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Do vôlei a vida (o caos perfeito)

Fandom: Vôlei

Criado: 20/09/2026

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RomanceDramaDor/ConfortoFofuraCiúmesRealismoCenário Canônico
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Entrelinhas e Bloqueios

O som estridente do apito inicial ainda não havia ecoado pelo ginásio, mas a tensão já vibrava no ar como uma corda prestes a arrebentar. Julia Bergmann ajustava as joelheiras com uma intensidade desmedida, sentindo o suor frio nas palmas das mãos. Era a semifinal, o jogo que valia a vaga dourada na grande final, mas sua inquietação não vinha apenas da responsabilidade coletiva. Seus olhos verdes, expressivos e incapazes de disfarçar qualquer sentimento, desviavam inevitavelmente para o outro lado da quadra.

Lá estava ela. Ekaterina Antropova.

A oposta italiana parecia quase esculpida em gelo. Alta, imponente, com os cabelos loiros presos e uma frieza compenetrada no olhar azul que intimidava qualquer defesa. Julia conhecia bem o poder daquele ataque e sabia o pesadelo tático que seria detê-la.

Na roda que antecedeu o protocolo, a voz enérgica de Zé Roberto cortou os pensamentos da ponteira.

— Meninas, atenção redobrada na Antropova. Precisamos amortecer tudo o que ela soltar na paralela e fechar a diagonal curta. Toquem em todas as bolas dela. O jogo passa por parar a Kate.

Julia assentiu, engolindo em seco. Durante o aquecimento de rede, enquanto saltava para simular ataques, seus olhos cruzaram com os de Ekaterina. Foi um relance elétrico, discreto apenas para quem não estivesse prestando atenção. A loira arqueou uma sobrancelha, sustentando o contato visual por tempo suficiente para fazer o estômago de Julia dar um nó.

Ao lado, Gabi Guimarães não deixou passar. Com um sorriso de canto e uma cutucada sutil no braço da ruiva, provocou:

— Se vocês continuarem se secando desse jeito através da rede, não vai sobrar energia nem pro primeiro set, Bergmann.

— Cala a boca, Gabi — murmurou Julia, o rosto queimando instantaneamente, ajeitando uma mecha ruiva atrás da orelha com seu habitual drama. — Eu só estou estudando o bloqueio dela.

— Sei bem o que você tá estudando — rebateu a capitã, rindo baixinho.

O apito soou. A batalha começou.

Nos dois primeiros sets, a seleção brasileira funcionou como um relógio suíço. Julia jogava com o sangue quente, vibrando a cada ponto com sua expressividade à flor da pele. Quando conseguiu um bloqueio simples e seco em cima de Antropova, fez questão de encarar a loira antes de comemorar. Ekaterina não abaixou a cabeça; devolveu um sorriso desafiador, quase zombeteiro, que fez o peito de Julia arder em ciúmes daquela marra inabalável. O Brasil fechou as duas primeiras parciais, mas a Itália não se entregou.

No terceiro e quarto sets, Antropova chamou a responsabilidade. Virou bolas impossíveis, pontuou no saque e bloqueou Julia com autoridade, deixando escapar um olhar direto que dizia claramente: "aqui não". O jogo empatou em 2 a 2.

O tie-break foi uma guerra de nervos. Cada rali exigia o limite físico de todas. No fim, a garra brasileira prevaleceu na ponta dos dedos: 15 a 13. Vitória do Brasil por 3 a 2.

A comemoração no lado verde e amarelo foi efusiva, mas, ao se alinharem para o cumprimento tradicional sob a rede, o ritmo cardíaco de Julia disparou de outra forma. Quando parou em frente a Kate, a russa-italiana exibiu uma expressão séria, ainda amarga pela derrota, mas seus lábios curvaram-se em um meio sorriso quase imperceptível.

— Belo jogo, ruiva — murmurou Kate em inglês, a mão segurando a de Julia um segundo a mais do que o protocolo exigia.

— Você quase me matou do coração hoje — respondeu Julia, os olhos verdes brilhando.

