
Dois nome um destino
Fandom: Luísa e Marcos
Criado: 19/09/2026
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Tarde de Açaí, Olhares e Segredos Roubados
Depois daquela aula insana da professora Mary na sexta-feira, em que ela resolveu passar Pânico na Floresta e o clima na sala ficou dividido entre sustos bobos e uma tensão quase insuportável no ar, tudo o que eu precisava era de um final de semana tranquilo. Mas a verdade é que, desde aquele dia, minha cabeça simplesmente não conseguia se desligar de uma única pessoa: Marcos. Eu ainda lembrava com clareza da forma como ele me olhava nas partes mais tensas do filme, do braço dele encostando no meu na carteira e do sorrisinho de canto que parecia saber exatamente o efeito que causava em mim.
No sábado à tarde, meu celular não parava de vibrar na cômoda do quarto. O grupo do WhatsApp, intitulado carinhosamente de "Os Sem Rumo", estava pegando fogo. Érica mandava figurinhas sem parar, Maísa exigia que todo mundo saísse de casa porque o calor beirava o insuportável, Luís Fernando dizia que só ia se não precisasse andar muito e Maria Eduarda já tinha traçado o roteiro: encontrar na praça central e ir direto para a melhor sorveteria da cidade. Lívia, misteriosamente, só respondia com mensagens curtas e evasivas, o que me fez arquivar a pulga atrás da orelha para investigar depois.
Me arrumei com uma pressa que tentei disfarçar até de mim mesma. Coloquei um short jeans confortável, uma regata branca e prendi o cabelo em um rabo de cavalo alto, embora tenha soltado e prendido de novo umas quatro vezes na frente do espelho. Eu sabia que não precisava de nada exagerado para um rolê simples com meus melhores amigos, mas no fundo, bem no fundo daquele cantinho da mente que a gente finge que não existe, eu torcia para que ele aparecesse.
Quando cheguei à praça, encontrei o pessoal reunido debaixo da sombra de uma amendoeira gigante. Maísa e Érica estavam sentadas no banco dividindo um fone de ouvido, William gesticulava animadamente enquanto contava alguma história exagerada para Maria Eduarda e Luís Fernando parecia lutar para não cochilar em pé. Aline e Alexia tinham avisado no grupo que chegariam mais tarde, então éramos nós ali, no calor das quatro da tarde.
— Até que enfim a princesa apareceu! — gritou William assim que me viu, abrindo os braços como se não me visse há anos. — Já achei que você ia dar o cano na gente pra ficar sonhando acordada com você-sabe-quem.
— Cala a boca, William! — retruquei, sentindo minhas bochechas arderem instantaneamente enquanto me aproximava para cumprimentar as meninas. — Eu só demorei pra achar minha chave, tá legal?
— Sei, a chave — Maísa riu, tirando um dos fones e me olhando com aquele olhar semicerrado que lia minha alma desde o sexto ano. — Engraçado que toda vez que você perde a chave, o cabelo tá arrumado de um jeito diferente e tem cheiro de perfume doce no ar. Quem você tá querendo impressionar, Ana Luísa?
— Vocês são insuportáveis, juro por Deus — bufei, revirando os olhos, mas não consegui conter um meio sorriso.
— Deixem ela em paz, gente — disse Lívia, me dando um abraço rápido. Notei que ela segurava o celular com força, digitando freneticamente a cada dois minutos. — Mas que você tá bonitinha hoje, você tá.
— Obrigada, Lívia. Pelo menos alguém aqui tem um pingo de educação — respondi, cutucando as costelas de Maísa.
— Não confunda sinceridade com falta de educação, minha querida — provocou Maria Eduarda, ajeitando a alça da bolsa. — A gente só quer ver você assumir de uma vez por todas o que a escola inteira já sabe.
— Assumir o quê, gente? Não tem nada pra assumir! — insisti, embora meu coração batesse num ritmo totalmente traidor só de pensar na possibilidade.
— Ah, tá bom — William balançou a cabeça em tom de deboche. — E eu sou o Batman. Semana passada na aula da Mary vocês dois quase fundiram as carteiras de tão colados. Aquilo ali não era medo do filme não, viu?
