
Burn it
Fandom: Bts kpop
Criado: 20/09/2026
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Fórmulas e Pecados
A luz fria fluorescente do anfiteatro da faculdade de biomedicina zumbia em uma frequência quase inaudível, mas para Park Jimin, aquele som parecia uma agulha perfurando seu tímpano. Ele mantinha a postura reta na cadeira acolchoada, a coluna ereta denunciando uma rigidez que ia muito além da mera disciplina militar. Sob a jaqueta pesada, os ombros largos e o peito bem delineado sustentavam um porte imponente, anormalmente alto e intimidador para alguém que muitos tentavam rotular como apenas "mais um herdeiro mimado".
Jimin não era um garoto qualquer. Seus cabelos loiros, cortados com precisão impecável, emolduravam um rosto de traços aristocráticos e gélidos. Os olhos estreitos e escuros não revelavam absolutamente nada. Nunca revelavam.
Ele olhava para o papel à sua frente. A tinta vermelha cravada na margem superior parecia uma ofensa direta à sua existência.
9,6.
Aquilo não era uma nota. Era uma piada de mau gosto.
A mente de Jimin sempre funcionou em engrenagens perfeitas, desprovida da névoa de sentimentalismos que costumava atrasar as pessoas comuns. Ele não era um gênio decorador que passava noites em claro memorizando tabelas periódicas e nomes em latim; ele compreendia a lógica oculta das coisas, a mecânica da matéria e a fraqueza humana. Quando tinha catorze anos, enquanto a maioria dos adolescentes se preocupava com espinhas e jogos idiotas, seus pais lhe entregaram a gerência prática de um laboratório de cosméticos. Lá, Jimin passou anos isolado, desenvolvendo formulações químicas de alta complexidade por pura diversão, até que o tédio o consumiu e ele delegou tudo para uma equipe de químicos que mal conseguiam entender metade de suas anotações originais.
Depois veio o "acidente". O suposto falecimento de seus pais em alto-mar durante seu primeiro ano na universidade. A sociedade de Seul parou; os abutres da mídia cercaram a mansão Park esperando ver o único herdeiro desmoronar em lágrimas de desespero. Jimin não derramou uma única gota. No velório, com os caixões selados e vazios, permaneceu de pé, em silêncio absoluto, as mãos nos bolsos e a expressão tão neutra quanto a de uma estátua de mármore. No dia seguinte, às sete e meia da manhã, entrou na sala de aula pontualmente, sentou-se em seu lugar habitual e abriu o caderno.
Foi quando os sussurros começaram. Psicopata. Frio. Um monstro desalmado.
Jimin pouco se importava com os rótulos. A verdade era muito mais complexa e perigosa. Ele sabia que seus pais eram os maiores criminosos de colarinho branco que aquele país já tinha visto, articuladores de esquemas bilionários que envolviam lavagem de dinheiro, cartéis e governantes de alto escalão. Uma proposta colossal os havia obrigado a forjar a própria morte para renascer com outras identidades e feições do outro lado do globo. Jimin nunca recebeu uma confirmação oficial, mas sua intuição milimétrica não falhava: eles não estavam mortos. E, francamente, a ausência deles era apenas um detalhe irrelevante em sua rotina metódica. Ele queria o diploma. Não pelo dinheiro, que já tinha em quantidades obscenas, mas pela validação de sua soberania intelectual.
E agora, um obstáculo ridículo surgia em seu caminho.
O laboratório de pesquisa celular da cidade acabara de abrir uma vaga exclusiva para um projeto financiado internacionalmente. Apenas um aluno seria indicado pelo departamento de química aplicada. O critério de corte exigia nota máxima na prova de cinética e reações orgânicas avançadas. Dez absoluto.
Jimin analisou o teste pela quarta vez. As fórmulas de equilíbrio químico estavam perfeitas. O cálculo das entalpias de ligação não continha um único erro de arredondamento. O mecanismo de reação que ele desenhara era elegante, limpo, irrefutável.
— Não é possível que esse filho da puta viu algum erro aqui — Jimin murmurou para si mesmo, a voz saindo em um tom grave, rouco de puro desprezo, mal movendo os lábios.
Ao seu lado, um colega de classe excessivamente sociável, daqueles que pareciam incapazes de passar dez minutos sem tentar criar um laço afetivo artificial, inclinou-se sobre a divisória das mesas de madeira.
— Quanto você tirou? — perguntou o garoto, com os olhos brilhando de curiosidade indiscreta.
Jimin virou o rosto milimetricamente. Seus olhos castanhos, quase negros sob a luz do teto, pousaram no rapaz com a indiferença de quem observa um inseto pousado no asfalto.
— Nove vírgula seis, cara — respondeu, seco, sem paciência para a trivialidade daquela conversa.
