ataques seriam impiedosos. Ela não tinha casca grossa o suficiente para suportar centenas de milhares de pessoas zombando do seu peso, do seu rosto, de cada pequeno detalhe que já a fazia hesitar diante do espelho. Vinnie sabia disso e a protegia com unhas e dentes, mantendo Clara escondida do tribunal impiedoso da internet.
— Droga, eu caí de novo — a voz de Vinnie ressoou pelo quarto, acompanhada por uma risada rouca e contida. — Ele estava marcando a porta, gente. Não tinha o que fazer.
Clara entreabriu os olhos devagar. Pelas frestas dos cílios, ela podia ver as costas largas dele, os ombros cobertos por uma camiseta preta simples e o fone de ouvido volumoso. A luz da tela desenhava o contorno de seu queixo afiado e o perfil do nariz reto.
Ele estava em live. Havia começado há cerca de uma hora e meia, prometendo aos seguidores uma transmissão curta de jogos antes de dormir. Clara estava tão cansada do trabalho e da faculdade que, mesmo com a agitação da transmissão, acabou pegando no sono assim que ele a ajeitou entre os travesseiros, beijando o topo de sua cabeça e cobrindo-a até os ombros.
— Valeu pelos subs, pessoal — disse Vinnie, ajeitando o microfone com a ponta dos dedos. — Quem tá mandando donate perguntando da minha rotina de treino... galera, hoje foi só perna. Tô destruído.
Clara sorriu fracamente, lembrando-se de como ele havia subido as escadas do prédio reclamando de dor nas coxas, apenas para pegá-la no colo assim que abriram a porta do apartamento, dizendo que carregar o amor da vida dele não contava como esforço. Seu coração apertou com a lembrança. Vinnie tinha esse poder sobre ela — ele conseguia desarmar todas as suas defesas com a mais pura e despretensiosa gentileza.
Ela tentou mudar de posição na cama, o colchão cedendo suavemente sob seu peso. O tecido do lençol rangeu de leve.
Quase instantaneamente, a cabeça de Vinnie se moveu. Ele virou o rosto para longe da câmera por uma fração de segundo, os olhos buscando o canto escuro do quarto. Quando ele percebeu que ela estava se mexendo, uma expressão de pura suavidade tomou conta de suas feições. O olhar focado e concentrado de streamer se desfez, dando lugar a um brilho carinhoso e atento.
Clara encontrou o olhar dele e soltou um sorriso sonolento, afundando o rosto no travesseiro para tentar esconder a timidez que ainda sentia.
Vinnie mordeu o lábio inferior, claramente se contendo para não falar nada em voz alta. Ele piscou devagar para ela, um código mudo que eles tinham, antes de voltar a atenção para a tela do computador.
O chat da live começou a rolar com uma velocidade insana.
— "Vinnie, pra onde você tá olhando?" — ele leu uma das mensagens em voz alta, sua voz falhando ligeiramente antes de se recompor. — Pra lugar nenhum, gente. Só... achei que tivesse visto uma sombra. Meu gato imaginário, talvez.
Clara abafou uma risadinha sob o cobertor.
— "Você tá sorrindo do nada" — ele continuou lendo, o rubor suave subindo pelo pescoço tatuado, visível mesmo sob a luz fria do monitor. — Eu não tô sorrindo do nada. Eu tô lendo o chat de vocês, ué. Vocês são engraçados.
Ele começou outra partida, mas sua concentração havia ido embora por completo. Seus dedos não se moviam com a mesma precisão e, a cada trinta segundos, ele jogava o olhar na direção da cama, certificando-se de que ela ainda estava bem, de que não havia acordado assustada ou desconfortável.
Clara sentiu a garganta seca. Ela se sentou devagar, os cabelos bagunçados caindo sobre os ombros. O moletom largo de Vinnie escorregou para o lado, revelando a curva redonda de seu ombro macio. Ela olhou para a garrafa de água que estava na mesinha de cabeceira do outro lado, mas hesitou, com medo de fazer qualquer barulho que o microfone hiper-sensível dele pudesse captar.
Vinnie percebeu sua inquietação pelo canto do olho.
— Galera, vou precisar mutar rapidinho e colocar a tela de espera. Preciso ir ao banheiro e pegar água, já volto — anunciou ele de repente.