A Itália deixou a quadra rumo ao vestiário, enquanto as brasileiras ficaram para atender à imprensa. A delegação pretendia sair às dez da noite para comemorar a vaga, mas a comissão técnica decidiu adiar a festa: o foco deveria permanecer total na grande final contra a Turquia.

Por volta das dez e meia, no hotel, o silêncio tomava conta dos corredores. No saguão, Antropova já havia deixado as malas prontas no quarto, sabendo que o voo de volta para a Itália partiria na manhã seguinte, às onze. Sem sono, desceu e sentou-se em um dos sofás da recepção, observando a escuridão do mar através dos imensos painéis de vidro. A derrota ainda doía em seu orgulho competitivo.

Foi quando Julia apareceu no saguão. Havia descido para retirar uma encomenda de lanches que Gabi havia pedido pelo aplicativo. Ao caminhar em direção à porta giratória, seus olhos captaram a silhueta inconfundível no sofá. Parou por um instante, o pacote nas mãos, e respirou fundo. Reuniu toda a coragem que costumava usar na linha de saque e aproximou-se devagar.

— Boa noite, Antropova — disse a ruiva, a voz suave contrastando com a pose dramática de sempre.

Ekaterina virou a cabeça rapidamente, reconhecendo o tom. Seus olhos azuis suavizaram-se.

— Boa noite, Julia. O que está fazendo aqui embaixo? Imaginei que estivessem virando garrafas para comemorar a vitória.

— Adiaram a festa — explicou Julia, dando um passo a mais e apontando para o sofá. — Foco na Turquia. E... você jogou muito hoje. Parabéns de verdade.

— Obrigada — murmurou Kate, deslizando para o lado para oferecer espaço. — Não foi o suficiente, mas obrigada.

Antes que Julia pudesse se sentar, passos apressados ecoaram no piso de mármore. Gabi vinha descendo os degraus e arregalou os olhos ao ver o quadro.

— Ah, então é por isso que a minha comida demorou meia hora pra subir? — disparou a capitã brasileira, com um sorriso travesso. — Estava de papo com a crush?

— Gabriela! — Julia quase gritou, as bochechas tingindo-se de um vermelho tão vivo quanto seus cabelos.

Kate não conteve uma risada rouca, encostando a cabeça no encosto do sofá, visivelmente entretida pelo constrangimento da brasileira.

Gabi aproximou-se sem o menor pudor, apoiando-se no encosto.

— Como vão as coisas, Kate? E o coração, tá na pista? Solteira? Como é que tá essa vida na Europa?

— Gabi, pelo amor de Deus, para de ser inconveniente! — Julia tentava disfarçar, fuzilando a amiga com os olhos, embora no fundo quisesse desesperadamente ouvir as respostas.

— Tudo tranquilo — respondeu Kate, achando graça no interrogatório. — Apenas focada no vôlei. E cem por cento solteira, se é isso que quer saber.

Julia sentiu um alívio infantil e possessivo aquecer o peito, mas manteve a postura.

— Vai embora amanhã cedo, né? — perguntou Gabi.

— Sim, às onze da manhã. Volto direto para o meu apartamento na Itália para descansar alguns dias.

— Que pena — disse Gabi, piscando cúmplice para Julia, que quase a estrangulava com o olhar. — Bom, eu vou subir pra comer antes que esfrie. Julia, você vem comigo ou vai ficar?

— Eu já subo, Gabi. Leva o pacote.

Assim que a capitã desapareceu no elevador, Julia soltou o ar que parecia estar prendendo há minutos e sentou-se na outra ponta do sofá, virada para Kate.

— Desculpa por ela. A Gabi não tem filtro nenhum.

— Eu achei engraçado — comentou a loira, virando o corpo para encará-la melhor. — Mas então... você queria me falar algo?

Julia mexeu nos anéis dos dedos, sentindo um ciúme tolo até do tempo que a loira passaria longe, na Itália.

— Amanhã, depois da nossa final... a gente vai sair para comemorar, de verdade dessa vez. Você não quer vir com a gente? Sei que você disse que vai embora às onze, mas... se por acaso ainda estiver por aqui.

