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Outer Banks

Fandom: Outer Banks

Criado: 15/09/2026

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RomanceDramaAngústiaEstudo de PersonagemCenário CanônicoCiúmesTragédiaUso de DrogasAbuso de Álcool
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O Peso do Silêncio

O cheiro de sal e óleo de motor sempre fora a assinatura de The Cut, mas naquela noite abafada de verão, tudo o que Clara conseguia sentir era o gosto amargo do próprio silêncio.

Ela estava sentada no capô amassado da Twinkie, segurando uma garrafa de cerveja morna que já havia perdido o gás há muito tempo. A brisa da lagoa balançava os fios rebeldes de seu cabelo castanho, colando alguns deles no suor de sua testa. Ao lado, John B ria alto de alguma piada sem graça que JJ acabara de contar sobre roubar gasolina de um barco de turismo, enquanto Pope e Kiara discutiam sobre a correnteza do canal.

Para todos os efeitos, Clara era apenas a irmã mais nova de John B. A garota de corpo curvilíneo, gordinha, que usava shorts jeans largos e camisetas velhas de banda herdadas do irmão, a garota que passava despercebida pela elite de Figure Eight a menos que estivesse servindo bebidas em bandejas de prata.

Ninguém ali sabia. Ninguém fazia ideia do inferno silencioso que ardia sob sua pele.

O som característico do motor de um jipe cortou a música baixa que saía do rádio da van. Clara não precisou levantar a cabeça para saber quem era, mas seu corpo traidor congelou antes mesmo que sua mente pudesse ordenar qualquer reação.

O veículo estacionou na terra batida, perto da doca onde os Pogues e alguns Kooks desgarrados se misturavam sob as lâmpadas amareladas do píer. A porta se abriu com um estalo seco.

Rafe Cameron desceu.

Ele vestia uma camisa de linho clara com as mangas dobradas até os cotovelos, bermuda cáqui e aquele ar perpétuo de quem estava prestes a explodir ou a incendiar o mundo. Mas não estava sozinho. Do lado do passageiro, Sofia saltou graciosamente, rindo de algo que ele dissera. Ela era esbelta, de pele dourada pelo sol das Bahamas e cabelos perfeitamente alinhados, usando um vestido leve que custava mais do que a Twinkie inteira.

Rafe passou um braço pelos ombros de Sofia, puxando-a para perto com um gesto casual, quase indiferente, mas público o bastante para ser uma declaração.

O estômago de Clara deu uma volta violenta. Ela apertou o vidro da garrafa com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos.

— Olha só quem resolveu dar as caras — resmungou JJ, cuspindo na terra. — O príncipe herdeiro e a nova cadelinha dele.

— Cala a boca, JJ — disse John B, os olhos semicerrados em direção a Rafe. — Não arruma confusão hoje. A gente só veio pegar as redes de pesca.

— Eu não tô arrumando nada — rebateu JJ. — Só acho que esse cara tem uma cara muito socável.

Clara continuou imóvel. Seus olhos, contra a sua própria vontade, encontraram a mão de Rafe apoiada nas costas de Sofia. Era a mesma mão que, meses atrás, tremia descontroladamente sobre os lençóis amassados da casa de hóspedes dos Cameron.

Tudo começara naquele trabalho de verão. Clara fora contratada para ajudar na limpeza pesada da mansão após uma reforma. Uma Pogue na casa dos deuses de Figure Eight. No começo, Rafe nem sequer a olhava nos olhos; para ele, ela era apenas mais uma peça da mobília. Mas Clara nunca fora de abaixar a cabeça.

A primeira vez que realmente conversaram foi no píer particular dos Cameron, tarde da noite. Rafe estava sentado na ponta da madeira, um maço de cigarros amassado na mão, acendendo o terceiro cigarro consecutivo com os dedos trêmulos, os olhos vermelhos e o maxilar travado pelo que quer que tivesse consumido.

Clara, que havia saído tarde da lavanderia, passara por ele e não conseguira segurar a língua.

— Se continuar tragando desse jeito, seus pulmões vão virar carvão antes dos vinte e cinco — ela dissera, a voz firme na escuridão.

Rafe havia se virado como um predador encurralado, os olhos brilhando de raiva.

— Quem te deu permissão para falar comigo? Volta pra cozinha, garota.

Mas Clara não recuara. Em vez disso, dera dois passos à frente, arrancara o cigarro aceso da boca dele e o jogara na água salgada.

