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Fandom: Alien stage
Criado: 17/09/2026
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Corredores Estreitos Demais
O barulho metálico dos armários batendo no corredor principal da Pine Academy ecoava junto com o falatório arrastado de uma manhã de segunda-feira. O cheiro de cera velha misturado a café barato e desodorante barato preenchia o ar, bem típico do início das aulas de outono.
Encostada nos armários verde-escuros, Mizi segurava uma lata gelada de Monster branco com uma das mãos, enquanto a outra tentava afastar uma mecha rebelde do cabelo longo, cujas pontas azuis desbotadas caíam sobre a gola frouxa da camisa. O último botão da blusa social branca estava devidamente aberto, e a gravata preta pendia torta, amarrada sem o menor capricho. Ela odiava o blazer do uniforme com todas as forças; nem quando a temperatura caía para perto de zero ela se dava ao trabalho de tirar aquela porcaria do fundo do armário.
— Eu juro por Deus que se o professor de literatura mandar a gente ler outro calhamaço de seiscentas páginas, eu pulo da janela do segundo andar — resmungou Diana, ajeitando a alça da mochila no ombro. Ela tinha os cabelos verde-azulados caindo em ondas bagunçadas e o semblante de quem preferia levar um tiro a estar ali. — Puta que pariu, não dá.
— Para de drama, Di — disse Nuxy, que, ao contrário de todo mundo, parecia ter tomado três doses de expresso duplo. Ela usava o blazer preto por cima da saia curta e gesticulava tanto que quase esbarrou num garoto do primeiro ano que passava correndo. — O livro nem é tão ruim assim. Ruim é o fato de que o Ivan tava ontem na arquibancada do treino de futebol e quase matou metade das garotas do comitê de ataque cardíaco. Vocês viram? Ele cortou o cabelo. Ficou um absurdo de lindo, sério.
Mizi deu um gole longo no energético, sentindo a acidez cítrica e as bolhas formigarem na língua. Ela bocejou logo em seguida, semicerrando os olhos dourados.
— Você fala dele como se fosse a oitava maravilha do mundo, Nuxy. É só mais um cara alto com cara de sono — soltou Mizi, com a voz rouca típica de quem acordou há menos de vinte minutos.
— Um cara alto incrivelmente gato, tá? — Anne interveio com um sorriso pequeno, cruzando os braços delicados sobre a camisa social impecável. — Não finge que você não repara, Mizi. Até quem não liga pra homem sabe que a genética daquela família ali não faz sentido. A irmã dele também chama atenção pra caralho por onde passa.
O nome fez Mizi torcer o canto da boca quase de forma imperceptível, não fosse o estalar seco que a lata de alumínio deu entre seus dedos compridos.
— Ah, é? A Sua? — Mizi soltou uma risadinha curta e sem humor, a voz ganhando aquele tom cortante e frio que usava quando algo a desagradava profundamente. — Não sei o que vocês tanto veem. Ela tem aquela cara permanente de velório, parece que vai derreter se falar mais de três palavras seguidas. Um porre.
— Ué, mas o pessoal diz que ela é mó de boa — comentou Diana, franzindo a testa com desdém. — Desenha pra caralho também. Vi um caderno dela na aula de artes semana passada que parecia coisa profissional.
— Desenhar qualquer um com tempo livre desenha — retrucou Mizi, dando de ombros e virando mais um gole de energético. — O que me irrita é essa pose de santa misteriosa. Cansa só de olhar.
Anne e Nuxy riram, achando que era apenas o sarcasmo habitual de Mizi, aquela acidez que ela disparava para metade do colégio quando estava de mau humor matinal. Ninguém desconfiava de que não era apenas piada. Mizi simplesmente não suportava a presença de Sua. Não havia uma grande briga no passado, nem fofocas pesadas ou disputa por atenção; Mizi apenas olhava para a garota de cabelos pretos e sentia um ranço visceral, inexplicável e gelado. E, para Mizi, isso bastava. Ela não era do tipo que forçava simpatia para agradar ninguém.
— Enfim, olha lá quem vem vindo — murmurou Nuxy, cutucando Anne com o cotovelo e indicando com o queixo o fim do corredor.
Mizi nem se deu ao trabalho de virar a cabeça com entusiasmo, apenas acompanhou com o canto dos olhos dourados.
O grupo caminhava ocupando praticamente toda a largura do corredor, o que era comum para os veteranos da Pine Academy, especialmente quando três deles carregavam o rótulo de populares da escola.
À frente, Hyuna vinha rindo de alguma coisa, a postura confiante de quem mandava naquele lugar sem precisar levantar a voz. A saia curta balançava no mesmo ritmo dos cabelos castanhos longos, e ela não usava o blazer, deixando evidente a atitude despojada que fazia tanta gente babar por ela. Ao seu lado, Luka caminhava com as mãos nos bolsos da calça social preta, o blazer impecavelmente abotoado e os óculos de armação fina escorregando de leve pelo nariz enquanto ele mantinha uma expressão calma, os olhos amarelos atentos a cada gargalhada que Hyuna soltava.
