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Flamenguista

Fandom: Jikook

Criado: 20/09/2026

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O Peso Suave da Noite

A noite carioca os engoliu assim que saíram do bar. O calor de setembro ainda pesava no ar, mas a brisa que vinha da baía trazia um alívio úmido. Caio o guiou pelo estacionamento lotado, a mão quente e firme na de Pedro, abrindo caminho entre carros e motos com a segurança de quem conhecia cada centímetro daquele lugar.

— Ela é essa — disse Caio, parando diante de uma moto preta e prata, baixa e musculosa, que reluzia sob a luz amarelada do poste. — Uma Harley. Velha de guerra, mas fiel.

Pedro soltou um assobio baixinho, apesar de si mesmo.

— Ela é linda.

— Ela é. — Caio passou a mão pelo tanque, um gesto quase carinhoso. — Mas não é a mais bonita que eu vou levar pra passear hoje à noite.

Pedro sentiu o rosto esquentar e agradeceu pela escuridão.

— Você sempre fala essas coisas?

— Só quando são verdade. — Caio abriu o baú lateral e tirou um capacete, um modelo preto fosco, e o entregou a Pedro. — Capacete pra você. Eu fico com o meu.

— E se eu não quiser usar? — Pedro provocou, segurando o capacete com as duas mãos.

— Aí a gente não vai a lugar nenhum. — Caio ergueu uma sobrancelha por cima dos óculos de armação fina, que tinha acabado de recolocar no rosto. — Segurança primeiro, loirinho. Eu posso ser convencido, mas não sou idiota.

Pedro riu, surpreendido pela seriedade repentina, e colocou o capacete. Caio o ajudou a ajustar a fivela, os dedos roçando a mandíbula de Pedro, e o gesto era tão íntimo que Pedro prendeu a respiração.

— Pronto — murmurou Caio, os lábios perto demais. — Agora sim. Sobe.

Pedro subiu na garupa, as pernas contornando o banco e as mãos hesitando por um instante antes de se apoiarem nos ombros de Caio. O motor roncou, um som grave e profundo que vibrou através do corpo de Pedro, e ele sentiu um arrepio subir pela espinha.

— Se segura em mim — disse Caio, virando a cabeça para trás, a voz abafada pelo capacete. — Não na moto. Em mim.

— Você é impossível.

— E você tá adorando.

Pedro não respondeu, mas não negou. Quando a moto arrancou, ele apertou o abraço, o corpo colado ao de Caio, o vento quente batendo no rosto. A cidade passou por eles num borrão de luzes: os letreiros de neon dos bares, os faróis dos carros, o reflexo da lua na água escura da baía. Pedro nunca tinha se sentido tão vivo. O medo, a adrenalina, o calor do corpo de Caio contra o seu, tudo se misturava numa sensação que ele não sabia nomear.

Caio subiu pela Tijuca, deixando para trás o burburinho do centro, e as ruas foram ficando mais estreitas, mais silenciosas, mais verdes. O ar cheirava a terra molhada e mato, típico das encostas da floresta. A moto desacelerou diante de um portão de ferro pintado de preto, com uma placa discreta: Oficina do Caio — Motos e Reparos. Caio desligou o motor, e o silêncio da noite os envolveu.

— Chegamos — disse ele, tirando o capacete e sacudindo os cabelos escuros, úmidos na raiz.

Pedro desceu da moto, as pernas um pouco bambas, e tirou o próprio capacete. O lugar era exatamente como ele imaginava: um galpão amplo de tijolos aparentes, com motos em vários estágios de desmontagem, ferramentas organizadas em painéis nas paredes e o cheiro característico de óleo de motor, graxa e metal frio. Mas havia algo mais: uma escada de ferro em caracol que subia para um segundo andar, onde uma luz quente brilhava através de uma janela ampla.

— A garagem com vista — disse Caio, seguindo o olhar curioso de Pedro. — Sobe. Eu já vou.

Pedro subiu a escada, os degraus de metal ecoando sob a sola dos seus tênis. No topo, encontrou um espaço que não esperava: um sofá grande e gasto de couro marrom, uma mesa de centro de madeira rústica, uma estante apinhada de livros técnicos e romances clássicos, uma vitrola antiga e, no fundo, uma porta de correr de vidro que dava para um terraço suspenso. Ele atravessou o cômodo e empurrou o vidro.