— Você fede a fumaça — dissera ela, encarando o rapaz mais perigoso da ilha sem pestanejar. — E seu pai acabou de passar gritando pelo jardim. Se ele te vir assim, vai tirar o resto do que sobrou da sua dignidade.

Rafe ficara tão atônito com a audácia daquela garota gordinha, de uniforme simples e olhar inabalável, que não conseguira reagir. Nos dias seguintes, a presença dela se tornou um ímã para ele. O que começara com provocações nos corredores vazios da mansão rapidamente se transformara em encontros febris, sussurrados entre as sombras da casa de barcos.

Foi ela quem fez Rafe parar de fumar. Sempre que ele colocava um cigarro na boca, Clara simplesmente o tomava de seus lábios e o quebrava ao meio.

— Não vou beijar um cinzeiro — ela dizia, cruzando os braços, firme em suas curvas que ele aprendera a adorar em segredo.

E Rafe, inacreditavelmente, obedecia. Ele jogava o maço fora, resmungando, passando as mãos pelo cabelo loiro e raspado, para logo depois puxá-la pela cintura e enterrar o rosto na curva do pescoço dela, murmurando:

— Você é mandona demais para uma Pogue, sabia?

Ele era doce nesses momentos. Tinha uma ternura desesperada, quase infantil, que só mostrava entre quatro paredes, quando as portas estavam trancadas e o mundo lá fora não existia. Ninguém acreditaria se ela contasse. O temido Rafe Cameron acariciando a pele macia de suas coxas com reverência, beijando cada pedaço de seu corpo que a sociedade dizia que ela deveria esconder, sussurrando que ela era a única coisa real e pura naquela ilha miserável.

Mas Rafe também era veneno.

Havia noites em que a pressão de Ward Cameron e as substâncias que ele usava o transformavam em um monstro incontrolável. Clara se lembrava com clareza aterrorizante da noite em que ele quebrou uma cadeira contra a parede da oficina, gritando impropérios para o vento, os olhos vidrados de loucura pura.

Naquela noite, ela não tivera medo. Ficara de pé na frente dele, com as lágrimas escorrendo pelo rosto, e gritara de volta.

— Para com isso! Olha pra você, Rafe! Você não é um monstro, então para de agir feito um animal!

A voz dela fora como um balde de água fria na tempestade dele. Rafe parara no meio do movimento, o peito arfando, a garrafa de vidro pendendo frouxa de seus dedos até cair e se estilhaçar no chão. Ele olhara para as próprias mãos, depois para Clara, percebendo a destruição ao redor.

E então ele desmoronara. Caíra de joelhos diante dela, envolvendo a cintura de Clara com os braços, a testa colada na barriga dela, soluçando convulsivamente.

— Me desculpa, Clary... — ele implorara, a voz sufocada pelo choro descontrolado. — Por favor, me desculpa. Não me deixa. Eu não queria... eu juro que não queria. Por favor, não me olha assim.

Ela sempre o perdoava. Fazia carinho no cabelo curto dele, sentindo o calor das lágrimas dele molharem o tecido de sua blusa, acreditando ingenuamente que o amor poderia salvar um garoto que já havia escolhido se afogar.

Até que não deu mais. A espiral de violência dele aumentara. O medo de que John B descobrisse — de que seu irmão visse que ela estava dormindo com o arqui-inimigo dos Pogues — começou a sufocá-la. Em uma discussão acalorada perto das docas, Rafe a empurrara contra uma parede de madeira. Não fora com força total, mas fora o suficiente para estilhaçar a ilusão.

Clara terminara tudo ali mesmo, com a voz embargada e o coração em pedaços.

— Se você chegar perto de mim de novo, Rafe, eu juro que conto para o meu irmão. E aí você vai ter que nos matar.

Ele não a procurou mais. O orgulho Kook, a culpa corrosiva e a loucura falaram mais alto.

E agora, meses depois, ali estava ele.

Clara piscou, voltando abruptamente para o presente. O riso agudo de Sofia ecoou pelo ar salgado. A garota Kook se inclinou e deu um beijo rápido nos lábios de Rafe, dizendo algo sobre comprar raspadinhas na cabana ao lado. Rafe assentiu, soltando-a, e ficou parado perto da mureta de madeira.

Sem Sofia ao seu lado, a postura dele mudou. Os ombros caíram ligeiramente. Seus olhos vasculharam a pequena multidão no cais até que, inevitavelmente, pousaram sobre a Twinkie.

