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Um amor entre guerra

Fandom: Ghetto

Criado: 17/09/2026

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HistóricoDramaAngústiaSombrioSobrevivênciaGravidez Não Planejada/IndesejadaEstuproDiscriminaçãoLirismoEstudo de Personagem
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Entre Cinzas e Veludo

O peso das vigas de carvalho congeladas não era nada comparado ao peso que Hayyah carregava sob o tecido puído de seu casaco de operária.

A lama do pátio ferroviário de Vilna agarrava-se às suas botas rotas como uma mão cadavérica puxando-a para o fundo da terra. Seus dedos, outrora ágeis no palco e delicados ao segurar as partituras no pequeno teatro do gueto, estavam agora em carne viva, rachados pelo gelo e cobertos de fuligem. Cada respiração ardia no peito como estilhaços de vidro.

Ela tentou erguer outra prancha de madeira, transferindo o entulho das oficinas para os vagões alemães. O decreto de trabalho forçado não poupava ninguém, mas para Hayyah, o perigo era infinitamente mais letal. Por baixo das camadas amarradas com cordas, sua barriga crescera além de qualquer possibilidade de disfarce. Estava enorme, pesada, pulsando com uma vida proibida. No gueto, uma gravidez era uma sentença sumária de morte: para a mãe, para a criança e para qualquer um que fechasse os olhos para o crime biológico de existir.

Uma pontada súbita e excruciante cortou-lhe o ventre, descendo pelas coxas como ferro em brasa. Hayyah arquejou, os joelhos cedendo sobre o cascalho negro. A madeira caiu de suas mãos com um baque surdo, espirrando água gélida e lama.

— De pé, judia! — gritou um dos guardas lituanos à distância, o fuzil oscilando distraidamente em suas mãos enluvadas.

Ela mordeu os lábios até sentir o gosto ferroso do sangue para não gritar. Ergueu-se cambaleando, segurando o estômago com um dos braços enquanto fingia ajeitar os trapos. O suor frio escorria-lhe pelas têmporas, congelando na linha do cabelo. Não era apenas o cansaço do trabalho bruto que a dobrava ao meio. As dores haviam começado horas antes, lentas e traiçoeiras, mas agora vinham em ondas furiosas, compassadas, violentas.

Seu corpo sabia o que a mente tentava desesperadamente negar: a hora havia chegado. E era cedo demais, ou tarde demais para qualquer salvação.

Enquanto tentava alcançar a próxima viga, sua mente girou em vertigem, arrastando-a involuntariamente para a memória daquela primeira vez. A noite que havia selado seu destino.

Não fora na lama, mas sobre o veludo desgastado do camarim do teatro, após uma apresentação em que ela cantara até que sua voz parecesse a única coisa pura em uma cidade condenada. Kittel a havia encurralado. O oficial da SS, com sua elegância impecável, seu saxofone prateado descansando sobre uma cadeira como uma testemunha muda de metal reluzente. Ele cheirava a colônia cara, tabaco turco e à frieza absoluta da morte que ele distribuía com o estalar de dedos.

Naquela noite, Kittel não usara a pistola, nem as palavras cruéis com que costumava ditar a vida e a morte dos atores. Ele usara as mãos. Mãos que haviam tocado notas sublimes minutos antes e que, de repente, despiram a dignidade de Hayyah com uma lentidão aterrorizante. Havia sido uma violência silenciosa, um pacto tácito de sobrevivência em que ela fechara os olhos e permitira que ele tomasse o que quisesse na escuridão. O medo visceral se misturara à fragilidade humana, e naquele primeiro contato carnal, roubado e desesperado, o germe daquele pesadelo fora plantado. Ele a possuíra como se quisesse devorar a própria alma da canção dela.

E agora, o fruto daquela primeira transgressão ameaçava rasgá-la em duas.

Outra contração a atingiu, tão brutal que sua visão se apagou por um instante. Hayyah sentiu uma umidade morna e viscosa escorrer pelas pernas, vencendo o frio cortante do inverno. A bolsa havia rompido.

Ela olhou ao redor, desesperada. Os outros trabalhadores marchavam curvados sob sacos de cal, fantasmas emaciados que mal ousavam olhar para os lados. Aproveitando o vapor espesso que subia da locomotiva parada e a distração dos sentinelas, Hayyah arrastou-se para trás de uma pilha de dormentes e deslizou para a escuridão de um armazém abandonado, anexo à marcenaria.

O chão ali era coberto de serragem úmida e ferramentas esquecidas. O cheiro de madeira podre e ferrugem a envolveu. Ela desabou atrás de um maquinário quebrado, encolhendo-se sobre um monte de sacos de estopa rasgados.

— Não agora... por favor, agora não... — sussurrou ela, as lágrimas finalmente lavando as manchas de fuligem em seu rosto pálido.

