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Fandom: Avatar, a lenda de aang e de korra

Criado: 17/09/2026

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Sombras Sob as Vinhas Espirituais

O vapor que subia dos bueiros de Cidade República sempre teve cheiro de óleo queimado, pão de feijão doce e ozônio. Mas, desde a Convergência Harmônica, um aroma novo havia se misturado àquela fumaça cinzenta: a seiva adocicada e fria das vinhas espirituais.

Eu estava empoleirado na beirada de um telhado de tijolos vermelhos no distrito leste, observando o reflexo das luzes de neon nas águas da baía. Aos catorze anos, ser o mais novo do nosso grupo significava ter que ouvir piadas sem fim sobre a minha altura, a minha pressa e, principalmente, sobre o fogo que eu às vezes deixava escapar pelas pontas dos dedos quando ficava ansioso.

— Se continuar soltando faíscas assim, vai queimar os cadarços das suas botas antes mesmo de começarmos — disse Kira, sentando-se ao meu lado com uma agilidade silenciosa típica da Tribo da Água.

Ela tinha quinze anos, era minha melhor amiga desde os tempos em que dividíamos tangerinas podres no orfanato do setor sul, e possuía uma compostura irritante. Seus olhos azuis brilhavam na penumbra, refletindo o brilho arroxeado das vinhas gigantescas que serpenteavam pelos edifícios abandonados logo abaixo.

— Eu não estou soltando faíscas — murmurei, fechando as mãos em punhos e enfiando-as nos bolsos do meu casaco remendado. — Só estou aquecendo as mãos. Está ventando.

— O vento nem começou a soprar de verdade — intrometeu-se Ren, surgindo do alçapão do telhado com um mapa amarrotado e um planador de madeira preso às costas. Ele também tinha quinze anos, um dos novos dominadores de ar que o mundo ganhou após a abertura dos portais, embora usasse sua dobra na maior parte do tempo para roubar tortas de janelas altas ou fugir de encrencas. — Mas se o caçula estiver com frio, eu posso criar uma brisa quente para ele.

— Me chame de caçula mais uma vez e eu vou usar a sua prancha de ar como lenha — ameacei, semicerrando os olhos.

— Parem vocês dois — cortou Tali, subindo logo atrás de Ren.

Tali era firme como a rocha que dominava. Carregava placas finas de aço presas aos antebraços e andava com passos pesados que não faziam barulho algum nos telhados de ferro. Aos quinze anos, ela já tinha os ombros largos e o olhar de quem conseguia antecipar um desabamento três segundos antes que acontecesse.

— A patrulha da Polícia de Dobra de Metal acabou de passar pela Terceira Avenida — avisou Tali, cruzando os braços. — Temos exatamente quarenta minutos até a próxima ronda. Se vamos entrar naquele armazém engolido pelas vinhas, tem que ser agora.

Eu me levantei em um salto, sacudindo a poeira das calças e tentando demonstrar mais confiança do que realmente sentia.

— Eu vou na frente — declarei.

— Nem pensar — Kira segurou meu capuz, puxando-me para trás com um sorriso sarcástico. — A sua capacidade de tropeçar em coisas que nem existem é lendária. Tali lidera a descida.

— Vocês nunca vão esquecer aquela vez no píer, não é? — resmunguei.

— Nunca — responderam Kira e Ren em uníssono.

Tali apenas sorriu de canto e tocou a lateral do edifício. Com um movimento sutil do pulso, ela dobrou os grampos de ferro da escada de incêndio oxidada, criando degraus improvisados e seguros que desciam direto para o beco tomado pela vegetação espiritual.

Descemos um a um, deslizando pela sombra dos arranha-céus. Conforme nos aproximávamos do chão, o ar ficava visivelmente mais denso. O silêncio ali embaixo era pesado, quebrado apenas pelo zumbido elétrico e vibrante das vinhas espirituais. Elas cruzavam a rua como serpentes titânicas feitas de jade brilhante, rachando o concreto, arrebentando postes de luz e devorando a fachada de um velho depósito da Indústrias Futuro que havia sido evacuado anos atrás.

Ren tocou o chão levemente, usando uma lufada de ar sob as solas dos sapatos para amortecer a queda. Ele se aproximou de uma abertura na parede de tijolos onde a porta de aço havia sido retorcida como se fosse papel.

