
Atrás dos Vidros Escuros
A brisa fria do interior gaúcho cortava a saída do galpão, agitando a barra do vestido tradicional de Lily enquanto ela se despedia dos últimos amigos na porta do CTG. O som da gaita e das risadas ainda ecoava pelo pátio de terra batida, misturado ao cheiro persistente de lenha queimada e fumaça de churrasco. Lando ainda tentava gritar alguma gracinha de longe, rindo alto ao lado de Carmen, mas Lily apenas fingiu ignorar, sentindo as bochechas queimarem ao lembrar dos minutos anteriores.
Estar sentada no colo de Oscar na frente de todo mundo, com a mão pesada e quente dele repousando com tanta naturalidade sobre sua cintura, havia rompido uma barreira invisível.
Agora, a poucos metros dali, no estacionamento mal iluminado sob as copas das acácias, aguardava o contraste silencioso da vida que Oscar levava longe dos tablados: um esportivo de luxo, preto e impecável, cujos faróis cortaram a penumbra assim que a chave de aproximação no bolso dele acionou o sistema.
Oscar abriu a porta do passageiro para ela com um cavalheirismo quase natural. Não havia pressa em seus gestos.
— Entra logo antes que o vento te congele, guria — murmurou ele, a voz baixa e aveludada, quebrando o silêncio da noite.
Lily obedeceu, deslizando para dentro do banco de couro aquecido. O interior do carro parecia um casulo impenetrável: o aroma amadeirado do perfume caro de Oscar se misturava ao cheiro inconfundível de couro novo e refinado. O painel digital iluminava o ambiente com uma luz suave e âmbar, e a suspensão mal oscilou quando Oscar contornou a frente do veículo e assumiu o assento do motorista.
Ele fechou a porta com um estalo abafado que isolou por completo qualquer barulho exterior. O silêncio que se instalou foi imediatamente preenchido pela tensão que vinham acumulando a noite inteira.
Oscar deu a partida. O motor roncou baixo, um som potente e controlado que fez o assoalho vibrar sutilmente antes de sossegar em uma marcha lenta quase imperceptível.
— Você sabe que o Lando não vai me deixar em paz na próxima semana inteira, não sabe? — Lily começou, quebrando o gelo enquanto apoiava a cabeça no encosto e virava o rosto na direção dele.
Oscar colocou o câmbio em marcha, olhando pelo espelho retrovisor com uma expressão terrivelmente calma. As mangas de sua camisa social branca estavam dobradas até os antebraços, revelando os tendões fortes e o relógio pesado de aço reluzindo na penumbra.
— Deixa ele falar — respondeu Oscar, virando o volante com apenas uma das mãos enquanto manobrava o carro para fora do pátio com uma facilidade desconcertante. — Ele tem inveja, só isso.
Lily soltou uma risada baixa, os olhos descendo involuntariamente para as mãos dele na direção.
— Inveja de quê, exatamente, Piastri?
Oscar freou suavemente antes de entrar na estrada principal. Ele não respondeu de imediato. Em vez disso, virou o rosto para encará-la, seus olhos escuros brilhando sob os reflexos das luzes da rodovia. O canto de seus lábios se curvou em um meio sorriso perigoso.
— De quem estava no meu colo, por exemplo — disparou ele, sem nenhum pingo de hesitação.
O estômago de Lily deu uma cambalhota. Ela engoliu em seco, tentando manter a postura despretensiosa, cruzando as pernas e ajeitando a saia volumosa que ocupava o espaço entre os dois.
— Você é muito convencido. Eu só sentei ali porque não tinha outro lugar para sentar, seu folgado.
— Não tinha? — Oscar acelerou na pista aberta. A força com que o carro ganhou velocidade sem o menor esforço fez as costas de Lily colarem de leve no banco. — Tinha pelo menos três cadeiras vazias na mesa do lado. Mas quando eu te chamei, você nem pensou duas vezes. Veio direto.
— Porque eu sou uma pessoa educada e prestativa — retrucou ela, tentando sustentar o olhar dele quando Oscar desviou a atenção da pista por um segundo para fitá-la.
— Educada? — Ele soltou um riso rouco, desacelerando um pouco para manter a viagem confortável. Com a mão direita livre agora que o carro rodava macio no asfalto liso, Oscar levou os dedos até o queixo dela, tocando sua pele com uma carícia leve, quase um roçar de polegar que fez o corpo de Lily arrepiar dos pés à cabeça. — Você adora fingir, Lily. Mas suas bochechas te entregam sempre.
Lily sentiu o coração disparar no peito com a audácia dele. Afastou a mão dele com um tapinha delicado, mas não resistiu em entrelaçar os dedos aos dele por um breve segundo antes de soltar.