Antes que eu pudesse formular qualquer xingamento digno para rebater as gracinhas do William, uma risada masculina e familiar ecoou vindo do outro lado da calçada. Meu estômago deu uma cambalhota súbita, daquelas que fazem a respiração travar na garganta.
Marcos estava vindo na nossa direção, acompanhado de Lucas e Vinícius. Ele vestia uma camiseta preta básica que caía perfeitamente nos ombros, bermuda clara e um boné virado para trás. Ele estava rindo de algo que Vinícius dizia, mas, no instante em que ergueu os olhos e me viu ali no meio da roda, o riso dele suavizou para um sorriso diferente, mais lento, mais quente. Aquele tipo de sorriso que fazia minhas pernas parecerem feitas de gelatina derretida.
— Olha só quem resolveu dar as caras — comentou Luís Fernando, levantando a mão para cumprimentar o trio com aqueles toques de mão complicados que só os meninos entendiam.
— E aí, galera — disse Lucas, cumprimentando todo mundo. — O sol tá de rachar, né? A gente viu vocês vindo pra cá e resolveu colar junto.
— Sei bem o "junto" de vocês — murmurou William baixinho ao meu lado, levando uma cotovelada certeira da Maria Eduarda para ficar quieto.
— Oi, Luísa — a voz de Marcos soou perto, fazendo os pelinhos da minha nuca se arreopiarem. Ele se adiantou, parando a meio metro de mim. O cheiro amadeirado do desodorante dele invadiu meu espaço pessoal com uma facilidade desconcertante.
— Oi, Marcos — respondi, tentando soar o mais casual e despreocupada possível, falhando miseravelmente no processo de controlar a pulsação. — Não sabia que vocês vinham hoje.
— O Vinícius falou que viu o grupo de vocês comentando de vir tomar sorvete — explicou ele, mantendo os olhos castanhos fixos nos meus, sem a menor vergonha de sustentar o contato. — E, bom... eu imaginei que você estaria aqui.
Uma hesitação pairou entre nós. Um silêncio de apenas dois segundos que pareceu durar uma eternidade, onde ninguém mais na praça parecia existir além de nós dois. Senti minha garganta secar. Eu gostava tanto dele que doía; gostava da maneira como ele inclinava a cabeça para ouvir o que eu dizia, do jeito desajeitado como passava a mão na nuca quando ficava tímido e da coragem descarada que ele tinha de demonstrar interesse quando ninguém mais tinha coragem de dizer uma palavra.
— Hum, que fofo! — Maísa quebrou o encanto com uma tosse falsa e escandalosa, fazendo Lucas e Vinícius caírem na gargalhada. — Se vocês continuarem se encarando assim, o asfalto vai derreter de vez. Vamos logo pra sorveteria antes que eu morra de insolação!
— Concordo plenamente — William apoiou, já se colocando no meio do caminho. — O clima tá pegando fogo aqui, mas eu quero um milk-shake bem gelado pra apagar esse incêndio.
Marcos riu, abaixando a cabeça por um breve instante antes de olhar para mim de novo. Havia um brilho travesso em seus olhos.
— Não liga pra eles — sussurrou ele, dando um passo a mais para o meu lado enquanto começávamos a caminhar pela calçada em direção ao quiosque. — Mas, falando sério... eu vou pagar um açaí pra você hoje.
— Vai pagar? — perguntei, surpresa, arqueando uma sobrancelha para mascarar o frio na barriga. — E desde quando você virou patrocinador do meu estômago?
— Desde que eu decidi que você merece um agrado — respondeu ele com simplicidade, um sorriso convencido brincando em seus lábios. — E também porque eu quero ter certeza de que você vai sentar comigo na mesa.
Meu coração parecia ter subido até a garganta. Fiquei hesitante por um instante, procurando qualquer sinal de brincadeira em sua expressão, mas os olhos dele estavam incrivelmente sinceros. Dei uma risadinha nervosa, olhando para o chão de pedras portuguesas antes de encará-lo novamente.
— Tudo bem, senhor generoso. Mas vai ter que ser daquele com bastante leite condensado e morango, se não eu não aceito.