— É aqui — sussurrou Ren, apontando para a escuridão úmida do interior. — De acordo com os boatos que ouvi nos ringues de dobra profissional, uma gangue de contrabandistas estava tentando extrair seiva de vinhas puras para vender no mercado negro. Mas eles fugiram correndo na semana passada. Algo lá dentro os assustou.

— E a nossa brilhante ideia de adolescentes sem juízo é entrar exatamente onde adultos armados fugiram apavorados? — ironizou Kira, destampando seu cantil de água e deixando que uma pequena fita líquida flutuasse ao redor de seus dedos, pronta para o combate.

— Nós não viemos caçar monstros — respondi, tentando parecer corajoso enquanto acendia uma pequena chama na palma da minha mão para iluminar o caminho. — Viemos buscar o gerador que eles deixaram para trás. Aquele motor pode alimentar a energia do nosso abrigo pelo inverno inteiro.

— O garoto tem um ponto pragmático — admitiu Tali, batendo as placas de metal dos braços. — Vamos logo antes que eu mude de ideia.

Entramos em fila. O interior do armazém parecia uma catedral arruinada. As vigas de sustentação estavam completamente cobertas por musgo fosforescente e casulos de vinhas que pulsavam em um ritmo que lembrava uma respiração profunda e lenta. A luz que saía da minha mão flamejante criava sombras alongadas e distorcidas nas paredes descascadas.

Eu sentia o calor do meu próprio fogo, mas o ambiente era tão gélido que fumaça branca saía da minha boca a cada suspiro.

— Ali! — Ren apontou para o centro do salão principal.

Sobre uma plataforma de concreto rachada, havia maquinário pesado: tubos de vidro espessos, bombas manuais e um gerador robusto a vapor de combustão mista, exatamente o que precisávamos. Mas algo estava errado. Os tubos estavam estilhaçados no chão, e uma poça de líquido viscoso e brilhante escorria em direção a um emaranhado denso de raízes logo abaixo da estrutura.

Kira se ajoelhou perto da poça, os olhos arregalados ao examinar os resquícios de seiva.

— Eles não estavam apenas coletando — disse ela, com a voz carregada de revolta. — Estavam cortando as raízes principais com lâminas elétricas. Olha as queimaduras no caule.

— Quem quer que tenha feito isso merecia apanhar de um bisão voador — resmungou Ren, olhando ao redor com inquietação evidente.

De repente, a chama na minha mão tremeluziu violentamente, tornando-se azul por uma fração de segundo antes de voltar ao laranja.

— Pessoal... — chamei, dando um passo para trás. — Vocês sentiram isso?

— Sentir o quê? — perguntou Tali, já se aproximando do gerador para avaliar o peso da máquina.

— O chão — murmurei. — Não é a terra. É outra coisa.

Um estalo ecoou pelas vigas de ferro acima de nós, semelhante a um trovão subterrâneo. As vinhas ao longo das paredes começaram a se contorcer, e o brilho arroxeado suave transformou-se em um vermelho carmesim agressivo. Das sombras acumuladas nos cantos do teto, formas nebulosas começaram a se condensar.

Eram espíritos, mas não como os seres curiosos e pacíficos que costumavam vaguear pelo Parque Central. Eram criaturas angulares, com olhos vazios que emanavam uma luz escura e dentes que pareciam espinhos de madeira lascada.

— Eu retiro o que disse sobre pegarmos o gerador! — gritou Ren, já abrindo seu planador.

— Não deem as costas para eles! — berrou Kira, lançando uma lâmina de água afiada em direção ao primeiro espírito que mergulhou do teto.

O golpe de Kira cortou o ar e dissipou a criatura em uma fumaça etérea, mas dois outros surgiram imediatamente em seu lugar, uivando com um som que parecia vidro quebrando contra metal.

Tali bateu o pé com força no chão de concreto. Uma muralha de pedra subiu diante de nós, bloqueando a investida de uma besta com garras de videira. O impacto contra a pedra foi tão forte que rachaduras se espalharam pela barreira.

— São muitos! — Tali gritou, mantendo os braços estendidos para sustentar o peso da barricada. — E essa energia... está corrompendo tudo!

