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Nossa princesa

Fandom: It: a coisa

Criado: 18/09/2026

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Sombras e Segredos em Derry

O silêncio na residência dos Sato era uma raridade preciosa, interrompido apenas pelo som rítmico da caneta de Hanna deslizando sobre o papel e o tique-taque suave do relógio de parede. A luz da tarde filtrava-se pelas cortinas, banhando a sala em tons de âmbar. Hanna, com seus longos cabelos pretos lisos caindo como uma cascata de seda pelas costas e a franja perfeitamente alinhada sobre os olhos castanhos expressivos, estava concentrada. Aos dezessete anos, ela possuía uma beleza delicada e marcante, herança de sua ascendência japonesa que se destacava na pequena e sombria cidade de Derry.

No sofá, a pequena Yumi, de apenas dois anos, dormia profundamente. Ela era a imagem cuspida de Hanna, uma versão em miniatura com as mesmas bochechas coradas e o mesmo brilho nos cabelos. Yumi segurava um giz de cera entre os dedos gordinhos, mesmo no sono, um testamento de sua paixão precoce por desenhar e seu amor infinito por animais, que preenchiam todas as folhas de papel da casa.

Hanna suspirou, fechando o livro de história. O clima em Derry andava pesado, mais do que o normal. Havia algo no ar, uma tensão que parecia emanar dos bueiros e das sombras das árvores, mas ali, dentro daquela casa, ela se sentia segura.

O som agudo da campainha cortou o silêncio.

Hanna sobressaltou-se, olhando imediatamente para a irmã. Yumi apenas se mexeu levemente, soltando um suspiro infantil, mas não acordou. Hanna levantou-se, ajeitando a blusa que moldava perfeitamente seu corpo, e caminhou até a porta. Ela tinha uma ideia de quem poderia ser, e seu coração acelerou, não de medo, mas de uma antecipação proibida.

Ao abrir a porta, o ar fresco da rua entrou, trazendo consigo o cheiro de jaquetas de couro e rebeldia. Parados ali estavam Henry Bowers, Patrick Hockstetter e Victor Criss.

Um sorriso iluminou o rosto de Hanna, um contraste vibrante com a reputação perigosa que aqueles três carregavam pela cidade. Para o resto de Derry, eles eram delinquentes, valentões que aterrorizavam crianças. Para Hanna, eles eram algo muito diferente.

— Entrem — sussurrou ela, colocando o dedo indicador sobre os lábios. — Mas em silêncio, por favor. A Yumi está dormindo.

Henry, o líder do grupo, deu um passo à frente com um sorriso arrogante que sempre fazia as pernas de Hanna vacilarem. Patrick, com seu olhar perturbadoramente intenso, e Victor, que parecia o mais cauteloso do trio, entraram logo em seguida. Eles se moviam como predadores que conheciam bem aquele território. Ninguém em Derry desconfiava que a "garota perfeita" dos Sato namorava, em segredo, os três membros mais temidos da gangue de Bowers.

Assim que a porta foi fechada, Henry não perdeu tempo. Enquanto Hanna se virava para guiá-los até a cozinha, ela sentiu um tapa firme e possessivo em sua bunda. O estalo ecoou baixo, seguido pelo riso abafado de Patrick.

— Henry! — ela sibilou, o rosto corando, mas seus olhos brilhavam com diversão.

— Senti sua falta, boneca — disse Henry com a voz rouca.

Ele caminhou até a mesa de jantar, puxou uma das cadeiras e sentou-se com a arrogância de um rei. Antes que Hanna pudesse protestar, ele a puxou pelo pulso, fazendo-a sentar em seu colo. Hanna acomodou-se, sentindo a força dos braços dele ao redor de sua cintura. Henry inclinou a cabeça e enterrou o rosto no pescoço dela, deixando um beijo úmido e quente ali, fazendo Hanna arrepiar-se da cabeça aos pés.

— Onde está o Belch? — perguntou Hanna, tentando manter o foco enquanto Patrick se encostava no balcão, observando-os com aquele seu jeito peculiar, e Victor se sentava na cadeira ao lado.

— Ocupado com o carro — respondeu Victor, passando a mão pelo cabelo. — Ele não queria vir e correr o risco de acordar a "miniatura de Hanna". Ele sabe que você mata a gente se a pequena perder o sono de beleza.

