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quando o silencio encontra voce

Fandom: Kpop

Criado: 21/09/2026

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RomanceDramaAngústiaFatias de VidaDor/ConfortoFofuraRealismoEstudo de Personagem
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Entre o Silêncio e o Eco

A primeira manhã em Sucre não parecia real. O sol da Bolívia entrava pelas frestas da persiana de madeira, pintando listras douradas sobre o tapete de lã colorida que decorava o pequeno apartamento. Jimin sentou-se na cama, passando as mãos pelos fios loiros bagunçados. Por um segundo, o pânico familiar de acordar em um lugar desconhecido tentou dominar seu peito, mas ele respirou fundo, buscando o cheiro de café que vinha da rua.

Ele se levantou e caminhou até o espelho do banheiro. Seus olhos azuis, uma herança genética rara que sempre chamava atenção por onde passava, pareciam um pouco menos nublados hoje. Ele não era mais o herdeiro solitário da Park Corporation, cercado por advogados e lembranças dolorosas. Ali, ele era apenas Park Jimin, o fonoaudiólogo voluntário.

Após um banho rápido, ele vestiu uma calça jeans confortável e um suéter leve. Pegou sua mochila e o crachá da ONG, que ainda cheirava a plástico novo. O caminho até o Centro para Crianças e Adolescentes com Deficiência foi feito a pé. Ele queria sentir o chão, observar as pessoas, provar a si mesmo que o mundo continuava girando, mesmo sem seus pais.

Ao chegar ao prédio de paredes brancas e janelas amplas, o som de risadas e o choro ocasional de alguma criança o receberam. Jimin sentiu um frio na barriga que não sentia desde a faculdade.

Buenos días! Você deve ser o Sr. Park — disse uma mulher de meia-idade, com um sorriso caloroso. — Sou Elena, a coordenadora. Estávamos ansiosos pela sua chegada. Temos muitos pequenos que precisam da sua ajuda com a fala e a deglutição.

— Bom dia, Elena. Por favor, apenas Jimin — respondeu ele, curvando-se levemente por hábito. — Estou pronto para começar.

Elena o conduziu pelos corredores coloridos, apresentando a equipe. Foi quando chegaram à ala de fisioterapia e triagem médica que Jimin o viu pela primeira vez.

No centro da sala, agachado ao lado de um menino que tentava equilibrar-se em barras paralelas, estava um homem alto. Ele usava um jaleco branco sobre uma camiseta preta que marcava seus ombros largos e braços visivelmente musculosos. O cabelo moreno estava levemente comprido, caindo sobre os olhos concentrados enquanto ele ajustava a postura da criança com firmeza, mas cuidado.

— Jeon! — chamou Elena. — Este é o nosso novo fonoaudiólogo da Coreia, Park Jimin.

O homem se levantou, revelando uma estatura imponente que fez Jimin recuar um passo imperceptível. Ele limpou as mãos no jaleco e encarou Jimin. Seus olhos eram escuros e intensos, e sua expressão era fechada, quase ranzinza.

— Jeon Jungkook — disse ele, com uma voz grave que ressoou no peito de Jimin. — Estudante de medicina do último ano e residente aqui. Você está atrasado.

Jimin piscou, surpreso com a rispidez.

— O cronograma dizia que as avaliações começariam às nove. São oito e cinquenta e cinco — rebateu Jimin, tentando manter a voz firme apesar da intimidação física que o outro causava.

Jungkook soltou um suspiro audível, cruzando os braços.

— Aqui o trabalho começa quando a primeira criança chega, não quando o relógio bate o número exato. Temos dez crianças na fila de triagem e eu não posso liberar os planos de tratamento sem o seu parecer técnico.

— Eu entendo, e estou aqui para trabalhar — disse Jimin, sustentando o olhar.

Jungkook o avaliou de cima a baixo. O loiro parecia delicado demais, com sua beleza etérea e olhos que pareciam feitos de vidro. Para o futuro médico, Jimin parecia um boneco de porcelana que quebraria no primeiro turno duplo.

— Veremos — murmurou Jungkook, voltando-se para o pequeno paciente. — Tente não se perder nos corredores, "Príncipe".