A vista era de tirar o fôlego. A cidade se estendia lá embaixo, um mar de luzes que tremeluzia até o horizonte distante, com a silhueta recortada do Cristo Redentor banhado por um feixe suave contra o céu escuro. Pedro ficou parado ali, apoiando as mãos no parapeito de ferro, o vento fresco agitando seus cabelos claros. Sentia como se tivesse caído em outro mundo, um refúgio secreto acima do caos cotidiano.

— Gostou? — A voz de Caio chegou por trás, baixa e quente.

— É... — Pedro virou-se devagar e encontrou Caio parado na entrada do terraço, sem os óculos agora, os olhos muito escuros e brilhantes fixos nele. — É lindo. É inacreditável, na verdade.

— Eu sabia que você ia gostar. — Caio se aproximou com passos lentos, duas garrafas de cerveja gelada penduradas entre os dedos. Ele estendeu uma para Pedro e encostou-se ao parapeito ao lado dele. — Eu venho pra cá quando quero pensar. Ou quando quero não pensar em nada.

— E hoje? — Pedro perguntou, a voz quase sumindo na brisa. — O que você quer?

Caio virou o rosto para ele, e por um longo momento não disse nada. O silêncio entre eles não era desconfortável; era carregado de uma eletricidade doce e paciente. Depois, Caio ergueu a mão livre e, com a ponta dos dedos calejados, afastou uma mecha loira que insistia em cair sobre os olhos de Pedro.

— Hoje eu quero te conhecer — disse ele, a voz não passando de um murmúrio sincero. — Sem pressa. Sem aposta. Só você e eu, essa vista, e a noite inteira pela frente.

Pedro sentiu o coração apertar dentro do peito, batendo num ritmo descompassado. Ele tinha entrado naquele bar na Lapa apenas para acompanhar os colegas da faculdade, esperando mais uma noite previsível de risadas mornas e cansaço acumulado. Tinha saído de lá agarrado à cintura de um mecânico de olhar penetrante, coberto de tatuagens e dono de um sorriso meio torto que parecia desarmar todas as suas defesas. E agora, parado naquele terraço com o Rio de Janeiro a seus pés, Pedro percebeu que não queria estar em nenhum outro lugar do mundo.

— Eu também quero — disse Pedro, e a voz saiu firme, surpreendendo a si mesmo. — Te conhecer.

O sorriso de Caio se abriu, lento, largo e verdadeiro, exibindo dois dentes da frente ligeiramente proeminentes que suavizavam sua postura imponente. Ele ergueu a garrafa num brinde silencioso.

— Então vem. Vamos começar do começo.

Caio puxou duas almofadas grossas que estavam encostadas na parede do terraço e as jogou no chão de cimento queimado. Sentou-se de costas para a parede, esticando as pernas longas, e deu uma palmada no espaço ao seu lado. Pedro hesitou apenas um segundo antes de se acomodar ali, perto o suficiente para sentir o calor que irradiava dos ombros largos de Caio.

— Primeiro: o que um garoto feito você tava fazendo naquele bar no meio da semana? — perguntou Caio, dando um gole na cerveja. — Você parecia um peixe fora d’água antes de me olhar.

Pedro riu, olhando para a garrafa entre as próprias mãos.

— Eu faço dança na UFRJ. Terça-feira é dia de ensaio geral, e meu corpo tava moído. Meus amigos me arrastaram dizendo que eu precisava viver um pouco além das salas de espelho e das barras de madeira. Disseram que eu andava muito rígido.

— Dança? — Caio ergueu as sobrancelhas, genuinamente fascinado. Seus olhos desceram brevemente para as linhas alongadas do pescoço de Pedro e a postura naturalmente reta de seus ombros. — Contemporânea?

— Contemporânea, balé, um pouco de tudo. — Pedro deu de ombros, tímido. — É onde eu coloco tudo o que não consigo falar. Mas cobra muito. Às vezes parece que você nunca é leve o bastante, nunca é perfeito o bastante.

— Deve ser por isso que você se mexe daquele jeito.

— Que jeito?

— Como se o chão não fosse uma certeza, mas uma escolha — respondeu Caio, com uma naturalidade desarmante. — Quando você passou por mim no balcão pra pedir água, parecia que tava flutuando. E parecia exausto. Eu fiquei olhando e pensei: "Esse cara precisa de um respiro".

Pedro mordeu o lábio inferior, sentindo o calor subir pelas bochechas novamente.

— E a aposta que você mencionou lá embaixo? O que foi aquilo?

Caio soltou uma risada baixa, balançando a cabeça em reprovação consigo mesmo.

