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Enemies to lovers

Fandom: Nenhum

Criado: 17/09/2026

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RomanceFatias de VidaFofuraHumorRealismoHistória Doméstica
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O Maior Lance do Século

A quadra poliesportiva sempre fora o primeiro campo de batalha.

Para qualquer um que observasse de fora, a divisão era simples: de um lado, a rede esticada para o time feminino de vôlei, onde Liz dominava a linha de fundo com passes precisos e uma concentração admirável; do outro, as traves improvisadas com mochilas, onde Benicio corria como se a final da Copa do Mundo dependesse de cada drible curto com a bola de futebol. O problema, no entanto, nunca fora o espaço físico em si, mas a convivência inevitável entre duas pessoas que pareciam ter nascido programadas para se desentenderem.

Liz era naturalmente doce, com um sorriso gentil que desarmava qualquer desconhecido, mas bastava Benicio pisar no mesmo metro quadrado para que uma faísca perigosa surgisse. Ele era barulhento, vivia com o joelho ralado e parecia ter como missão de vida chutar a bola na direção exata onde as meninas estavam treinando manchetes. Quando isso acontecia, Liz abandonava a timidez habitual, marchava até ele com a bola de futebol debaixo do braço e descarregava toda a indignação que sua voz suave conseguia carregar.

— Se essa bola entrar na nossa quadra mais uma vez, Benicio — dizia ela, erguendo o queixo —, eu furo. Não estou brincando.

— Não precisa furar, Liz! — respondia ele, rindo com aquela simpatia irritante que o tornava imune a broncas. — Foi sem querer. Você sabe que o meu pé esquerdo tem vida própria.

— Pois controle o seu pé esquerdo antes que eu controle ele com um bloqueio bem dado na sua cara.

Eles se irritavam por qualquer detalhe: a música na caixa de som, o horário de uso da quadra, a preferência por suco de laranja ou refrigerante no quiosque da esquina. Mas a verdade é que o ódio adolescente é uma linha muito tênue que, muitas vezes, esconde uma curiosidade inconfessável. Com o passar dos meses, as discussões viraram piadas internas. Os olhares de reprovação se transformaram em buscas discretas no meio da multidão. Quando perceberam, a rivalidade havia se desfeito como poeira ao vento, dando lugar a uma amizade repleta de risos e, inevitavelmente, a um namoro que pegou metade dos amigos de surpresa — enquanto a outra metade já dizia: "eu avisei".

Agora, meses depois de oficializarem tudo, as tardes de sábado costumavam ser pacíficas, mas nunca silenciosas.

Era um fim de tarde dourado e agradável no gramado que cercava o clube esportivo. As garrafas térmicas de água estavam quase vazias e as joelheiras de Liz descansavam sobre a grama, ao lado das chuteiras enlameadas de Benicio. Ao redor deles, um pequeno grupo de amigos se espalhava em toalhas e cangas: Clara, Pedro e Thiago, todos aproveitando a brisa fresca após horas de exercícios.

Benicio, incapaz de ficar quieto por mais de cinco minutos mesmo depois de correr o equivalente a dez quilômetros no campo, sentou-se de pernas cruzadas e bateu palmas.

— Certo, minha gente. Minhas pernas estão mortas, mas meu cérebro ainda funciona a todo vapor — anunciou ele, o rosto iluminado por um entusiasmo contagiante. — Quem topa uma partida de Contato?

Thiago gemeu, tombando para trás na grama.

— Ah, não, Benicio. Você é viciado nessa porcaria de jogo. A gente vai passar uma hora tentando adivinhar uma palavra ridícula de quinze letras.

— Não seja preguiçoso, Thiago! — Benicio revirou os olhos, sorrindo. — Liz, diz para ele que Contato é o melhor jogo de palavras já inventado pela humanidade.

Liz, que estava encostada no ombro dele, ajeitou uma mecha de cabelo castanho atrás da orelha e riu, exibindo covinhas suaves.

— É muito bom mesmo — concordou ela com a voz doce, embora seus olhos castanhos brilhassem com uma ponta de provocação. — Mas só quando você não inventa palavras que nem existem no dicionário para tentar trapacear.

— Aquilo existia, Liz! Era um neologismo poético! — defendeu-se ele, fingindo estar ofendido.

— Não existia não, você inventou aquilo só para ninguém adivinhar a letra "T" — retrucou Clara, rindo.

