
Amor de cristais
Fandom: The Mandalorian
Criado: 15/09/2026
Tags
Reflexos de Beskar e Ametista
O interior da Razor Crest — ou o que restara de sua sucessora, a ágil N-1 modificada — nunca fora projetado para abrigar três pessoas. Especialmente quando uma delas era uma princesa cujos cabelos pareciam ter vida própria e cujos olhos violetas podiam alternar entre a curiosidade infantil e o orgulho real em questão de segundos.
Prism estava sentada no pequeno espaço de carga, observando Grogu tentar, sem sucesso, equilibrar um pequeno fragmento de cristal flutuante que ela havia criado para ele. O cristal emitia uma luz suave, pulsando em um tom de azul-celeste que combinava com os reflexos nos cabelos da jovem.
— Você está distraindo a criança — a voz distorcida pelo modulador de Din Djarin ecoou do cockpit.
Prism revirou os olhos, um gesto que ela aperfeiçoara nos últimos meses de convivência forçada.
— Ele está aprendendo sobre equilíbrio, Mandaloriano. Algo que você, com essa armadura pesada e esse jeito de andar como se estivesse carregando o peso da galáxia, claramente não entende.
Din não respondeu de imediato. Ele apenas ajustou os controles, mantendo a nave em uma trajetória estável em direção ao sistema Nevarro. Desde que a resgatara dos escombros de seu mundo — um planeta que outrora brilhava como uma joia e agora não passava de poeira estelar —, a dinâmica entre eles era uma guerra fria de palavras afiadas e olhares evitados.
— Precisamos de suprimentos e de informações sobre o sindicato que está operando na orla exterior — disse Din, ignorando a provocação. — Mantenha-se por perto. Não cause problemas.
— Problemas? — Prism levantou-se, a pele brilhando levemente sob a luz artificial da nave. — Eu sou a solução para a maioria dos seus problemas, você só é orgulhoso demais para admitir.
Grogu soltou um pequeno balbucio, concordando com a princesa ou talvez apenas pedindo por mais um lanche. Prism sorriu para a pequena criatura verde e tocou gentilmente sua testa, deixando um rastro de poeira estelar luminosa que o fez rir.
A chegada ao entreposto comercial em Nevarro foi, como de costume, cercada de tensão. O lugar era um antro de caçadores de recompensas, contrabandistas e figuras de caráter duvidoso. Din caminhava com sua postura rígida, a mão sempre perto do blaster, enquanto Prism o seguia com uma elegância que parecia deslocada naquele ambiente sujo.
Eles entraram em uma sala privada nos fundos de uma taverna barulhenta. O homem que os esperava era um Quarren chamado Vane, cujos tentáculos faciais se moviam inquietos enquanto ele analisava os recém-chegados.
— Mando — saudou o Quarren com uma voz borbulhante. — Vejo que trouxe companhia.
Din inclinou levemente a cabeça, mantendo a guarda alta.
— Preciso das coordenadas das rotas de suprimento do Império. Você disse que as teria.
Vane desviou o olhar de Din para Prism. Seus olhos pequenos e escuros percorreram a pele cintilante da princesa e o brilho incomum de seus cabelos. Ele soltou um ruído que lembrava uma risada abafada.
— As coordenadas são caras, Mandaloriano. Muito caras. Mas talvez possamos negociar de outra forma.
Prism sentiu um arrepio de repulsa percorrer sua espinha. Ela cruzou os braços, sentindo a energia dos cristais latente em suas veias.
— O pagamento será em créditos, como combinado — afirmou Din, sua voz soando mais grave do que o normal.
— Créditos são voláteis — disse Vane, inclinando-se para a frente. — Mas uma joia como essa ao seu lado... ela é sua esposa?
O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Prism sentiu o rosto esquentar, uma reação humana que ela ainda não conseguia controlar totalmente.
— Não — respondeu Din secamente.
Vane abriu um sorriso grotesco.
— Ótimo. Então ela não tem dono. Eu aceito a mulher em troca das coordenadas. Ela daria uma excelente peça de exibição na minha coleção. Garanto que será bem tratada, para um objeto de luxo.
O ar na sala pareceu esfriar instantaneamente. Prism deu um passo à frente, as mãos começando a brilhar com uma luz violeta perigosa, pronta para transformar o Quarren em um monumento de cristal, mas a mão enluvada de Din disparou para o lado, bloqueando o caminho dela.
— Ela é minha esposa — a voz de Din saiu como um trovão, carregada de uma possessividade que Prism nunca ouvira antes.
O Quarren recuou, surpreso com a mudança repentina de tom e a agressividade do Mandaloriano. Din deu um passo ameaçador, a mão agora repousando ostensivamente no cabo de sua faca de beskar.
— Repita o que disse sobre ela e este será o último negócio que você fará nesta vida.
Vane levantou as mãos em sinal de rendição, tremendo levemente.
— Eu... eu não sabia. Peço desculpas, Mando. Aqui estão as coordenadas. Pegue-as e saia. Não quero problemas com o seu clã.
Din pegou o chip de dados com um movimento brusco e, sem dizer mais nada, agarrou o braço de Prism, conduzindo-a para fora da sala com passos largos.