— Uau, deve ter sido a maior nota da sala!! Por que você está bravo?
A mente de Jimin traçou uma linha de pensamento fria, cirúrgica e gráfica. Ele visualizou, com clareza cristalina, como seria fácil levantar daquela cadeira, segurar a nuca daquele garoto barulhento e afundar a cabeça dele na privada do corredor até que o ar deixasse seus pulmões e o silêncio finalmente reinasse. Seria tão pacífico.
Em vez disso, ele apenas sustentou o olhar, congelando o sorriso ingênuo do colega.
— Porque definitivamente não existe um erro sequer nesse teste — Jimin disse, a voz baixa, afiada como um bisturi. — Não faz o menor sentido não dar a porra da nota certa.
O outro engoliu em seco, recuando alguns centímetros diante da aura pesada que emanava do loiro.
— O professor Jeon nunca deu uma nota dez, Jimin. Todos sabem disso. Ele sempre desconta algo por pura formalidade, diz que ninguém atinge a perfeição na química real.
Jimin cerrou o maxilar, os músculos da mandíbula saltando sob a pele clara. Ele detestava clichês acadêmicos. Detestava a falsa modéstia de professores frustrados que usavam notas para compensar o fracasso de suas próprias vidas medíocres. E odiava ainda mais quando isso interferia nas suas decisões e nos seus planos.
— Ele voltará atrás dessa decisão.
Sem esperar por uma réplica, Jimin levantou-se com uma lentidão calculada, recolheu a folha de papel e saiu do anfiteatro a passos pesados e silenciosos. O sinal para o término da aula ainda não havia tocado, mas ninguém ousou questioná-lo.
Ele seguiu direto para o banheiro masculino no final da ala oeste, um local geralmente vazio àquela hora do dia. Entrou em uma das cabines, trancou a porta de metal e encostou as costas na divisória fria.
— Preciso pensar em uma solução...
Seu cérebro começou a trabalhar em velocidade máxima. Não havia espaço para lamentações, apenas para cálculos de causa e efeito.
Hipótese um: forçar a diretoria a intervir. Ele tinha dinheiro suficiente para comprar um prédio inteiro daquela universidade, ou chantagear o reitor através dos fundos de investimento da família. Mas intervenção administrativa demorava semanas de burocracia, e o prazo para a inscrição no projeto expirava na manhã seguinte. Além disso, se a diretoria alterasse sua nota, Jungkook poderia simplesmente anular a indicação do laboratório alegando interferência externa.
Hipótese dois: ameaçar o professor. Descobrir onde Jeon morava, rastrear sua família, colocar pressão física ou financeira. Mas Jeon Jungkook não parecia o tipo de homem que dobrava os joelhos facilmente.
Jeon Jungkook era uma anomalia naquele campus. Mais novo do que a maioria dos docentes da pós-graduação, ele carregava uma postura de constante revolta velada. Alto, com ombros largos que quase rasgavam as camisas sociais que insistia em usar com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços grossos cobertos por tatuagens detalhadas e escuras. O cabelo castanho-escuro caía desalinhado sobre a testa, e seus olhos negros carregavam o cinismo de quem já havia visto o pior do mundo acadêmico e das ruas. Jungkook não era um acadêmico engravatado; era um homem bruto que dominava a química com a ferocidade de quem domina uma arma.
Nada parecia ter sentido. Jimin precisava daqueles malditos 0,4 pontos idiotas para entrar em um projeto idiota. E ele iria conseguir. De um jeito ou de outro.
O som estridente do sinal finalmente ecoou pelas paredes de azulejo, anunciando o fim da última aula da tarde. O fluxo de passos apressados começou a preencher o corredor do lado de fora.
Jimin destrancou a porta. Saiu da cabine, lavou as mãos lentamente na pia de pedra e fitou o próprio reflexo no espelho manchado. Os cabelos loiros caíam com perfeição sobre a testa pálida. Ele puxou o capuz de seu moletom preto, cobrindo os fios e lançando uma sombra sobre metade de seu rosto. Colocou os fones de ouvido sem tocar nenhuma música, usando-os apenas para isolar o ruído insignificante dos outros estudantes.
Caminhou até a sala de aula quase vazia, recolheu sua mochila de couro com a calma de um predador esperando a noite cair e foi para o corredor.
Ali, encostado em um pilar largo sob a penumbra do fim de tarde, Jimin esperou. Ele observou de longe quando a porta do anfiteatro principal se abriu e os últimos alunos saíram rindo e conversando. Por fim, Jeon Jungkook surgiu. O professor carregava uma pasta de couro gasta em uma das mãos, o casaco jogado sobre o ombro e os primeiros botões da camisa social abertos, revelando a pele morena e a curva do peitoral trabalhado. Havia uma arrogância natural em seu caminhar, passos largos e seguros, como se ele fosse o dono de cada centímetro daquele chão.
