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PULGARRASCAL

Fandom: Jogadores de Futebol

Criado: 16/09/2026

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RomanceDramaAngústiaDor/ConfortoHistória DomésticaConsertoRealismoDiscriminação
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Marcas na Pele e Cicatrizes no Coração

O silêncio no estúdio de tatuagem de Erick Pulgar era denso, quase sólido, interrompido apenas pelo zumbido ocasional de uma máquina sendo testada em algum dos cubículos vizinhos. Mas ali, na sala VIP de Erick, o ar parecia ter acabado. O chileno, cujas mãos eram famosas pela precisão cirúrgica e traços firmes, sentia os dedos tremerem levemente enquanto encarava o balcão de vidro. Oitenta por cento da pele de Jorge Carrascal levava a sua assinatura, mas nenhuma daquelas marcas doía tanto quanto o vazio deixado pela ausência do marido nos últimos oito meses.

Erick tinha quarenta anos, e noventa por cento de seu corpo era um mapa de tinta. Cada desenho contava uma história: a infância no Chile, o rosto da mãe, a superação. Mas a tatuagem que mais queimava era a que ele não podia ver — o nome de Jorge gravado na alma. Ele era o "pitbull", o homem que construiu um império das agulhas no Rio de Janeiro saindo do nada, renegando a fortuna da família tradicional chilena. Para o mundo, ele era autoritário, marrento, inabalável. Para Jorge, ele sempre foi apenas Erick.

A porta do estúdio se abriu, e o tilintar do sino de entrada fez o coração de Pulgar saltar. Ele não precisava olhar para saber quem era. O perfume amadeirado misturado com um toque de brisa marinha era inconfundível.

Jorge Carrascal entrou com a postura impecável de um engenheiro civil de sucesso. O topete com reflexos loiros estava perfeitamente arrumado, e a camisa social de linho, levemente aberta, revelava o início das tatuagens no peito que Erick conhecia centímetro por centímetro. O sorriso arteiro que costumava iluminar qualquer ambiente, no entanto, estava ausente. Seus olhos, geralmente cheios de ginga e malandragem colombiana, estavam sérios, profissionais.

— O Santino esqueceu o protetor bucal do treino de boxe no carro do seu irmão na semana passada — disse Jorge, a voz firme, mas sem a doçura de outrora. — Ele disse que você pegou com o Pablo.

Erick levantou-se lentamente, ajustando a postura. O olhar penetrante que intimidava qualquer rival nos negócios agora buscava desesperadamente uma rachadura na armadura do colombiano.

— Está aqui, Jorge. — Erick caminhou até a mesa e pegou o objeto, mas não o entregou de imediato. — Como ele está?

Jorge suspirou, desviando o olhar para um quadro na parede.

— Está com quinze anos, Erick. Está insuportável, lindo e teimoso. Igual ao pai. — Um lampejo de sorriso surgiu no canto da boca de Jorge, mas desapareceu tão rápido quanto veio. — Ele sente sua falta.

— E você? — A pergunta de Erick saiu rouca, carregada de uma vulnerabilidade que ele só permitia que Jorge visse.

— Eu vim buscar o equipamento do meu filho, Erick. Não vim para uma sessão de terapia.

— Oito meses, Jorge — disse Erick, dando um passo à frente, ignorando a barreira invisível entre eles. — Oito meses vivendo esse teatro. Eu já te expliquei mil vezes que aquela festa no Chile foi uma armadilha do meu pai. Eu não sabia da Gabriela, eu não sabia do brinde "entre iguais". Você sabe que eu reneguei tudo aquilo por você. Por nós.

Jorge soltou uma risada seca, desprovida de humor, e deu um passo em direção a Erick, o rosto a poucos centímetros do dele. A diferença de altura era mínima, mas a tensão era colossal.

— O problema nunca foi só a Gabriela, Erick. O problema é que, no momento em que seu pai humilhou a minha família, o homem que eu amo estava lá, segurando uma taça de champanhe. Você diz que me defende, mas o silêncio também é uma escolha. Eu ouvi o que ele disse sobre o meu pai, Erick. "Um pedreiro que não sabe o lugar dele". Meu pai me deu tudo sem ter nada. E você ficou lá.

