
PULGARRASCAL
Fandom: Jogadores de Futebol
Criado: 16/09/2026
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Entre Tatuagens e Ruínas
O silêncio na mansão da Barra da Tijuca nunca foi tão ensurdecedor. Para Erick Pulgar, as paredes decoradas com arte moderna e os móveis planejados pareciam, agora, o cenário de um crime. O crime de ter permitido que o veneno de sua família biológica escorresse para dentro do santuário que ele construiu com Jorge Carrascal.
Oito meses haviam se passado desde aquele dia fatídico no escritório. Oito meses em que a cama de casal parecia um deserto gelado e o estúdio de tatuagem, seu refúgio habitual, tornara-se o único lugar onde o chileno conseguia respirar sem sentir o peso do arrependimento esmagando seus pulmões.
Erick estava sentado em sua poltrona de couro, a luz fluorescente do estúdio refletindo no metal das máquinas de tatuar. Suas mãos, cobertas por luvas pretas e desenhos que contavam a história de uma vida inteira, tremiam levemente. Ele olhou para o próprio antebraço, onde o nome "Jorge" estava gravado em uma caligrafia elegante, cercado por flores de café colombianas. Foi uma das poucas tatuagens que ele mesmo fez em si, em um momento de euforia logo após o casamento.
A porta do estúdio se abriu com um estrondo familiar. Santino, agora com quinze anos, entrou sem bater. O garoto estava mais alto, os traços de Jorge cada vez mais evidentes em seu rosto, mas o estilo... o estilo era puro Pulgar. Jaqueta de couro, calças largas e aquele olhar desafiador que Erick conhecia tão bem.
— Ele não vai vir, Erick — disse Santino, jogando a mochila no sofá de espera. — Eu tentei falar com ele, juro que tentei. Mas o pai tá irredutível. Ele marcou a assinatura do divórcio para a semana que vem.
Erick sentiu um soco no estômago. Ele largou a máquina e retirou as luvas, revelando as mãos marcadas pelo tempo e pela tinta.
— Ele nem sequer me atende, Tino — a voz de Erick saiu rouca, cansada. — Eu mandei flores, mandei mensagens, fui até a obra onde ele está trabalhando na zona sul... Ele deu ordens para os seguranças não me deixarem passar.
Santino suspirou, sentando-se na beira da mesa de trabalho do "pai".
— Você sabe como ele é. O orgulho do meu pai é do tamanho de Cartagena. E aquela foto com a Gabriela... aquilo foi o fim, cara. Ver você naquele mundo de onde você sempre disse que queria fugir, enquanto ele estava aqui, ralando, se sentindo um peixe fora d'água.
— Eu não queria estar lá! — Erick explodiu, levantando-se e começando a andar de um lado para o outro. — Aquela mulher é um fantasma do passado, Tino. Meu pai armou tudo. Ele sabia que se o Jorge visse aquelas fotos, ele quebraria. E o Jorge, em vez de confiar em mim, preferiu acreditar na narrativa que meu pai criou.
— E você esperava o quê? — Santino rebateu, a voz subindo de tom. — O vovô Pablo passou anos tratando a gente como se fôssemos lixo que você recolheu na rua. O meu pai ouviu ele dizer que a nossa família não tinha "nome". E você nunca contou para ele que sabia disso! Você escondeu para "proteger", mas só deixou ele desarmado quando o ataque veio de verdade.
Erick parou diante do espelho. Ele via o homem de quarenta anos, o tatuador de sucesso, o filho rebelde de uma dinastia chilena. Mas, acima de tudo, ele via um homem que estava perdendo sua âncora.
— Eu só queria que ele visse que eu renunciei a tudo por ele. Por vocês.
— Então prova — disse Santino, levantando-se. — O pai vai estar no aniversário da Sherry hoje à noite, na casa da vovó Olga. Ele acha que você não tem coragem de aparecer no subúrbio depois de tudo o que aconteceu. Ele acha que você voltou a ser o "Pulgar de elite".
Erick olhou para o filho. Santino tinha o brilho de desafio nos olhos, o mesmo brilho que Jorge tinha quando eles se conheceram naquela social, anos atrás.
— Sua avó Olga vai me deixar entrar? — perguntou Erick, com um meio sorriso triste.
