
Odio
Fandom: Estilhaça-me
Criado: 19/09/2026
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O Eco do Silêncio em Paris
O quartel-general do Restabelecimento em Paris nunca pareceu tão frio. As paredes de metal escovado, que antes reluziam com a promessa de uma ordem absoluta, agora pareciam apenas lápides erguidas em homenagem a um homem vivo, mas oco. Paris Anderson, o Comandante Supremo, o homem cujos olhos podiam congelar o sangue de um soldado veterano com apenas um olhar, estava sentado atrás de sua mesa maciça.
Seus dedos, longos e pálidos, tamborilavam sobre a superfície fria. Diante dele, relatórios de inteligência detalhavam a localização exata do Santuário. O esconderijo dos rebeldes. O lugar que ele deveria ter reduzido a cinzas semanas atrás.
Mas ele não o fez. E o mundo, ou o que restava dele sob seu comando, começava a sussurrar.
— Senhor? — A voz de um jovem oficial tremeu ao entrar na sala. — Os generais estão aguardando na sala de guerra. Eles questionam o atraso na ofensiva contra o setor do Santuário. A janela de oportunidade climática está se fechando.
Anderson não desviou o olhar da janela, onde a paisagem cinzenta de Paris se estendia como um deserto de concreto.
— Saia — disse ele, a voz tão baixa que era quase um rosnado.
— Mas, senhor, eles insistem em saber por que ainda não atacamos...
Anderson virou-se lentamente. O brilho assassino em seus olhos fez o oficial recuar um passo instintivo.
— Eu disse para sair. Agora.
Quando a porta se fechou, Anderson soltou um suspiro que parecia carregar o peso de todo o continente. Ele se levantou e caminhou até o armário de bebidas, servindo-se de algo forte que queimou sua garganta, mas não conseguiu aquecer o vazio em seu peito.
Ninguém sabia. Ninguém sequer ousava imaginar. O grande e terrível Anderson tinha uma fraqueza, e essa fraqueza tinha nome, curvas suaves e um sorriso que ele não via há meses.
Clara.
Ela era o segredo que ele guardara até de si mesmo por tanto tempo. Sua esposa. A mulher que ele mantivera escondida em uma propriedade privada, longe dos olhos curiosos do Restabelecimento e das intrigas políticas. Ele a amava com uma intensidade que beirava a possessão. Gostava de como ela preenchia o espaço, de como suas curvas eram macias contra a rigidez de seu próprio corpo. Ela era seu porto seguro, a única coisa real em um mundo de mentiras.
Até que ela descobriu quem ele realmente era. Não o marido atencioso que voltava para casa com presentes, mas o monstro que orquestrava o fim da liberdade humana.
E então, ela fugiu.
Ele a rastreou. Levou tempo, mas ele a encontrou. Ela estava lá, no Santuário. Vivendo entre os "ratos", como ele chamava os rebeldes. E o simples pensamento de disparar um único míssil contra aquele lugar, de ordenar uma incursão que pudesse resultar em um estilhaço sequer atingindo a pele dela, o paralisava.
Ele preferia morrer. Ele preferia que o Restabelecimento ruísse a ver Clara ferida por suas próprias ordens.
No Santuário, o clima era de tensão constante, mas para Clara, havia uma paz estranha no trabalho manual. Ela estava na cozinha, ajudando a preparar as rações para os novos refugiados que chegavam diariamente. Seus braços doíam e o suor empapava sua blusa, mas ela preferia essa exaustão ao luxo silencioso da vida que deixara para trás.
— Clara, você precisa descansar — disse Sonya, aproximando-se com um sorriso gentil. — Você está aqui desde o amanhecer.
— Eu estou bem, Sonya — respondeu Clara, limpando o rosto com as costas da mão. — Manter as mãos ocupadas ajuda a não pensar.
— Você ainda pensa nele, não é? — A curandeira baixou o tom de voz. — No homem que você deixou.