E sobre Clara.

O ar sumiu dos pulmões dela.

Por um segundo eterno, o tempo pareceu congelar. Rafe a encarou. Não havia a fúria psicótica em seus olhos, nem o deboche que ele costumava exibir para os Pogues. Havia apenas uma sombra vazia, um reconhecimento doloroso e pesado. Ele olhou para a garrafa na mão dela, para as pernas dela balançando no capô da van, para o rosto que ele tantas vezes segurara entre as palmas das mãos frias.

A dor que atingiu Clara foi tão física que ela quase se curvou. O pior de amar alguém em segredo não era o fim; era o luto. Ela não tinha o direito de chorar. Não podia desabafar com Kiara sobre como sentia falta do peso da cabeça de Rafe em seu colo. Não podia contar a John B que o garoto que ele odiava era o mesmo que a fizera se sentir a mulher mais bonita do universo.

Ela estava sozinha com seus fantasmas. E agora tinha que assistir a outra garota viver sob a luz do sol o que ela tivera que esconder nas trevas.

— Ei, Clary.

A voz de John B quebrou o transe. Seu irmão estava parado ao lado da porta do motorista, segurando uma rede de náilon e olhando para ela com uma ruga de preocupação na testa.

— Você tá legal? — perguntou ele, franzindo o cenho. — Tá branca feito uma vela. É o calor?

Clara engoliu o nó que queimava em sua garganta, forçando os lábios a se curvarem em um sorriso fraco.

— É... é só o calor, John B. O ar tá muito pesado hoje.

— Quer ir embora? A gente já pegou o que precisava. O JJ tá enrolando, mas eu coloco ele pra dentro da van agora mesmo.

— Não precisa — mentiu ela, a voz ligeiramente trêmula. — Vou só... pegar uma água ali no quiosque. Já volto.

Ela desceu do capô antes que o irmão pudesse fazer mais perguntas. Suas pernas pareciam feitas de chumbo, mas ela caminhou em direção à parte de trás da cabana de suprimentos, onde as luzes eram mais fracas e o cheiro de peixe afastava a maioria das pessoas. Clara só precisava de um minuto para respirar, para impedir que as lágrimas que ardiam em seus olhos transbordassem.

Ela apoiou as mãos na parede úmida de madeira, fechando os olhos e respirando fundo o ar salgado da noite.

Um barulho de passos lentos esmagando conchas secas a fez sobressaltar.

Clara abriu os olhos e se virou rapidamente.

Rafe estava parado a poucos metros de distância, nas sombras projetadas pelo beiral da cabana. A postura dele era rígida, as mãos afundadas nos bolsos da bermuda. Ele parecia mais magro do que no verão passado, as olheiras fundas desenhando sombras escuras sob seus olhos azuis e frios.

Por alguns segundos, apenas o som distante das risadas dos turistas e o marulhar da maré quebraram o silêncio.

— O que você tá fazendo aqui, Rafe? — perguntou Clara, a voz saindo mais ríspida e fria do que pretendia, um escudo automático contra a vulnerabilidade que a consumia.

Rafe deu um passo hesitante para a frente, parando quando viu Clara recuar um centímetro. Ele baixou os olhos para o chão por um instante antes de encará-la novamente.

— Eu vi você — disse ele, a voz rouca, quase sem fôlego. — Com o seu irmão.

— É onde eu pertenço, não é? Com os Pogues — retrucou ela, cruzando os braços sobre o peito em uma tentativa patética de proteger o coração despedaçado. — Vai embora, Rafe. Se o John B te vir aqui falando comigo...

— Eu não me importo com o John B — interrompeu ele, um vislumbre daquela antiga arrogância cortando suas palavras, mas logo se desfazendo em uma expressão cansada. Ele olhou para as mãos dela. — Você ainda tá usando o anel?

Clara sentiu um choque percorrer sua espinha. O pequeno anel de prata barato, com uma pedra azul lascada, que ele havia deixado no travesseiro dela na última noite em que dormiram juntos. Ela não o estava usando; guardava-o no fundo de uma gaveta, escondido sob roupas velhas, incapaz de jogar fora, incapaz de olhar para ele.

— Claro que não — mentiu ela, erguendo o queixo. — Eu joguei no canal no dia em que terminamos.