Logo atrás vinha o caos habitual.
— Cala essa boca, Ivan, pelo amor de Deus — rosnou Till, puxando a gola da própria camisa cinza amarrotada, com a cara mais amarrada do mundo. O cabelo prateado parecia ter sido penteado por um furacão, e os olhos verdes fuzilavam o garoto alto ao lado. — Não fode a minha paciência antes das oito da manhã.
— Eu não falei nada demais, estressadinho — rebateu Ivan, ostentando aquele sorriso torto e irritante que fazia o sangue de Till ferver. Ele estava desembalando uma bala de maçã verde com uma calma invejável, os olhos pretos brilhando de pura diversão enquanto dava um passo mais longo só para cortar a frente de Till. — Só comentei que sua jaqueta de couro tá fedendo a mofo de brechó barato. Se quiser, peço pra minha mãe te emprestar um amaciante.
— Vai se foder! Ela é vintage, caralho! — Till avançou para empurrá-lo pelo ombro, mas Ivan apenas desviou com agilidade teatral, jogando a bala na boca e estalando a língua.
— Vintage é meu saco, Till. Isso é lixo têxtil mesmo.
— Ivan, para de encher o saco dele — interrompeu Sua, a voz baixa, calma e melancólica cortando o bate-boca dos dois com a precisão de uma lâmina fria.
Ela usava a saia no comprimento padrão, a gravata preta arrumada até o último botão da gola alta e os cabelos pretos curtos, cortados retos na altura do queixo, emolduravam um rosto pálido e impassível. Ela segurava um livro grosso contra o peito e sequer olhou para o irmão enquanto falava, mantendo aquele ar distante que parecia aliená-la do resto do mundo, mesmo sendo uma das garotas mais conhecidas da escola.
— Não se mete, Sua. Deixa eu educar o emo revoltado — zombou Ivan, esticando a mão para tentar bagunçar o cabelo de Till, que esquivou com um tapa seco no ar.
— Se você encostar em mim, eu quebro essa tua cara de pau, seu merda! — esbravejou Till, os dentes cerrados.
— Que violência gratuita... — comentou Luka, com a voz mansa, ajustando os óculos com o indicador enquanto olhava de esguelha para os dois. — Se o diretor pegar vocês se agarrando no corredor de novo, vai dar suspensão pros dois. E eu não vou cobrir a presença de ninguém.
— Ninguém tá se agarrando aqui não, ô quatro-olhos! — Till bufou, chutando o pé de um armário aleatório no caminho.
Hyuna revirou os olhos azuis, soltando um riso abafado e trocando um olhar cúmplice com Luka, que deu um sorrisinho discreto de canto de boca em resposta. Luka nunca precisava falar muito para arrancar reações dela; ele simplesmente sabia como existir ao redor de Hyuna sem ser invasivo, mantendo aquela paixão guardada desde o oitavo ano sob uma camada muito fina e confortável de companheirismo que ninguém ousava desestruturar.
Foi no exato momento em que o grupo passou em frente aos armários de Mizi que o ritmo dos passos de dois deles oscilou.
Till ergueu a cabeça e seus olhos verdes bateram de cheio na figura encostada no metal.
Mizi.
O ar sumiu dos pulmões de Till como se ele tivesse levado um soco no estômago. Ela estava ali, bonita de um jeito que beirava o ridículo, a luz fluorescente do teto refletindo nas mechas cor-de-rosa e na pele impecável. Ele travou a mandíbula, a postura agressiva e rebelde desmoronando internamente, substituída por aquela queimação patética no peito que ele odiava admitir que sentia. Ela sequer sabia o nome dele. Para ela, Till era só mais um qualquer com uniforme amassado. E pensar nisso deixava o garoto ainda mais desesperado e inseguro por dentro, embora por fora ele apenas sustentasse uma carranca ainda mais dura para disfarçar a timidez fodida que o consumia.
Ivan, que não perdia um único movimento de Till por nada neste mundo, percebeu a hesitação no instante em que ela aconteceu.
O sorriso relaxado de Ivan vacilou por um milésimo de segundo. Seus olhos pretos acompanharam a linha do olhar de Till, pousando na garota de cabelo rosa com a lata de Monster na mão, e depois voltaram para o pescoço tensionado de Till. Algo amargo subiu pela garganta de Ivan, mas ele engoliu a seco, mascarando tudo sob mais uma risadinha provocadora enquanto enfiava mais um doce na boca.
— O que foi, Till? Travou o motor? — Ivan cutucou a costela dele com o cotovelo, com um pouco mais de força do que o necessário. — Tá parecendo uma estátua de gesso aí no meio do caminho. Anda logo.
— Não enche, porra! — Till murmurou entre dentes, apressando o passo e desviando o rosto bruscamente, orelhas queimando em vermelho vivo.
Mas Till não era o único desestabilizado.
Três passos atrás, Sua mantinha o olhar fixo no chão de linóleo gasto, até que, como se puxada por uma força gravitacional invisível, ergueu as pálpebras finas.
