Fanfy
.studio
Imagem de fundo

Josefina e Napoleão

Fandom: Hilda furacão

Criado: 18/09/2026

Tags

RomanceHistóricoDramaFatias de VidaEstudo de PersonagemNão-Ficção / Jornalismo
Índice

O Vermelho nos Olhos e a Fumaça no Ar

Belo Horizonte, 1959. O ar da capital mineira parecia sempre carregado de uma mistura de café recém-passado, fumaça de cigarro e o cheiro úmido do asfalto após as chuvas de fim de tarde. Roberto Drummond, no entanto, sentia que o ar naquela sala apertada, no fundo de um sobrado decadente no centro, estava carregado de algo muito mais perigoso: revolução.

E, pela primeira vez na vida, a revolução tinha um rosto que não estava estampado em nenhum panfleto soviético.

A reunião do Partido Jovem Comunista transcorria entre discussões acaloradas sobre a exploração do proletariado e a necessidade de conscientização das massas. Roberto, geralmente o primeiro a levantar a mão para fazer um comentário irônico ou uma provocação intelectual, estava estranhamente silencioso. Seus olhos castanhos, inquietos por natureza, estavam fixos em uma figura sentada três fileiras à frente.

Ela tinha cabelos castanhos escuros que terminavam em cachos perfeitamente esculpidos sobre os ombros. Quando ela se virou para sussurrar algo ao colega ao lado, Roberto viu o perfil: um nariz altivo, leves sardas que pareciam constelações sobre a pele clara e olhos de um azul tão intenso que pareciam desafiar a própria ideologia que pregavam. Ela não apenas ouvia; ela analisava.

Quando a reunião terminou e as cadeiras começaram a arrastar pelo chão de madeira, Roberto não perdeu tempo. Aproximou-se de um camarada veterano, um sujeito de óculos grossos chamado Arnaldo, que guardava alguns manifestos em uma pasta surrada.

— Arnaldo, meu caro — disse Roberto, tentando manter o tom casual enquanto acendia um cigarro. — Quem é a companheira de cachos e olhar de julgamento final? Aquela que estava sentada perto da janela.

Arnaldo olhou na direção que Roberto indicava e soltou um riso seco.

— Aquela é a Evangeline. Cuidado, Drummond. Ela tem mais cérebro que metade deste comitê reunido e uma língua mais afiada que a sua.

— Jornalista? — arriscou Roberto, notando o bloco de notas que ela guardava na bolsa.

— Das boas. Escreve para o Diário de Minas, mas o coração dela bate à esquerda, como o nosso. É uma das poucas mulheres que peita a diretoria e os dinossauros do partido sem piscar.

Roberto observou Evangeline sair pela porta com passos decididos, a postura impecável e uma aura de quem sabia exatamente para onde estava indo. Ele sentiu um estalo no peito, uma urgência que nada tinha a ver com a queda do capitalismo.

Horas depois, no balcão de um bar sujo onde a santíssima trindade da amizade se reunia, Roberto despejou suas impressões. Malthus, com seu colarinho clerical impecável e o olhar de quem já estava em oração silenciosa pela alma dos presentes, bebia um copo de água mineral. Aramel, com o cabelo brilhando de brilhantina e um sorriso de quem acabara de sair de um set de filmagens em Hollywood, girava um copo de cerveja.

— Eu estou dizendo a vocês — exclamou Roberto, gesticulando dramaticamente com as mãos. — Foi uma epifania. O materialismo dialético nunca pareceu tão... estético.

— Você se apaixonou por uma comunista, Roberto? — Aramel soltou uma gargalhada sonora, ajeitando o paletó elegante. — Isso é maravilhoso! Imagine a cena: o jornalista rebelde e a musa da foice e do martelo. É um roteiro perfeito. Você precisa ir atrás dela amanhã mesmo. Leve flores, ou melhor, leve uma edição rara do Capital. Mulheres inteligentes adoram ser desafiadas.

— Eu discordo — interveio Malthus, sua voz calma e racional cortando a empolgação de Aramel. — Roberto, você mal a conhece. Pelo que descreveu, ela parece ser uma mulher séria, dedicada a causas que você, muitas vezes, trata com ironia. Ir atrás dela no local de trabalho é invasivo. Não é... cristão, nem prudente.

— Ora, Malthus, deixe de ser frei por cinco minutos! — Roberto provocou, dando um tapinha no ombro do amigo. — A prudência nunca escreveu uma boa manchete. E eu sou um jornalista, ir atrás das pessoas é o que eu faço para viver.

— Há uma diferença entre buscar uma notícia e perseguir uma mulher — insistiu Malthus, ajustando os óculos. — Você vai acabar se machucando, ou pior, vai aborrecê-la.

— Bobagem! — Aramel piscou para Roberto. — O "não" você já tem, meu amigo. Vá em busca do "sim" cinematográfico. Se ela é inteligente e impõe presença, ela vai respeitar a sua audácia.

Na manhã seguinte, Roberto não estava no sindicato, nem na redação de seu próprio jornal. Ele estava postado em frente ao prédio do Diário de Minas, fingindo ler um jornal, mas com os olhos cravados na entrada.