Mesmo com as reclamações, bastaram dois minutos para que todos estivessem imersos no jogo. Benicio vibrava a cada "contato" gritado em uníssono, gesticulando dramaticamente quando alguém tentava adivinhar a palavra secreta. Ele amava aquele tipo de dinâmica, adorava ver as pessoas pensando rápido e competindo de forma boba. Liz observava a empolgação dele com um calor gostoso no peito; era impossível não ser contagiada pela alegria expansiva de Benicio.

Quando a rodada de Contato finalmente terminou — com uma vitória humilhante de Liz, que desvendou a palavra antes de todo mundo —, o tédio pós-jogo começou a pairar novamente sobre o grupo. Pedro, entediado, pegou uma pedrinha lisa do chão, levantou-a na altura dos olhos e pigarreou, imitando a voz empostada de um leiloeiro profissional.

— Senhoras e senhores, temos aqui uma relíquia pré-histórica, polida pelas águas do rio e com poderes místicos de concentração. Quem dá o primeiro lance?

Thiago entrou na brincadeira imediatamente:

— Dou cinquenta centavos e uma bala de menta mastigada!

— Temos cinquenta centavos daquele jovem maltrapilho na primeira fila! — anunciou Pedro, fazendo uma concha com a mão ao redor da boca. — Alguém cobre? Cem reais? Uma mansão em Búzios?

— Eu dou um par de meias usadas do Thiago, mas só se ele lavar antes — gritou Benicio, rindo alto.

A brincadeira do leilão falso rapidamente escalou. Em questão de minutos, eles já haviam "vendido" uma tampinha de garrafa por três bilhões de dólares imaginários e o relógio de pulso quebrado de Clara em troca de uma viagem só de ida para Marte. Liz, que sempre fora mais contida em meio à algazarra, apenas se divertia assistindo ao teatro dos rapazes.

Foi então que ela sentiu um fio de cabelo solto cair sobre o ombro da camiseta de vôlei. Distraidamente, Liz puxou o fio comprido e brilhante, enrolando-o entre os dedos finos para jogá-lo fora.

Benicio, com a atenção sempre voltada para ela mesmo no meio do caos, viu o movimento. Um brilho travesso e imediato acendeu-se nos olhos dele.

— Alto lá! Parou tudo! — exclamou Benicio, levantando-se de joelhos sobre a grama. — Pedro, temos um novo lote no leilão. E este é de altíssimo valor.

Liz olhou para ele, desconfiada, com um meio sorriso tímido surgindo nos lábios.

— O que você está arrumando, Benicio?

— Nada menos que um artefato raro — declarou ele para a pequena plateia, apontando dramaticamente para a mão de Liz. — Um autêntico fio de cabelo de Liz, a jogadora mais perigosa de vôlei da região e detentora do melhor passe deste estado. Vejam como reflete a luz do sol! Isso é item de colecionador.

Pedro assumiu novamente a postura de leiloeiro, batendo palmas secas.

— Uma peça extraordinária! O leilão está aberto. Qual é o lance inicial para o fio da Liz?

— Cinco reais e um chiclete! — gritou Thiago, rindo da bobagem.

— Dez reais! — emendou Clara, entrando no clima. — O cabelo dela é muito hidratado, vale mais que isso!

Liz sentiu as bochechas esquentarem levemente, balançando a cabeça em um misto de timidez e diversão.

— Vocês não têm nada melhor para fazer, não? É só um cabelo!

— "Só um cabelo", ela diz! — Benicio colocou a mão no peito, fingindo indignação. — A modéstia dessa mulher é impressionante. Mas ninguém aqui vai levar essa relíquia por migalhas. Vinte reais!

— Vinte e cinco! — desafiou Thiago, apenas para irritar o amigo. — Vou usar para fazer simpatia e ver se aprendo a sacar direito.

Benicio não gostou da ideia de Thiago com o tal fio, mesmo que fosse a brincadeira mais ridícula do mundo. Seu espírito competitivo infantil e barulhento tomou conta de imediato. Ele não queria dar margem para contra-ataques, queria encerrar o leilão com um golpe de mestre, da forma mais exagerada e grandiosa possível.

— Vinte e cinco nada! — vociferou Benicio, erguendo a voz para que até as pessoas na quadra vizinha pudessem ouvir. — Eu pago trinta mil pra ficar com a Liz!

