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Fandom: imagina-me (estilhaça-me)

Criado: 17/09/2026

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DistopiaPós-ApocalípticoRomanceAngústiaDramaPsicológicoSombrioSuspenseEstudo de Personagem
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Cinzas de Veludo

O tecido áspero do uniforme do Ponto Ômega irritava a pele sensível dos pulsos de Clara, mas nenhum incômodo físico se comparava ao frio cortante que se instalava em seu estômago. Ela puxou o casaco largo de lã cinzenta sobre o corpo, tentando em vão se fazer menor, uma tarefa inútil considerando a maciez curvilínea de sua silhueta que em nada lembrava a rigidez esquelética e militar das pessoas daquele refúgio subterrâneo.

Ela estava sentada em um caixote de metal, com os joelhos rechonchudos colados ao peito e as mãos trêmulas segurando uma caneca de chá morno que não conseguia beber.

Ao redor dela, o Ponto Ômega fervilhava em um pânico silencioso. Alarmes não soavam, mas a tensão vibrava no ar como eletricidade estática antes de uma tempestade devastadora.

— Eu juro pela minha vida, aquilo lá em cima virou um inferno — a voz de Kenji Kishimoto ecoou pelo corredor de concreto, precedendo seus passos apressados. Ele entrou na área comum tirando o capuz camuflado, com os olhos arregalados e o peito subindo e descendo com força. — O homem enlouqueceu. Perdeu o resto de juízo que fingia ter.

Castle, que estava inclinado sobre uma mesa de mapas com expressão solene, levantou o olhar.

— O que aconteceu no Setor 45, Kenji?

— O que não aconteceu, você quer dizer! — Kenji gesticulou freneticamente, apontando para o teto de terra batida. — Paris Anderson simplesmente colocou três esquadrões de elite inteiros na rua. Ele está revistando casa por casa, quebrando portas, interrogando civis com choque elétrico. Ele mandou queimar dois armazéns só porque achou que alguém tinha visto um vulto correndo na direção da cerca sul. O cara parece uma fera com raiva.

Clara fechou os olhos com força, afundando o rosto nas mangas compridas. Cada palavra era como uma chicotada.

Ele sabe.

— Mas isso não faz sentido estratégico — murmurou Castle, ajustando os óculos e franzindo a testa grisalha. — O Comandante Supremo nunca cometeria esse tipo de imprudência pública por causa de um resgate menor. A missão de ontem foi simples. Nossos batedores conseguiram invadir a ala oeste da residência oficial após uma falha nos sensores, e só tivemos tempo de tirar uma prisioneira antes de recuar.

Os olhos escuros e curiosos de Kenji se voltaram imediatamente para o canto sombrio onde Clara estava encolhida. Ele cruzou os braços, semicerrando as pálpebras, visivelmente intrigado.

— Pois é. A prisioneira.

Clara sentiu o peso do olhar de todos sobre si. O silêncio que se formou era espesso, sufocante.

Para os rebeldes do Ponto Ômega, ela era Clara: uma mulher comum resgatada das garras de um monstro, encontrada trancada em uma suíte luxuosa e isolada, sem registro militar, sem dons sobrenaturais, sem utilidade tática aparente. Eles a resgataram por pura misericórdia e pelo protocolo de nunca deixar ninguém para trás quando houvesse uma brecha. Eles achavam que ela era apenas uma alma desafortunada que Paris Anderson mantinha sob tortura psicológica, um capricho sádico de seu cativeiro particular.

Eles não sabiam a verdade repugnante, vergonhosa e avassaladora: ela era a esposa dele.

— Você tem certeza de que não sabe por que ele está fazendo isso, Clara? — Kenji perguntou, dando alguns passos lentos em sua direção, diminuindo o tom de voz para algo mais suave, quase condescendente. — Você… roubou alguma coisa dele antes da gente te puxar daquele quarto? Algum código de segurança? Um pen drive? O dente de ouro da avó dele? Qualquer coisa?

Clara ergueu o rosto devagar. Seus traços eram suaves, bochechas fartas e arredondadas que contrastavam com as maçãs pontiagudas e famintas dos rebeldes que viviam à base de rações. Seus olhos castanhos brilhavam com uma névoa de lágrimas que ela se recusava a deixar derramar.

— Eu não roubei nada — disse ela, a voz saindo rouca, falhando na garganta seca.

— Então por que cargas d'água ele está virando o continente do avesso? — Kenji bufou, passando a mão pelos cabelos pretos, exasperado. — Paris Anderson não liga nem para o próprio filho! Se o Warner levasse um tiro amanhã, o Supremo provavelmente só pediria para limparem o tapete. Mas por você? Ele está mandando helicópteros patrulharem a linha da costa. Parece que arrancaram o coração dele do peito! Uma garota assustada, sem poderes, que ele mantinha de refém… Por que diabos ele se importa tanto?

