
Bloom x Jim
Fandom: World of Winx, Winx Club
Criado: 21/09/2026
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Entre Cinzas e Maresia
A neblina parisiense descia pesada sobre os paralelepípedos úmidos, transformando a noite em um labirinto de reflexos turvos e sombras alongadas. Bloom mantinha o ritmo acelerado, o eco abafado de suas botas contra o chão sendo o único som audível além de sua própria respiração controlada. Ela havia visto o vulto escapar pela fresta dos becos do cais do Sena — uma silhueta alta, ágil, com um sobretudo que cortava o ar com a fluidez de uma capa de veludo negro.
Ele sabia demais. Sabia sobre o sequestro dos jovens talentos, sobre as sombras que se rastejavam pelo submundo de Paris e, pior, parecia mover-se um passo à frente das Winx a cada movimento.
— Pare aí! — ordenou Bloom, a voz firme cortando a névoa, carregada de uma autoridade inata que poucas pessoas tinham a audácia de desafiar.
O homem parou. Ele estava encurralado contra o portão de ferro de um armazém abandonado, mas sua postura não demonstrava pânico algum. Lentamente, ele girou sobre os calcanhares. A luz fraca de um poste de gás revelou traços marcantes e aristocráticos, a pele clara contrastando com a cascata de cabelos azul-violeta que caíam rebeldes sobre a testa. Os olhos, da mesma cor magnética e perigosa, fixaram-se nela com uma intensidade quase física.
— Uma perseguição e tanto, senhorita — disse ele, a voz rouca e aveludada carregando um sotaque antigo, polido, mas com uma lâmina de escárnio sob o verniz. — Poucos conseguem manter o meu ritmo.
— Eu não sou qualquer pessoa — retrucou a ruiva, dando dois passos à frente, as mãos já se fechando em punhos, faíscas invisíveis formigando sob sua pele. — Você vai me dizer agora mesmo quem está levando os garotos. Para onde Annabelle foi? O que você é?
O homem soltou uma risada baixa, desprovida de humor, um som seco que fez o ar parecer subitamente mais frio.
— Perguntas demais para uma noite tão fria. E você é terrivelmente mandona para alguém desarmada.
— Não preciso de armas para lidar com homens como você.
Jim inclinou a cabeça, os olhos faiscando com um interesse predatório.
— Tem certeza disso, fadinha?
A palavra soou como um veneno mastigado entre os dentes. Ele desprezava a raça dela com cada fibra de seu ser deteriorado pelo tempo e pela vingança, mas havia algo na postura daquela ruiva — o fogo que ardia em seus olhos azuis brilhantes, a recusa inflexível em recuar — que rompia a couraça de seu cinismo habitual.
Antes que Bloom pudesse formular outra exigência, Jim avançou. O movimento foi tão rápido que quase desafiou a física humana. Ele não sacou uma arma comum; atirou uma série de pequenas esferas no chão que explodiram em uma cortina de fumaça acre e faíscas estalantes. Bloom engoliu um xingamento, sentindo o calor e o perigo iminente cortarem a cortina de fumaça em sua direção.
Ela não hesitou. O instinto tomou o controle e a magia explodiu de seu peito.
— Dreamix!
O clarão luminoso rasgou a penumbra parisiense. As asas de energia translúcida se abriram atrás de si, banhando o beco cinzento com o calor pulsante e dourado do Fogo do Dragão. O tecido esvoaçante de seu traje de batalha ajustou-se à sua silhueta, e seus olhos brilharam com um poder ancestral. Ela cortou o ar, desfazendo a fumaça com um simples golpe de asas.
Jim ergueu o braço para proteger a visão da explosão de luz. Quando seus olhos azul-violetas se ajustaram, travaram na imagem de Bloom flutuando a poucos centímetros do chão, os cabelos ruivos ondulando como chamas vivas ao redor de um rosto que irradiava ferocidade e beleza avassaladora.
Por um breve segundo, a máscara do corsário caiu. Jim engoliu em seco. Ele conhecera fadas na Terra do Nunca — criaturas minúsculas, irritantes, frágeis ou presunçosas. Mas aquilo diante dele não era uma fada comum. Era uma tempestade contida em forma de mulher. O ódio por tudo o que a magia representava colidiu violentamente com uma atração crua, involuntária e perigosa que ardeu em seu estômago.
— Você é muito cheia de truques — murmurou ele, recuperando o fôlego e o sorriso torto.
— Renda-se — disse Bloom, a voz ressoando com o dobro da força mística. — Acabou.
— Nunca acaba, meu bem. Não para mim.
Com uma habilidade cirúrgica que só séculos de pirataria e duelos de vida ou morte poderiam forjar, Jim deslizou para o lado, chutando uma pilha de engradados pesados em direção a Bloom. A fada pulverizou os caixotes com uma rajada de energia ígnea, mas o segundo de distração foi tudo de que o pirata precisava. Quando as cinzas se assentaram, o beco estava vazio, restando apenas o eco distante de passos rápidos e o estalo de uma corda subindo em direção aos telhados.