— Você não tem vergonha nenhuma, não é? A Manuela estava olhando para a gente a noite toda.
A menção ao nome da outra garota fez a atmosfera do carro mudar ligeiramente, tornando-se mais densa. Oscar não pareceu irritado, apenas profundamente focado. Ele desceu a mão direita do câmbio e a apoiou na coxa de Lily, apertando de leve por cima do tecido do vestido tradicional. A mão era grande, firme e tão morna que parecia queimar.
— E por que eu deveria me importar com quem a Manuela estava olhando? — Oscar perguntou, mantendo os olhos na pista vazia, mas deixando claro pelo tom de voz que não estava brincando. — Eu já te disse no banheiro: ela pode falar a besteira que quiser. Eu nunca dei moral para ela. Nem para ela, nem para nenhuma outra prenda daquele lugar.
Lily olhou para o perfil dele. A linha do maxilar firme, o foco inabalável no trânsito, a calma que ele sempre carregava consigo. Era quase injusto como ele conseguia parecer tão inabalável enquanto ela estava à beira de um colapso toda vez que o via sorrindo para outra pessoa.
— Eu sei — admitiu ela em voz baixa, deslizando a mão para cobrir a dele, que continuava em sua coxa. — Mas quando ela disse aquilo... sei lá. Pareceu real por um segundo. E me deu raiva.
Oscar virou a palma da mão para encaixar seus dedos entre os dela, apertando com firmeza.
— Você ficou com ciúmes, Lily.
Não era uma pergunta. Era uma afirmação pura e cristalina.
— E se eu tiver ficado? — desafiou ela, inclinando o corpo um pouco mais na direção do console central, a respiração começando a falhar pela proximidade. — Eu tenho esse direito?
O carro parou no único semáforo daquela via secundária, a luz vermelha tingindo o interior do veículo em um tom escarlate intenso. Oscar puxou o freio de mão elétrico, virou o tronco em direção a Lily e apoiou o cotovelo no console, ficando perigosamente perto do rosto dela.
— Você tem todos os direitos do mundo sobre mim, e você sabe muito bem disso — disse ele, a voz descendo uma oitava, tornando-se um sussurro grave que parecia vibrar diretamente contra a pele dela. — Você é quem fica criando regras na sua cabeça, tentando fingir que a gente é só dois amigos que se encontram para ensaiar chula e balaio no fim de semana.
Lily prendeu a respiração. A fragrância dele a entorpecia. Ele estava tão perto que ela conseguia ver os detalhes dourados na íris castanha dele, a leve textura dos lábios que ela conhecia tão bem dos beijos roubados na despensa do CTG.
— Oscar... a gente nunca conversou sobre isso direito. As coisas só foram acontecendo.
— Então vamos conversar agora — ele rebateu, levantando a mão livre para afastar uma mecha solta do cabelo escuro de Lily, deixando os nós dos dedos deslizarem lentamente pelo pescoço macio dela, até a base da clavícula. — Você me perguntou mais cedo o que eu queria quando eu disse que você não estava pronta para ouvir. Quer saber a resposta agora?
O semáforo mudou para o verde, mas a rua estava deserta. Oscar não moveu o carro por alguns longos segundos, apenas esperando a resposta nos olhos dela. Lily sentiu a boca secar.
— Quero — sussurrou ela, incapaz de recuar.
Um brilho lento e predatório passou pelos olhos de Oscar. Em vez de responder com palavras, ele se inclinou ainda mais e capturou a boca dela com uma precisão que a fez suspirar contra seus lábios. O beijo começou faminto, urgente, quebrando semanas daquela cautela desesperadora com que se tratavam perto dos outros. A mão dele deslizou para a nuca de Lily, os dedos se embrenhando nos fios de cabelo e puxando-a suavemente mais para perto, aprofundando o contato.
Lily gemeu baixo, cedendo imediatamente, deslizando as mãos pelo peito firme dele, sentindo os batimentos acelerados sob o linho fino da camisa. Oscar a beijou como se estivesse guardando cada centímetro daquele momento há meses: firme, possessivo, mas com uma doçura tão intensa que fez os olhos dela arderem de emoção.
Quando uma buzina distante soou no cruzamento mais atrás, Oscar se afastou devagar, seus lábios ainda roçando os dela enquanto recuperavam o fôlego compartilhado.
— Eu quero tudo, Lily — murmurou ele contra a boca dela, com a respiração quente misturada à sua. — Eu quero você do meu lado no tablado, na arquibancada, na minha casa, na minha cama. Eu não quero mais disfarçar nada para o Lando, nem para a Carmen, e muito menos para a Manuela.