Mas o corpo não obedecia às preces. A barriga avantajada, rígida como pedra, contraiu-se com tanta força que seu grito ficou preso na garganta, sufocado pelo próprio braço que ela mordeu para abafar o som. O parto era difícil, travado. O bebê parecia não encontrar o caminho, virado de forma errada após semanas de trabalho braçal ininterrupto, martelando contra seus ossos pélvicos em uma agonia que a fazia contorcer-se na serragem.

Passos ecoaram do lado de fora. Passos firmes, pausados, ritmados pelo som seco de botas de couro engraxadas contra o cascalho.

A porta de madeira do armazém rangeu nas dobradiças enferrujadas. Uma silhueta esguia e imponente cortou o feixe de luz cinzenta que entrava pela fresta.

Hayyah paralisou, o terror superando a dor por uma fração de segundo.

Kittel estava ali. O sobretudo negro da SS impecavelmente alinhado, as luvas de couro cinza segurando uma pequena pasta de couro. Ele não parecia inspecionar o local por acaso; havia algo em seu olhar felino, uma curiosidade mórbida que sempre o guiava direto aos segredos mais profundos do gueto.

— O trabalho parou aqui dentro? — A voz dele ressoou calma, musical, mas carregada daquela ironia que precedia as execuções. — Gens me disse que a cota de dormentes seria entregue antes do anoitecer.

Ele deu mais três passos lentos, o olhar passeando pelas teias de aranha e pelo maquinário enferrujado, até que seus olhos claros pousaram no canto escuro. Sobre os sacos de estopa, ele viu a mulher retorcida, as pernas trêmulas, as roupas manchadas de sangue e água.

Por um momento, o oficial congelou. O sorriso cínico que habitava seus lábios desapareceu por completo.

— Hayyah? — disse ele, dando um passo à frente, a voz perdendo momentaneamente a cadência teatral.

Ela tentou recuar, mas suas costas bateram contra a parede de madeira úmida. O casaco abrira-se na luta contra a dor, revelando sem qualquer pudor o contorno grotesco e sublime de sua barriga enorme, o ventre exposto sob a camisa fina encharcada de suor.

— Fique longe... — ela gemeu, a voz rouca, sem forças para manter a deferência ou o medo do carrasco. — Vá embora... mate-me logo, mas não... não olhe...

Kittel aproximou-se devagar, parando a um metro dela. Ele não puxou a pistola de seu coldre. Em vez disso, ajoelhou-se sobre uma das pernas, sujando a calça impecável na serragem sangrenta. Seus olhos desceram para o ventre dela, fitando aquela elevação como se estivesse diante de uma obra de arte incompreensível ou de um enigma indecifrável.

— Você escondeu isso — murmurou ele, quase fascinado, tocando a luva no queixo. — Durante todos esses meses de ensaios... quando você cantava as melodias de Schubert para mim... você carregava isso?

— É um monstro... você é um monstro... — ela arquejou, as unhas cravadas nas estopas enquanto uma nova contração a partia ao meio. Ela soltou um uivo rouco, incapaz de segurar, a cabeça jogando-se para trás contra a madeira.

Kittel franziu o cenho. O teatro da crueldade e da estética que ele construía meticulosamente em sua mente colidia de frente com a realidade visceral e biológica daquele momento. Ele sabia muito bem a data. Lembrava-se da primeira vez em que a prensara contra a penteadeira do camarim, sentindo a fragilidade daquela mulher sob o peso de seu poder absoluto. Aquela criação que agora lutava para sair era resultado de sua própria volúpia, de seu capricho proibido que violava as próprias leis raciais que ele jurara aplicar com sangue e ferro.

— A criança está presa — constatou ele, com uma frieza quase clínica, arrancando as luvas de couro e jogando-as na poeira.

— Vai me matar... — chorou Hayyah, o delírio da febre e da dor tomando conta de seus pensamentos. — Atire logo, Kittel... por favor, acabe com isso... não aguento mais...

— Cale a boca — ordenou ele, mas o tom não era de raiva; era de um homem perturbado, desafiado por algo maior que seus pelotões de fuzilamento. — Se eu quisesse você morta, teria deixado os guardas no pátio fazerem isso. Mas você não vai morrer como um verme na serragem. Não a minha cotovia.

Ele se ajoelhou entre as pernas dela, puxando a saia pesada e os panos que a sufocavam. Hayyah tentou fechar as pernas em um reflexo de pudor e terror primitivo, mas as mãos de Kittel, agora despidas de couro, eram implacáveis. A pele dele, fria, tocou a pele em brasa dela.

— Não há médico aqui. O doutor Sedlis está operando no hospital e você não sobreviveria até lá — disse ele, olhando nos olhos dela com uma intensidade assustadora. — Você vai empurrar, Hayyah. Ou morrem os dois.

— Não posso... não tenho mais forças... os trilhos... o trabalho... quebrou minhas costas... — soluçava ela, o suor cegando seus olhos.

— Você cantou com a garganta em chamas na semana passada — ele retrucou, a voz elevando-se, exigente, como um diretor implacável ensaiando sua atriz principal. — Use o mesmo ar. Empurre!