O silêncio caiu sobre a roda de amigos com o peso de uma bigorna.

O vento parou de soprar por um segundo. A pedrinha na mão de Pedro rolou para a grama. Clara arregalou os olhos até parecerem duas xícaras de chá, enquanto Thiago cobriu a boca aberta com as duas mãos, paralisado em um choque inacreditável.

Benicio ainda estava com o braço levantado no ar, com um sorriso vitorioso e desafiador no rosto, totalmente focado no conceito do fio de cabelo. Na cabeça dele, a frase fazia todo o sentido do mundo: ele estava disposto a pagar trinta mil (fictícios) para ficar com o fio da Liz e vencer a aposta de Thiago.

O problema é que o cérebro dele havia atropelado a palavra "fio".

E o resultado soara assustadoramente direto.

— O... o quê? — balbuciou Clara, olhando de Benicio para Liz.

Liz sentiu todo o sangue do corpo subir para o rosto em um único milésimo de segundo. Sua pele, naturalmente clara, transformou-se em um tom escarlate vivo que ia da ponta das orelhas até o colo da camiseta. Ela congelou com a mão ainda estendida, os olhos arregalados, sem saber se fugia correndo para o vestiário ou se cavava um buraco na terra para se esconder.

Pedro limpou a garganta, ajeitando a postura com uma expressão de horror cômico.

— É... então, Benicio... — começou Pedro, medindo as palavras com cuidado teatral. — A gente sabia que você gostava dela, cara. Mas nós não praticamos o tráfico de pessoas nesta instituição de ensino.

Um estrondo de gargalhadas explodiu de Thiago. O garoto rolou na grama, batendo as mãos no chão, sem conseguir respirar.

— Ele comprou! — gritou Thiago, entre engasgos de riso. — Meu Deus do céu, ele tentou comprar a própria namorada por trinta mil reais! Que tipo de acordo é esse?!

— Não! Espera! — Benicio finalmente se deu conta do que havia falado, e o choque em seu rosto foi tão genuíno que sua expressão mudou de vitoriosa para puro pânico em meio segundo. As bochechas dele, normalmente morenas pelo sol dos treinos de futebol, também ganharam um tom avermelhado. — Não foi isso que eu quis dizer! O cabelo! Eu pago trinta mil pra ficar com o cabelo da Liz! Faltou a palavra cabelo!

— Tarde demais, Benício! — Clara ria tanto que lágrimas escorriam por seus olhos. — Todo mundo ouviu! "Eu pago trinta mil pra ficar com a Liz!" Você negociou a garota como se estivesse na feira livre!

— Eu sou um cavalheiro, seus idiotas! — gritou Benicio, jogando um punhado de grama cortada na direção de Thiago, mas o riso dele mesmo já começava a quebrar sua pose de desespero. — Liz, você sabe que eu não quis dizer isso, não sabe? Pelo amor de Deus, me defende!

Liz cobriu o rosto inteiro com as duas mãos, encolhendo os ombros. Ela estava morta de vergonha pela atenção repentina, mas o riso borbulhava por entre seus dedos.

— Eu não acredito que você falou isso, Benicio — murmurou ela, com a voz abafada pelas palmas das mãos. — Minha mãe vai me deserdar se souber que eu fui leiloada no parque.

— Por trinta mil ainda! — emendou Pedro, apontando um dedo acusador. — Ela vale muito mais que isso, seu pão-duro! Pelo menos oferecesse cinquenta mil e um carro popular!

— Ah, pronto! Agora eu sou criminoso e avarento ao mesmo tempo! — Benicio desabou sentado ao lado de Liz, balançando a cabeça enquanto os amigos continuavam a zombar sem piedade.

A histeria coletiva demorou vários minutos para se acalmar. Thiago ainda soltava risinhos involuntários a cada trinta segundos, e Clara fingia calcular em uma calculadora imaginária quanto custaria "alugar" Liz para ajudá-la no saque de vôlei na próxima semana.

Aos poucos, com as sombras das árvores se alongando e o sol sumindo no horizonte, os amigos começaram a recolher suas coisas. As piadas foram diminuindo de tom, transformando-se nas habituais despedidas cansadas de fim de treino. Pedro e Clara foram os primeiros a sair em direção ao ponto de ônibus, enquanto Thiago acenou de longe, gritando um último "Manda o boleto dos trinta mil por e-mail!" antes de dobrar a esquina do vestiário.