Antes que o chat pudesse protestar em massa, ele clicou no atalho do teclado, silenciando o microfone e substituindo a imagem da câmera por uma animação padrão com música de fundo.
Assim que a luz indicadora da webcam apagou, Vinnie arrancou os fones de ouvido e os jogou na mesa. Ele se levantou em um movimento fluido e caminhou até a cama com passos silenciosos.
— Ei... — sussurrou ele, a voz naturalmente rouca preenchendo a penumbra. Ele subiu na cama com cuidado, apoiando os joelhos no colchão e engatinhando até Clara. — Te acordei? Desculpa, amor. Eu tentei falar baixo.
— Não, não me acordou — respondeu Clara, a voz ainda fraca pelo sono. Ela esticou a mão timidamente e tocou a lateral do rosto dele, sentindo a textura áspera da barba por fazer. — Você não precisa parar a live por minha causa, Vinnie. Eu só ia pegar um pouco de água.
— Eu não me importo com a live — rebateu ele sem hesitar, pegando a garrafa de água na mesinha e entregando para ela com todo o cuidado. — Eu me importo com você.
Clara deu alguns goles, sentindo o alívio imediato na garganta, enquanto Vinnie mantinha os olhos fixos nela. O jeito como ele a olhava sempre a deixava desconcertada. Não havia julgamento ali, não havia comparações. Havia apenas uma adoração crua e genuína que às vezes a assustava pelo peso de sua intensidade.
Ela devolveu a garrafa, e ele a colocou de volta na mesa sem desviar os olhos dela.
— O que foi? — perguntou Clara em um sussurro, puxando o edredom para cobrir mais o corpo, um reflexo quase automático de suas inseguranças. — Por que tá me olhando assim?
Vinnie franziu as sobrancelhas de leve, percebendo o gesto defensivo. Ele estendeu as mãos grandes e quentes, segurando as mãos dela e puxando suavemente o edredom para baixo, até a altura de sua cintura.
— Tô te olhando porque você tá linda — disse ele com firmeza, acariciando os nós dos dedos de Clara com os polegares. — Toda amassadinha de sono, com a minha roupa... Clara, você não tem noção de como fica linda no meu quarto.
— Vinnie... — ela suspirou, o peito apertado por uma mistura de carinho e angústia. — Você sabe que não sou igual às meninas com quem você costuma andar. Se o seu chat sonhar que tem alguém aqui...
— Que se foda o chat — ele interrompeu, a voz firme, mas sem nenhuma agressividade direcionada a ela. Ele subiu um pouco mais na cama, sentando-se de pernas cruzadas de frente para ela e segurando seu rosto entre as palmas quentes. — Eu já te falei mil vezes. Eu não ligo pro que ninguém daquela internet pensa. Eles não sabem de nada. Eles não conhecem você, não conhecem a gente.
— Mas eles machucam — disse ela, uma lágrima teimosa ameaçando se formar no canto dos olhos castanhos. — Eles pegariam cada foto minha, cada parte do meu corpo e transformariam em piada. Eu vejo o que fazem com outras garotas. Eu tenho medo, Vinnie. Medo de não aguentar e de acabar estragando tudo entre nós.
A expressão de Vinnie se quebrou em uma onda de ternura dolorosa. Ele se inclinou para a frente e depositou um beijo suave em cada uma das pálpebras dela, descendo depois para a ponta do nariz e finalmente para os lábios macios. Foi um beijo lento, profundo, cheio de calma e devoção.
— Eu nunca vou deixar ninguém te machucar — murmurou ele contra a boca dela, sua respiração quente misturando-se à dela. — Se manter as coisas em segredo é o que te protege e te deixa em paz, eu guardo esse segredo pelo resto da minha vida. Mas nunca, jamais pense que eu tenho vergonha de você. Porque se dependesse de mim, eu segurava a sua mão no meio do tapete vermelho e gritava pro mundo inteiro que a mulher mais perfeita desse planeta é minha.
O coração de Clara parecia querer sair pela boca. Suas mãos subiram para os braços musculosos dele, sentindo os relevos das tatuagens que ela já conhecia de cor.
— Você fala isso porque é doido — ela sussurrou, deixando escapar um riso trêmulo, as bochechas coradas.
— Eu sou doido por você — corrigiu ele, sorrindo de lado, aquele sorriso torto que costumava derreter qualquer resistência dela.
