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Criado: 18/09/2026

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Entre Laços de Seda e Jaquetas de Couro

O sol de domingo começava a se despedir, pintando o céu de um laranja profundo que parecia competir com o tom vibrante dos cabelos de Lívia. Ela estava parada em frente ao espelho do seu quarto, ajeitando as dobras de um vestido de seda verde-musgo que caía impecavelmente sobre suas curvas. As sardas em seus ombros pareciam brilhar sob a luz do entardecer, pequenos pontos de constelações terrestres que ela agora exibia com orgulho.

Lívia passou a mão pelo tecido fino, sentindo a textura suave. Ela adorava a sensação de estar bem vestida, uma elegância natural que herdara da mãe, mas que carregava com uma leveza própria. Prendeu o colar de ouro com o pingente que ganhara da avó e aplicou um pouco de perfume. O aroma de baunilha e flor de laranjeira imediatamente preencheu o espaço, um rastro doce que era sua assinatura pessoal.

O som de risadas e o tilintar de talheres já subiam do andar de baixo. O jantar de domingo dos Montel era uma instituição sagrada, um caos organizado onde o sobrenome e a fortuna ficavam em segundo plano diante das piadas internas e das histórias repetidas pela milésima vez.

Lívia pegou o celular sobre a cama. Nenhuma notificação nova. O que era estranho.

— Maya, cadê você? — murmurou para si mesma, desbloqueando a tela.

Elas haviam se falado pela manhã, uma troca rápida de memes e um comentário sobre a série que estavam maratonando, mas Maya não tinha confirmado se viria para o jantar. O que, na verdade, era um detalhe irrelevante, já que a presença dela era tão esperada quanto a do prato principal.

Ao descer as escadas, Lívia foi recebida pelo aroma de assado e pelo vozerio da família. Sua avó, de quem herdara o ruivo agora transformado em fios prateados, foi a primeira a vê-la.

— Você está linda, minha querida. Esse verde faz seus olhos parecerem esmeraldas — disse a senhora, segurando as mãos delicadas de Lívia. Mas logo o olhar dela varreu o corredor atrás da neta. — E a Maya? Ela não subiu para te ajudar a escolher o vestido?

— Ainda não chegou, vó — Lívia respondeu, sentindo um leve aperto de estranheza no peito. — Mas ela deve estar a caminho.

Lívia seguiu para a sala de jantar, onde seus primos discutiam futebol e seus tios debatiam sobre a última safra de vinhos. Ela se sentou em seu lugar habitual, mas a cadeira ao seu lado permanecia vazia. Era o lugar de Maya. Sempre fora.

— Lívia, a Maya vem? — perguntou seu pai, servindo-se de água. — Eu separei aquele tinto que ela gostou da última vez.

— Eu mandei mensagem agora, pai. Ela deve ter se atrasado com algum trabalho da faculdade.

— Aquela menina estuda demais — comentou uma de suas tias. — Maya precisa aprender a relaxar um pouco, como você, Lívia.

Lívia sorriu, mas o sorriso não alcançou totalmente seus olhos verdes. Ela conhecia Maya melhor do que ninguém. Sabia que a postura retraída da amiga, os braços cruzados e o olhar analítico eram escudos. Maya não era apenas estudiosa; ela era intensa, e às vezes essa intensidade a fazia se recolher em seu próprio mundo de sombras e silêncio.

Dez minutos se passaram. Vinte. O jantar foi servido, e a cadeira vazia parecia gritar no meio da mesa cheia.

— Vou ligar para ela — Lívia anunciou, levantando-se.

Ela foi até a varanda dos fundos, onde o ar fresco da noite batia. O celular chamou três vezes antes de ser atendido.

— Oi, Liv.

A voz de Maya era grave, um pouco mais rouca do que o normal. Lívia sentiu imediatamente a mudança de tom.

— Maya? Está tudo bem? Onde você está? A mesa está cheia e meu pai já abriu o vinho que você gosta. Minha avó está quase mandando a polícia atrás de você.

Houve um silêncio do outro lado. Lívia conseguia imaginar Maya passando a mão pelo cabelo preto, ajeitando a franja reta sobre os olhos castanhos, talvez mordendo o lábio perto daquela pintinha charmosa no canto da boca.

— Eu acho que não vou hoje, Liv — disse Maya, finalmente. — Muita coisa na cabeça.

— Maya Bellini, você não pode me deixar sozinha com o Tio Jorge contando a história da pescaria de 1998 pela décima vez. O que aconteceu?

— Nada, sério. Só... estou cansada. E tem um pessoal da faculdade me chamando para ir a um bar novo no centro. Eu pensei que talvez devesse sair um pouco da bolha, sabe?

Lívia sentiu uma pontada inesperada. Não era ciúme, ou talvez fosse, mas de um tipo diferente. Era a percepção de que os "rumos diferentes" que todos diziam que a vida tomaria aos vinte anos estavam batendo à porta.