Finalmente, a paz voltou ao gramado.

Liz ainda estava sentada, os joelhos abraçados contra o peito, observando o céu que agora tingia-se de tons de lavanda e laranja. O fio de cabelo que havia causado todo aquele tumulto jazia esquecido em algum lugar entre as folhas verdes.

Ao lado dela, Benicio terminava de amarrar os cadarços do tênis comum, tendo guardado as chuteiras na mochila. Ele parecia um pouco mais calmo, embora o rubor em suas orelhas ainda não tivesse sumido completamente.

Ele a olhou de soslaio, tímido de um jeito que raramente ficava.

— Você ainda está com vergonha de mim? — perguntou ele em voz baixa, dando um empurrãozinho leve com o ombro no dela.

Liz virou o rosto para ele, os olhos brilhando com carinho, e soltou um suspiro divertido.

— Um pouco. Acho que nunca passei tanta vergonha na minha vida inteira.

— Eles nunca mais vão me deixar esquecer disso, né? — lamentou ele, passando as mãos pelo cabelo castanho bagunçado. — Na segunda-feira, o time de futebol inteiro já vai estar sabendo. O treinador vai achar que eu tenho um esquema de contrabando.

— Com certeza vão saber — concordou Liz, rindo baixinho. — Mas tudo bem. Foi engraçado ver você gaguejar tentando se explicar. Você nunca perde as palavras daquele jeito.

Benicio encarou o perfil suave dela. A brisa suave levantava algumas mechas do cabelo dela, o mesmo cabelo que começara toda a confusão. O contraste entre a garota tímida que desviava o olhar e a jogadora implacável que ele admirava em quadra sempre o fascinava.

Ele esticou a mão e, com cuidado, tocou os dedos dela que descansavam sobre o joelho, entrelaçando-os devagar. Liz não recuou; em vez disso, apertou a mão dele de volta, encostando a cabeça em seu ombro.

— Mas sabe de uma coisa? — disse Benicio, a voz agora calma, desprovida de qualquer tom de piada.

— O quê?

— O Pedro estava errado.

Liz ergueu os olhos para encará-lo, curiosa.

— Errado em quê?

Benicio sorriu, aquele sorriso aberto e caloroso que outrora a irritava tanto na quadra, mas que agora fazia seu estômago dar cambalhotas suaves.

— Eu não sou pão-duro — disse ele, fitando os olhos castanhos dela com uma sinceridade desarmante. — Se eu tivesse trinta mil reais no bolso agora, Liz... bem, o lance nem teria sido pelo cabelo.

Liz franziu o cenho de leve, sentindo o coração acelerar o ritmo.

— Benicio...

— É sério — continuou ele, inclinando-se um pouco mais perto, até que a voz quase se perdesse na distância entre os dois. — Se fosse o preço para ter a certeza de que você continuaria do meu lado, saindo da quadra de vôlei todo sábado só para me ver jogar bola mal e rir das minhas piadas ruins... trinta mil ainda seria barato demais. Eu pagaria o dobro. Sem pensar duas vezes.

Liz engoliu em seco. A timidez ameaçou puxá-la de volta para sua concha, mas a doçura daquelas palavras quebrou qualquer barreira. O garoto barulhento, que antes chutava bolas de futebol na rede de propósito só para chamar sua atenção, havia se tornado a melhor parte da sua rotina.

Ela sorriu, aquele sorriso largo e alegre que reservava apenas para os momentos mais especiais, e ergueu a mão livre para tocar a bochecha dele.

— Você é um bobo — sussurrou ela.

— Um bobo que acabou de fechar o melhor negócio da vida dele — respondeu Benicio, piscando um dos olhos.

— Não me faça cobrar esse valor na primeira vez que você esquecer de me pagar um açaí depois do treino.

— Justo. Muito justo.

Benicio inclinou-se e selou seus lábios nos dela em um beijo suave e demorado, aquecido pelo sol poente que se despedia no horizonte. Não havia mais lances, piadas ou jogos de palavras. Ali, no silêncio que finalmente os acolhia, qualquer quantia do mundo parecia insignificante perto da certeza simples de que, de todas as rivalidades que a vida poderia criar, a deles havia terminado da melhor maneira possível: lado a lado.

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