Bloom pousou com suavidade, desfazendo a transformação enquanto a respiração recuperava o ritmo. Ela cerrou os punhos com raiva. Ele havia escapado.
Mas ele não estava longe.
Do alto de um telhado de ardósia, oculto pelas sombras de uma gárgula gótica, Jim observava. A chuva começara a cair em agulhas finas de gelo, molhando seus cabelos escuros e fazendo a água escorrer por seu queixo. Seus olhos não desgrudavam de Bloom.
Ele a viu olhar ao redor, frustrada, a mandíbula travada em uma determinação que beirava a teimosia pura. Havia algo de indomável nela que o fascinava profundamente. Em sua juventude restaurada — um preço pago às sombras da Terra do Nunca —, ele pensara que nada mais no mundo mortal ou mágico poderia atraí-lo além do sangue de Peter Pan e da coroa do reino esquecido. Estava enganado. A chama daquela garota havia queimado uma marca indelével em seus pensamentos.
— Teimosa demais para o próprio bem — murmurou ele para si mesmo, tocando os lábios onde um meio sorriso amargo teimava em se instalar. — Mas eu aprecio quem sabe lutar.
Os dias seguintes arrastaram-se sob o peso de investigações exaustivas. A Rainha das Fadas corrompida apertava o cerco sobre os talentos do mundo, e a caçada havia atingido um ponto de ebulição. Foi nas docas industriais de Londres, em uma noite fria e enevoada, que Bloom e Roxy finalmente rastrearam o sinal do misterioso espião.
Roxy movia-se com a precisão de quem conhecia os instintos animais. A fada dos animais mantinha os olhos fixos em cada sombra, a energia mágica crepitando sutilmente na ponta de seus dedos.
— Ele entrou naquele galpão naval — sussurrou Roxy, abaixando-se atrás de um contêiner enferrujado. — O rastro termina ali. Tem algo estranho nele, Bloom. Os animais nos canais fugiram quando ele passou. Eles não têm medo dele como têm de um predador natural... têm medo como se ele fosse um fantasma que não deveria respirar.
— Ele não é comum — respondeu Bloom em tom baixo, com os olhos fixos na porta entreaberta do edifício abandonado. — Ele luta como um soldado experiente, mas não tem a subserviência dos monstros da Rainha. Ele quer algo para si mesmo.
— Isso só o torna duas vezes mais perigoso.
— Eu sei. Vamos.
As duas fadas entraram na escuridão cavernosa do galpão. O cheiro de óleo, madeira podre e maresia impregnava o ar. Correntes de guindastes balançavam suavemente no alto, rangendo com o vento que entrava pelas janelas quebradas.
No centro da estrutura, sentado displicentemente sobre uma caixa de munição sob o facho de luz da lua, estava Jim. Ele limpava uma lâmina curva com um pedaço de pano gasto, aparentemente imperturbável pela presença das duas.
— Vocês fadas têm uma falta de imaginação gritante para abordagens — disse ele, sem sequer erguer os olhos da lâmina. — Seguir meus rastros pelas docas foi previsível demais.
— Não viemos para conversar sobre métodos de espionagem, Jim — declarou Bloom, adiantando-se. Seus olhos azuis encontraram os dele no escuro, mantendo o contato com a firmeza de duas pedras colidindo. — Você esteve nos observando. Não foi a primeira vez. Diga de uma vez o que você quer antes que eu decida queimar este lugar até as fundações com você dentro.
Jim ergueu o olhar lentamente, guardando a adaga na bainha oculta sob o casaco com um movimento deliberadamente calmo. Ele se levantou, a silhueta alta impondo uma presença física inegável. Seus olhos azul-violetas ignoraram completamente Roxy e se fixaram com uma fome silenciosa em Bloom.
— Tão feroz — zombou ele com suavidade, caminhando lentamente em direção a elas, as mãos visíveis e abertas para desarmar a tensão imediata. — Você adora ameaçar destruir as coisas, ruiva. Mas nós dois sabemos que você prefere respostas a cinzas.
Roxy deu um passo à frente, colocando-se ligeiramente na diagonal de Bloom, a guarda erguida.
— Fique onde está — rosnou a fada mais jovem. — Dê mais um passo e eu garanto que você não vai gostar do que a natureza pode fazer com homens armados.
Jim parou, fitando Roxy de soslaio com um desdém refinado.
— Uma defensora leal. Admirável, mas desnecessário. Eu não vim lutar contra vocês duas hoje.
— Ah, não? — Bloom cruzou os braços, uma sobrancelha ruiva arqueada. — E veio fazer o quê? Pedir desculpas pelos problemas que causou?
— Vim propor um acordo.
O silêncio caiu no galpão, quebrado apenas pelo gotejar ritmado da água no fundo do cais.
— Um acordo com você? — Roxy riu sem humor. — Você trabalha para a mulher que sequestrou Annabelle e todas aquelas pessoas inocentes. Você é um lacaio da Rainha!