— Um bar novo? Com o grupo do laboratório? — Lívia tentou manter o tom leve.

— É. Eles são legais. Eu sinto que às vezes eu só fico entre a minha casa e a sua, Liv. Talvez eu precise ver gente nova.

— Entendi. — Lívia apertou o pingente de ouro no pescoço. — Bom, se você mudar de ideia, seu lugar ainda está aqui. A vovó fez aquela torta de limão que você ama.

— Divirta-se, ruiva. Mande um beijo para todos.

Lívia desligou o celular e ficou olhando para o jardim escuro. Maya queria "ver gente nova". Era um desejo legítimo, mas soava estranho nos ouvidos de Lívia. Elas eram o sol e a lua, o equilíbrio perfeito. Ver a lua decidir orbitar outro planeta era, no mínimo, desorientador.

Ela voltou para a mesa e deu a desculpa do cansaço, omitindo a parte do bar. O jantar prosseguiu, mas para Lívia, a comida parecia ter perdido um pouco do sabor. Ela participou das conversas, riu das piadas, mas seus olhos frequentemente voltavam para a tela do celular, esperando um vídeo aleatório ou uma foto de um drink mal tirada.

Nada veio.

Por volta das onze da noite, depois que os convidados começaram a ir embora, Lívia não aguentou. Ela trocou o vestido de seda por uma calça jeans de linho e uma blusa branca simples, calçou seus sapatos baixos e pegou as chaves do carro.

Ela sabia exatamente em qual bar Maya estaria. Era o único lugar "novo" que o pessoal da faculdade de arquitetura frequentava ultimamente.

Quando Lívia entrou no local, o contraste foi imediato. O bar era escuro, com luzes neon em tons de azul e roxo, música indie tocando ao fundo e um cheiro de cerveja artesanal e cigarro eletrônico. Ela se sentia um pouco fora de lugar com sua postura ereta e elegância discreta, mas não hesitou.

Ela a viu no fundo, em uma mesa de canto.

Maya estava usando uma jaqueta de couro preta sobre uma camiseta cinza básica. O cabelo preto estava solto, e a franja parecia um pouco bagunçada. Ela segurava um copo de cerveja escura e, ao contrário do que Lívia esperava, não parecia estar se divertindo muito. Ela estava sentada com os ombros encolhidos, os braços cruzados sobre a mesa, ouvindo um rapaz falar animadamente sobre urbanismo sustentável.

Lívia caminhou até a mesa. Quando Maya a viu, seus olhos castanhos se arregalaram e, por um breve segundo, a expressão séria e defensiva desapareceu, dando lugar a um brilho de puro alívio.

— Lívia? O que você está fazendo aqui? — Maya perguntou, levantando-se.

— O jantar acabou cedo — mentiu Lívia, sorrindo para o grupo. — E eu percebi que esqueci de te dar uma coisa.

— O quê?

— A sua dignidade. Você odeia cerveja artesanal morna, Maya. E eu sei que você está morrendo de vontade de comer a torta da minha avó.

O rapaz que falava parou, olhando de Lívia para Maya, claramente percebendo a eletricidade que emanava da presença da ruiva.

— Galera, essa é a Lívia — apresentou Maya, sua voz recuperando a firmeza, mas com um tom mais suave. — Minha... melhor amiga.

— Prazer — Lívia disse, com seu olhar direto e sincero que costumava desarmar qualquer um. — Mas eu vou ter que roubar a Maya de vocês. Assunto de família.

Maya não protestou. Ela pegou sua bolsa, despediu-se rapidamente e seguiu Lívia para fora do bar. O ar da noite parecia mais puro assim que elas cruzaram a porta.

— Você é impossível, Montel — disse Maya, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta de couro.

— E você é uma péssima mentirosa, Bellini. Você estava com aquela cara de "quero que um buraco negro me engula".

Maya soltou uma risada curta, aquela risada rouca que Lívia tanto amava.

— Eu só... eu achei que precisava tentar. Todo mundo diz que a gente está sempre junta, que precisamos de espaço. Meus pais, o pessoal da faculdade. Até eu comecei a acreditar que talvez estivéssemos presas uma à outra.

Lívia parou ao lado do carro e virou-se para a amiga. A luz de um poste próximo iluminava o rosto angular de Maya, destacando a pinta no canto da boca.

— E você se sentiu presa lá dentro? — perguntou Lívia, a voz baixa.

Maya deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal de Lívia. O cheiro de baunilha da ruiva se misturou ao cheiro de couro de Maya.

— Não — confessou Maya, baixando o olhar para as mãos de Lívia. — Eu me senti sozinha. Mesmo cercada de gente. É diferente quando você não está lá. Eu não preciso explicar minhas piadas para você. Eu não preciso fingir que estou interessada em urbanismo às onze da noite de um domingo.

Lívia estendeu a mão e tocou o braço da jaqueta de Maya, subindo até encontrar a pele quente do seu pulso.