Uma pontada visível de dor atravessou o rosto de Rafe. O maxilar dele se contraiu com força. Ele deu outro passo em direção a ela, diminuindo a distância até que Clara pôde sentir o cheiro dele — sabonete caro, colônia amadeirada e a ausência absoluta de tabaco.

Ele realmente não havia voltado a fumar. Aquilo, de alguma forma distorcida, doeu mais do que se ele a tivesse insultado.

— A Sofia tá te esperando — disse ela, a voz vacilando ligeiramente no nome da outra garota.

Rafe soltou uma risada curta e amarga, passando a mão pelos cabelos raspados de um jeito que Clara conhecia muito bem: era o gesto dele quando a ansiedade tomava conta.

— A Sofia é fácil, Clara — sussurrou ele, dando mais um passo, agora perto o suficiente para que ela pudesse ver as pequenas manchas douradas na íris de seus olhos. — Ela não me faz perguntas. Ela não se importa com o que eu faço quando não estou com ela. Ela não se importa se eu estou queimando por dentro.

— Então você tem a garota perfeita — rebateu Clara, sentindo a primeira lágrima quente escorrer pela bochecha, traindo sua tentativa de frieza. — Parabéns, Rafe. Você conseguiu exatamente o que o seu pai queria para você. Uma boneca de Figure Eight.

Rafe estendeu a mão, os dedos trêmulos hesitando no ar antes de tocarem a pele macia da bochecha dela, limpando a lágrima com uma delicadeza quase dolorosa. O toque dele queimou como brasa viva. Clara quis se afastar, quis bater nele, mas seu corpo simplesmente congelou sob a memória do que um dia fora amor.

— Mas ela não é você, Clary — disse ele, a voz caindo para um sussurro quebrado, os olhos suplicantes como naquelas noites em que ele desabava em seus braços. — Ninguém sabe. Porra, ninguém faz ideia... mas eu penso em você todas as noites. Eu ainda ouço você brigando comigo por causa daquela porcaria de cigarro.

— Não faz isso — pediu Clara, com a voz embargada, a respiração entrecortada. Ela colocou a mão sobre o pulso dele, não para puxá-lo para perto, mas para empurrá-lo suavemente para longe. — Não vem aqui fingir que se importa quando você tem a vida inteira montada do jeito que você queria. Você me quebrou, Rafe. E o pior é que eu tenho que fingir todos os dias que você nunca nem tocou em mim.

Rafe fechou os olhos com força, engolindo em seco, a mão caindo do rosto dela como chumbo.

— Me desculpa — sussurrou ele, as mesmas palavras que tantas vezes usara para tentar consertar o inconsertável. — Me desculpa, Clara. Por favor.

— Desculpas não mudam nada — disse ela, limpando o resto das lágrimas com a manga da camiseta velha. — Vai embora. Volta pra ela. E nunca mais fala comigo.

Antes que ele pudesse responder, a voz cantante de Sofia ecoou na esquina da cabana:

— Rafe? Amor, onde você tá? Comprei as raspadinhas!

A máscara de Rafe caiu sobre o rosto dele em uma fração de segundo. A tensão, a frieza Kook, a indiferença ensaiada. Ele deu dois passos para trás, afastando-se de Clara como se ela fosse uma estranha, um vulto qualquer na escuridão dos fundos da loja.

Ele a encarou por uma última fração de segundo — um olhar carregado de arrependimento, solidão e um desespero silencioso que morreria com os dois.

— Tô aqui, Sofia — respondeu ele, a voz soando perfeitamente calma enquanto se virava e caminhava em direção à luz. — Só tava vendo se o caminho pro cais tava livre.

Clara ficou parada na escuridão úmida, ouvindo os passos dele se afastarem e a risada de Sofia preencher o silêncio da noite. Ela encostou a nuca na madeira áspera da parede, fechando os olhos e deixando as lágrimas caírem sem restrições agora que ninguém podia ver.

Dali a poucos minutos, ela teria que enxugar o rosto, colocar um sorriso falso, caminhar até a Twinkie e ouvir John B reclamar sobre como Rafe Cameron era um desgraçado sem alma. E ela teria que concordar, balançar a cabeça e engolir o grito que implorava para sair de sua garganta.

Porque na ilha de Kildare, algumas pessoas podiam amar abertamente sob a luz dourada do sol. Mas Clara estava condenada a carregar o peso do seu silêncio, onde o amor não passava de cinzas frias que ela nunca poderia confessar ter acendido.

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