— Ela já deixou a cerveja gelando para você, seu tonto. Ela diz que, independente do que o meu pai decida, você ainda é o homem que ajudou a criar o neto dela.
O subúrbio do Rio de Janeiro tinha um som e um cheiro próprios. O barulho do pagode vindo do vizinho, o cheiro de churrasco na brasa e a umidade quente que parecia abraçar a pele. Quando o carro de luxo de Erick estacionou diante da casa simples, mas impecavelmente cuidada, de Seu Jorge e Dona Olga, o silêncio se fez por alguns segundos na calçada.
Erick saiu do carro vestindo apenas uma camiseta branca básica, deixando todas as suas tatuagens à mostra. Ele não queria ser o CEO que o pai desejava; ele queria ser o homem que Jorge amou.
Ao entrar no quintal, seus olhos buscaram apenas um alvo. Jorge Carrascal estava perto da churrasqueira, rindo de algo que o irmão, Romário, dizia. Ele usava uma camisa de linho aberta, os cabelos com reflexos loiros perfeitamente alinhados, e aquele sorriso... aquele sorriso que ainda fazia o coração de Erick errar a batida.
Jorge congelou ao ver o marido — ou ex-marido, como ele insistia em dizer. O riso morreu instantaneamente.
— O que ele está fazendo aqui, Santino? — Jorge perguntou, a voz fria como gelo, sem desviar os olhos de Erick.
— Eu o convidei, pai — Santino respondeu, passando pelo meio dos dois com um prato de salgadinhos. — É aniversário da minha tia. Família é família.
Jorge limpou as mãos em um pano de prato e caminhou em direção a Erick. A ginga colombiana ainda estava lá, mas havia uma rigidez em seus ombros que falava de meses de mágoa acumulada.
— Você tem muita audácia de vir aqui, Erick — disse Jorge, parando a poucos centímetros dele. O cheiro de perfume caro de Erick se misturou ao cheiro de tempero e fumaça de Jorge. — Já não bastou o que você disse da última vez?
— Eu vim pedir perdão, Jorge. Não por ter ido ao Chile, mas por não ter tido a coragem de ser transparente com você sobre o monstro que o meu pai é — Erick falou baixo, para que apenas os dois ouvissem. — Eu passei oito meses tentando entender como a gente chegou aqui. E a resposta é simples: eu deixei o mundo exterior entrar na nossa cama.
— Não foi o mundo exterior, Erick. Foi você — Jorge rebateu, o olhar penetrante fixo no chileno. — Você mentiu. Disse que era uma reunião burocrática e apareceu abraçado com a mulher que seu pai sempre quis para você. Enquanto eu estava aqui, cuidando do nosso filho e trabalhando em projetos para a empresa que o seu pai, ironicamente, é sócio. Você tem noção da humilhação?
— Aquela foto foi um segundo de descuido que meu irmão aproveitou! — Erick tentou se aproximar, mas Jorge deu um passo atrás. — Gabriela não significa nada. Ela é o passado que eu enterrei no dia em que te vi dançando naquela festa com o Arrascaeta.
Jorge soltou uma risada amarga, balançando a cabeça.
— O problema nunca foi só a Gabriela, Erick. O problema é que, no fundo, você ainda permite que eles ditem as regras. Você aceita os convites, você vai às reuniões, você mantém o sobrenome para facilitar os negócios... E eu? Eu continuo sendo o filho do pedreiro que "deu sorte" de casar com um Pulgar.
— Você nunca foi sorte, Jorge. Você foi a minha salvação! — Erick exclamou, atraindo a atenção de Dona Olga, que observava da janela da cozinha. — Olha para mim. Olha para essas tatuagens. Oitenta por cento delas foram feitas pelas suas mãos ou inspiradas por você. Minha história está escrita na minha pele, e você é o capítulo mais longo e mais bonito.
Jorge desviou o olhar, sua expressão vacilando por um momento. Ele olhou para as próprias mãos, onde a marca da aliança ainda era visível, uma cicatriz de pele mais clara que se recusava a desaparecer.
— Eu não quero o seu dinheiro, Erick. Eu nunca quis. Eu queria a sua lealdade.