— Ele está certo — Hanna sorriu, relaxando contra o peito de Henry. — Ela teve um dia agitado no parque. Viu um cachorro e tentou levar para casa.

— Ela tem bom gosto — comentou Patrick, sua voz arrastada. — Animais são interessantes. Às vezes, interessantes até demais.

Hanna lançou a Patrick um olhar de aviso. Ela sabia das tendências sombrias dele, mas entre aquelas quatro paredes, havia um equilíbrio estranho e funcional entre eles. Eles a protegiam do mundo, e ela, de certa forma, os mantinha minimamente humanos.

— Como foi na escola hoje? — perguntou Henry, sua mão subindo pela coxa de Hanna sob a mesa. — Aqueles perdedores continuam no seu caminho?

— Eles não se aproximam de mim, Henry. Sabem quem são meus "guarda-costas" — Hanna brincou, embora soubesse que a realidade era mais tensa. — Mas eu ouvi coisas. As pessoas estão com medo. Mais desaparecimentos.

O clima na sala esfriou por um momento. O nome de Derry sempre evocava sombras. Henry apertou o abraço em Hanna, sua expressão endurecendo.

— Deixe que tenham medo. Enquanto você estiver conosco, nada vai te tocar — afirmou Henry com uma convicção absoluta.

— Nem a você, nem à pequena — completou Victor, olhando para a sala onde Yumi repousava.

Eles ficaram ali por algum tempo, conversando em tons baixos. Hanna contava sobre seus planos para a faculdade de artes, algo que Henry fingia não se importar, mas que Victor ouvia com atenção. Patrick, por outro lado, parecia mais interessado em brincar com um isqueiro, observando a chama dançar, até que Hanna estendeu a mão e fechou a tampa do objeto com um clique.

— Sem fogo na cozinha, Patrick — repreendeu ela, suavemente.

Patrick deu um sorriso de lado, guardando o isqueiro no bolso. Havia uma dinâmica única ali; Hanna não era apenas uma namorada, ela era o centro de gravidade deles.

De repente, um som baixo de bocejo veio da sala, seguido pelo barulho de pés pequenos tocando o chão de madeira. O grupo ficou em silêncio instantâneo.

— Hanna? — a voz fina e sonolenta de Yumi chamou.

Segundos depois, a menininha apareceu no arco da porta da cozinha. Ela esfregava um dos olhos com a mãozinha, enquanto a outra arrastava um pequeno cobertor de lã. Ao ver a cozinha cheia, seus olhos castanhos se arregalaram, perdendo o rastro de sono.

— Yumi! Você acordou, meu amor — Hanna disse, levantando-se do colo de Henry, embora ele tenha relutado por um segundo antes de soltá-la.

Yumi não hesitou. Ela ignorou os três rapazes corpulentos e de aparência ameaçadora e correu direto para a irmã. Hanna a pegou no colo com facilidade, acomodando a pequena em seu quadril. Yumi escondeu o rosto no pescoço de Hanna, respirando fundo o perfume da irmã mais velha.

— Ela ainda está com sono — comentou Victor, suavizando a expressão. Era difícil não ser afetado pela pureza de Yumi, mesmo para alguém como ele.

Hanna beijou a bochecha da irmã e se virou para os meninos.

— Digam oi para a Yumi.

— E aí, pequena Sato — disse Henry, com um tom de voz que ele raramente usava com qualquer outra pessoa no mundo.

Yumi virou a cabeça devagar, olhando para Henry. Ela deu um sorrisinho tímido. Ela gostava de Henry porque ele era "grande e forte como um urso", como Hanna costumava dizer.

— Hen-ry — balbuciou a menina, apontando para ele.

Patrick inclinou-se para frente, curioso.

— E eu, pequena? Já desenhou algum gato hoje?

Yumi olhou para Patrick com seriedade.

— Gato não. Desenhei o Totó — ela respondeu, referindo-se ao cachorro que vira no parque. — Patrick quer ver?

— Depois, pequena. Agora você precisa comer alguma coisa, não? — interveio Hanna, caminhando até a geladeira com a irmã no colo.

— Quero suco — pediu Yumi, agarrando-se mais forte ao pescoço de Hanna. — E quero desenhar com o Vic.

Victor soltou uma risada curta, surpreso.

— Parece que fui recrutado para o turno da arte.