Jungkook virou no corredor reservado aos gabinetes dos professores. Jimin o seguiu a uma distância prudente, seus passos abafados pelo carpete desgastado.
O professor abriu a porta de sua sala privada, acendeu a luz e entrou, deixando a chave sobre a escrivaninha de mogno.
Poucos segundos depois, o clique suave da maçaneta girando quebrou o silêncio da sala. A porta se fechou e a tranca correu.
Jungkook nem se virou imediatamente. Com um suspiro cansado e um meio sorriso sarcástico desenhando seus lábios finos, ele soltou a pasta sobre a mesa e começou a desabotoar os punhos da camisa.
— Já falei que não podemos ficar nos encontrando aqui sempre, Lisa — ele disse, com a voz rouca, carregada de uma diversão perigosa e ilícita, esperando a resposta da aluna que vinha flertando e rondando sua sala há semanas. — Uma hora alguém vai desconfiar. E eu não estou a fim de responder a um comitê de ética por causa de meia hora de distração.
O silêncio que se seguiu não pertencia a uma garota tímida ou ansiosa. Era um silêncio pesado, gélido, que fez os pelos da nuca de Jungkook se eriçarem instantaneamente.
Jungkook virou-se em direção à porta de uma vez, seus olhos escuros varrendo o espaço até encontrarem a figura parada diante da saída trancada.
Não era Lisa.
Era um rapaz alto, com ombros largos que rivalizavam com os seus, coberto por um moletom preto largo com o capuz erguido. Sob a sombra do tecido, os fios loiros escapavam levemente, contrastando com os olhos afiados e sem vida que fitavam o professor como os de um carrasco diante de sua vítima.
— Por que alguém deveria desconfiar de você com uma aluna, hm? — disse Jimin, a voz cortando o ar como uma lâmina de gelo, os braços cruzados sobre o peito definido.
Jungkook congelou por uma fração de segundo, os olhos se arregalando ligeiramente antes de se estreitarem em uma carranca defensiva.
— Ji-Jimin?? — O professor deu um passo à frente, recompondo a postura imponente, os músculos dos braços tensionando sob as tatuagens. — Aconteceu alguma coisa? O que você está fazendo aqui? E como ousa trancar a porra da minha porta?
Jimin não recuou um único milímetro. Em vez disso, ele levou as mãos aos bolsos do moletom, deu dois passos lentos e calculados em direção ao centro da sala, diminuindo a distância entre eles. O espaço parecia subitamente claustrofóbico, sobrecarregado pela presença esmagadora de dois homens grandes, intensos e perigosos.
— Lisa... — Jimin pronunciou o nome devagar, saboreando a sujeira implícita naquela palavra. — A monitora do laboratório de toxicologia, presumo. A garota que passou na sua matéria com louvor no semestre passado, apesar de mal saber a diferença entre um ácido forte e uma base fraca.
— Meça suas palavras, garoto — Jungkook rosnou, o tom descendo para uma ameaça crua. — Você está no meu escritório. Não queira ultrapassar os limites do que a sua arrogância pode sustentar.
— Eu não me importo com quem você fode nos seus horários vagos, professor — Jimin disparou, a expressão imutável, o tom de voz assustadoramente plano. Ele tirou a folha do teste dobrada do bolso e a jogou com desprezo sobre a mesa de mogno, bem no meio das anotações de Jeon. — Eu me importo com isso.
Jungkook olhou para a folha e depois voltou a encarar o rosto de Jimin. Uma faísca de desdém brilhou em seus olhos escuros.
— O teste.
— Nove vírgula seis — disse Jimin, inclinando a cabeça levemente para o lado. — Onde está o erro?
Jungkook cruzou os braços tatuados, soltando uma risada curta e anasalada, puramente provocativa. Ele gostava da audácia do loiro, mas odiava a falta de submissão. Jimin sempre fora um espinho em sua garganta: quieto demais, inteligente demais, desprovido de qualquer respeito cego pela hierarquia que a maioria dos alunos demonstrava.
— O mecanismo que você propôs na questão quatro — Jungkook respondeu com frieza, sustentando o olhar. — Você pulou uma etapa intermediária de ressonância. Presumiu a estabilidade do carbocátion sem demonstrar o rearranjo. Na química teórica, pode passar. Na prática, você geraria um subproduto tóxico antes de atingir o rendimento desejado. Meio ponto a menos. Fim da história.
— Mentira — retrucou Jimin imediatamente, sem vacilar. — O solvente especificado no enunciado da questão era polar aprótico, sulfóxido de dimetila. Em um meio aprótico dessa concentração, a cinética favorece o ataque direto do nucleófilo por substituição de segunda ordem, suprimindo o rearranjo que você está inventando agora para justificar a sua birra. Minha resposta está impecável. Não existe subproduto.