Kate encarou os olhos verdes intensos de Julia, percebendo a hesitação e o desejo genuíno por trás do convite.

— Se eu não estiver ocupada ou se meus planos mudarem... passo no seu quarto para te dar a resposta — disse a loira, em tom misterioso.

— Promete?

— Prometo.

— Então boa noite, Kate — despediu-se Julia, abrindo um sorriso largo.

— Boa noite, Julia.

Ao retornar ao quarto, Julia teve que aguentar mais trinta minutos de piadas intermináveis de Gabi. Porém, quando as luzes se apagaram, a mente da ruiva permaneceu inquieta. Os olhares azuis de Ekaterina giravam em seus pensamentos, afastando qualquer tentativa de sono rápido.

Na manhã seguinte, o tempo pareceu voar em um ritmo estranho. Durante o final da manhã, Gabi saiu para comprar café nos arredores do hotel e voltou praticamente correndo, arrombando a porta do quarto com uma respiração entrecortada.

— Você não vai acreditar! — exclamou Gabi, apontando para o corredor.

Julia levantou da cama em um salto dramático.

— O que foi? O Zé mudou o treino?

— Não! Eu cruzei com a Antropova no saguão. Ela cancelou o voo das onze! Só vai embora amanhã!

O coração de Julia deu um solavanco. Kate havia ficado.

A tarde, contudo, trouxe a sombra da responsabilidade. Às oito da noite, o ginásio fervilhava para a grande final entre Brasil e Turquia. O que começou como uma partida equilibrada rapidamente transformou-se em um massacre emocional. A pressão turca na rede e nos saques minou a confiança brasileira. Julia sentia o peso sufocante de cada erro; um medo paralisante começou a travar seus movimentos, e a cobrança interna que fazia sobre si mesma tornava tudo dez vezes mais dramático.

Em um setor reservado e discreto da arquibancada, de boné e capuz para não chamar a atenção das câmeras, Ekaterina Antropova assistia a tudo em silêncio. Seus olhos não saíam da camisa número dezesseis do Brasil. Kate cerrava os punhos toda vez que via a ruiva abaixar a cabeça após um ponto perdido.

Quando a última bola tocou o chão brasileiro, confirmando o título para a Turquia, o vazio tomou conta da quadra. As seleções se cumprimentaram rapidamente. Julia sentia as lágrimas queimando suas bochechas antes mesmo de recolher as toalhas. Kate levantou-se da cadeira na arquibancada e saiu antes que qualquer pessoa pudesse notá-la.

No quarto do hotel, às dez e meia da noite, Julia estava completamente sozinha. Gabi havia inventado uma desculpa qualquer sobre buscar gelo e sumira. Encolhida na ponta da cama, a ruiva deixava o choro preso na garganta escorrer sem freios.

Três batidas firmes na porta quebraram o silêncio.

Limpando o rosto de forma desajeitada com a manga do agasalho, Julia levantou-se e abriu a porta com uma expressão desolada.

Era Ekaterina.

Ao ver o rosto vermelho e os olhos marejados de Julia, a postura rígida de Antropova desmoronou. Sem dizer uma única palavra, a loira deu um passo à frente e envolveu Julia em um abraço protetor e apertado. O perfume amadeirado de Kate envolveu a ruiva, que enterrou o rosto na curva do pescoço dela, soluçando baixinho.

— Ei... calma — sussurrou Kate, acariciando os cabelos ruivos com uma delicadeza inesperada para o seu tamanho. — Não se sinta culpada por nada. Você jogou demais esse torneio inteiro.

— Eu errei bolas ridículas no quarto set, Kate... — lamentou Julia, dramática, a voz embargada.

Kate afastou-se apenas o suficiente para segurar o queixo de Julia, obrigando-a a encará-la nos olhos azuis.

— É errando que a gente aprende e cresce. Eu perdi para você há dois dias, lembra? Dói, mas faz parte da nossa vida. E eu não vou deixar você trancada aqui desse jeito, se afundando em drama. Meu voo é só amanhã à tarde agora. Vamos sair. Não quero ver você murcha desse jeito.