Clara sentiu um aperto no coração. Ela nunca contou a ninguém quem era seu marido. Eles sabiam apenas que ela fugira de um oficial de alto escalão. Se soubessem que ela era a mulher de Anderson, o ódio deles a consumiria.
— Todos os dias — admitiu Clara em um sussurro. — Mas não é saudade. É medo. Eu sei do que ele é capaz.
— Ele ainda não nos atacou — comentou Sonya, olhando para o teto de pedra da caverna. — É um milagre. Nossos batedores dizem que o Restabelecimento sabe onde estamos. Eles estão estacionados a poucos quilômetros, mas não avançam. Ninguém entende o porquê.
Clara sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela sabia o porquê. E isso a aterrorizava mais do que a ideia de uma guerra. Paris estava esperando. Ele estava jogando com ela, cercando-a sem tocá-la, como um predador que não quer danificar a presa.
De volta ao quartel-general, Anderson olhava para uma fotografia pequena, escondida dentro de sua carteira. Nela, Clara ria, distraída, com o cabelo caindo sobre o rosto. Ela era gordinha, exuberante, cheia de vida — o oposto exato da estética estéril e magra que o Restabelecimento promovia. Ele sempre a achara perfeita.
A porta de seu escritório se abriu abruptamente. Não era um oficial desta vez. Era Warner, seu filho.
— O que você quer, Aaron? — perguntou Anderson, sem guardar a foto, desafiando o filho a comentar.
Warner caminhou até a mesa, seus olhos verdes analisando a postura do pai. Havia um desprezo mal contido em sua expressão.
— O conselho está em polvorosa — disse Warner, a voz fria e cortante. — Eles acham que você perdeu a coragem. Estão começando a planejar uma substituição. Eles não entendem por que o Santuário ainda está de pé.
Anderson soltou uma risada seca, um som sem alegria.
— Eles não precisam entender. Eles precisam obedecer.
— Você está hesitando por causa dela — afirmou Warner, e por um momento, o ar na sala pareceu sumir. — Eu sei quem está lá. Eu sei quem você está protegendo.
Anderson se levantou num salto, a cadeira caindo para trás com um estrondo metálico. Ele rodeou a mesa e parou a centímetros do rosto do filho.
— Se você tocar em um fio de cabelo dela, se você der uma ordem que coloque a vida dela em risco, eu mesmo farei questão de que sua morte seja lenta o suficiente para você se arrepender de ter nascido.
Warner não recuou.
— Ela fugiu de você, pai. Ela prefere viver em uma caverna, comendo restos, a estar ao seu lado. Você a ama tanto que está disposto a perder o seu império por ela?
— Eu destruiria o mundo inteiro para mantê-la segura — rosnou Anderson. — O império não significa nada se ela não estiver nele.
— Então você é um tolo — disse Warner, virando as costas. — E tolos não sobrevivem neste mundo que você mesmo ajudou a criar.
Quando Warner saiu, Anderson sentiu a fúria borbulhar, mas logo ela foi substituída por uma angústia devastadora. Ele caminhou até o mapa holográfico e tocou o ponto que representava o Santuário.
— Clara... — sussurrou ele para as paredes vazias. — Por que você me obrigou a isso?
Ele sabia que não poderia esperar para sempre. Se ele não atacasse, o conselho enviaria outra pessoa. E essa pessoa não teria o mesmo cuidado. Eles bombardeariam o local até que não sobrasse nada além de pó e ossos.
Ele precisava tirá-la de lá. Ele precisava que ela voltasse, mesmo que tivesse que arrastá-la em correntes. Mas a ideia de ver o ódio nos olhos dela, de ver o medo substituir o amor que um dia ele acreditou que existia, o torturava mais do que qualquer ferimento físico.
Naquela noite, o Santuário estava silencioso. Clara não conseguia dormir. Ela saiu de seu alojamento improvisado e caminhou até a entrada da caverna, onde os guardas vigiavam o horizonte. O ar da noite estava frio, e ela se encolheu em seu casaco surrado.