Eu congelei por um breve instante. Tinha catorze anos e, até aquele dia, minhas maiores lutas haviam sido contra valentões de rua que queriam roubar nossa comida ou pequenos batedores de carteira. Aquilo era diferente. O ar estava pesado de pura fúria espiritual. O medo travou minha garganta.

— Ei! — a voz de Kira cortou o pânico na minha mente. Ela estava lutando ombro a ombro comigo, girando o corpo para criar um chicote de água congelada que empalou outro atacante. — Olhe para mim!

Virei o rosto para ela. Os olhos da minha melhor amiga estavam cheios de determinação, sem um pingo de dúvida sobre quem eu era.

— Você é um dominador de fogo — disse ela, ofegante, desviando de um galho que desabou do teto. — Fogo não é apenas destruição, você se lembra do que o mestre do templo ensinou? Fogo é calor. É vida. Não deixe essa escuridão apagar você!

Suas palavras atingiram meu peito como um soco direto. O medo começou a queimar por dentro, transformando-se em combustível.

— Não vou deixar! — gritei.

Dei um passo à frente, saindo de trás da barreira rachada de Tali. Puxei o ar gelado para dentro dos pulmões até o fundo do meu diafragma. Dobrei os joelhos, enraizando minha postura, e girei os punhos fechados.

Quando liberei a respiração, não soltei apenas uma labareda comum. Enviei um anel contínuo de chamas brilhantes e limpas, que se expandiu em um círculo perfeito ao redor dos meus amigos. O fogo não queimava para destruir; ele brilhava como a luz do meio-dia, cortando a névoa escura que alimentava os espíritos enfurecidos.

As criaturas recuaram com o brilho, chiando e cobrindo os olhos incandescentes.

— Ren, o duto de ventilação no teto! — apontei para o alto, onde uma claraboia enferrujada estava presa por raízes. — Se você limpar aquela saída, o vento do mar vai entrar e dispersar essa névoa!

— Deixa comigo! — respondeu Ren, dando um salto prodigioso impulsionado por um turbilhão de vento sob seus pés.

Ele girou no ar, desferindo uma rajada concentrada que arrebentou a madeira podre e as folhas que bloqueavam a claraboia. O ar frio da noite de Cidade República desabou sobre nós como uma cachoeira límpida.

— Tali, precisamos tirar o núcleo de seiva dali! — gritei, correndo na direção do gerador. — Os espíritos estão furiosos porque aquela poça está envenenando a raiz-mãe!

— Kira, cubra ele! — ordenou Tali, deslizando pelo chão e cravando os pés na base de metal do maquinário.

Com um rugido de esforço, Tali usou a dobra de metal para torcer a estrutura de sustentação das bombas, desencaixando o cilindro que estava ferindo a grande raiz do armazém. Pedaços de ferro caíram no chão com estrondo.

Eu me joguei de joelhos diante da raiz principal. Ela estava chamuscada pelas serras dos contrabandistas, sangrando uma seiva negra que atraía as criaturas como ímã. Sem pensar duas vezes, apoiei minhas duas mãos abertas sobre o corte profundo da videira.

— O que você está fazendo?! — Kira gritou lá de trás, usando uma muralha de gelo para conter dois espíritos que tentavam me alcançar. — Você vai atrair a dor deles para você!

— Não vou! — respondi entre dentes, sentindo a energia gélida e dolorosa da raiz subir pelos meus braços como agulhas de gelo.

Fechei os olhos. Concentrei-me no calor que eu guardava no centro do peito, aquele mesmo calor constante que me mantinha vivo nas noites frias de inverno, a faísca que compartilhava com meus amigos toda vez que dividíamos uma fogueira no terraço. Deixei que esse calor fluísse suavemente pelas pontas dos meus dedos, não como fogo violento, mas como uma brisa quente, cauterizando suavemente a ferida da planta e purificando a seiva contaminada.

A dor na planta começou a diminuir. A pulsação desordenada das vinhas desacelerou, encontrando um ritmo calmo e constante. O brilho vermelho que manchava as folhas empalideceu, retornando ao roxo sereno e acolhedor do Mundo Espiritual.

Os espíritos sombrios pararam no ar. Suas formas pontiagudas começaram a se suavizar, transformando-se em pequenas criaturas flutuantes semelhantes a lêmures de luz esbranquiçada. Um deles desceu suavemente, pousou na minha cabeça por um instante, emitindo um som que lembrava um sino distante, e depois voou em direção à claraboia aberta por Ren, desaparecendo sob o céu estrelado.