Quando Evangeline apareceu, vestindo um conjunto de saia e blazer cinza que a fazia parecer uma rainha exilada em Belo Horizonte, Roberto sentiu a boca secar. Ele esperou que ela entrasse no saguão e, com a coragem dos desesperados, apressou o passo para alcançá-la no elevador.

As portas de ferro se fecharam, deixando os dois sozinhos no cubículo metálico que cheirava a cera e poeira.

— Companheira Evangeline? — Roberto começou, tirando o chapéu com um gesto rápido.

Ela desviou os olhos azuis do painel do elevador e o encarou. Não era um olhar de surpresa, mas de uma curiosidade fria e analítica.

— Drummond, não é? O rapaz que faz comentários sarcásticos durante as reuniões sobre a reforma agrária — disse ela, a voz firme e melodiosa, mas sem um pingo de flerte.

— Fico lisonjeado por ter sido notado — Roberto sorriu, sua ironia habitual servindo como escudo. — Pensei que estivesse ocupada demais planejando a queda do regime para notar um simples operário das palavras.

— Eu noto tudo, Drummond. É o meu trabalho — Evangeline ajeitou a bolsa no braço. — E o que o traz ao meu local de trabalho? Alguma denúncia bombástica ou apenas falta do que fazer na sua própria redação?

— Vim propor uma colaboração — mentiu ele descaradamente. — Dois jornalistas, mentes brilhantes, unidos pela causa... e talvez por um café.

O elevador parou. Evangeline saiu antes mesmo que as portas terminassem de abrir. Roberto a seguiu pelo corredor movimentado, entre o barulho das máquinas de escrever que soavam como metralhadoras.

— Não tomo café com estranhos, muito menos com colegas que acham que a política é um palco de teatro — ela disse, sem parar de andar. — Tenho uma pauta sobre a greve dos tecelões para fechar. Se me der licença.

— Eu posso ajudar com as fontes! — gritou Roberto, enquanto ela entrava em sua sala e fechava a porta com uma firmeza que não deixava margem para discussões.

Nos dias que se seguiram, Roberto tornou-se uma presença constante, quase como uma sombra bem-humorada. Ele aparecia com recortes de jornais estrangeiros, trazia informações "exclusivas" que ele mesmo apurava às pressas e, acima de tudo, tentava fazê-la rir.

Evangeline, no entanto, era uma fortaleza. Ela o tratava com a mesma educação distante que dedicava aos editores mais velhos. Era sociável, sim; discutia política com ele com uma inteligência que deixava Roberto zonzo, mas não cedia um milímetro de sua intimidade. Ela era como Josefina e Napoleão: uma força da natureza que não se deixava conquistar por táticas convencionais.

Certa tarde, ele a encontrou na saída, sob uma chuva fina que começava a molhar as calçadas.

— Você é persistente, Drummond — comentou ela, abrindo um guarda-chuva preto. — É uma qualidade rara. Mas geralmente é usada para fins mais nobres do que esperar uma mulher na calçada.

— Para mim, não há fim mais nobre — Roberto respondeu, encolhendo os ombros, a chuva começando a ensopar seu paletó. — Você é a mulher mais inteligente que já conheci, Evangeline. E olha que eu conheço muita gente que se acha gênio.

Evangeline parou e o olhou nos olhos. Por um breve segundo, a frieza azul vacilou, dando lugar a um brilho de diversão.

— Você é um comunista muito pouco ortodoxo, Roberto. Marx não aprovaria esse seu romantismo burguês.

— Marx nunca viveu em Belo Horizonte — rebateu ele, aproximando-se um passo. — Se tivesse vivido, teria escrito poemas em vez de tratados econômicos.

Ela soltou um riso curto, quase inaudível, mas que para Roberto soou como uma sinfonia.

— Vá para casa, Roberto. Você vai pegar um resfriado e o partido precisa de você saudável para distribuir panfletos no domingo.

— Só vou se você prometer que vai ler a crônica que escrevi sobre a Praça da Liberdade. Deixei na sua mesa.

Evangeline começou a caminhar, a silhueta elegante sumindo na névoa da tarde mineira.

— Eu já li — disse ela, sem olhar para trás. — Está cheia de adjetivos desnecessários. Mas a parte sobre o crepúsculo... aquela foi quase decente.

Roberto ficou parado na chuva, com um sorriso idiota no rosto. Ele sabia que Malthus diria que ele estava perdendo tempo e que Aramel diria que ele precisava de um final mais dramático. Mas, naquele momento, o "quase decente" de Evangeline valia mais do que qualquer manchete de primeira página.

Ele ainda não a tinha conquistado, mas tinha conseguido algo muito mais difícil: ele a tinha feito prestar atenção. E em 1959, em uma Belo Horizonte prestes a mudar para sempre, aquilo era o começo de sua própria revolução particular.

Índice

Quer criar seu próprio fanfic?

Cadastre-se na Fanfy e crie suas próprias histórias!

Criar meu fanfic

Novidades do Fanfy

Um novo modelo para suas histórias

Atualizamos o modelo de geração para deixar suas histórias ainda melhores. O novo modelo já está ativado.

Se preferir a versão anterior, escolha «Anterior» no menu do perfil: clique no seu avatar no canto superior direito.

Seus capítulos já escritos serão mantidos. Sua escolha vale para as próximas gerações.