O silêncio que se instalou na sala foi espesso, quase elétrico.
Jungkook encarou o aluno com os olhos semicerrados. O desgraçado estava certo. Ele havia percebido a armadilha na questão que nem mesmo os alunos de mestrado costumavam notar. Mas admitir isso para Park Jimin, o herdeiro com cara de psicopata que nunca baixava a cabeça para ninguém, era algo que o ego ferido de Jeon se recusava a fazer.
— Eu sou o professor aqui, Park. O critério de avaliação é meu. Nove vírgula seis é a maior nota que você vai conseguir nesta universidade. Conformar-se com a realidade faz parte do processo de amadurecimento. Agora destranque a porta e saia antes que eu chame a segurança do campus.
Jimin não se moveu para a porta. Em vez disso, ele avançou mais um passo, invadindo completamente o espaço pessoal de Jungkook. Ficou tão perto que o professor pôde sentir o cheiro característico de hortelã e metal frio que parecia emanar do garoto, além de notar a altura impressionante que colocava seus olhos quase no mesmo nível dos seus.
— Eu preciso do dez — Jimin sussurrou, a voz tão baixa e controlada que parecia um veneno escorrendo diretamente no ouvido de Jungkook. — O comitê do laboratório fecha a lista amanhã às oito. E eu não vou perder a minha indicação porque você tem um complexo de superioridade barato.
— E o que você vai fazer se eu disser não? — Jungkook desafiou, o corpo tenso, dando um passo à frente para não se deixar intimidar pelo aluno, colando o peito ao dele. Uma centelha de perigo genuíno faiscou entre os dois, um magnetismo sombrio onde a violência e o fascínio se misturavam de forma indistinta. — Vai me bater? Vai mandar os advogados dos seus pais mortos me processarem?
A menção aos pais foi a faísca na pólvora. Jimin não hesitou. Com um movimento incrivelmente rápido e técnico, ele avançou a mão, agarrando o colarinho da camisa de Jungkook e empurrando o professor contra a borda pesada da mesa de mogno. O impacto fez as folhas de papel flutuarem e caírem no chão.
Jungkook travou os dentes, surpreso com a força física avassaladora do garoto, suas mãos subindo instantaneamente para segurar os pulsos de Jimin, os nós dos dedos tatuados pressionando contra o tecido do moletom.
— Você está muito acostumado a lidar com covardes, professor Jeon — Jimin murmurou, seu rosto a poucos centímetros do de Jungkook, os olhos brilhando com uma insanidade lúcida e sombria. — Meus pais não estão aqui para me proteger. Mas eu também não preciso de proteção. Eu sei sobre a Lisa. Eu sei sobre as adulterações no estoque de reagentes controlados do departamento que você assina no final de cada mês. Você acha que eu não presto atenção? Eu vejo tudo o que acontece nesta porra de universidade.
A respiração de Jungkook falhou por uma fração de segundo. Os olhos negros do professor encararam a imensidão preta no olhar do garoto loiro. Não havia medo ali. Não havia blefe. Havia apenas uma determinação predatória e doentia.
— Você está me chantageando, garoto? — a voz de Jungkook saiu em um rosnado abafado, mas o aperto em seus pulsos diminuiu ligeiramente, substituído por uma tensão diferente, quase febril, que descia pela espinha dos dois homens.
— Eu estou negociando — Jimin corrigiu, um meio sorriso sutil, frio e cruel curvando os cantos de seus lábios avermelhados enquanto ele apertava o tecido da camisa de Jungkook com ainda mais força, sentindo o calor do corpo musculoso do homem contra o seu. — Você vai pegar essa caneta vermelha ridícula agora, vai riscar aquele 9,6 e vai escrever 10,0.
Jungkook sustentou o olhar, o peito subindo e descendo em respirações pesadas. O conflito entre o ódio visceral e uma atração perturbadora, quase animalesca, nublou sua mente. Jimin era um problema. Um segredo perigoso disfarçado de aluno exemplar. Um monstro metódico que ele, por alguma razão perversa, acabara de perceber que desejava decifrar.
— E se eu recusar? — Jungkook provocou em um sussurro rouco, recusando-se a quebrar o contato visual, mesmo prensado contra a mesa.
Jimin inclinou o rosto ligeiramente, seus lábios quase roçando na pele quente do pescoço de Jungkook, bem onde a artéria pulsava descompassada.
— Experimente recusar, professor... — Jimin sussurrou de volta, a voz vibrando como uma promessa de destruição. — E você vai descobrir exatamente por que todo mundo aqui me chama de psicopata.
