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Fandom: Nenhum

Criado: 15/09/2026

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O Peso do Cuidado e as Cores da Pele

O sol da tarde atravessava as janelas do amplo apartamento de Emanuel, refletindo-se nas superfícies de vidro e metal que compunham a decoração moderna e cara. No centro da sala, Emanuel passava a mão pelo cabelo curto, o rosto carregado por uma expressão de cansaço que nem mesmo o sucesso de seus estúdios de tatuagem conseguia mascarar. Ele era um homem de lógica, de traços firmes e decisões rápidas, mas, naquele momento, sentia-se impotente diante do choro baixinho e sofrido que vinha do quarto.

— Ela não para de se coçar, Emanuel. Eu já troquei a marca da fralda três vezes só hoje. — A voz de Eduarda era um fio, carregada de uma culpa que ela não deveria carregar.

Emanuel caminhou até ela, sentindo o instinto de proteção aflorar instantaneamente. Eduarda estava sentada na beira da cama, ninando a pequena Maya. A jovem de vinte anos parecia ainda mais frágil sob a luz suave, vestindo um vestido de linho claro que acentuava sua silhueta esguia. Seus olhos castanhos, sempre tão expressivos, estavam marejados.

— Calma, Duda. Eu mandei buscar aquelas pomadas alemãs que o especialista recomendou. Devem chegar na loja da Sara ainda hoje — disse ele, aproximando-se e pousando a mão firme no ombro da prima. — A Maya vai ficar bem. Eu não vou deixar ela sofrer.

Para Emanuel, Maya não era apenas sua sobrinha de segundo grau. Desde que o pai biológico da menina desapareceu ao saber da gravidez, Emanuel assumira o papel. Ele pagava as contas, ele escolhia os melhores médicos, ele era o "papai" que a menina chamava com a voz ainda trôpega. E ele fazia isso por Maya, mas, acima de tudo, fazia por Eduarda.

— Você já fez tanto, Manu... — Eduarda encostou a cabeça no braço dele, buscando o apoio físico que tanto precisava. — Às vezes sinto que sou um fardo.

— Nunca diga isso — ele rosnou suavemente, a possessividade latente em seu tom. — Você e a Maya são minha responsabilidade. Minha família.

A porta da suíte se abriu com um estrondo controlado, e o perfume caro de Sara inundou o ambiente antes mesmo que ela aparecesse. Sara entrou usando um conjunto de seda justo que ressaltava suas curvas esculpidas por cirurgias e treinos pesados. O cabelo loiro estava impecavelmente alinhado, e o batom vermelho era sua armadura.

— O drama ainda não acabou? — Sara perguntou, não com maldade, mas com sua ironia habitual. Ela caminhou até o berço onde sua própria filha, Ágata, dormia tranquilamente após o passeio com a babá. — Emanuel, querido, você está parecendo um bicho enjaulado. Relaxa.

— Ela está toda vermelha, Sara. A pele da Maya é sensível demais — Emanuel respondeu, a rigidez voltando ao seu corpo.

Sara deu de ombros, aproximando-se de Eduarda. Ela não via a prima de Emanuel como uma ameaça. Pelo contrário, achava Eduarda uma criatura doce, quase etérea, alguém que precisava de cuidados que ela, Sara, não tinha paciência para dar, mas que Emanuel adorava exercer. Sara sabia dos sentimentos do marido. Ele havia confessado, meses atrás, que sentia algo profundo e protetor por Eduarda que ia além do sangue. E Sara, em sua confiança inabalável e amor pragmático por Emanuel, aceitara. Se Emanuel precisava daquela doçura para ser completo, ela não se oporia.

— Duda, querida, você está pálida — Sara disse, tocando o rosto de Eduarda com as unhas longas e bem feitas. — Emanuel, leve ela para a cozinha e faça ela comer alguma coisa. Eu fico com a pequena por dez minutos.

— Eu não quero sair de perto dela — sussurrou Eduarda, manhosa, apertando Maya contra o peito.

— É uma ordem, bailarina — Sara piscou, um sorriso provocador nos lábios. — Ou vou ter que carregar você eu mesma?

Emanuel soltou um suspiro curto, metade alívio, metade tensão. Ele guiou Eduarda para fora do quarto, mantendo a mão na base de suas costas, sentindo a delicadeza dos ossos dela sob o tecido fino.

Na cozinha, o silêncio era pontuado apenas pelo som da cafeteira. Emanuel serviu um copo de água para Eduarda e sentou-se à frente dela.

— Como estão as aulas no estúdio de ballet? — ele tentou mudar de assunto, observando como ela bebia a água devagar.

— Estão bem. As crianças me ajudam a esquecer um pouco os problemas — ela respondeu, dando um sorriso tímido. — Mas a faculdade de História da Arte está puxada. Às vezes acho que não vou dar conta de tudo.

— Você dá conta porque é forte, mesmo que não acredite nisso — Emanuel afirmou, sua voz soando como uma âncora. — E o que você não conseguir, eu resolvo.

O momento de intimidade foi interrompido pelo toque da campainha. Eram as mães. Helena, mãe de Emanuel, e sua irmã, a mãe de Eduarda, chegaram trazendo consigo aquela energia agitada de avós preocupadas.

