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Mister Demi x Engel

Fandom: Fundamental paper education FPE

Criado: 19/09/2026

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Acordes Abafados sob a Luz da Grafite

A escuridão inicial não era feita de sombras comuns, mas de uma textura áspera, quase como a superfície de uma folha de cartolina pesada deixada ao relento. O cheiro de pó de giz, madeira compensada e grafite espalhado impregnava o ar pesado e rarefeito. No chão frio e nivelado de uma das salas esquecidas da escola, uma respiração fraca começou a ganhar ritmo, entrecortada pelo desespero sutil de um despertar involuntário.

O primeiro a recobrar os sentidos foi o Senhor Demi.

A consciência retornou em ondas lentas e descompassadas, como notas dissonantes tocadas fora do compasso em um metrônomo quebrado. O professor de música piscou seu único olho visível, o esquerdo, de um tom verde-claro cristalino que refletia o pavor imediato da situação. O óculos de aros pretos estava ligeiramente torto em seu rosto, pressionado de mau jeito contra a bochecha pálida. Ele tentou erguer o queixo, sentindo a franja cortada em teclas de piano cair sobre a testa, mas um puxão rígido o manteve colado à superfície do tablado.

Foi então que percebeu.

Seus pulsos estavam posicionados para trás, firmemente entrelaçados e apertados por uma corda vermelha vívida — uma tonalidade que se destacava quase de forma violenta contra as listras pretas e brancas de seus braços e as mangas bufantes de sua camisa de gola alta. O aperto ardia contra a pele de papel, impedindo qualquer circulação livre. Contudo, o pior não eram os braços contidos.

Ao tentar puxar o ar e pedir socorro, Demi foi surpreendido por uma obstrução rígida e volumosa. Uma esfera emborrachada preenchia sua cavidade bucal por completo, forçando seus maxilares a permanecerem abertos em uma posição dolorosa e antinatural. Tiras grossas de couro preto envolviam suas bochechas e se prendiam com fivelas firmes na parte de trás de sua nuca, logo abaixo da linha de seu corte chanel e entre os pequenos chifres pretos que adornavam sua cabeça.

— Mmmph...?! — gemeu ele, o som morrendo na garganta em uma vibração abafada e inútil.

O pânico, sempre tão familiar e implacável para o tímido professor, disparou como uma sequência frenética de arpejos desordenados. O símbolo da colcheia no centro de seu peito subia e descia em um ritmo descontrolado conforme sua caixa torácica se expandia à procura de oxigênio. As botas de salto bateram contra o chão de tábuas em um impulso cego, produzindo um som oco que ecoou pelo cômodo deserto.

Demi esforçou-se para girar o corpo, sentindo os lápis brancos presos entre os cabelos roçarem contra o chão. A sala estava mal iluminada por uma réstia de luar pálido que entrava pelas frestas de uma janela alta. Mesas viradas, folhas rasgadas flutuando no ar estagnado e marcas de arranhões profundos nas paredes davam ao ambiente um ar quase espectral.

Foi quando seu olhar trêmulo pousou em uma silhueta caída a poucos passos de distância.

Ali, deitado de lado em uma postura inerte, estava Engel. O aluno tinha seus longos cabelos brancos e rebeldes espalhados pelo chão, com o rabo de cavalo baixo desfeito pela metade. As duas penas decorativas — uma azul e outra vermelho-alaranjada — pendiam frouxas no topo do lado direito de sua cabeça.

O coração de Demi apertou ainda mais. Engel era um garoto bondoso, sempre prestativo e disposto a intervir quando as coisas fugiam do controle no pátio ou nos corredores. Vê-lo naquele estado, indefeso, despertou no professor um ímpeto desesperado de agir, superando temporariamente sua própria covardia inata.

Arrastando-se de barriga e impulsionando-se com as pontas das botas pretas, o professor deslizou pelo assoalho áspero. As cordas vermelhas rangiam contra os suspensórios pretos presos à sua cintura, raspando dolorosamente na pele.

