
Amante, Amor, Amiga
Fandom: Loquinha
Criado: 21/09/2026
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Entre Acordes e Taças de Vinho
O som das rodas da mala contra o piso do aeroporto Santos Dumont parecia ecoar o ritmo frenético da última semana de Gabriela. São Paulo tinha sido intensa; o palco, as luzes e os aplausos eram seu refúgio, mas também o lugar onde ela gastava cada gota de energia que lhe restava. Ao atravessar o portão de desembarque, o mormaço do Rio de Janeiro a recebeu como um abraço úmido, mas não necessariamente acolhedor.
Gabi estava exausta. Não era apenas o cansaço físico de encenar uma peça de quinta a domingo. Era o peso invisível de um ponto final. O término com Pablo ainda estava fresco, uma ferida que não sangrava mais, mas que latejava como uma lembrança constante de que algo havia chegado ao fim.
Ao entrar em seu apartamento, o silêncio a atingiu. Ela jogou as chaves sobre o aparador e deixou a mala no corredor mesmo. Precisava de uma voz. Não qualquer voz, mas aquela voz que sempre parecia saber onde colocar cada palavra para que o mundo parasse de girar tão rápido.
Sentada no sofá, ela pegou o celular e discou o número de Alanis.
— Alô? — A voz do outro lado veio suave, calma, como se o tempo não tivesse passado desde a última vez que se falaram.
— Oi, Lanis... — Gabi soltou o ar que nem sabia que estava prendendo. — Cheguei no Rio agora.
— Gabi! Que bom te ouvir. Como foi a última sessão em São Paulo? — Alanis perguntou, e Gabi podia sentir o sorriso gentil dela através da linha.
— Foi linda, casa cheia. Mas eu estou o pó, amiga. Exausta de tudo. — Gabi hesitou por um segundo, os dedos brincando com uma mecha de seu cabelo ruivo que caía sobre o ombro. — E, bom... eu e o Pablo, a gente terminou de vez.
Houve uma pausa do outro lado. Alanis sabia exatamente o que aquela frase significava. Ela mesma ainda carregava as cicatrizes de um término recente, o medo de se abrir novamente e a cautela que vem depois de ter o coração partido.
— Eu sinto muito, Gabi. Ou talvez eu não sinta, se isso for o melhor para você agora — Alanis disse com sinceridade. — Você não quer vir aqui em casa mais tarde? Eu faço um jantar, a gente conversa. Eu sei bem como é essa sensação de "casa vazia" depois de uma tempestade.
Gabi sorriu, sentindo um calorzinho no peito.
— Eu adoraria. De verdade.
— Então combinado. Te espero às oito.
Horas depois, Gabriela parou em frente à porta de Alanis. Ela vestia algo confortável, mas que ainda assim a fazia se sentir bonita. Quando a porta se abriu, a visão de Alanis a fez parar por um instante. Os cabelos, que antes eram castanhos como os dela, agora brilhavam em um tom de loiro que realçava ainda mais a clareza dos olhos verdes.
— Você está linda loira, sabia? — Gabi disse, antes mesmo de cumprimentá-la.
Alanis riu, um som cristalino que preencheu o corredor, e puxou a amiga para um abraço apertado.
— Entra, ruiva. Estava morrendo de saudade.
O apartamento de Alanis tinha um cheiro bom de incenso e comida caseira. Elas se acomodaram na cozinha enquanto Alanis terminava de preparar o jantar. O assunto inicial, naturalmente, foi o trabalho.
— Gabi, eu me sinto péssima por ainda não ter conseguido ir a São Paulo ver sua peça — Alanis comentou, mexendo algo no fogão. — As fotos que eu vi estão incríveis. Você parece tão entregue no palco.
— Não se preocupa com isso, Lanis. Eu sei como a sua agenda está uma loucura. Mas você tem que ir quando a gente estrear aqui no Rio. É uma energia diferente, sabe? — Gabi se encostou na bancada, observando a amiga. — Às vezes eu me pego pensando na época da nossa novela. Lembra das nossas cenas?
Alanis sorriu, um olhar nostálgico atravessando seus olhos verdes.
— Como esquecer? As pessoas ainda marcam a gente em tudo quanto é vídeo daquelas duas. Foi um processo tão bonito, Gabi. Acho que a gente tinha uma conexão que não se encontra em qualquer lugar.
— Eu sinto isso também — concordou Gabi em voz baixa. — Acho que foi por isso que, quando tudo desabou com o Pablo, você foi a primeira pessoa em quem pensei.
Alanis desligou o fogo e se virou para a amiga, dando-lhe total atenção. O clima na cozinha mudou, tornando-se mais íntimo, mais denso.
— Como você está se sentindo, de verdade? — perguntou Alanis com aquela compaixão que lhe era inerente.
Gabi deu de ombros, soltando um suspiro longo.
— É estranho dizer isso, mas... estou aliviada. — Ela olhou para as próprias mãos. — Fazia tempo que não fazia mais sentido, Lanis. A gente estava tentando manter algo que já tinha acabado meses atrás. Eu me sentia presa em um papel que eu não queria mais interpretar fora do palco.
— O alívio é a primeira fase da cura — Alanis disse, aproximando-se e colocando uma mão encorajadora no ombro de Gabi. — Eu entendo bem. A gente tem esse medo de ficar sozinha, ou o medo de quebrar a cara de novo, e acaba esticando a corda até ela arrebentar na nossa mão.
— Exatamente — Gabi olhou nos olhos dela. — E você? Como está lidando com as suas coisas?
Alanis desviou o olhar por um breve segundo, a vulnerabilidade brilhando em seu rosto.
— Um dia de cada vez. Às vezes dá medo de se envolver de novo, de confiar. Mas ver você aqui, sendo tão honesta comigo, me faz sentir que a gente não precisa ter todas as respostas agora.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, mas havia uma tensão emocional no ar que precisava de um respiro. Alanis, percebendo que as duas estavam mergulhando fundo demais nas tristezas passadas, abriu um sorriso leve.
— Sabe o que a gente precisa? — Alanis caminhou até a adega climatizada no canto da sala. — De um vinho. Um vinho muito bom para celebrar o seu sucesso na peça e o nosso "recomeço".
Gabi riu, sentindo o peso nos ombros diminuir.
— Eu não poderia concordar mais.
Alanis tirou uma garrafa de tinto e duas taças de cristal. O som da rolha saindo foi como um sinal de que a noite estava apenas começando. Enquanto o líquido rubi preenchia as taças, as duas se olharam, e por um momento, o mundo lá fora — com seus términos, agendas lotadas e medos — pareceu desaparecer.
— À nossa amizade — disse Alanis, levantando a taça.
— E a tudo que ainda está por vir — completou Gabi, brindando com um brilho renovado nos olhos castanhos.
Ali, entre o aroma do vinho e o conforto da presença uma da outra, Gabriela sentiu que, pela primeira vez em muito tempo, estava exatamente onde deveria estar.