— Sair? Pra onde? — perguntou Julia, piscando as lágrimas acumuladas.

— Lavar o rosto e colocar um casaco. Eu cuido do resto.

Vinte minutos depois, as duas caminhavam pelos corredores iluminados de um shopping próximo, que ainda funcionava até mais tarde. A presença imponente das duas atraía alguns olhares curiosos, mas a cumplicidade que se instalou ali fez com que o mundo ao redor desaparecesse. Em pouco tempo, o humor de Julia já era outro.

— Duvido você conseguir pegar alguma coisa aí — desafiou Julia, parando em frente a uma enorme máquina de garra cheia de bichos de pelúcia.

— Você está duvidando da minha precisão? — rebateu Kate, arqueando a sobrancelha com um sorriso arrogante.

Kate colocou a ficha, ajustou o joystick com concentração milimétrica e apertou o botão. A garra de metal desceu, agarrou com firmeza um urso marrom que segurava um coração vermelho e o despejou direto no compartimento de saída.

— Toma — disse Kate, retirando o urso e entregando-o nas mãos de Julia com um olhar que brilhava de satisfação. — Para você lembrar que ainda tem um coração inteiro para jogar muito vôlei.

Julia sentiu o rosto queimar, mas desta vez abriu o sorriso mais genuíno da semana.

— Você é inacreditável, Antropova.

Passaram horas passeando, comendo besteiras e conversando sobre a vida além das quatro linhas. Riram de histórias bobas de infância, debateram sobre a rotina exaustiva de atleta e esqueceram completamente a rivalidade entre as camisas amarela e azul.

Quando o relógio marcou duas da manhã, voltaram para o hotel. Paradas em frente à porta do quarto de Julia, o clima de despedida pesou suavemente no ar.

— Obrigada por hoje — murmurou Julia. Dando um passo tímido, aproximou-se e deixou um beijo demorado e quente na bochecha de Kate, envolvendo-a pelo pescoço em um abraço apertado. Ao encostar os lábios próximos ao ouvido da loira, sussurrou: — Você salvou minha noite de verdade.

Kate estremeceu de leve com a proximidade, mas, quando Julia desfez o abraço para entrar no quarto, a loira tocou em seu pulso.

— Espera. Quase esqueci.

Do bolso da jaqueta, Kate tirou um pequeno envelope dobrado e um chaveiro de metal delicado, esculpido com detalhes em azul marinho.

— Um presente. Para você não esquecer de mim quando voltar para o Brasil.

— Eu nunca esqueceria — respondeu Julia, os olhos verdes brilhando enquanto segurava o envelope e o chaveiro contra o peito.

Despediram-se com um último olhar carregado de promessas não ditas. Assim que Julia trancou a porta, encostou-se nela, suspirando fundo.

— Ora, ora, ora... — a voz de Gabi veio da cama de solteiro. A capitã estava sentada com as pernas cruzadas, os braços apoiados nos joelhos e um sorriso imenso estampado na cara. — Saindo de madrugada com a crush, né, dona Julia? Que safada!

Julia não hesitou: arrancou o travesseiro da sua cama e arremessou com força perfeita na cara de Gabi.

— Cala a boca, Gabriela! Ela é maravilhosa, tá? Foi incrível. Salvou minha noite.

Gabi riu alto, ajeitando o travesseiro.

— Eu vi nos seus olhos desde o aquecimento da semifinal, ruiva. Você não engana ninguém.

Deitada na cama, Julia quase não conseguiu pregar os olhos. Ficou encarando o teto escuro, repassando cada toque, cada sorriso e cada palavra de Kate, segurando o ursinho de pelúcia contra o peito até finalmente adormecer com uma paz que não sentia há dias.

Pela manhã, a delegação brasileira e a italiana embarcaram em seus respectivos ônibus em direção ao aeroporto. Sentada perto da janela, vendo as paisagens passarem, Julia pensava no futuro incerto da sua carreira e em como sua mente teimava em se fixar na figura dourada de Ekaterina.