— O que você pedir, eu pago — disse ele, num tom tão macio que me fez esquecer temporariamente todo o barulho que os outros estavam fazendo na nossa frente.
Chegamos à sorveteria, um lugar charmoso com mesinhas de madeira dispostas na calçada coberta por um toldo listrado. O ar-condicionado lá dentro dava uma sensação deliciosa de alívio contra o mormaço da tarde. O grupo praticamente dominou duas mesas grandes que juntamos num canto. Enquanto Érica e Maria Eduarda iam até o balcão disputar os sabores de massa com Luís Fernando e Vinícius, Marcos foi até o freezer de açaí e voltou com duas tigelas caprichadas, colocando uma bem na minha frente com todo o cuidado do mundo.
— Vê se tá do jeito que você gosta — ele disse, puxando a cadeira para se sentar bem ao meu lado. Os joelhos dele quase encostavam nos meus sob a mesa, criando uma eletricidade constante que me deixava em estado de alerta.
— Perfeito — agradeci, pegando a colher. A mistura de açaí roxo com as frutas vermelhas e o leite em pó parecia deliciosa, mas meu apetite competia seriamente com o nervosismo delicioso de tê-lo tão perto.
— Olha lá, Luísa toda derretida com o açaí do pretendente — provocou William, sentando-se do outro lado da mesa ao lado de Maísa. — Assume logo esse garoto, Luísa! A vida é curta demais pra você ficar fazendo pose de difícil. A Mary passou aquele filme de terror justamente pra aproximar as almas gêmeas e você aí, travada.
— William, você não consegue ficar cinco minutos em silêncio sem passar vergonha alheia? — protestei, sentindo meu rosto queimar pela milésima vez naquele dia.
— Não consigo, é meu charme — ele respondeu na maior cara de pau, roubando um morango da minha tigela com o garfo. — E você, Marcos, não bota uma pressão nessa menina? Se depender dela, vocês só dão as mãos na formatura do ensino médio.
— Eu tenho paciência, William — Marcos rebateu calmamente, lançando um olhar de lado para mim que quase me fez engasgar com a colherada. — O que é bom vale a pena esperar.
Minha cabeça girou. A resposta dele calou até mesmo o William por dois segundos inteiros. Maísa me deu um chute por baixo da mesa, com os olhos arregalados em uma mistura de choque e aprovação pura. Eu mordi o lábio inferior, sem saber onde enfiar a cara, mas sentindo um calor no peito que não tinha nada a ver com o clima lá fora. Marcos esticou o braço por cima do encosto da minha cadeira, tão natural e seguro de si que parecia que pertencíamos um ao outro há anos.
— Ai, gente, chega, vocês me deixam tonta — comentou Maria Eduarda, sentando-se e equilibrando uma taça enorme de sorvete de pistache. Ela olhou em volta e franziu a testa. — Cadê a Lívia? Ela estava com a gente até agora pouco.
Olhei para a porta da sorveteria e vi Lívia parada perto do balcão externo, mexendo nos cabelos com uma ansiedade visível. Ela olhava para a esquina a cada dez segundos, ajustando o vestidinho florido que usava.
— Ela tava esperando alguém — comentei em voz baixa, lembrando das mensagens no grupo. — Acho que sei quem é.
Não demorou nem três minutos para as minhas suspeitas se confirmarem. Uma moto parou perto do meio-fio e de lá desceu um garoto alto, de cabelos escuros e jaqueta jeans jogada sobre os ombros: José Henrique. O próprio motivo dos suspiros e das crises de ansiedade de Lívia nas últimas três semanas de aula.
Ele tirou o capacete, bagunçou o cabelo com uma mão e, quando avistou Lívia parada na entrada da sorveteria, abriu um sorriso largo. Ela deu um passinho hesitante para frente, visivelmente tímida. José Henrique não perdeu tempo. Com passos decididos, ele atravessou a calçada, foi direto até ela e, sem dizer uma única palavra de introdução, segurou a cintura de Lívia com as duas mãos e a puxou com tudo para um beijo de cinema, bem ali na frente de todo mundo, dos clientes da sorveteria e de quem mais estivesse passando na rua.
A nossa mesa inteira paralisou por um milésimo de segundo.