— Você a tem. Eu renunciei à herança na semana passada — revelou Erick, fazendo Jorge voltar a olhá-lo com surpresa. — Eu assinei os papéis. Não sou mais o sucessor de nada. O estúdio é meu, o que eu conquistei com o meu trabalho é nosso, mas o império do meu pai... eu devolvi tudo. Se o preço de estar com você é ser "pobre" aos olhos dele, eu sou o homem mais pobre e feliz do mundo.
Jorge ficou em silêncio por um longo tempo. O som do pagode ao fundo parecia distante.
— Você fez isso? — perguntou Jorge, a voz falhando pela primeira vez.
— Fiz. Porque eu prefiro morar em um quarto e sala com você e o Santino aqui no subúrbio do que viver naquela mansão sentindo falta do seu riso. Eu sinto falta da sua ginga, Jorge. Sinto falta de te ver desenhando nos meus braços enquanto a gente planeja a próxima viagem. Eu sinto falta da nossa família.
Jorge olhou para o quintal, onde Santino brincava com os primos pequenos. Viu Seu Jorge, seu pai, aproximar-se de Erick e colocar uma mão pesada e calejada no ombro do genro.
— Ele é um bom homem, meu filho — disse Seu Jorge, com a sabedoria de quem já viveu muito. — Errou como todos nós, mas veio até aqui. E um homem que encara a Dona Olga no dia de festa é um homem que está disposto a tudo.
Erick olhou para o sogro com gratidão.
— Seu Jorge, eu...
— Não diga nada, Erick — Jorge interrompeu, dando um passo à frente. Ele estendeu a mão e tocou a tatuagem no pescoço de Erick, um desenho de uma bússola que ele mesmo tinha ajudado a sombrear anos atrás. — Você é um idiota. Um chileno teimoso e tatuado que não sabe a hora de parar.
— Só paro quando você voltar para casa — Erick sussurrou, sentindo a esperança florescer em seu peito.
Jorge suspirou, o semblante sério finalmente começando a derreter. Ele puxou Erick pela nuca, encostando suas testas. O calor entre eles era o mesmo de oito anos atrás, uma eletricidade que nem o tempo, nem a distância, nem Pablo Pulgar puderam apagar.
— Eu não vou voltar para aquela casa, Erick. Aquela casa tem cheiro de solidão agora.
O coração de Erick afundou, mas Jorge continuou:
— Nós vamos comprar um lugar novo. Um lugar nosso. Sem quadros caros que o seu pai escolheu, sem segurança na porta. Um lugar onde o Santino possa fazer barulho e onde a minha mãe possa entrar sem pedir licença.
Erick fechou os olhos, sentindo uma lágrima solitária escapar.
— O que você quiser, meu amor. O que você quiser.
— E você vai ter que cobrir aquela tatuagem da Gabriela que você nunca me contou que tinha no pé — Jorge brincou, recuperando um pouco da sua malandragem colombiana.
— Eu nunca tive uma tatuagem dela, Jorge!
— Eu sei — Jorge riu, finalmente selando seus lábios nos de Erick em um beijo que carregava oito meses de saudade, dor e promessa. — Mas eu queria ver a sua cara de desespero.
Santino, vendo a cena de longe, levantou um copo de refrigerante em saudação. O furacão tinha passado, e embora as ruínas ainda estivessem lá, eles eram especialistas em construção. E, com a tinta certa e a estrutura correta, qualquer história poderia ser reescrita.
— Ei, casal! — gritou Dona Olga da porta. — O churrasco vai esfriar ou vocês vão ficar se pegando na frente das crianças?
Erick riu, abraçando Jorge pela cintura, sentindo a pele bronzeada e as tatuagens do marido sob seus dedos. Ele estava em casa. Não em uma mansão no Chile ou em um condomínio de luxo, mas ali, no calor do Rio, cercado pela família que ele escolheu.
— Vamos entrar — disse Jorge, entrelaçando seus dedos nos de Erick. — Mas a assinatura da semana que vem ainda está de pé.
Erick empalideceu.
— O quê?
— Para renovarmos nossos votos, chileno. Dessa vez, com o meu pai fazendo o discurso. Quero ver a cara do seu pai quando ele souber que o "pedreiro" é quem vai abençoar a nossa união definitiva.
Erick sorriu, um sorriso largo e genuíno que iluminou seu rosto tatuado.
— Eu não perderia isso por nada no mundo.