Hanna colocou Yumi na cadeira ao lado de Victor e serviu um copo de suco. A cena era surreal: três dos adolescentes mais perigosos de Derry sentados à mesa de uma cozinha suburbana, cuidando de uma criança de dois anos enquanto a namorada secreta deles organizava os lanches.

— Você sabe que se alguém visse isso, a nossa reputação iria para o lixo em cinco segundos, não sabe? — comentou Henry, observando Yumi tentar desenhar um círculo no papel de rascunho de Hanna, enquanto Victor segurava o giz para ajudá-la.

— A reputação de vocês é baseada em medo, Henry — Hanna disse, aproximando-se dele e passando as mãos pelos ombros largos do namorado. — Um pouco de humanidade não vai matar vocês.

— O que nos mata é essa cidade — murmurou Patrick, olhando para a janela, onde o sol começava a se pôr, alongando as sombras no quintal.

Hanna sentiu um calafrio. Ela sabia do que ele estava falando. Derry tinha um jeito de consumir as pessoas, de transformar dor em algo pior. Mas ali, com o calor do corpo de Henry, a presença protetora de Victor e a excentricidade de Patrick, ela sentia que podia enfrentar qualquer coisa.

Yumi, alheia aos pensamentos sombrios dos adultos, puxou a manga da jaqueta de Victor.

— Olha, Vic! É um coelho!

Victor olhou para o borrão no papel que, com muita força de vontade, lembrava um animal.

— É o melhor coelho que já vi, Yumi.

Hanna sorriu, sentindo uma onda de afeto. Ela sabia que a vida que levava era complicada. Namorar três rapazes ao mesmo tempo, manter isso em segredo da família e da cidade, e ainda garantir que sua irmã crescesse em um ambiente cheio de amor era um desafio constante. Mas, ao ver a forma como Henry olhava para ela — com uma mistura de posse e adoração — e como os outros dois se encaixavam em sua vida, ela não mudaria nada.

— O que vamos fazer hoje à noite? — perguntou ela, voltando para o colo de Henry, enquanto Yumi continuava entretida com Victor e seus gizes de cera.

— O de sempre — respondeu Henry, sua voz descendo para um sussurro destinado apenas aos ouvidos dela. — Mas primeiro, vamos garantir que a pequena Sato vá dormir cedo. Temos muito o que conversar... e outras coisas para fazer.

Ele deu uma piscadela maliciosa, e Hanna riu, escondendo o rosto no ombro dele. O perigo podia estar espreitando nas esquinas de Derry, e o futuro poderia ser incerto, mas naquele momento, entre segredos e desenhos de criança, Hanna Sato tinha tudo o que precisava.

— Hanna? — Yumi chamou novamente, levantando o papel com orgulho. — Fiz a gente.

Hanna olhou para o desenho. Eram várias figuras palito. Duas maiores, de mãos dadas, e três figuras grandes e robustas ao redor delas, como uma muralha.

— Ficou lindo, meu amor — disse Hanna, com a voz embargada. — Exatamente como somos.

Henry, Patrick e Victor olharam para o desenho simples. Por um breve momento, a dureza em seus olhos desapareceu, substituída por algo que se assemelhava a paz. Em Derry, a paz era um conceito estranho, mas naquela cozinha, sob o olhar atento de Hanna, ela era real.

— É melhor a gente começar a pensar no jantar — sugeriu Victor, quebrando o transe. — Antes que a pequena decida que quer comer giz de cera.

Hanna levantou-se, pronta para começar a rotina da noite. A noite em Derry pertencia aos monstros e aos segredos, mas a luz daquela casa, protegida por três lobos e governada por uma jovem de olhos castanhos, não se apagaria tão cedo.

— Henry, ajude a Yumi com os brinquedos. Patrick, pegue os pratos. Victor, você me ajuda com o fogão — comandou Hanna, assumindo o controle com a autoridade que só ela possuía sobre eles.

Eles obedeceram sem questionar. Porque, no fim das contas, não importava o quão temidos fossem nas ruas, ali eles eram apenas deles. E Hanna era o coração que mantinha todos batendo em uníssono.

A noite caiu sobre Derry, mas dentro da casa dos Sato, o calor da família — daquela família peculiar e secreta — era o suficiente para manter as sombras à distância. Pelo menos por enquanto.

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