— Mmm! Mmh! — chamou Demi através da mordaça, tentando modular o tom para soar o mais claro possível.

Ele conseguiu alcançar o garoto e utilizou o ombro para empurrar o torso de Engel com suavidade, porém com urgência. Vendo que o jovem não despertava de imediato, Demi ergueu a perna e deu um toque cuidadoso na lateral do macacão preto do aluno.

— Mmmph! Nngh!

O movimento finalmente surtiu efeito. Um suspiro súbito e entrecortado escapou da garganta de Engel.

O garoto franziu o cenho antes mesmo de abrir os olhos. A primeira sensação que registrou foi a dormência paralisante em seus braços negros e compridos, seguidos por uma tensão sufocante ao redor da boca. Ao erguer as pálpebras, seus olhos se arregalaram em puro choque. Ele tentou falar, tentou perguntar o que estava acontecendo ou onde estava Claire, mas tudo o que saiu foi um murmúrio rouco:

— Mmmff-fhh!

Engel virou a cabeça rapidamente, e a visão do professor de música ajoelhado com dificuldade diante dele confirmou a gravidade da situação. O jovem encarou os próprios braços jogados para trás; seus quatro dedos afiados e pontiagudos flexionavam-se no vácuo, incapazes de alcançar qualquer coisa sólida, enquanto a corda escarlate mordia a junção de seus pulsos. Sua pequena cauda branca agitou-se sob a barra do macacão em um espasmo instintivo de inquietação.

Ele também estava amordaçado. A tira de couro afundava-se contra as comissuras de seus lábios, prendendo a esfera que empurrava sua língua para trás. O gosto de borracha sintética e poeira tornava a respiração pelo nariz a única alternativa viável, mas o pânico inicial fazia seus pulmões arderem em busca de mais ar.

Demi fixou seu único olho visível no aluno, balançando a cabeça freneticamente. Havia uma súplica clara em seu olhar: “O que nós fazemos? O que está acontecendo?”

Engel, apesar de sua juventude, manteve uma centelha de compostura. Seu temperamento amigável e protetor falou mais alto que o medo que gelava suas mãos escuras. Ele assentiu com a cabeça para o professor, tentando transmitir uma calma que nem ele mesmo sentia por inteiro.

Ambos começaram a se debater quase em uníssono.

A sala logo se encheu com o atrito desesperado de corpos contra o assoalho de madeira. Engel rolou de costas para o chão, tentando desesperadamente usar a flexibilidade dos braços para trazer os pulsos amarrados por baixo dos quadris e passá-los para a frente do corpo. Seus sapatos pretos de pequenos saltos arranharam o solo, as polainas listradas em azul e vermelho escorregando levemente com os movimentos bruscos. Porém, as amarras vermelhas eram curtas demais, atando seus antebraços pretos em um ângulo quase impossível de manobrar.

— Nnngh! — grunhiu Engel, o suor frio começando a brotar em sua testa e empapar as mechas brancas desgrenhadas.

Ele tentou esfregar a lateral da face contra o joelho erguido, buscando friccionar a tira de couro para fazê-la escorregar por cima de suas orelhas ou soltar a fivela. No entanto, o couro era espesso e novo, e a mordaça de bola continuava perfeitamente centralizada entre seus dentes, intransponível.

Ao lado dele, o Senhor Demi estava à beira de uma crise de nervos completa. Seus movimentos eram espasmódicos e desajeitados. O professor sacudia a cabeça de um lado para o outro com violência, na esperança ingênua de que o adereço simplesmente caísse. Os lápis brancos em seu cabelo balançavam perigosamente, e a armação dos óculos finalmente escorregou pela ponte do nariz, caindo com um estalo seco sobre uma folha de papel rasgada.