— Eu não ouvi, Jorge! — Erick explodiu, a voz ecoando pelas paredes do estúdio. — No momento em que ele falou aquelas atrocidades no escritório, eu estava no jardim sendo cercado pela Gabriela e tentando me livrar dela. Eu só soube o que ele disse depois, quando você já tinha ido embora, quando você já tinha tirado a aliança. Você acha que eu permitiria que alguém falasse do Seu Jorge ou da Dona Olga na minha frente? Eles são mais meus pais do que os monstros que me geraram!

Jorge recuou, o peito arfando. Ele queria acreditar. A alma colombiana, vibrante e passional, gritava para que ele se jogasse nos braços do chileno e esquecesse o mundo. Mas o orgulho, aquele mesmo orgulho que o fez estudar na PUC enquanto trabalhava como ajudante de pedreiro, o mantinha estático.

— Santino me perguntou ontem por que a gente não mora mais junto — murmurou Jorge, a voz agora embargada. — Ele disse que as tatuagens dele não fazem sentido se o homem que ensinou ele a desenhar não está em casa.

Erick sentiu um nó na garganta. Santino não era seu filho de sangue, mas era seu filho de vida. O pequeno furacão de sete anos que se encantou pelas suas tatuagens agora era um rapaz que carregava a mesma marra dos dois pais.

— Traz ele aqui amanhã — pediu Erick, quase em um sussurro. — Vamos terminar aquela carpa que começamos no antebraço dele. Por favor.

Jorge olhou para as mãos de Erick. As mãos que o tocaram com tanta adoração, que desenharam sua história na pele. Ele se lembrou das noites de dança na sala de casa, de como Erick, apesar de toda a pose de autoritário, sempre perdia o ritmo tentando acompanhar a ginga de Jorge, apenas para fazê-lo rir.

— Eu não sei se consigo voltar para aquela casa, Erick — disse Jorge, com sinceridade dolorosa. — Toda vez que eu olho para as fotos daquele jantar, eu me sinto o menino pobre que não deveria estar na mesa dos adultos. Seu pai venceu. Ele me fez sentir pequeno.

Erick rosnou, um som gutural de pura raiva, e segurou os ombros de Jorge com firmeza.

— Olhe para mim — ordenou o chileno, o olhar de pitbull agora focado em proteger o que era seu. — Ninguém, nem o meu pai, nem a Gabriela, nem ninguém nesse mundo é maior que você. Você é o engenheiro civil mais brilhante que eu conheço. Você é o homem que mudou a minha vida. Se você se sente pequeno, é porque esqueceu quem é o Jorge Carrascal que me fez enfrentar uma dinastia chilena só para ter o direito de segurar a sua mão.

Jorge sentiu uma lágrima teimosa escapar. Ele tentou limpá-la rapidamente, mas a mão tatuada de Erick foi mais rápida, acariciando sua bochecha com uma delicadeza que contrastava com sua aparência bruta.

— Eu sinto falta do seu sorriso arteiro tirando o meu juízo — continuou Erick, a voz suavizando. — Sinto falta de você dançando na cozinha enquanto a Dona Olga briga com a gente por causa da pimenta. A nossa família não é o que está no meu testamento, Jorge. A nossa família é o que a gente construiu com suor e tinta.

Jorge fechou os olhos, encostando a testa na de Erick. O calor que emanava do chileno era o seu único porto seguro em oito meses de tempestade.

— Por que você não me contou que tinha enfrentado seu pai depois da festa? — perguntou Jorge em voz baixa.

— Porque eu estava com vergonha, Jorge! — Erick confessou, a voz falhando. — Vergonha de ter o sangue dele. Eu queria resolver tudo, queria deserdar a mim mesmo antes de olhar na sua cara. Eu achei que, se eu limpasse a sujeira sozinho, você nunca precisaria saber o quão podre eles são. Eu errei. Eu deveria ter sido seu parceiro, não seu protetor.

Jorge abriu os olhos e viu a dor genuína no olhar de Erick. O chileno marrento estava ali, desarmado, implorando por uma chance de consertar o que o mundo exterior quebrou.

— Santino vai querer comer pizza depois da tatuagem — disse Jorge, a voz voltando a ter um pouco daquela animação característica.