— O Marcos, um parceiro meu que tava na mesa, viu que eu não tirava os olhos de você. Ele disse que você era areia demais pro meu caminhãozinho. Que um cara refinado daquele jeito nunca ia dar moral pra um mecânico sujo de graxa. Ele apostou cinquenta pratas que você nem me responderia se eu falasse com você.

— E você foi falar comigo por causa de cinquenta reais? — Pedro estreitou os olhos, fingindo indignação.

— Claro que não — Caio respondeu prontamente, virando o corpo de frente para ele. A seriedade em seu rosto fez a provocação de Pedro morrer na garganta. — Eu ia falar com você de qualquer jeito. A aposta foi só a desculpa idiota que eu usei pra criar coragem. Quando você sorriu depois que eu tropecei na banqueta... Pedro, eu teria ido até o fim do mundo atrás de você só pra ver aquele sorriso de novo. E eu nem peguei o dinheiro dele. Saí com você e deixei ele falando sozinho.

Ouvir o próprio nome na voz rouca de Caio causou um arrepio gostoso na base da nuca de Pedro. Ele desviou o olhar para o braço direito de Caio, onde uma profusão de desenhos em tinta preta subia do pulso até sumir por baixo da manga curta da camiseta preta.

— Posso ver? — Pedro apontou com o queixo para o braço tatuado.

— À vontade.

Pedro estendeu a mão e pousou a ponta dos dedos sobre a pele de Caio. A textura era firme, quente. Ele traçou lentamente uma flor de lótus detalhada no antebraço, depois os padrões geométricos que se entrelaçavam como uma armadura moderna, subindo até a curva do bíceps. Caio não se moveu, apenas observou a respiração de Pedro desacelerar enquanto seus dedos exploravam cada linha de tinta.

— Essa aqui dói? — perguntou Pedro, tocando a curva interna do cotovelo, onde havia um pequeno tigre desenhado com traços precisos.

— Dói um bocado — admitiu Caio, a voz num tom aveludado que parecia vibrar diretamente contra a pele de Pedro. — Mas algumas dores valem a pena no final. Fica bonito quando sara.

— É a sua filosofia pra tudo?

— Quase tudo. Minha oficina, por exemplo. Eu passei três anos comendo pão com manteiga e dormindo num colchão no chão lá embaixo pra comprar as primeiras ferramentas. Meus tios diziam que era loucura, que eu devia arrumar um emprego estável numa concessionária. Mas eu queria algo que fosse meu. Onde eu pudesse consertar as coisas do meu jeito. No meu tempo.

Pedro ergueu os olhos dos desenhos e encontrou o olhar de Caio esperando por ele. Havia uma determinação crua naquele homem, mas também uma doçura desarmada que contrastava com sua aparência imponente. Pedro sentiu uma pontada de inveja, mas sobretudo de admiração.

— Eu queria ter essa coragem — sussurrou Pedro. — Eu passo tanto tempo tentando corresponder ao que meus pais esperam, ao que meus professores esperam... Às vezes sinto que se eu parar de dançar por um segundo, viro fumaça.

— Você não vai virar fumaça, Pedro. — A mão de Caio subiu devagar e cobriu os dedos de Pedro, que ainda repousavam sobre seu antebraço. — Você é de verdade. Eu consigo sentir.

O toque era firme, reconfortante, ancorando Pedro no presente como poucas coisas haviam conseguido nos últimos meses.

Lá embaixo, na sala, o ponteiro de um relógio de parede antigo bateu três vezes, mas nenhum dos dois pareceu se importar com as horas. O vento da madrugada trouxe consigo um leve frescor, fazendo Pedro encolher os ombros de leve.

Sem dizer uma palavra, Caio levantou-se com agilidade felina, entrou na sala e voltou segundos depois com uma manta grossa de flanela xadrez e uma caixinha de som portátil. Ele abriu a manta e a jogou sobre os ombros de Pedro, sentando-se tão perto dessa vez que a lateral de suas coxas se tocou. Em seguida, apertou o botão da caixinha.

Um violão suave começou a tocar, dedilhado e calmo, uma melodia antiga de MPB que flutuava no ar fresco da Tijuca como uma carícia.

— Tá com frio? — Caio perguntou, ajeitando o tecido em volta do pescoço de Pedro.

— Um pouco. Mas a manta ajuda.

— Tem outro jeito de esquentar também.

Pedro soltou uma risadinha nasalada e virou o rosto para encará-lo.

— Você não perde uma chance, não é?

— Eu sou um homem prático, Pedro. Se tem um problema, eu procuro a solução.