Ele desceu as mãos para a cintura de Clara, apertando de leve a carne macia de seus quadris, puxando-a para mais perto até que o peito dela encostasse no dele. Ele não tinha nojo, não tinha hesitação; amava a maciez do corpo dela, adorava a forma como ela se encaixava perfeitamente em seus braços.
— Quer saber? — disse ele, olhando por cima do ombro na direção do computador. — Eu vou fechar essa live.
— O quê? Não! — Clara arregalou os olhos. — Você acabou de falar que ia voltar. Eles vão achar estranho.
— Vou falar que meu estômago não tá legal e me despedir — declarou ele, já se preparando para sair da cama. — Faz quase duas horas que eu tô ali. Já tá bom. Eu prefiro passar a madrugada agarrado com você, pedindo alguma besteira pra comer e vendo filme até você apagar de novo.
— Vinnie, você não precisa fazer isso por mim...
— Não tô fazendo só por você, tô fazendo por mim também — ele piscou para ela, dando-lhe mais um selinho demorado antes de se afastar relutante. — Fica quietinha aí. É coisa de dois minutos.
Clara observou enquanto ele caminhava de volta até a cadeira ergonômica. Ele sentou, ajustou o fone de ouvido em volta do pescoço e desmutou o microfone, trazendo de volta a câmera.
— E aí, galera, voltei — disse ele, a voz agora carregada de uma leveza diferente, quase cúmplice. — Então... péssima notícia. Minha barriga começou a doer do nada, acho que aquele taco de mais cedo não caiu muito bem. Eu vou ter que encerrar por hoje.
O chat, como esperado, explodiu em mensagens de preocupação e votos de melhoras.
— Não se preocupem, vou tomar um remédio e capotar na cama — continuou ele, seus olhos brilhando ao lançar mais um olhar furtivo para onde Clara estava deitada. — Obrigado pela presença de todo mundo hoje. Tenham uma boa noite. Amo vocês, galera. Falou.
Com alguns cliques rápidos, as luzes dos monitores mudaram e o silêncio finalmente voltou a reinar no quarto. Ele desligou o computador por completo, mergulhando o ambiente em uma escuridão acolhedora, iluminada apenas pela luz suave da lua que entrava pela fresta da cortina.
Vinnie tirou a camiseta, jogando-a em qualquer canto do chão, e voltou direto para a cama. Ele levantou o edredom e deslizou para baixo dele, envolvendo o corpo de Clara com seus braços compridos e fortes.
Ela se aninhou instantaneamente contra o peito dele, pousando a cabeça sobre a pele quente e tatuada, sentindo a batida firme e ritmada de seu coração. Uma das pernas pesadas dele se entrelaçou nas dela, prendendo-a em um abraço seguro e reconfortante.
— Pronto — murmurou Vinnie, a voz vibrando diretamente no peito de Clara. Ele enterrou o nariz nos cabelos dela, inspirando fundo o perfume doce de seu xampu. — Agora somos só nós dois. Sem câmera, sem chat, sem ninguém enchendo o saco.
Clara fechou os olhos, deslizando as unhas suavemente pelas costas dele, arrancando um longo suspiro de alívio do rapaz. Toda a insegurança, o peso do mundo exterior e o medo dos julgamentos pareciam evaporar diante daquele contato simples e genuíno.
— Obrigada — sussurrou ela contra a pele dele.
— Pelo quê? — perguntou ele, beijando o topo de sua testa.
— Por me fazer sentir segura. Mesmo quando o mundo lá fora parece grande demais e assustador.
Vinnie apertou os braços ao redor dela, puxando-a ainda mais para si, como se quisesse protegê-la de qualquer tempestade.
— Você é a minha casa, Clara — disse ele, com uma sinceridade tão desarmante que fez os olhos dela arderem novamente. — E a gente sempre protege o que é mais precioso pra gente. Agora dorme... amanhã eu preparo aquele café da manhã que você gosta.
Clara sorriu no escuro, sentindo a respiração dele se acalmar e se alinhar à sua. Ali, naquele quarto escondido em algum lugar alto de Los Angeles, ela não precisava se preocupar com números, seguidores, câmeras ou comentários cruéis. Ali, nos braços de Vinnie, ela era simplesmente amada por tudo o que era. E, pelo menos por aquela noite, aquilo bastava para afastar qualquer medo.
