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Quando o silêncio encontra você

Fandom: Kpop

Criado: 21/09/2026

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RomanceDramaFatias de VidaDor/ConfortoFofuraPsicológicoEstudo de PersonagemUA (Universo Alternativo)
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Entre Céus de Chumbo e Terras de Sol

A luz do sol que atravessava as frestas da persiana no pequeno apartamento em Sucre não era a mesma de Seul. Era mais intensa, mais crua, como se a altitude da cidade boliviana a trouxesse para mais perto dos olhos de Jimin. Ele acordou com o corpo pesado, uma ressaca residual dos sedativos potentes que o permitiram atravessar o oceano sem sucumbir ao pânico. Por um momento, o teto desconhecido o assustou, mas logo a memória da decisão impulsiva — e necessária — de cruzar o mundo o inundou.

Jimin levantou-se e caminhou até a pequena varanda. O ar era rarefeito, mas parecia limpar seus pulmões de anos de poeira acumulada em escritórios de mármore. Ele olhou para as casas de telhados coloniais e paredes brancas que davam à cidade o apelido de "Cidade Branca". Era o seu primeiro dia oficial como voluntário.

— Vamos lá, Jimin. Você é fonoaudiólogo, não um executivo de terno — sussurrou para si mesmo, tentando convencer o próprio reflexo no espelho.

Ele vestiu uma calça jeans confortável e uma camiseta branca simples. O loiro de seus cabelos, agora um pouco mais longo, caía sobre os olhos azuis — uma herança genética rara que sempre o fazia se destacar, mas que ele agora esperava que passasse despercebida entre a multidão.

A caminhada até a ONG, o Centro para Crianças e Adolescentes com Deficiência, levou exatamente dez minutos, como o mapa havia prometido. O prédio era colorido, com murais pintados à mão retratando crianças sorridentes e montanhas andinas. O barulho de risadas e o som de bolas quicando em um pátio interno trouxeram um calor ao peito de Jimin que ele não sentia desde o acidente.

Buenos días! ¿En qué posso ajudarle? — perguntou uma mulher de meia-idade com um sorriso caloroso atrás de um balcão de madeira.

Jimin sorriu de volta, sentindo o espanhol fluir naturalmente de seus lábios. Os anos administrando os negócios da família na Espanha finalmente serviam para algo que ele realmente amava.

Buenos días. Soy Park Jimin, el voluntario de Corea del Sur. Soy fonoaudiólogo.

A mulher arregalou os olhos, surpresa com a fluência dele.

¡Ah, bienvenido, Jimin! Te esperábamos. Soy Elena. Déjame llevarte a conocer al equipo médico. Hoy es un día agitado, tenemos a muitos estudantes de medicina ajudando nos exames de rotina.

Jimin a seguiu pelos corredores vibrantes. Havia um cheiro de desinfetante misturado com chocolate quente. Elena o levou até uma sala ampla, onde macas e equipamentos médicos estavam dispostos. Grupos de jovens com jalecos brancos conversavam animadamente.

— Pessoal, atenção! — exclamou Elena em espanhol. — Este é o Dr. Park Jimin, o especialista que veio da Coreia para nos ajudar nos próximos meses.

Vários rostos se viraram. Jimin sentiu o peso dos olhares, mas manteve o sorriso gentil. Foi então que ele viu, no canto da sala, um rapaz que parecia deslocado daquela seriedade médica.

Ele era alto, com ombros largos que pareciam quase grandes demais para o jaleco de estudante. O cabelo era de um loiro vibrante, bagunçado de um jeito que sugeria que ele tinha passado as mãos por eles o dia todo. Ele estava inclinado sobre uma criança pequena, fazendo caretas engraçadas para distraí-la enquanto outro estudante tentava medir a pressão da menina.

— Aquele é o Juan — disse Elena, notando a direção do olhar de Jimin. — Ou Jungkook, como ele prefere ser chamado quando sabe que há coreanos por perto. Ele é nosso melhor voluntário, embora seja um pouco... rebelde com as regras da faculdade.

Jungkook levantou a cabeça ao ouvir seu nome. Seus olhos se encontraram com os de Jimin. Houve um breve segundo de silêncio na mente de Jimin. O rapaz tinha traços fortes, uma mistura fascinante que denunciava suas raízes bolivianas e coreanas. Mas eram os olhos dele, brilhantes e cheios de uma energia caótica, que fizeram o coração de Jimin dar um solavanco estranho.

Jungkook se levantou, limpando as mãos no jaleco, e caminhou em direção a eles com um sorriso de lado que exalava confiança e uma ponta de timidez nerd.

Hablas coreano, ¿verdad? — perguntou Jungkook, mas antes que Jimin pudesse responder em espanhol, o maior mudou para o coreano com um sotaque perfeito, embora com uma cadência diferente. — Ouvi dizer que um especialista de Seul estava vindo. Não achei que seria alguém tão... jovem.

Jimin piscou, surpreso com a audácia e a voz aveludada do rapaz.

— Sou mais velho do que pareço, eu garanto — respondeu Jimin em coreano, mantendo a postura profissional. — E você deve ser o Jungkook. Elena disse que você é estudante de medicina.

— Juan para os professores chatos, Jungkook para os amigos — ele estendeu uma mão grande e calejada. — E para fonoaudiólogos bonitos que atravessam o mundo para ajudar crianças que ninguém mais vê.

