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herdeira das trevas

Fandom: harry potter

Criado: 21/09/2026

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Sangue, Cinzas e o Beijo da Serpente

O labirinto era um organismo vivo, pulsante e cruel. As paredes de arbustos altíssimos pareciam se fechar a cada passo, e o silêncio era interrompido apenas pela respiração descompassada de Hailey. Ela limpou o suor da testa, sentindo o peso da túnica verde e prata da Sonserina colada ao corpo. Ter sido escolhida pelo Cálice de Fogo fora um erro, ela tinha certeza. Ou talvez fosse apenas o destino pregando mais uma peça em sua vida já complicada.

Ao seu lado, Harry Potter segurava a varinha com os nós dos dedos brancos de tanta força. Hailey olhou para ele de soslaio. O garoto da Grifinória parecia exausto, mas havia aquela determinação irritante em seus olhos verdes que sempre fazia o estômago dela dar voltas.

— Você está bem, Potter? — perguntou Hailey, o tom de voz carregado daquela aspereza defensiva que ela usava como armadura.

— Já estive melhor — respondeu Harry, sem desviar os olhos do caminho escuro à frente. — E você? Onde está o seu otimismo de "melhor batedora de Hogwarts"?

Hailey soltou uma risada curta e seca.

— Meu otimismo ficou lá fora, junto com o Draco tentando me convencer a não entrar aqui. Agora, ande logo antes que uma dessas raízes decida que você parece um bom lanche.

Eles avançaram com cautela. Hailey sentia uma vibração estranha no ar, algo que arranhava o fundo de sua mente. Desde pequena, vivendo sob a tutela de Alvo Dumbledore, ela sabia que era diferente. Não era apenas o fato de ser a "filha adotiva" do diretor, ou sua habilidade inata de montar Nix, seu hipogrifo de plumagem negra, com uma maestria que assustava os outros alunos. Era a voz. A voz que vinha das sombras, o sussurro sibilante que ela entendia perfeitamente.

Esquerda... — sussurrou uma voz vinda debaixo de uma das sebes.

Hailey parou abruptamente. Uma pequena cobra de jardim deslizava rapidamente por entre as raízes.

— O que foi? — Harry perguntou, parando logo atrás dela.

— A gente vai pela esquerda — afirmou Hailey, sem hesitar.

— Mas o sinalizador do Cedrico veio da direita! — Harry protestou.

— Se quiser morrer, Potter, a escolha é sua — retrucou ela, virando-se para o corredor da esquerda. — Mas a terra aqui está falando que o caminho da direita é um beco sem saída com uma Acromântula faminta.

Harry hesitou por um segundo, olhou para o corredor sombrio e correu para alcançá-la. Ele confiava nela, embora Hailey passasse metade do tempo insultando a casa dele e a outra metade ignorando-o nos corredores.

Após o que pareceram horas desviando de feitiços e criaturas, eles avistaram o brilho azulado da Taça Tribruxo. Estava ali, no centro de uma clareira enevoada.

— No três? — sugeriu Harry, olhando para ela.

— No três — concordou Hailey.

Eles correram. As mãos se fecharam sobre as alças da taça simultaneamente. Por um breve momento, Hailey sentiu o puxão familiar no umbigo, a sensação desorientadora de uma Chave de Portal. Mas, quando seus pés atingiram o chão firme, não foi o gramado de Hogwarts que ela sentiu. Era terra fria, úmida e o cheiro insuportável de morte e decomposição.

— Onde estamos? — Harry perguntou, a voz trêmula.

Hailey se levantou, limpando a sujeira das calças. Ela olhou ao redor, vendo túmulos antigos e uma igreja em ruínas sob o luar pálido.

— Isso não faz parte do labirinto, Harry.

Um vulto se aproximou nas sombras. Era pequeno, carregando algo que parecia um fardo de panos. Hailey sentiu uma pontada aguda em sua cicatriz invisível — não na testa como Harry, mas um aperto no peito, um reconhecimento visceral que a fez perder o fôlego.