— A gente está crescendo, Maya. As coisas vão mudar. Você vai ter seus amigos da faculdade, e eu vou ter meus compromissos. Mas o jantar de domingo... o lugar ao meu lado na mesa... isso não é uma prisão. É o lugar onde você pertence.

Maya relaxou os ombros, a postura defensiva caindo por completo. Ela olhou para Lívia, e por um momento, o silêncio entre elas disse mais do que qualquer conversa de WhatsApp. Havia uma tensão nova, algo que vinha amadurecendo junto com os vinte anos, uma percepção de que a amizade delas era a base de algo muito mais profundo e, talvez, inevitável.

— Você trouxe a torta? — Maya perguntou, tentando quebrar o clima, embora seus olhos ainda estivessem fixos nos de Lívia.

— Está no banco de trás. Em um pote térmico que a vovó me obrigou a levar.

— Eu te amo, sabia? — Maya disse, de forma casual, mas com uma intensidade nos olhos castanhos que fez o coração de Lívia errar uma batida.

— Eu sei. Todo mundo sabe. Agora entra no carro antes que eu decida comer a torta sozinha.

Elas entraram no carro, e o trajeto de volta para a mansão dos Montel foi preenchido pela trilha sonora habitual delas: uma mistura de pop e rock clássico, com Lívia batucando no volante e Maya comentando sobre a letra das músicas.

Quando chegaram, a casa estava silenciosa. A maioria das luzes estava apagada, exceto a da cozinha. Elas entraram na ponta dos pés, como faziam quando eram adolescentes voltando de festas escondidas.

Lívia colocou a torta sobre a ilha de mármore e pegou dois garfos. Elas comeram ali mesmo, de pé, dividindo o mesmo pote.

— A sua avó se superou — comentou Maya, com um pouco de creme no canto do lábio.

Lívia não pensou. Ela apenas estendeu o polegar e limpou o rosto de Maya. O toque foi lento, mais demorado do que o necessário. O olhar de Maya escureceu, os reflexos de mel surgindo sob a luz amarela da cozinha.

— Maya... — começou Lívia, o fôlego curto.

— Eu sei, Liv — interrompeu Maya, a voz mais rouca do que nunca. — Eu também sinto isso.

Lívia sentiu a confiança que sempre exibira vacilar por um segundo, substituída por uma vulnerabilidade doce.

— Sente o quê?

Maya deu a volta na ilha da cozinha, ficando de frente para ela. Ela era um pouco mais alta, o que a obrigava a inclinar levemente a cabeça.

— Que o mundo pode ser enorme, e que a gente pode ir para onde quiser... mas que, no fim do dia, eu só quero voltar para onde você está.

Maya levou a mão ao rosto de Lívia, os dedos longos traçando o caminho das sardas nas bochechas.

— Minha mãe diz que eu devo andar como se o mundo pertencesse a mim — sussurrou Lívia, lembrando-se das palavras que moldaram sua postura.

— E pertence? — perguntou Maya, aproximando-se ainda mais.

— Não — respondeu Lívia, fechando os olhos quando sentiu a respiração de Maya contra sua pele. — O meu mundo é muito menor do que as pessoas imaginam. E ele está bem aqui.

O beijo foi calmo, um encontro de anos de convivência, segredos compartilhados e uma lealdade que agora se transformava em algo novo. Tinha gosto de torta de limão e a intensidade de tudo o que elas haviam construído juntas. Era o encontro do sol com a lua, o equilíbrio perfeito que elas sempre souberam que existia, mas que só agora tinham coragem de nomear.

Quando se afastaram, Maya tinha um daqueles sorrisos raros que transformavam seu rosto, fazendo seus olhos se fecharem um pouco, exatamente como os de Lívia.

— Então... — começou Maya, recuperando o fôlego — isso significa que eu sou oficialmente da família agora?

Lívia riu, uma risada que encheu a cozinha silenciosa.

— Maya, você sempre foi. Só que agora, o Tio Jorge vai ter um motivo real para fazer piadas sobre nós no próximo jantar.

— Eu aguento o Tio Jorge — disse Maya, puxando Lívia para um abraço, sentindo o perfume de baunilha envolver seus sentidos. — Desde que você esteja segurando a minha mão por baixo da mesa.

— Sempre — prometeu Lívia.

Lá fora, a noite estava tranquila. A lua e o sol podiam estar em lados opostos do céu, mas ali, naquela cozinha iluminada, eles finalmente haviam se encontrado. E enquanto o resto do mundo continuava a girar, para Lívia Montel e Maya Bellini, o tempo parecia ter parado no exato momento em que descobriram que a melhor parte de crescer era ter alguém com quem compartilhar a jornada.

No domingo seguinte, a cadeira ao lado de Lívia não estaria apenas ocupada por uma amiga. Estaria ocupada pelo amor que sempre estivera lá, disfarçado de rotina, esperando apenas o momento certo para florescer entre laços de seda e jaquetas de couro.

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