A expressão de Jim endureceu. Por uma fração de segundo, a faceta do cavalheiro sedutor deu lugar a algo infinitamente mais sombrio — a ira ancestral de um capitão renegado que não se ajoelhava diante de coroa alguma.
— Eu não sou lacaio de ninguém — sibilou ele, a voz caindo uma oitava, carregada de veneno autêntico. — Especialmente daquela aberração que se intitula Rainha. Eu a servi pelo tempo que me convinha, sim. Ela prometeu devolver o que é meu por direito. Mas ela quebrou a palavra dela. E ninguém trai Jones impunemente.
Bloom deu um passo mais perto, atraída pela súbita revelação. Aquele homem não era apenas um mercenário; ele era movido pelo mesmo tipo de ódio visceral que ela já tinha visto nos piores tiranos da Dimensão Mágica.
— O que você quer dizer com isso? — perguntou ela.
Jim respirou fundo, recompondo a postura aristocrática com maestria arrepiante. Ele olhou diretamente nos olhos de Bloom, inclinando ligeiramente o tronco para a frente, diminuindo a distância entre eles a um ponto que Roxy considerou alarmante.
— Eu posso levar vocês até ela — disse ele, a voz suave, quase íntima. — Posso abrir o portal. Posso colocar vocês dentro da Terra do Nunca.
Roxy arregalou os olhos, a desconfiança transbordando em suas feições.
— A Terra do Nunca? Isso é loucura. Aquele lugar é uma lenda, uma armadilha!
— Não é lenda para quem sangrou naquelas praias, garota — cortou ele, os olhos faiscando com memórias antigas e sombrias. Ele voltou-se inteiramente para Bloom. — O reino dela não é deste mundo. Suas amigas podem procurar por Paris, Londres ou Nova York até o fim dos tempos; os talentos roubados não estão aqui. Eles estão apodrecendo na sombra do carvalho negro. Eu sei o caminho. Eu estive lá por mais tempo do que você sequer consegue conceber.
Bloom sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia verdade nas palavras dele — ela conseguia sentir o calor da convicção no peito do homem —, mas havia também um abismo de segredos que ele mantinha trancados a sete chaves.
— E qual é o seu preço? — perguntou Bloom, sem vacilar sob o olhar violeta dele. — Homens como você não oferecem portais para outras dimensões por caridade.
Jim soltou um sorriso de canto, um gesto carregado de ironia e um magnetismo perverso que fez o ar entre eles parecer mais denso.
— Quero a Rainha destruída. Quero a minha terra de volta. E, talvez... a sua garantia de que não vai tentar me carbonizar assim que cruzarmos o limiar.
— Bloom — chamou Roxy rapidamente, tocando o ombro da amiga com urgência, os olhos suplicantes. — Não dê ouvidos a ele. Ele cheira a traição e pólvora. É uma armadilha montada para nos entregar de bandeja. Bloom, tem certeza disso? Olhe para ele! Ele é perigoso, um mentiroso profissional!
Jim não interveio. Ele apenas manteve os olhos fixos em Bloom, desafiando-a com aquele sorriso sarcástico, esperando para ver se a garota ruiva era uma líder que tomava decisões difíceis ou se apenas obedecia aos conselhos cautelosos de terceiros. Ele sabia que Bloom odiava ser subjugada.
Bloom olhou para Roxy, sua expressão abrandando-se com a afeição fraternal que sentia pela fada dos animais, mas sua determinação permaneceu inabalável.
— Eu sei exatamente o que ele é, Roxy — disse Bloom com calma, antes de voltar-se para o pirata.
Ela deu um passo adiante, quebrando a distância de segurança, ficando a poucos centímetros de Jim. Ela era mais baixa, mas a postura ereta e a chama viva em seus olhos azuis igualavam o jogo de poder. Jim sentiu o calor quase palpável emanando dela — o Fogo do Dragão respondendo à provocação.
— Nós vamos com você — disse Bloom, a voz cortante e sem margem para debate. — Mas você precisa entender uma coisa, Jim, ou Jones, ou seja lá qual for a sua mentira favorita: você não manda em mim. Você não dita os termos. Se você pensar em nos trair, se tentar entregar uma única das minhas amigas para a sua ex-rainha... eu juro pela chama primordial que eu não vou apenas derrotar você. Eu vou queimar o seu navio, o seu caminho de volta e tudo o que você mais valoriza até não restar sequer pó.
O pirata encarou a fada ruiva. Em vez de se intimidar, seu peito vibrou com uma risada genuína, fascinado pela audácia e pelo fogo puro daquela mulher. Era um perigo delicioso estar perto dela.
— Eu não esperava nada menos de você, senhorita Bloom — disse ele, curvando-se em uma reverência zombeteira e impecavelmente cortês, sem jamais desviar os olhos dos dela. — Bem-vinda a bordo. Vamos até a Terra do Nunca.