A dor voltou em uma maré incontrolável. Hayyah gritou, um som puro, cru, despido de qualquer música, projetando a dor de toda a sua existência naquele grito que ecoou pelo armazém abandonado. Kittel inclinou-se para a frente, as mãos manchando-se de sangue e secreções enquanto tentava alcançar e manobrar a criança que parecia presa contra a bacia estreita e exausta da mulher.

O oficial prussiano, o comandante da morte que decidia com um gesto quem ia para Ponary e quem vivia mais um dia, estava agora coberto pela matéria mais primitiva da vida. Seus dedos habilidosos, acostumados às chaves de latão do saxofone, tateavam cegamente na escuridão úmida da carne ferida.

— Está virado... o ombro está preso — murmurou ele para si mesmo, os dentes cerrados. Por um instante, o pânico de um homem comum transpareceu sob a máscara ariana. — Maldita seja, Hayyah, faça força!

Ela enterrou as unhas nos ombros do sobretudo dele. Kittel nem sequer se desvencilhou. Ele permitiu que a prisioneira o segurasse, que ela rasgasse o tecido de sua farda com a força do desespero humano.

— Agora! — ele rugiu.

Hayyah curvou o tronco, puxando o ar do fundo de seus pulmões dilacerados, expulsando tudo o que lhe restava de vida, alma e voz. O mundo pareceu explodir em uma mancha branca de sofrimento absoluto. Ela sentiu algo rasgar dentro de si, uma libertação violenta e terrível.

Nas mãos ensanguentadas de Kittel, um corpinho miúdo e cinzento deslizou para a luz opaca do armazém.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Não havia o eco dos trens, não havia o vento gelado, apenas o som da respiração entrecortada e asmática de Hayyah e o peito de Kittel subindo e descendo com violência.

O oficial segurava o bebê nos braços trêmulos. A criança não se movia.

— Ele... ele não respira... — sussurrou ela, as pálpebras pesadas caindo, a voz quase inaudível.

Kittel olhou para a pequena criatura. Uma parte de sua mente doutrinada pela suástica dizia para ele simplesmente quebrar o pescoço daquele pequeno pedaço de carne impura e encerrar a vergonha de sua própria carne misturada ao gueto. Era o protocolo. Era a ordem. Era a pureza que ele deveria defender.

Mas Kittel era, acima de tudo, um amante do impossível, da arte arrancada do abismo.

Com dois dedos rudes, limpou a boca da criança coberta de muco. Virou-o de bruços e bateu com firmeza em suas costas miúdas. Uma vez. Duas vezes.

Um choro agudo, fino e desesperado rompeu o ar pesado do armazém. Um choro de vida, insistente, ecoando contra as paredes de madeira como a nota mais dissonante e bela já executada em Vilna.

Kittel suspirou, um som trêmulo que se assemelhava quase a uma risada amarga.

— Um menino — disse ele em voz baixa, sem olhar diretamente para ela. — Ele tem a sua teimosia insuportável.

Ele retirou o próprio lenço de seda do bolso superior do uniforme e, em seguida, retirou a túnica de lã, ficando apenas com a camisa branca arregaçada e manchada de rubro. Com uma estranha solenidade, ele enrolou a criança na lã militar que cheirava a pólvora e poder, depositando o pequeno pacote trêmulo sobre o peito exausto de Hayyah.

Ela abraçou o filho com o pouco que lhe restava de consciência, chorando em silêncio enquanto sentia o calor frágil daquele pequeno corpo contra sua pele fria.

Kittel levantou-se lentamente. Olhou para as próprias mãos banhadas em sangue, o mesmo sangue que ele mandava derramar aos milhares nas valas comuns da floresta. Mas agora, aquele sangue carregava uma centelha de sua própria existência, um mistério que ele nunca poderia confessar a ninguém, sob pena de sua própria ruína.

Ele pegou as luvas caídas e olhou para a porta entreaberta. O apito do trem soou do lado de fora, marcando o fim do turno dos trabalhadores forçados.

— Você não voltará para as vigas de madeira — disse ele, a voz recuperando a costumeira distância gélida, embora seus olhos ainda queimassem com uma sombra de loucura. — Direi a Gens que você está confinada ao teatro por ordem expressa minha. Para ensaiar um novo repertório.

Hayyah ergueu os olhos nublados para ele.

— E a criança? O que você vai fazer com ele?

Kittel colocou a mão sobre o coldre da pistola, ajustando o cinto manchado. Ele olhou para a mulher e para o bebê embrulhado em sua farda por um longo, terrível momento.

— Se ele chorar enquanto eu estiver na plateia, Hayyah... eu mato os dois. — Ele fez uma pausa, o canto dos lábios curvando-se naquele sorriso sombrio que aterrorizava o gueto. — Mas até lá... certifique-se de que ele aprenda a respirar em silêncio.

Kittel deu meia-volta e caminhou em direção à luz cinzenta, deixando para trás a mãe exausta e a vida que florescera, contra todas as probabilidades, no centro do próprio inferno.

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