— Vimos o estado da Maya na foto que você mandou, Eduarda! — Helena disse, entrando na cozinha com sacolas de ervas e produtos naturais. — Emanuel, meu filho, pare de comprar essas coisas industrializadas de fora. A pele dessa criança precisa de natureza, não de química alemã.

— Mãe, eu comprei o que há de melhor no mercado — Emanuel retrucou, a irritação começando a subir. Ele odiava quando sua lógica era questionada.

— O melhor para o mercado não é o melhor para a minha neta — a mãe de Eduarda interveio, já começando a ferver água. — Vamos preparar um banho de camomila e sementes de linhaça. Vai acalmar a inflamação na hora.

Sara apareceu na porta da cozinha, encostando-se no batente com os braços cruzados, observando a cena com um divertimento cínico.

— A convenção das bruxas começou? — provocou ela, ganhando um olhar severo de Helena.

— Sara, querida, por que não vai verificar se a Ágata acordou? — Helena sugeriu com uma polidez ácida.

— A Ágata está ótima, sogrinha. Ela tem a pele de ferro, igual à mãe. — Sara caminhou até Emanuel e passou os braços pelo pescoço dele, ignorando a presença das outras. — Emanuel, você está tenso. Deixe elas brincarem de alquimia. Vem comigo ver o novo catálogo da loja.

Emanuel olhou para Eduarda. Ela parecia pequena entre as duas mulheres mais velhas, observando a preparação do banho com olhos esperançosos. Ele queria ficar ali, queria segurar a mão dela enquanto davam o banho em Maya, queria sentir que ele era o herói daquela história. Mas Sara o puxava para o mundo real, para o mundo da administração, do poder e do desejo que eles compartilhavam.

— Vá, Manu — Eduarda disse, sentindo o olhar dele. — Minha mãe e a tia Helena sabem o que estão fazendo.

Emanuel assentiu, mas não antes de se aproximar e beijar o topo da cabeça de Eduarda, um gesto que durou um segundo a mais do que o estritamente platônico. Sara viu. E sorriu.

No banheiro da suíte de hóspedes, o vapor da água com ervas começou a subir. Eduarda despiu Maya com movimentos lentos, quase rituais. A pele da bebê estava realmente muito irritada, com placas vermelhas onde a fralda tocava e pequenas bolinhas no pescoço.

— Coitadinha da minha menina — Eduarda murmurou, sentindo os olhos arderem.

— Não chore, Duda — a mãe dela disse, testando a temperatura da água. — Isso é comum. Ela é sensível como você. Sempre foi.

As duas avós mergulharam a bebê na água morna. Maya, que estava inquieta, soltou um suspiro de alívio quase imediato ao sentir o calor das ervas. Eduarda ajoelhou-se ao lado da banheira, usando uma esponja natural para molhar as costas da filha.

Enquanto isso, no escritório, Emanuel não conseguia se concentrar nos números que Sara mostrava no tablet.

— Você está lá com elas em pensamento, não está? — Sara perguntou, sentando-se no colo dele sem cerimônia.

— Ela sofre demais com as coisas, Sara. A Eduarda não tem a sua casca — Emanuel admitiu, passando as mãos pelas coxas de Sara, buscando um conforto que era puramente físico.

— Eu sei. E é por isso que ela tem você. E é por isso que você tem a mim — Sara inclinou-se, sussurrando perto do ouvido dele. — Eu não me importo de dividir o seu cuidado, Emanuel. Desde que você saiba quem manda nesta casa.

— Você sabe que eu amo você — ele disse, a voz rouca.

— Eu sei. E eu sei que você a ama também. De um jeito diferente, mas ama. — Sara se afastou um pouco, olhando-o nos olhos. — Ela é como uma pintura antiga, não é? Frágil, precisa de restauração constante. E você é o restaurador.

Emanuel não respondeu. A lógica lhe dizia que aquela situação era complexa, talvez perigosa. Mas, ao ouvir o riso baixo de Maya vindo do corredor, indicando que o banho das ervas havia funcionado, ele sentiu uma paz momentânea.

Ele tinha o império, tinha a mulher poderosa ao seu lado e tinha a doçura da prima para proteger. Para um homem que gostava de controle, Emanuel estava começando a entender que o coração, ao contrário de uma tatuagem, não seguia linhas retas.

Eduarda apareceu na porta do escritório alguns minutos depois, com Maya enrolada em uma toalha branca, a pele visivelmente menos irritada.

— Funcionou, Manu! — ela disse, com um sorriso que iluminou o rosto cansado. — Ela está calminha.

Emanuel levantou-se, saindo do abraço de Sara, e caminhou até a porta. Ele pegou Maya no colo, sentindo o cheiro de camomila. A bebê encostou a cabecinha no ombro dele e murmurou um "papai" sonolento.

— Viu? — Emanuel olhou para Eduarda, e por um instante, o mundo exterior desapareceu. — Eu disse que daríamos um jeito.

Sara, observando da poltrona, cruzou as pernas e sorriu, satisfeita. O tabuleiro estava montado, e ela gostava de como as peças se moviam. A fragilidade de Eduarda era o contraponto perfeito para a sua força, e Emanuel era o eixo que mantinha tudo girando. Para ela, aquilo não era um problema; era um design perfeito.

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