Jimin sentiu o rosto esquentar. Aquela palavra... era como sua mãe o chamava. Ouvir aquilo da boca de um estranho mal-humorado foi como um soco no estômago. Ele apertou as alças da mochila e seguiu Elena para sua sala, ignorando a presença esmagadora de Jeon Jungkook atrás de si.

As horas seguintes foram intensas. Jimin atendeu criança após criança. Sua paciência era infinita; ele se ajoelhava no chão, usava brinquedos para estimular a articulação dos sons e sorria de forma tão genuína que as crianças se sentiam seguras instantaneamente.

Perto do horário do almoço, a porta de sua sala se abriu sem cerimônia. Era Jungkook.

— O paciente da sala quatro, o pequeno Mateo. Ele não consegue engolir sólidos sem engasgar. Eu preciso que você avalie a musculatura orofacial dele agora.

Jimin levantou os olhos dos seus apontamentos.

— Eu estava terminando de registrar o caso da Sofia. Se você puder esperar cinco minutos...

— O Mateo está com fome e não pode comer porque o médico e o fonoaudiólogo não entraram em um acordo sobre a dieta — cortou Jungkook, aproximando-se da mesa. — Cinco minutos para você é muito tempo para uma criança com fome.

Jimin suspirou, fechando a pasta.

— Você é sempre assim, Jeon? Ou eu fiz algo específico para ganhar esse tratamento especial?

Jungkook parou, surpreso com a franqueza. Ele observou Jimin de perto. O loiro parecia exausto, mas havia uma determinação em seus olhos azuis que ele não esperava encontrar em alguém que parecia ter saído de uma capa de revista.

— Sou prático — respondeu Jungkook, embora seu tom tivesse suavizado um milímetro. — E não gosto de perder tempo com burocracia quando há alguém sofrendo.

— Nisso, nós concordamos — disse Jimin, levantando-se e passando por ele em direção ao corredor. — Vamos ver o Mateo.

No refeitório improvisado, Jimin observou Mateo, um menino de cinco anos com paralisia cerebral leve. Jungkook estava ao lado da cadeira, segurando um copo de água com uma expressão de preocupação genuína que contrastava totalmente com sua postura ranzinza de minutos atrás.

Jimin aproximou-se e começou a palpar gentilmente a região do pescoço e mandíbula do menino.

— Ele tem um escape motor aqui, Jeon — explicou Jimin, mantendo o foco no paciente. — A língua não está fazendo o movimento de propulsão correto. Se você der o sólido agora, ele vai aspirar.

— E qual a solução? — perguntou Jungkook, observando as mãos pequenas e ágeis de Jimin trabalharem.

— Exercícios de fortalecimento e espessante na comida por duas semanas. Eu vou acompanhar todas as refeições dele enquanto estiver aqui.

Jungkook olhou para Jimin. Havia uma suavidade na forma como o loiro tratava o menino, uma empatia que parecia vir de um lugar de muita dor e, ao mesmo tempo, de muita cura.

— Você realmente sabe o que está fazendo — admitiu Jungkook, quase em um sussurro.

— Eu estudei para isso. Só não tive coragem de praticar por um tempo — confessou Jimin, sem saber por que estava se abrindo com aquele homem.

— Por que não?

Jimin hesitou. A imagem do avião caindo passou por sua mente como um flash de luz branca. O barulho, o grito de sua mãe, o silêncio que se seguiu.

— Perdi meus pais. O mundo parou para mim por três anos.

O silêncio caiu entre eles, apenas quebrado pelos sons distantes da ONG. Jungkook, que sempre teve uma resposta pronta para tudo, ficou mudo. Ele olhou para as próprias mãos, marcadas pelo trabalho duro. Ele também sabia o que era lutar; vinha de uma família pobre, pagando a faculdade de medicina com três empregos diferentes, enfrentando o cansaço extremo todos os dias. Sua rabugice era sua armadura contra o esgotamento.

— Sinto muito — disse Jungkook, e desta vez não havia sarcasmo. — Eu não sabia.

— Ninguém sabe. Para a maioria, sou apenas o herdeiro rico que resolveu brincar de caridade — Jimin deu um sorriso triste, limpando o canto da boca de Mateo.

Jungkook sentiu uma pontada de culpa. Ele tinha julgado Jimin exatamente dessa forma.