— Matem o sobressalente — disse uma voz fria e aguda.

Avada Kedavra!

O clarão verde iluminou o cemitério. Hailey gritou quando viu Cedrico Diggory cair como uma marionete com as cordas cortadas. Antes que pudesse reagir, Harry foi arrastado e preso a uma estátua de anjo da morte. Hailey, porém, não foi atacada. Rabicho a segurou pelo braço com uma força surpreendente, mas não a prendeu.

— Solte-me, seu rato imundo! — rosnou Hailey, tentando alcançar sua varinha, mas Rabicho a desarmou com um golpe rápido.

— Calma, menina... — sibilou o homem pequeno, os olhos úmidos brilhando de medo e antecipação. — O mestre tem planos para você.

O que se seguiu foi um pesadelo ritualístico. Hailey assistiu, paralisada pelo horror e por uma estranha dormência, enquanto Rabicho sacrificava o osso do pai, a carne do servo e o sangue do inimigo. Quando o caldeirão transbordou em fumaça branca, uma figura alta e esquelética emergiu.

Lorde Voldemort havia retornado.

Ele não tinha cabelos, a pele era branca como um cadáver e seus olhos eram fendas vermelhas. Ele respirou fundo, apreciando o ar da noite, antes de voltar sua atenção para Harry, que gemia de dor. Mas então, seus olhos se desviaram. Eles pousaram em Hailey.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado que a própria morte. Voldemort caminhou em direção a ela, cada passo parecendo ecoar na alma da garota. Hailey não recuou. Ela era da Sonserina, era a melhor batedora que Hogwarts já vira, e não deixaria que um monstro a visse tremer, mesmo que seu coração estivesse martelando contra as costelas.

— Então... — a voz de Voldemort era um sussurro letal — ... Alvo escondeu você muito bem, não foi?

Hailey franziu a testa, a raiva superando o medo.

— Eu não sei do que você está falando, seu projeto de cobra. Onde está a minha varinha?

Voldemort soltou uma risada gélida, um som que não tinha alegria. Ele estendeu a mão pálida e, com um dedo longo, tocou o queixo de Hailey, forçando-a a encará-lo.

— Tanta insolência. Tanto fogo — comentou ele, quase para si mesmo. — Você tem os olhos dela, mas o espírito... o espírito é inteiramente meu.

— Eu não sou nada sua! — cuspiu Hailey.

— Você não sabe, não é? — Voldemort sibilou, inclinando a cabeça. — O velho tolo criou você como uma órfã, uma protegida, enquanto o sangue que corre em suas veias é o sangue mais nobre que este mundo já conheceu. Você fala com as serpentes, Hailey. Você sente a escuridão chamando por você nas noites de inverno. Você nunca se perguntou por que nunca se sentiu parte daquela escola de medíocres?

Hailey sentiu o mundo girar. As palavras dele se encaixavam como peças de um quebra-cabeça que ela sempre se recusara a montar. As conversas com as cobras no jardim de Dumbledore, a facilidade com as Artes das Trevas, a sensação de que havia um abismo entre ela e o resto do mundo.

— Mentira — sussurrou ela, embora sua voz tenha falhado.

— Olhe para mim! — ordenou Voldemort, e a força de sua vontade era esmagadora. — Você é minha filha. A herdeira de Slytherin. Minha carne, meu sangue, minha sucessora.

Harry, preso à estátua, gritou:

— Não escute ele, Hailey! Ele está mentindo!

Voldemort agitou a varinha, silenciando Harry com um feitiço não verbal. Ele voltou a olhar para Hailey, e por um milésimo de segundo, algo que não era crueldade brilhou naqueles olhos vermelhos. Era reconhecimento.

— Você veio até aqui por causa de um troféu de ouro — disse Voldemort. — Mas hoje, você encontrou seu verdadeiro legado. Junte-se a mim, Hailey. Deixe que eu ensine a você o que Dumbledore teme que você aprenda.