O silêncio voltou a reinar no armazém. O único som restante era a minha respiração pesada e ofegante, acompanhada pelo gotejar de água que derretia dos escudos de Kira.

Caí sentado para trás, as mãos trêmulas e o rosto sujo de fuligem e seiva.

— Você é completamente maluco — disse Kira, aproximando-se e estendendo a mão para me ajudar a levantar. Seus lábios tremiam um pouco, mas havia um brilho imenso de orgulho nos olhos dela. — Completamente, sem sombra de dúvida, maluco.

— Mas funcionou — respondi com a voz rouca, aceitando a mão dela e me erguendo com as pernas bambas.

— Dessa vez funcionou — acrescentou Tali, limpando o suor da testa com o antebraço de metal e respirando fundo. Ela deu um tapinha pesado nas minhas costas que quase me fez perder o equilíbrio de novo. — Bom trabalho, pirralho.

— Eu tenho catorze anos! Um ano a menos que vocês, só isso! — protestei, embora estivesse sorrindo.

— Mas agiu como um verdadeiro dobrador de fogo hoje — admitiu Ren, pousando suavemente ao nosso lado com o planador recolhido. Ele olhou para o gerador desativado. — Agora, a má notícia: o barulho que fizemos com certeza foi ouvido na avenida inteira.

Como se o universo quisesse confirmar suas palavras, o som agudo e característico das sirenes dos satomóveis da Polícia de Dobra de Metal começou a ecoar nas ruas próximas. Feixes de holofotes varreram a abertura quebrada do telhado.

— Hora de ir embora! — apressou-se Kira, pegando sua bolsa do chão.

— E o gerador? — perguntei, olhando com pesar para a máquina que havíamos vindo buscar.

— Fica para a próxima vida — respondeu Tali com um suspiro conformado. — Prefiro passar frio no abrigo a passar o próximo mês limpando celas na delegacia central.

Corremos em direção à saída dos fundos, esgueirando-nos por uma fresta estreita onde os cabos da polícia não conseguiriam nos alcançar. Tali fechou a passagem atrás de nós erguendo uma parede rápida de concreto, selando o armazém antes que os oficiais chegassem à entrada principal.

Subimos por uma rede de escadas de incêndio e canos enferrujados até o topo de um prédio residencial de três andares. Quando finalmente paramos para respirar, Cidade República se estendia abaixo de nós, viva, ruidosa e iluminada por milhares de lâmpadas elétricas que competiam com a luz mágica das vinhas.

Nós quatro nos sentamos na beirada de concreto, com os pés balançando sobre a rua movimentada. Meus músculos doíam e minhas mãos ainda formigavam pela energia espiritual, mas o frio não me incomodava mais.

Ren enfiou a mão no bolso do casaco e tirou de lá quatro pãezinhos de vapor amassados, que milagrosamente haviam sobrevivido à batalha.

— Não conseguimos o gerador — disse ele, entregando um pão para cada um —, mas acho que isso ainda está comestível.

— Se você não soltar fogo neles, talvez a gente consiga engolir — brincou Kira, empurrando meu ombro de leve com o dela.

— Eu não queimo comida há pelo menos três semanas — retruquei, mas peguei o pão e usei um fiozinho minúsculo de calor na palma da mão apenas para deixá-lo quentinho antes de morder.

Ficamos em silêncio por um longo tempo, mastigando enquanto observávamos os satomóveis passarem lá embaixo como pequenos besouros brilhantes.

Eu olhei para os três ao meu lado. Kira, com seus olhos vigilantes que sempre cuidavam da minha retaguarda; Tali, que se colocaria na frente de qualquer rocha desgovernada por nós; e Ren, que enfrentaria uma tempestade inteira só para garantir que tínhamos uma saída de ar.

Talvez eu ainda tivesse apenas catorze anos, e talvez o mundo depois da grande guerra e dos portais estivesse cada dia mais perigoso e imprevisível. Mas enquanto estivéssemos juntos sobre aqueles telhados frios, nenhum espírito sombrio ou polícia de metal seria capaz de apagar a chama que queimava entre nós.

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