— Eu não sou muito bom com palavras, Park. Prefiro agulhas e diagnósticos — começou Jungkook, coçando a nuca, visivelmente desconfortável. — Mas... se você vai acompanhar as refeições do Mateo, eu posso te mostrar os melhores lugares para comprar os suplementos que ele vai precisar. O mercado central é confuso para quem não conhece a cidade.

Jimin olhou para ele, surpreso com a oferta.

— Você está me convidando para sair da ONG sem me dar um sermão sobre o relógio?

Jungkook soltou um riso curto, o primeiro que Jimin ouviu. Era um som bonito, profundo.

— Não abuse da minha boa vontade. É pelo paciente.

— Claro — sorriu Jimin, e pela primeira vez em muito tempo, o azul de seus olhos brilhou com algo que não era tristeza. — Pelo paciente.

O resto do dia passou voando. Ao final do expediente, Jimin estava exausto fisicamente, mas sua mente estava calma. Ele estava saindo do prédio quando viu Jungkook encostado em uma moto antiga, usando um capacete preto.

— Ei, loiro! — gritou Jungkook. — Você vem ou vai ficar aí admirando a arquitetura?

Jimin caminhou até ele, rindo baixo.

— Você é muito impaciente, Jeon.

— Sou um estudante de medicina em residência. A paciência morreu no meu primeiro plantão de 48 horas — ele estendeu um capacete sobressalente para Jimin. — Sobe aí.

Jimin hesitou por um segundo. A sensação de velocidade, o vento... lembrava a decolagem. Mas ele olhou para Jungkook, para a segurança que aquele homem ranzinza e musculoso emanava, e decidiu arriscar.

Ele subiu na moto e, por instinto, segurou na cintura de Jungkook. Sentiu os músculos do moreno retesarem sob suas mãos, mas ele não se afastou.

— Segura firme — avisou Jungkook.

Enquanto a moto cortava as ruas de Sucre, Jimin fechou os olhos. Pela primeira vez em três anos, ele não estava pensando no passado. Ele não estava pensando no império que deixou para trás ou no vazio da sua casa em Seul.

Ele estava sentindo o calor das costas de Jungkook, o cheiro de antisséptico e café que emanava dele, e o vento frio da Bolívia no rosto.

Talvez o seu tio estivesse certo. Talvez ele precisasse atravessar o mundo para descobrir que, embora não soubesse viver sem os pais, ele ainda podia aprender a viver por si mesmo.

E talvez, apenas talvez, aquele estudante de medicina de coração escondido sob uma camada de gelo fosse a pessoa que o ajudaria a encontrar as palavras que ele mesmo tinha perdido no meio dos destroços.

Quando chegaram ao mercado, Jungkook estacionou e ajudou Jimin a descer. O loiro estava um pouco tonto, as pernas bambas pela adrenalina.

— Você está bem? — perguntou Jungkook, segurando-o pelo cotovelo para estabilizá-lo.

— Estou... só faz tempo que não me sinto tão... vivo — confessou Jimin, olhando nos olhos escuros de Jungkook.

Jungkook desviou o olhar, sentindo algo estranho cutucar seu peito. Ele pigarreou, voltando à sua máscara habitual.

— Ótimo. Agora vamos logo. O mercado fecha em uma hora e eu ainda tenho que estudar anatomia cardíaca antes de dormir.

Jimin riu, seguindo o moreno por entre as barracas coloridas.

— Você sabia que o coração humano não tem apenas quatro câmaras, Jeon?

Jungkook parou e olhou para trás, confuso.

— Do que você está falando? É claro que tem.

Jimin passou por ele, com um brilho travesso no olhar.

— Teoricamente, sim. Mas acho que o seu tem uma quinta câmara escondida, onde você guarda esse bom coração que tenta tanto esconder.

Jungkook ficou parado por um momento, observando Jimin se afastar entre as pessoas. Ele tocou o próprio peito, sentindo os batimentos acelerados.

— Fonoaudiólogo petulante — resmungou para si mesmo, mas um pequeno sorriso, quase imperceptível, surgiu em seus lábios enquanto ele corria para alcançá-lo.

A noite em Sucre estava apenas começando, e para Park Jimin, o silêncio finalmente começava a ser preenchido por novos sons.

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