— EITA PORRA! — William gritou a plenos pulmões, batendo na mesa com tanta força que as colheres pularam nas taças.
— William, os modos! — Érica repreendeu, rindo descontroladamente enquanto cobria a boca com as mãos.
— Menina do céu, ela não perdeu tempo! — Maria Eduarda arregalou os olhos, puxando o celular como se quisesse filmar a cena. — Olha a audácia da criatura! A gente achando que ela tava com vergonha da gente e ela combinando o date do século na nossa cara!
O beijo durou o suficiente para fazer todos os adolescentes da nossa mesa aplaudirem em uníssono. Quando José Henrique finalmente soltou Lívia, ela estava completamente vermelha, da cor das cerejas que decoravam o balcão, mas com um sorriso bobo e radiante estampado no rosto. Ele passou o braço em volta dos ombros dela com a maior tranquilidade e os dois vieram caminhando até nós.
— Boa tarde pra quem chegou agora — disse José Henrique, cumprimentando os meninos com a maior naturalidade do mundo, como se não tivesse acabado de dar um show particular na calçada.
— Boa tarde nada, rapaz! — disparou William, apontando a colher na direção dele. — Você quase engoliu a nossa amiga no meio da calçada, José Henrique! Nem um "oi, como vai você" antes? A gente quase teve que chamar o SAMU pra acudir o desmaio da garota!
— Deixa de ser palhaço, William! — Lívia protestou, escondendo o rosto no peito de José Henrique enquanto todos nós caíamos na risada.
— Não liguem pra ele, Zé — disse Maria Eduarda, rindo com gosto. — O William só tá com inveja porque ninguém puxa ele assim no meio da rua pra dar um beijo de novela. Parabéns pelo desempenho, viu? Nota dez pelo impacto visual!
— Obrigado, Maria Eduarda, a gente se esforça — José Henrique riu, puxando uma cadeira para que Lívia se sentasse com ele, enquanto Luís Fernando e Vinícius começavam a puxar coro de parabéns para os dois em tom de brincadeira.
A mesa virou um caos absoluto de piadas, gargalhadas e provocações. William e Maria Eduarda começaram a encenar como teria sido o pedido de namoro imaginário deles, exagerando nos gestos dramáticos até todo mundo chorar de rir.
No meio de toda aquela algazarra maravilhosa, da confusão típica que só um grupo de amigos de verdade conseguia fazer num sábado qualquer, senti um toque suave no meu braço.
Olhei para o lado. Marcos tinha se inclinado mais perto de mim. A distância entre os nossos rostos era mínima; eu conseguia ver as pequenas manchas douradas nos olhos dele e sentir a respiração calma batendo contra a minha bochecha. O barulho da mesa parecia ter ficado distante, como se estivéssemos dentro de uma bolha silenciosa.
— Eles são loucos — ele murmurou baixinho, com aquele sorriso de lado que sempre desarmava todas as minhas defesas.
— Completamente — concordei, com um sussurro hesitante, o coração disparado no peito. — Mas não troco por nada.
— Nem eu — respondeu ele, olhando para mim de uma forma tão intensa que o ar faltou nos meus pulmões. Ele desceu a mão lentamente pelo meu braço até encontrar a minha mão sobre a mesa, entrelaçando os dedos nos meus com cuidado, quase como se pedisse permissão. — Sabe, Luísa... o William fala muita besteira, mas às vezes ele acerta numa coisa.
Engoli em seco, sentindo o calor dos dedos dele contra os meus.
— No quê? — perguntei, a voz saindo quase inaudível.
Marcos deu um sorriso tímido, mordendo o lábio por um instante, parecendo tão vulnerável e sincero quanto eu me sentia naquele exato momento.
— Que a vida é curta demais pra gente ficar esperando o momento perfeito.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, William bateu palmas na nossa frente de novo, quebrando o feitiço, mas Marcos não soltou a minha mão. Pelo contrário: ele apertou meus dedos com firmeza e piscou para mim, deixando claro que aquele era só o começo de uma conversa que ainda tínhamos para terminar. E, pela primeira vez em muito tempo, eu não tive medo nenhum do que viria a seguir.