Seus olhos roxos encontraram Mizi.
O mundo ao redor parecia perder o som para Sua. Mizi estava rindo de algo que a garota de cabelo verde falara, jogando a cabeça ligeiramente para trás, expondo a curva longa do pescoço pálido. Era uma imagem tão vívida, tão brilhante, que chegava a doer. Sua apertou os dedos contra a capa dura do livro que carregava, as unhas cravando no papelão. Ela nunca tinha dito uma única palavra àquela garota. Não sabia o tom exato da risada dela de perto, não sabia como era a sensação de ser olhada de volta com algo além do desinteresse comum dos corredores. Era um segredo pesado demais, que ela só tinha tido coragem de sussurrar uma vez para Hyuna, durante uma madrugada chuvosa na varanda do seu quarto.
Hyuna, que vinha logo à frente, percebeu a desaceleração de Sua. Ela virou o rosto para trás discretamente, notando a rigidez nos ombros da amiga e a direção para onde os olhos roxos estavam cravados. Com um toque sutil, Hyuna esbarrou o braço no de Sua, oferecendo um sorriso cúmplice e quase reconfortante, sem dizer nada. Um aviso silencioso: eu tô vendo, disfarça.
Sua piscou, quebrando o transe, e baixou os olhos novamente, o semblante voltando a ser a máscara fria e inalcançável de sempre.
Do outro lado, encostada nos armários, Mizi sentiu o peso do movimento.
Ela não prestou atenção no garoto de cabelo cinza que quase tropeçou no próprio cadarço — para ela, era só o emo barulhento que andava arrumando confusão pelos cantos. Mas ela notou Sua.
Mizi viu o exato momento em que os olhos roxos a encararam, viu a frieza impassível com que a irmã de Ivan parecia carregar o próprio corpo e sentiu aquele gosto metálico e azedo subir na boca, muito pior do que o energético que acabara de engolir.
Quando o grupo passou de vez em direção às escadas do bloco B, Mizi amassou a lata vazia de Monster com a força das duas mãos, fazendo o metal estalar com violência.
— Não suporto — soltou ela, com os dentes trincados, jogando a lata amassada com precisão perfeita dentro da lixeira a três metros de distância. O som oco do impacto ecoou pelo corredor.
— Não suporta o quê? — perguntou Anne, ajeitando a gravata com calma.
— Essa gente que anda como se o chão da escola fosse um tapete vermelho estendido só pra eles — Mizi cruzou os braços, os olhos dourados afiados como adagas acompanhando a silhueta de costas de Sua sumindo pela escadaria. — Aquele garoto de cabelo preto que você tanto baba parece um palhaço de circo, Nuxy. E a irmãzinha dele... francamente. Dá nos nervos. Não sei como não tropeça na própria prepotência.
— Ah, para, Mizi! A Sua nem abriu a boca pra gente — Diana riu, achando graça no veneno gratuito. — Você implica com a menina de graça, na moral. Ela nem olha na tua cara.
— Exatamente por isso — disparou Mizi, virando as costas para o corredor e abrindo a porta da sala de aula 204 com um empurrão decidido. — Tem gente que incomoda só de respirar no mesmo cômodo. Vamos entrar logo antes que o inspetor comece a encher o saco com essa porra de horário.
Enquanto as três amigas a seguiam dando risadas baixas das reclamações dela, Mizi sentou-se na sua cadeira de sempre, encostada na janela do fundo. Ela apoiou o queixo na palma da mão, encarando o pátio lá embaixo com o tédio habitual consumindo cada centímetro do seu corpo. Ela não sabia por que caralhos o rosto pálido e aqueles olhos roxos sem vida de Sua insistiam em queimar na sua mente feito brasa fria. Não fazia o menor sentido.
No andar de cima, no laboratório de redação, Till desabava na cadeira ao lado da janela, jogando a mochila no chão com força e enfiando as mãos no bolso da jaqueta, ainda com o coração batendo na garganta pela lembrança do brilho rosa que cruzara seu campo de visão minutos atrás.
— Se você suspirar mais alto, o vidro quebra — zombou Ivan, sentando-se na mesa logo à frente e virando-se de costas para a lousa só para encará-lo, tirando um pirulito do bolso da calça.
— Cala a porra da boca, Ivan — rosnou Till, afundando na cadeira e puxando os fones de ouvido para tentar abafar o mundo, sem perceber que o olhar que Ivan lançava para ele, por trás da fachada de piada e desdém, era muito mais pesado e muito mais desesperado do que qualquer provocação de corredor jamais conseguiria disfarçar.
E, na fileira do meio, Sua abria o caderno de desenho na última página em branco. Ela pegou o grafite 2B e, com traços rápidos, quase imperceptíveis para quem olhasse de longe, começou a desenhar a curvatura rebelde de duas mechas compridas que desciam sobre ombros que nunca seriam dela.
O sinal tocou estridente, trancando todos nos mesmos corredores, cada um preso no seu próprio silêncio barulhento.