— E a solução é me beijar de novo?

— É a melhor solução que eu consigo pensar agora. Mas só se você quiser.

Pedro olhou para a boca de Caio — os lábios cheios, levemente entreabertos, a respiração calma desenhando pequenas nuvens invisíveis no ar da madrugada. Ele se lembrou da urgência com que tinham se beijado atrás do bar, entre o concreto e a penumbra, quando a boca de Caio tinha gosto de cerveja e ousadia. Aquele beijo tinha sido fogo puro. Mas agora, ali no terraço, o que Pedro via nos olhos de Caio era outra coisa: uma paciência infinita, um convite para desacelerar.

Pedro puxou a manta para frente, cobrindo também o ombro de Caio, diminuindo o último resquício de distância entre eles.

— Eu quero — disse Pedro, com a certeza vibrando em cada terminação nervosa do seu corpo.

Caio deslizou a mão pela nuca de Pedro, os dedos enterrando-se nos fios loiros macios, e puxou-o suavemente. Quando seus lábios se encontraram, foi diferente da pressa do estacionamento. Foi um beijo lento, profundo e quente, compassado pelo dedilhado do violão. Pedro suspirou contra a boca dele, soltando a garrafa de cerveja no chão e levando as duas mãos ao peito de Caio, sentindo as batidas fortes e ritmadas daquele coração sob o algodão da camiseta.

Caio beijava com calma e reverência, explorando a maciez da boca de Pedro como se estivesse aprendendo um caminho novo. Quando Pedro abriu levemente os lábios, a língua de Caio deslizou de forma segura, fazendo a cabeça de Pedro girar e seus dedos se fecharem no tecido da roupa dele. Havia uma ternura avassaladora na forma como Caio o segurava, como se Pedro fosse algo precioso demais para ser quebrado, mas forte o suficiente para suportar toda aquela intensidade.

Eles se separaram sem pressa, apenas o suficiente para respirar, mantendo as testas unidas. A respiração de ambos estava curta, misturando-se no ar frio.

— Você beija como se o mundo fosse parar — murmurou Pedro, com os olhos ainda fechados, sentindo o polegar de Caio acariciar sua maçã do rosto.

— Com você, o mundo para mesmo — respondeu Caio, a voz rouca, vibrando no peito. — Fazia muito tempo que eu não sentia isso. Essa paz misturada com vontade de explodir.

Pedro abriu os olhos e sorriu, aquele sorriso brilhante que fazia seus olhos quase desaparecerem em dois risquinhos encantadores. Caio soltou um suspiro involuntário diante daquela visão, beijando a ponta do nariz de Pedro com carinho.

Eles permaneceram ali, envoltos na mesma manta, enquanto a música continuava a tocar baixinho. Pedro encostou a cabeça no ombro de Caio, e Caio passou o braço protetor ao redor de sua cintura, puxando-o para mais perto. Observaram as luzes do Rio começarem a mudar lentamente de tom. No horizonte além da baía, o breu absoluto da noite começava a ceder lugar a uma linha muito tênue de azul-índigo, anunciando que a madrugada caminhava para o fim.

— Você tem que acordar cedo amanhã? — perguntou Caio, quebrando o silêncio confortável.

— Minha primeira aula é só às duas da tarde — Pedro respondeu, sentindo os olhos pesarem sob o efeito do cansaço bom que finalmente o alcançava. — E você?

— A oficina só abre quando o dono acorda — disse Caio, com um tom divertido. — E o dono não tem a menor intenção de levantar cedo.

Pedro riu baixinho contra o pescoço dele, aspirando o perfume amadeirado misturado ao cheiro limpo da brisa.

— Isso quer dizer que eu posso ficar?

Caio virou o rosto para beijar o topo dos cabelos loiros de Pedro, apertando o abraço em volta dele.

— Isso quer dizer que eu não vou deixar você ir embora tão cedo, loirinho. A gente ainda tem muita coisa pra conversar.

Pedro fechou os olhos, acomodando-se melhor no calor daquele peito largo. O medo das cobranças, o peso dos ensaios exaustivos e as incertezas do futuro pareciam pequenos demais lá de cima, quase insignificantes diante da vastidão daquela cidade e da firmeza daquele abraço.

Pela primeira vez em muito tempo, Pedro não estava correndo contra o tempo. Pela primeira vez, ele estava exatamente onde queria estar, esperando o nascer do sol ao lado de alguém que acabara de chegar, mas que já parecia ter vindo para ficar.

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