Eles caminharam em silêncio até a nave. Grogu, que ficara escondido na bolsa de Din, espiou para fora, sentindo a tensão entre os dois adultos. Assim que a rampa da nave se fechou, Prism soltou o braço das mãos de Din e se virou para ele, um sorriso travesso começando a brincar em seus lábios.
— "Minha esposa", Mandaloriano? — ela provocou, a voz carregada de ironia. — Eu não sabia que tínhamos passado por uma cerimônia. Onde estão as flores de cristal? Onde está o banquete real?
Din começou a organizar o cockpit, evitando olhar para ela.
— Foi uma manobra tática. Ele não teria nos dado as informações se eu não estabelecesse um limite.
— Ah, entendi. Uma manobra tática — Prism aproximou-se, encostando-se no painel de controle, forçando-o a notar sua presença. — Mas você foi muito convincente. Quase parecia que você realmente se importa com o que acontece comigo. Ou talvez seja apenas o seu orgulho mandaloriano não suportando a ideia de perder sua "propriedade"?
Din parou o que estava fazendo e virou o capacete na direção dela. O visor preto era impenetrável, mas Prism podia sentir a intensidade do olhar dele por trás do metal.
— Você não é propriedade de ninguém, Prism. E você sabe disso.
— Então por que o teatro? — ela insistiu, dando um passo para mais perto. — Você poderia ter dito que eu era sua parceira, sua guarda-costas... mas escolheu "esposa". É uma palavra muito forte para alguém tão reservado.
— Era a explicação que ele entenderia mais rápido — respondeu ele, embora sua voz tivesse perdido um pouco da firmeza habitual.
Prism soltou uma risada baixa, um som que lembrava o tilintar de sinos de vidro. Ela estendeu a mão e, por um breve momento, seus dedos roçaram o metal frio da ombreira de Din.
— Admita, Din. Você gosta de me ter por perto. Gosta das provocações, gosta do brilho que eu trago para essa lata de conserva velha que você chama de nave.
— Você é barulhenta, gasta muita energia e distrai o Grogu — disse ele, voltando-se para os controles.
— E você é teimoso, usa muito metal e não sabe como admitir que está começando a sentir algo além de dever — retrucou ela, inclinando a cabeça. — Mas tudo bem. Eu posso ser sua "esposa" por enquanto. Se isso facilitar as suas negociações... marido.
Din pareceu engasgar por um segundo atrás do capacete. Ele acionou os motores com uma rapidez desnecessária.
— Sente-se, Prism. Vamos saltar para o hiperespaço.
Ela sorriu, vitoriosa, e caminhou até o pequeno berço de Grogu, pegando a criança no colo.
— Ouviu isso, pequenino? Seu pai está ficando nervoso.
Durante o salto para o hiperespaço, o silêncio na nave mudou. Não era mais o silêncio tenso de dois estranhos, mas algo mais denso, carregado de palavras não ditas. Prism observava as estrelas se transformarem em linhas de luz branca, sentindo as vibrações da nave através de seus pés. Ela podia sentir a presença de Din, uma âncora sólida em meio ao caos da galáxia.
Horas depois, quando Grogu já dormia profundamente e a nave navegava no vazio silencioso, Prism encontrou Din na área comum, limpando uma de suas manoplas. Ela se sentou à frente dele, sem a habitual máscara de sarcasmo.
— O que aconteceu hoje... — ela começou, a voz suave. — Obrigada. Eu sei me defender, mas... foi bom não ter que lutar sozinha.
Din parou de polir o beskar. Ele levantou a cabeça, e Prism desejou, não pela primeira vez, poder ver os olhos por trás daquele visor.
— Você perdeu tudo, Prism — disse ele, a voz baixa e sem a distorção do rádio. — Eu sei o que é não ter um lar. Enquanto estiver nesta nave, você está sob a minha proteção. E eu levo isso a sério.
— Eu sei que leva — ela murmurou. — Mas você também não precisa carregar tudo sozinho. Eu posso ser mais do que uma protegida, Din.
Ela estendeu a mão, e desta vez Din não recuou. Ela criou um pequeno fragmento de cristal, não maior que uma pérola, e o depositou na palma da luva dele. O cristal brilhava com uma luz violeta constante, quente e reconfortante.
— É um fragmento do meu coração planetário — explicou ela. — Ele reage à vida. Enquanto eu estiver bem, ele brilhará.
Din fechou a mão sobre o pequeno cristal, sentindo o calor emanar dele.
— É um presente valioso.
— É um lembrete — corrigiu ela com um sorriso suave. — De que sua "esposa" é muito mais persistente do que você imagina.
Din soltou um suspiro que soou quase como uma risada contida.
— Vá dormir, Prism. Temos um longo caminho amanhã.
— Boa noite, Mando — disse ela, levantando-se. Ao chegar à porta da cabine, ela parou e olhou por cima do ombro. — E Din? Aquele Quarren tinha razão em uma coisa.
— No quê?
— Eu realmente sou uma joia. Mas sou uma joia que corta quem tenta me prender.
Ela piscou para ele e desapareceu na penumbra do corredor. Din Djarin permaneceu sentado por um longo tempo, olhando para a mão fechada, sentindo a pulsação da luz violeta através do beskar, e percebeu, com uma clareza assustadora, que a princesa de cristal havia feito algo que nenhum inimigo jamais conseguira: ela encontrara uma brecha em sua armadura.