— Kenji, já chega — repreendeu Castle suavemente. — Ela está traumatizada. Passou meses ou anos na mão de um tirano. Não precisa ser interrogada por nós também.

— Eu só estou tentando entender! — rebateu o garoto, baixando os braços com frustração. — Se continuarmos a acolhê-la sem entender a magnitude da ameaça, ele vai bombardear este subsolo até virarmos cinzas. Ele declarou toque de recolher nível cinco. Nível cinco, Castle! Ninguém respira sem a permissão dele agora.

Clara cravou as unhas nas palmas das mãos por baixo do casaco, buscando na dor física uma âncora para não desmoronar.

Ele não vai parar, pensou ela, em desespero absoluto. Ele nunca para quando quer possuir algo.

Na mente de Clara, as memórias não eram de grades de ferro ou correntes enferrujadas, mas de lençóis de seda importada, lareiras acesas e o perfume amadeirado e pesado de Paris impregnado em sua pele.

Ele a idolatrava de uma maneira distorcida, obsessiva e doentia. Paris Anderson, o arquiteto da miséria humana, o homem que fuzilava desertores sem piscar, transformava-se em um animal faminto em seus braços. Ele costumava passar as noites inteiras com o rosto enterrado na curvatura macia de seu pescoço, murmurando promessas insanas, acariciando os quadris largos dela, adorando cada centímetro da carne farta de Clara como se ela fosse a única divindade de seu mundo desolado. Ele dizia que o resto da humanidade era poeira descartável, mas que Clara era sua respiração.

E ela, tola e cega pelo amor que floresceu na intimidade das sombras, acreditava que havia humanidade nele. Acreditava nas mentiras dele, nas justificativas sobre a Restabelecimento, na fantasia de que ele era apenas um estadista forçado a tomar decisões duras.

Até três dias atrás.

A lembrança veio com a força de um soco. A chave dourada que ela encontrou caída sob a escrivaninha dele. A porta dos fundos do escritório que ele sempre proibia que ela cruzasse. Os relatórios de autópsias clandestinas, as ordens assinadas com o sangue frio de quem exterminava crianças órfãs para racionar comida, os experimentos grotescos nos laboratórios… e a constatação estarrecedora de que Paris não era um líder endurecido pela dor, mas um psicopata absoluto que ria da desgraça alheia.

Quando Clara olhou para as próprias mãos adornadas por diamantes que Paris lhe dera, sentiu vontade de arrancar a própria pele. Ela era o passatempo luxuoso de um demônio. Um animal de estimação mimado que ele alimentava com frutas raras enquanto o mundo lá fora morria de fome.

Quando o alarme do complexo soou na noite anterior por conta de uma invasão dos rebeldes, Clara não correu para se esconder com a guarda de Paris. Ela correu na direção do perigo. Ela se jogou nos braços dos soldados mascarados do Ponto Ômega, implorando para que a levassem, fingindo ser uma vítima resgatada.

E agora, o mundo estava queimando por causa de sua escolha.

— Clara? — Uma voz suave a puxou de volta ao presente.

Juliette Ferrars estava parada ao lado do caixote, com suas luvas características e um olhar repleto de empatia dolorosa.

— Você está tremendo — disse a garota, ajoelhando-se para ficar na mesma altura que Clara. — Nós não vamos deixar ele te levar de volta. Seja lá o que ele tenha feito com você naquele quarto… você está segura aqui. Ninguém mais vai te prender.

Um nó apertou a garganta de Clara com tanta força que o ar quase não passava.

Ele nunca me prendeu com correntes, Juliette. Ele me prendeu com beijos.

— Obrigada — foi tudo o que Clara conseguiu sussurrar, a voz quebrando. A mentira pesava como chumbo em sua língua. Ela olhou para a garota de cabelos castanhos e sentiu uma pontada de culpa dilacerante. Se aquelas pessoas soubessem que ela havia dividido a cama daquele homem por livre e espontânea vontade, que havia dormido sobre o peito que ordenava massacres, eles não teriam misericórdia. Eles a jogariam de volta para fora. Ou pior: usariam-na como isca.

De repente, as luzes de emergência no teto do Ponto Ômega piscaram uma vez. Duas vezes.

O som estático de um rádio de transmissão pesada cortou o murmúrio do salão. Winston, um dos rebeldes que operava a mesa de comunicações, levantou-se abruptamente, derrubando a cadeira no chão.

— Castle! Temos uma interceptação de frequência geral! Não é uma mensagem codificada… ele abriu os canais de transmissão de emergência civil!