Ele soltou a nuca dela devagar, acariciando sua bochecha antes de engatar a marcha e finalmente acelerar, deixando a interseção para trás enquanto Lily tentava desesperadamente colocar o ar nos pulmões de volta.
— Você... você joga muito sujo, sabia? — disse ela, com a voz embargada, ajeitando o cabelo enquanto um sorriso brilhante e involuntário tomava conta do seu rosto. — Me beija desse jeito no meio da avenida e depois solta uma bomba dessas?
Oscar riu. Foi uma risada genuína, despreocupada e aberta — o tipo de riso que ele raramente mostrava para qualquer outra pessoa no CTG, onde sua postura sempre fora austera e calculista.
— Eu precisava garantir que você estivesse prestando atenção.
— Eu estou sempre prestando atenção em você, Piastri. Esse é o meu maior problema.
— Não é problema nenhum. É a solução — devolveu ele prontamente, esticando o braço para repousar a mão outra vez sobre a dela, agora pousada sobre o colo. — Você não respondeu se está pronta para isso.
Lily virou a mão para segurar a dele com força, entrelaçando os dedos mais uma vez e apoiando o polegar na pele macia do dorso de sua mão. Ela olhou para a estrada escura à frente, sentindo uma paz estranha e avassaladora finalmente se assentar em seu peito, dissipando qualquer insegurança idiota que Manuela ou qualquer outra pessoa pudesse ter plantado.
— Eu estive pronta o tempo todo, Oscar. Você é quem demorou demais para me dizer com todas as letras.
Oscar virou a cabeça para ela por uma fração de segundo, e o sorriso satisfeito que ele tinha no rosto era de quem havia acabado de vencer a competição mais importante de sua vida.
— Demorei porque você é teimosa, guria. Se eu falasse antes, você ia fugir dizendo que era cedo demais.
— Não ia, não.
— Ia sim. Você pensa demais, Lily. Analisa tudo como se estivesse avaliando a coreografia de uma dança tradicional. Às vezes a gente só tem que seguir o compasso e deixar o corpo ir.
Lily não conteve um risinho safado, arqueando uma sobrancelha.
— Ah, é? Então agora você é filósofo da dança gaúcha também?
— Sou prático — disse ele, desacelerando o carro enquanto entrava no bairro residencial silencioso onde Lily morava. — E tenho excelente bom gosto.
O carro deslizou até a frente do portão do prédio dela, parando rente à calçada arborizada. O motor silenciou completamente assim que Oscar apertou o botão de desligar, deixando apenas o suave brilho do painel e o calor aconchegante da cabine ao redor deles.
Nenhum dos dois fez menção de abrir a porta.
Lily soltou o cinto de segurança e se virou de lado no banco, dobrando uma das pernas para encará-lo no espaço íntimo do carro. Oscar fez o mesmo, soltando seu próprio cinto e apoiando o braço nas costas do banco do passageiro, cercando-a com sua presença imensa e protetora.
— Então... agora nós somos oficiais? — ela perguntou, o tom brincalhão escondendo uma curiosidade doce e ansiosa.
Oscar levou os dedos até o lábio inferior dela, puxando-o devagar com o polegar.
— Depende de você, Lily. Se você entrar por aquela porta agora sem me convidar para subir, eu vou ter que esperar até o ensaio de terça-feira para te beijar na frente de todo mundo e oficializar na marra.
Os olhos de Lily se arregalaram em uma mistura deliciosa de choque e deleite.
— Você não teria coragem! Na frente do patrão do CTG?
— Tenta a sorte para ver — sussurrou ele, aproximando o rosto mais uma vez, o olhar cravado no decote modesto do vestido dela antes de subir lentamente para seus lábios. — Eu já esperei tempo demais, Lily. Não vou passar mais nenhuma noite no CTG fingindo que a única coisa que eu quero dançar com você é um xote.
A respiração dela falhou novamente. A audácia de Oscar, combinada com aquela segurança silenciosa e avassaladora que só ele possuía, a deixava completamente desarmada.
Lily estendeu a mão, segurando o colarinho da camisa dele e puxando-o para perto até sentir a respiração quente dele contra o seu pescoço.
— O meu apartamento está quentinho — sussurrou ela, rente ao ouvido dele, sentindo os músculos dos ombros de Oscar ficarem tensos instantaneamente sob suas mãos. — E eu acho que a gente tem muito o que conversar longe de qualquer tablado.
Oscar fechou os olhos por um segundo, engolindo em seco diante da provocação explícita, antes de se afastar apenas o suficiente para encará-la com um brilho escuro e faminto de desejo.
— Destrava esse portão logo, Lily — ordenou ele em um tom baixo, rouco e irresistível, abrindo a porta do carro e pisando na calçada fria da noite, pronto para nunca mais soltar a mão que havia escolhido segurar.