Sem os óculos, a visão de Demi turvou-se em manchas contrastantes de branco e cinza. O isolamento sensorial aumentou seu pânico de forma exponencial.

— Mmm-hnnn! Hmph! — gritou Demi, com a voz completamente estrangulada pelo bloqueio em sua garganta.

Lágrimas de frustração e ansiedade começaram a se acumular no canto de seu olho esquerdo, escorrendo pelas bochechas e umedecendo o couro da mordaça. Ele curvou a coluna, dobrando os joelhos em direção ao peito, e tentou alcançar os nós atrás das costas usando a ponta pontiaguda de seus chifres ou esfregando as mãos contra a parede mais próxima, mas tudo o que conseguiu foi esfolar a pele do punho.

Engel percebeu o desespero crescente de seu professor e rolou novamente de bruços, empurrando-se com os cotovelos e os joelhos até encostar as costas nas costas do Senhor Demi.

O contato físico fez o professor sobressaltar-se com um arquejo abafado:

— H-hn?!

Engel bateu levemente a nuca contra os ombros de Demi, emitindo um murmúrio ritmado e contínuo, em um tom que procurava soar consolador. Ele moveu seus quatro dedos compridos e pontiagudos até que eles roçassem as palmas pretas do professor.

A mensagem silenciosa era óbvia: “Acalme-se. Precisamos trabalhar juntos.”

Ao sentir o toque firme e caloroso do aluno, o tremor desenfreado de Demi diminuiu uma fração. O professor respirou fundo três vezes pelo nariz, o som sibilante cortando o silêncio lúgubre da sala. Ele assentiu com a nuca contra a de Engel, compreendendo o plano intuitivo do jovem.

Se não conseguiam alcançar as fivelas de seus próprios rostos, talvez conseguissem usar os dedos amarrados atrás das costas para afrouxar os nós do outro.

Engel esticou suas garras escuras e pontiagudas ao máximo. Por terem dedos naturalmente afilados e compridos, ele possuía uma vantagem mecânica minúscula, embora a falta de visão tornasse a tarefa um exercício excruciante de tentativa e erro. As pontas de seus dedos tatearam a superfície da corda vermelha que prendia os punhos do professor.

A corda estava enlaçada em nós duplos de marinheiro, firmemente ajustados para não cederem à força bruta. Demi, por sua vez, tentava retribuir o esforço, mas suas mãos tremiam tanto que ele mal conseguia segurar as pontas dos nós de Engel, apenas arranhando a manga esquerda da camisa polo do garoto, perto das listras decorativas.

— Mmmph... mmh! — resmungou Engel entre os dentes travados, franzindo a testa com o esforço hercúleo.

Ele conseguiu enfiar a ponta de um dos dedos em uma dobra minúscula do laço vermelho. Com um puxão seco e preciso, conseguiu fazer o nó afrouxar um milímetro. A corda rangeu contra a camisa de mangas bufantes de Demi.

Uma faísca de esperança brilhou no olho do professor.

Porém, antes que Engel pudesse dar o segundo puxão para desfazer a primeira volta do nó, um ruído distante e metálico ecoou pelo corredor do lado de fora.

Clang... arrrrrast... Clang...

O som era inconfundível para qualquer um que frequentasse aquela instituição distorcida: a ponta afiada e gigantesca de um compasso de desenho geométrico sendo arrastada lentamente contra o chão de azulejos desgastados.

Demi congelou no mesmo instante, sua espinha enrijecendo como uma barra de ferro. Toda a cor restante pareceu esvair-se de seu rosto. As notas musicais em sua imaginação silenciaram-se em um terror mudo. Ele sabia exatamente o que aquele barulho significava. Sabia quem costumava patrulhar as salas com aquela ferramenta desmedida, punindo qualquer irregularidade ou desvio de conduta com violência sumária.