Longe, no horizonte, ela podia ver as luzes das torres de vigia do Restabelecimento. Eram como olhos de feras espreitando na escuridão.
— Ele está lá — disse uma voz atrás dela.
Clara se virou e viu Juliette. A garota de olhos tristes e toque letal estava parada nas sombras.
— Quem? — perguntou Clara, embora soubesse a resposta.
— O homem que está comandando o cerco. Ele está lá fora. Eu sinto a pressão no ar. É como se a própria atmosfera estivesse carregada de uma intenção sombria.
— Ele não vai atacar — disse Clara, mais para si mesma do que para Juliette.
— Como você pode ter tanta certeza? Ele é o Comandante Supremo Anderson. Ele não tem piedade.
Clara sentiu as lágrimas arderem em seus olhos. Ela olhou para as próprias mãos, que Anderson costumava beijar todas as manhãs antes de sair para suas reuniões de guerra.
— Porque eu sou a única coisa que ele ainda ama — confessou Clara, a voz falhando. — E ele sabe que, se destruir este lugar, ele me destrói junto.
Juliette aproximou-se, a surpresa estampada em seu rosto pálido.
— Você... você é a mulher dele?
— Eu era a esposa de um homem chamado Paris. Eu não sabia que Paris e o Comandante Anderson eram a mesma pessoa até que vi os arquivos no escritório dele.
— Você está nos protegendo — percebeu Juliette. — A sua presença aqui é o que nos mantém vivos.
— Por enquanto — disse Clara, olhando novamente para as luzes distantes. — Mas ele é um homem possessivo, Juliette. Ele não vai aceitar me perder para os rebeldes. Ele vai vir me buscar. E quando ele vier, ele não virá com exércitos. Ele virá por mim.
No quartel-general, Anderson tomou uma decisão. Ele chamou seu guarda-costas mais fiel, um homem que não fazia perguntas e não tinha lealdade ao conselho, apenas a ele.
— Prepare uma unidade de transporte furtiva — ordenou Anderson, vestindo seu casaco preto de oficial. — E uma equipe de contenção de elite.
— Qual o alvo, senhor? — perguntou o soldado.
Anderson olhou para o próprio reflexo no espelho. Ele parecia um fantasma, um homem assombrado por seus próprios desejos.
— Eu vou entrar no Santuário. Sozinho.
— Senhor, isso é suicídio! O lugar está infestado de rebeldes e de... seres com habilidades.
— Eles não vão me tocar — disse Anderson com uma confiança gélida. — Não enquanto eu tiver o que eles mais precisam.
— E o que seria isso, senhor?
— A vida deles.
Ele saiu do escritório, seus passos ecoando como tiros nos corredores de metal. Ele sabia que estava arriscando tudo. Sua posição, seu poder, sua vida. Mas o silêncio de Paris estava se tornando insuportável. Ele precisava ouvir a voz de Clara, precisava sentir o cheiro de sua pele, precisava convencê-la de que, apesar de tudo o que ele era para o mundo, para ela, ele ainda era apenas Paris.
Enquanto o transporte decolava silenciosamente na noite parisiense, Anderson fechou os olhos. Ele imaginou o momento em que a encontraria.
— Eu vou te levar para casa, Clara — sussurrou ele contra o vento. — Mesmo que eu tenha que queimar o resto do mundo para iluminar o nosso caminho.
O Santuário, em sua ignorância, dormia. Mas o monstro estava a caminho, movido não pelo dever ou pela ideologia, mas por uma obsessão que nenhuma guerra poderia apagar. O confronto era inevitável, e Paris Anderson estava disposto a ser o vilão de todas as histórias, desde que, no final, Clara estivesse ao seu lado.
A guerra estava prestes a se tornar pessoal. E em uma guerra de corações, não existem sobreviventes, apenas aqueles que restam para contar a história dos destroços.