Hailey olhou para Harry, depois para o corpo sem vida de Cedrico, e finalmente para o homem — se é que ele era um homem — à sua frente. A raiva borbulhava em seu peito, uma raiva que sempre estivera lá, alimentada por anos de perguntas sem respostas.

— Você matou o Cedrico — disse ela, a voz subindo de tom. — Você tentou matar o Harry. E você acha que eu vou simplesmente apertar a sua mão e chamar você de "papai"?

Ela se soltou do aperto de Rabicho com um solavanco e avançou um passo para Voldemort.

— Se eu sou sua filha — sibilou ela, e desta vez o som saiu em Ofidioglossia pura, uma vibração que fez as lápides ao redor tremerem —, então você deveria saber que eu não recebo ordens de ninguém.

Voldemort pareceu surpreso, e então, um sorriso sinistro se formou em seus lábios sem cor.

— Excelente.

Antes que qualquer outra coisa pudesse ser dita, um estrondo ecoou. Harry conseguira se soltar parcialmente e agarrou a taça que estava caída perto de seus pés.

— Hailey, agora! — gritou Harry.

Hailey hesitou. Ela olhou para Voldemort, vendo nele um espelho distorcido de tudo o que ela temia ser. O poder que emanava dele era sedutor, uma promessa de que ela nunca mais precisaria se sentir sozinha ou deslocada. Mas então ela pensou em Draco, no jeito que ele sorria para ela quando ninguém estava olhando. Pensou em Nix, esperando por ela no alto da torre.

Ela mergulhou em direção a Harry.

Voldemort ergueu a varinha, mas não disparou um feitiço mortal. Ele apenas a observou com uma curiosidade predatória enquanto ela agarrava o braço de Harry e a alça da taça.

— Nós nos veremos em breve, minha filha — a voz dele ecoou na mente dela enquanto o espaço dobrava. — Você não pode fugir do que é.

O turbilhão de cores e sons a engoliu. Quando Hailey atingiu o gramado de Hogwarts, o barulho da banda e os aplausos da multidão foram ensurdecedores, um contraste violento com o silêncio do cemitério.

— Ele voltou — Harry ofegava, caído ao lado dela. — Ele voltou, Hailey...

As pessoas corriam em direção a eles. Dumbledore foi o primeiro a chegar, seus olhos azuis cheios de uma preocupação que Hailey agora entendia ser culpa. Logo atrás dele, Draco Malfoy rompeu a multidão, o rosto pálido de terror.

— Hailey! — Draco se ajoelhou ao lado dela, as mãos tremendo enquanto tocava seus ombros. — Você está ferida? O que aconteceu? Por que você demorou tanto?

Hailey olhou para Draco, o amigo que sempre estivera lá, que a amava em segredo enquanto ela fingia não notar. Depois, olhou para Harry, cujos olhos verdes estavam fixos nela com uma mistura de choque e medo. E, finalmente, olhou para Dumbledore.

— Você sabia — disse ela, a voz tão baixa que apenas o diretor pôde ouvir.

Dumbledore não respondeu, mas a tristeza em seu rosto foi confirmação suficiente.

Hailey se levantou, recusando a ajuda de Draco. Ela sentia o peso do mundo em seus ombros e o gosto de cinzas em sua boca. Ela era a melhor batedora da Sonserina. Ela era a protegida de Dumbledore. Ela era a melhor amiga de Draco.

E ela era a filha do Lorde das Trevas.

— Eu preciso sair daqui — sussurrou ela, virando as costas para a multidão, para o corpo de Cedrico que Harry ainda protegia, e para as perguntas que começavam a surgir.

Enquanto caminhava em direção à floresta, Hailey sentiu um movimento em seu bolso. Uma pequena cobra de jardim, que de alguma forma havia se escondido em sua túnica durante o caos, colocou a cabeça para fora.

O mestre está orgulhoso... — sibilou a pequena criatura.

Hailey apertou a mão ao redor da cobra e, com um movimento rápido e furioso, arremessou-a para longe, na escuridão das árvores. Ela não chorou. Filhas de monstros não choravam. Elas apenas aprendiam a caçar.

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