Erick paralisou, processando as palavras.

— Pizza?

— É. E ele vai querer que a gente coma na nossa mesa. Na nossa casa. — Jorge deu um passo à frente, diminuindo qualquer distância restante. — Mas se você esconder qualquer outra coisa de mim, Erick Pulgar... se você deixar qualquer pessoa, seja seu pai ou a rainha da Inglaterra, desrespeitar a nossa história, eu juro que apago cada centímetro de tinta que você colocou em mim.

Erick soltou um suspiro de alívio que pareceu tirar um peso de toneladas de seus ombros. Ele puxou Jorge para um abraço apertado, enterrando o rosto no pescoço do colombiano, sentindo a pulsação acelerada dele.

— Eu te amo, seu colombiano atrevido — sussurrou Erick contra a pele de Jorge.

— Eu sei, seu chileno teimoso — respondeu Jorge, finalmente permitindo que o sorriso arteiro voltasse a brincar em seus lábios. — Agora me dá o protetor do Santino antes que eu mude de ideia e resolva te deixar sofrendo mais uns meses.

Erick riu, uma gargalhada rouca e honesta que raramente era ouvida fora daquele círculo familiar. Ele entregou o objeto, mas não soltou a mão de Jorge.

— Amanhã? — perguntou Erick, buscando confirmação.

— Amanhã — confirmou Jorge. — E avisa ao seu pai, se ele ligar, que o filho do pedreiro está ocupado demais sendo o dono do coração do filho dele.

Jorge saiu do estúdio com a ginga recuperada, deixando para trás um Erick Pulgar que, pela primeira vez em muito tempo, não se sentia apenas um homem de negócios ou um tatuador de elite. Ele se sentia completo.

A crise ainda deixaria cicatrizes, como as que eles carregavam na pele, mas como toda boa tatuagem, a dor da aplicação era temporária. O que ficava era a arte. E a arte de Erick e Jorge era, sem dúvida, a mais resistente de todas.

Naquela noite, Jorge não dormiu na casa dos pais. Ele voltou para o apartamento que dividiam, onde o silêncio foi quebrado pelo som de música colombiana e pelos gritos de alegria de Santino ao ver os dois pais na mesma sala.

— Vocês pararam de ser bobos? — perguntou o adolescente, cruzando os braços e olhando de Erick para Jorge com uma sobrancelha erguida, uma imitação perfeita da expressão autoritária de Pulgar.

— Paramos, campeão — disse Erick, bagunçando o cabelo do filho. — Seu pai me deu um sermão digno de um engenheiro chefe.

— E o Erick aprendeu que, no meu canteiro de obras, quem manda sou eu — piscou Jorge, puxando o marido pela cintura para um passo de dança improvisado no meio da sala.

Santino revirou os olhos, mas o sorriso em seu rosto era impagável. A família estava de volta. As interferências externas, os preconceitos de classe e as sombras do passado ainda existiam, mas dentro daquelas quatro paredes, protegidos por tatuagens e promessas, eles eram invencíveis.

Erick olhou para Jorge, que agora ria abertamente, a luz da sala refletindo nos reflexos loiros de seu cabelo. Ele sabia que teria que trabalhar dobrado para reconquistar a confiança total de Jorge, para curar as feridas que seu pai causou. Mas, observando o marido dançar, ele teve a certeza de que nenhuma tinta no mundo era tão vibrante quanto a vida que eles tinham juntos.

— Próxima tatuagem, Jorge? — perguntou Erick, observando o espaço vazio no antebraço esquerdo do marido.

Jorge parou de dançar por um momento, olhou para o chileno com aquele olhar penetrante que o desarmava completamente e sorriu.

— Algo que diga que eu não pertenço a nenhuma classe, Erick. Apenas a você.

E ali, entre um passo de salsa e um olhar de promessa, a crise de oito meses tornou-se apenas mais uma história para ser contada, uma marca na pele que, embora tivesse doído, agora fazia parte da beleza do conjunto. O pitbull e o colombiano estavam prontos para o próximo capítulo, e desta vez, ninguém seria convidado para a festa se não soubesse valorizar a dignidade de um sobrenome construído pelo amor, e não pelo berço.

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