Meses se passaram. As duas haviam trocado mensagens tímidas e começado a se seguir no Instagram logo após o término daquela competição, mantendo uma chama discreta viva entre curtidas e comentários sutis.

Até que o telefone de Julia tocou com uma proposta oficial de transferência de clube. Quando abriu o documento em PDF assinado pela diretoria, os olhos de Julia quase saltaram: a proposta vinha do Savino Del Bene Scandicci.

A primeira imagem que cruzou a mente da brasileira foi o sorriso desafiador de Kate na rede. Era o clube dela.

Na Itália, durante um dos treinos físicos no ginásio do Scandicci, os boatos já corriam soltos. Sarah Fahr, a central italiana e amiga íntima de Kate, aproximou-se com o celular na mão durante o intervalo da musculação.

— Kate, você viu as notícias do mercado? — perguntou Sarah, com um brilho malicioso no olhar. — Estão dizendo que a ponta brasileira fechou com a gente. A Bergmann.

Antropova congelou no meio do movimento com o halter. Seus olhos azuis arregalaram-se em um choque genuíno.

— A Julia? — perguntou, tentando disfarçar o tremor repentino na voz. — Ela aceitou?

— Parece que sim — respondeu Sarah, rindo da reação desconcertada da oposta. — E pelo visto você vai ter que dividir o vestiário com ela a temporada inteira. Será que ela vem mesmo?

— Se assinou... ela vem — respondeu Kate, fingindo indiferença, mas o coração martelava forte no peito.

Semanas depois, Julia Bergmann desembarcou em Florença. Instalou-se no apartamento confortável fornecido pelo clube na cidade vizinha de Scandicci, arrumou suas coisas — colocando o urso de pelúcia na cabeceira da cama — e tentou controlar a ansiedade que ameaçava transbordar.

Na manhã do primeiro treino oficial com o elenco completo, Julia vestiu o uniforme de treino do clube, amarrou os cabelos ruivos em um rabo de cavalo alto e tomou um café expresso rápido antes de seguir para o Palazzetto dello Sport.

Ao empurrar as portas duplas do ginásio, o cheiro de borracha e o som das bolas quicando a atingiram com familiaridade. Lá dentro, o restante da equipe já realizava aquecimentos leves. Todas as atletas se viraram para recebê-la, e cumprimentos calorosos em italiano e inglês foram trocados com abraços e sorrisos de boas-vindas.

No canto da quadra, porém, Antropova permanecia séria, encostada na trave da rede, observando a movimentação com sua habitual aura imponente. Julia sentiu o estômago revirar e o ar faltar por um segundo. A ruiva forçou-se a manter a postura altiva e profissional.

O breve treino de reconhecimento começou com intensidade. Julia atacou algumas bolas altas na ponta, mostrando precisão, enquanto Kate mantinha o foco implacável na posição de oposta. Nenhuma palavra direta foi trocada durante as instruções táticas do treinador, apenas olhares afiados que cruzavam a quadra como faíscas.

Quando o apito final do treino soou e as jogadoras começaram a recolher as garrafas de água, Julia sentiu uma sombra alta cobrir sua visão.

Virou-se devagar. Ekaterina estava parada a poucos centímetros dela, com a toalha pendurada no pescoço e um brilho nos olhos que Julia não via desde aquela noite no shopping.

— Benvenuta in Italia, Julia — disse a loira em um italiano rouco, estendendo a mão antes de puxar a ruiva de surpresa para um abraço firme e caloroso, bem no centro da quadra vazia.

Julia sentiu o coração saltar descontrolado na garganta, batendo tão forte que teve certeza de que Kate conseguia senti-lo contra seu peito. Ao aspirar o mesmo perfume inconfundível, o ciúme, a distância e o medo dos últimos meses evaporaram em um piscar de olhos.

Ali, naquele ginásio italiano, Julia teve a certeza irrevogável de que aquilo era apenas o início de algo infinitamente maior — e não fazia mais a menor questão de entender por que o seu coração insistia em acelerar tanto sempre que o assunto era Ekaterina Antropova.

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