Castle correu para a bancada, acompanhado por Kenji e vários outros rebeldes armados.

— Conecte nos alto-falantes principais — ordenou o líder do refúgio. — O que o Anderson está aprontando agora? Uma declaração de guerra aberta?

O chiado aumentou até que uma frequência limpa e gélida preencheu cada centímetro do bunker subterrâneo.

E então, a voz dele ecoou.

Clara sentiu o sangue sumir completamente de seu rosto. Cada músculo de seu corpo se petrificou.

— Cidadãos do Setor 45 — a voz de Paris Anderson começou, calma, modulada, mas carregada de uma frieza que prometia destruição absoluta. Não era o tom burocrático de seus pronunciamentos habituais. Era uma calmaria venenosa, o silêncio que precede o impacto de uma bomba atômica. — Esta é uma diretriz direta do Comando Supremo. Nas últimas vinte e quatro horas, um ato imperdoável de insubordinação e terrorismo foi cometido contra a residência executiva.

Os rebeldes se entreolharam, confusos.

— Eles acham que foi um ataque coordenado? — sussurrou Kenji, confuso. — A gente só entrou pela tubulação de ventilação, pegamos a garota e demos o fora. Nem disparamos um tiro!

A transmissão continuou, o tom de Paris caindo uma oitava, tornando-se mais lento, medonho:

— Aos covardes que rastejam pela sujeira e se autodenominam libertadores: vocês cometeram um erro de cálculo fatal. Vocês tocaram no que não lhes pertencia. Acharam que estavam resgatando um peão político? Uma testemunha? Vocês não têm capacidade cognitiva para compreender a natureza do que tiraram de mim.

No bunker, o ar parecia ter desaparecido. Os combatentes ouviam em choque absoluto.

— Ela não é um trunfo militar — Paris continuou, e sua voz vacilou por uma fração de segundo, deixando escapar uma fúria selvagem, animalesca, que fez até mesmo os guerreiros mais veteranos do Ponto Ômega recuarem um passo. — Ela é minha. Cada respiração dela, cada curva, cada lágrima pertence unicamente à minha autoridade. E se vocês não a devolverem intacta às portas do Setor Central nas próximas doze horas… eu não irei apenas caçá-los. Eu farei a terra deste setor queimar até que a atmosfera se torne cinzas e vidro.

Um arquejo coletivo cortou o salão.

— "Ela é minha"? — repetiu Kenji, com a voz embargada de incredulidade, olhando para a bancada e depois voltando-se para o canto onde Clara estava sentada. — Ele… ele acabou de dizer o que eu acho que disse? Ele está falando de você como se fosse…

Mas Paris ainda não havia terminado.

O Comandante Supremo respirou fundo perto do microfone. O som daquela inspiração fez a espinha de Clara congelar. Quando ele voltou a falar, não estava mais discursando para o exército rebelde ou para a população oprimida. Ele estava falando diretamente com ela, usando aquele tom íntimo e tenebroso que usava no silêncio do quarto escuro, quando a envolvia em seus braços:

— E para você, meu amor… sei que está me ouvindo. Sei que sua compaixão infantil e tola a fez fugir com esses ratos após ver o que não devia. Mas você é frágil demais para esse mundo imundo lá fora, Clara. Você não suporta o frio. Não suporta o cheiro do sangue. Volte para casa. Rasteje de volta para a minha cama, e eu perdoarei a sua desobediência. Se não voltar… eu matarei cada ser vivente neste território até encontrar o buraco onde você está se escondendo. E depois, eu vou beijar seus lábios na frente dos cadáveres deles. Você tem até o amanhecer.

Um estalo seco encerrou a transmissão.

O silêncio que se seguiu no Ponto Ômega foi mortal. Absoluto.

Ninguém respirava. Ninguém se mexia.

Dezenas de pares de olhos se voltaram lentamente na direção de Clara.

O choque nos rostos endurecidos de guerra era palpável. Castle estava lívido, com os papéis caindo de suas mãos inertes. Juliette olhava para Clara com uma mistura de assombro e incompreensão dolorosa.

Kenji deu dois passos hesitantes para trás, as mãos pousando nos coldres de suas armas por puro instinto de sobrevivência, os olhos fixos na mulher de formas suaves e olhos aterrorizados.

— Meu amor? — a voz de Kenji mal passou de um sussurro trêmulo, carregado de uma raiva crescente e perplexidade. — Clara… quem diabos é você?

Clara apertou o casaco contra o peito, sentindo o ardor das lágrimas quentes finalmente lavarem seu rosto pálido.

— Eu sinto muito — ela sussurrou, a voz se quebrando sob o peso do apocalipse que seu marido prometera trazer sobre suas cabeças. — Eu sinto tanto…

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