Engel também paralisou. Sua pequena cauda retraiu-se totalmente, colando-se às suas costas. Seus olhos se arregalaram em direção à porta de madeira da sala, cuja janela de vidro fosco estava manchada por respingos pretos de tinta seca.

Os passos pesados continuavam a se aproximar.

Passo... arrasto... Passo... arrasto...

O tempo havia acabado. A lentidão e a cautela não eram mais opções válidas.

Tomado por uma adrenalina avassaladora, Engel não pensou mais na dor ou no desconforto. Ele contorceu os punhos com violência renovada, puxando o nó de Demi com a garra presa no laço. Demi sentiu a corda queimar sua pele com o atrito bruto, mas, em vez de recuar, forçou seus antebraços para fora, colaborando com a alavanca improvisada do aluno.

— NNNGH! — bramiu Engel contra a mordaça, desferindo um puxão desesperado para trás.

O nó principal cedeu. A corda vermelha que prendia os pulsos do Senhor Demi desenrolou-se com um chicotear surdo, afrouxando-se o suficiente para que o professor pudesse finalmente puxar uma das mãos para a frente, libertando seus braços pretos e brancos das amarras.

A primeira reação de Demi foi levar as duas mãos trêmulas à parte de trás da própria cabeça. Seus dedos encontraram a fivela metálica da tira de couro. Em um frenesi de desespero e agilidade que ele mesmo desconhecia possuir, ele desengatou o fecho de metal.

A mordaça caiu de sua boca com um som úmido.

— Argh...! — Demi arfou, tossindo pesadamente enquanto o ar fresco invadia seus pulmões em uma corrente dolorosa e bem-vinda. Ele limpou o canto da boca com a manga bufante, seus olhos verdes fixando-se imediatamente em Engel.

— Mmph! Mmm-hnnn! — Engel moveu a cabeça com insistência, lembrando o professor de que ainda estava completamente amarrado e amordaçado, e que a criatura no corredor estava a poucos metros de distância.

— E-Engel... calma, e-eu vou tirar isso! — gaguejou Demi em um sussurro aterrorizado, a voz saindo rouca e quebradiça pela falta de uso prolongada.

O professor engatinhou às pressas até a nuca do garoto. Suas mãos ainda tremiam incontrolavelmente, mas o dever de proteger seu aluno prevaleceu sobre seu pânico paralisante. Demi localizou a correia de couro atrás do rabo de cavalo de Engel, cuidando para não puxar as penas coloridas em sua cabeça. Com um puxão firme, a fivela do rapaz se soltou.

Engel cuspiu a esfera vermelha imediatamente no chão, expirando com força e esfregando os maxilares doloridos antes mesmo que Demi desatasse as cordas de seus braços.

— Obrigado, professor... — murmurou Engel num sopro rápido, a voz ligeiramente anasalada pelo esforço. — Agora as cordas! Rápido!

— Sim, sim, estou tentando, os nós são muito apertados...! — respondeu Demi, puxando os cabos vermelhos que prendiam os braços de Engel com todo o peso de seu corpo franzino.

Do lado de fora, a lâmina do compasso parou de arrastar.

Um silêncio sepulcral e sufocante abateu-se sobre o corredor.

A maçaneta de metal da porta da sala de aula rangeu, começando a girar lentamente, milímetro por milímetro, para baixo.

Demi perdeu o fôlego, seus olhos fixos na fresta da porta. Engel, sentindo as cordas afrouxarem nos nós finais sob os dedos do professor, puxou os braços com toda a sua força, rasgando o restante da amarra escarlate com suas garras pontiagudas.

Livres, professor e aluno trocaram um único olhar carregado de terror absoluto e cumplicidade. Sem emitir uma única nota, engolindo até mesmo o som de suas respirações, ambos agacharam-se rente ao chão, arrastando-se para a penumbra protetora atrás da mesa virada da professora, esperando que o papel e a grafite daquela sala fossem suficientes para camuflar suas presenças antes que a porta se abrisse por completo.

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