Jimin sentiu o rosto esquentar. Aquele garoto era direto demais.

— Foco, Jungkook — interrompeu Elena, rindo da audácia do estudante. — Jimin, Jungkook vai ser seu guia hoje. Ele conhece cada criança aqui pelo nome e sabe quais delas têm mais dificuldade de fala. Ele vai te ajudar a triar os casos mais urgentes.

— Vai ser um prazer, hyung — disse Jungkook, a palavra coreana soando doce e reverente em sua boca, contrastando com o visual de "nerdola" loiro e tatuado que Jimin começou a perceber sob o punho do jaleco.

O dia passou em um borrão de atividades. Jimin ficou impressionado com a dedicação de Jungkook. O rapaz não era apenas um estudante de medicina; ele era um porto seguro para aquelas crianças. Ele falava em espanhol com elas, depois se virava para Jimin e explicava os históricos médicos em coreano, facilitando a transição.

Em um momento de pausa, enquanto compartilhavam um café aguado em copos de plástico no pátio, o silêncio se instalou entre eles.

— Por que a Bolívia, Jimin-ssi? — Jungkook perguntou, perdendo um pouco da pose brincalhona. Ele observava Jimin com uma curiosidade genuína. — Alguém com o seu currículo e... bom, com o seu relógio, poderia estar em qualquer lugar do mundo.

Jimin olhou para o próprio pulso, esquecendo-se de que o relógio caro era um dos poucos vestígios de sua vida como herdeiro.

— Eu precisava de um lugar onde o silêncio não fosse assustador — confessou Jimin, surpreendendo-se com a própria honestidade. — E onde eu pudesse ser útil sem ser "o filho de alguém".

Jungkook assentiu devagar.

— Entendo. Eu nasci aqui, mas meu pai é boliviano e minha mãe coreana. Eu nunca fui à Coreia, mas ela está em mim, entende? Às vezes me sinto um estrangeiro em todo lugar. Talvez por isso eu goste tanto daqui. Nessas crianças, ninguém é "normal", então todo mundo é igual.

Jimin sentiu uma pontada de admiração. Jungkook tinha uma família comum, pais que o apoiavam, uma vida simples, mas cheia de propósito. Era tudo o que Jimin sempre desejou e nunca pôde manter.

— Você é uma boa pessoa, Jungkook — disse Jimin suavemente.

O loiro soltou uma risada curta, meio sem jeito, e coçou a nuca.

— Não diz isso alto. Tenho uma reputação de revoltado da faculdade para manter. Se o Namjoon souber que estou sendo fofo com o novo médico, ele nunca vai me deixar em paz.

— Namjoon?

— Meu melhor amigo. Ele estuda comigo. E tem o meu primo, Taehyung... ele tem uma lojinha aqui perto. Você vai conhecê-los. Eles são barulhentos, mas são gente boa.

Jungkook se levantou e estendeu a mão para ajudar Jimin a levantar do banco de pedra.

— Sabe, Jimin... Sucre pode ser pequena, mas tem muita vida. Se você não tiver medo de altura... ou de aviões... — ele parou, notando a sombra que cruzou o rosto de Jimin ao mencionar a palavra "avião".

Jimin desviou o olhar rapidamente, as mãos começando a tremer levemente. A memória do barulho ensurdecedor e dos olhos de sua mãe lampejou em sua mente.

Jungkook, com uma percepção aguçada que não condizia com sua idade, deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles, mas sem invadir.

— Ei — chamou ele, a voz baixa e firme. — Aqui o chão é firme. Eu prometo.

Jimin respirou fundo, forçando-se a voltar para o presente. Ele olhou para Jungkook e viu ali algo que não via há três anos: segurança.

— Obrigado, Jungkook.

— Não precisa agradecer. Amanhã, depois do turno, o Taehyung vai fazer um jantar na casa dele. Nada chique, só comida boliviana com um toque coreano desastroso. Você deveria ir.

— Eu não conheço ninguém... — começou Jimin.

— Conhece a mim — interrompeu Jungkook com um sorriso radiante que iluminou seu rosto inteiro. — E eu garanto que sou a melhor companhia de Sucre.

Jimin não pôde evitar o riso. Pela primeira vez em muito tempo, a escuridão que o perseguia parecia um pouco menos densa.

— Tudo bem. Eu vou.

— Ótimo! — Jungkook deu um tapinha leve no ombro de Jimin, a eletricidade do toque fazendo Jimin despertar de sua letargia emocional. — Agora vamos voltar. O pequeno Mateo está esperando para mostrar que já consegue dizer "maçã" sem gaguejar, e ele só quer mostrar para o "médico dos olhos bonitos".

Jimin seguiu Jungkook de volta para dentro da ONG, sentindo que, talvez, o tio Park estivesse certo. Ele precisava de férias. Mas não das férias de luxo que o dinheiro poderia comprar. Ele precisava das férias que a alma tira quando finalmente encontra um lugar — ou uma pessoa — que a faz sentir em casa.

Enquanto observava Jungkook brincar com as crianças, Jimin sentiu uma ponta de esperança. Ele ainda tinha pavor de voar, ainda carregava o peso de ser órfão e o mistério sombrio sobre o que realmente aconteceu naquele voo fatídico. Mas ali, sob o sol de Sucre e o olhar atento daquele estudante loiro e nerdola, Jimin sentiu que, pela primeira vez, ele não estava apenas sobrevivendo.

Ele estava começando a viver.

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