
Eu Voçe e Nos
Fandom: bts army
Criado: 22/09/2026
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O Som do Silêncio Entre Nós
O inverno em Seul parecia ter se instalado definitivamente nos corredores da universidade, mas, para Min Yoongi, o frio nunca fora um problema. Na verdade, ele preferia assim. O gelo do lado de fora combinava com a aura que ele cultivava com tanto zelo: a de um homem inabalável, focado apenas em suas partituras e no café amargo que o acompanhava nas madrugadas de composição.
Yoongi não era de muitas palavras. Sua voz, quando decidia usá-la, era baixa e rouca, cortante como uma lâmina fria. Ele se sentava sempre na última fileira da sala de Teoria Musical, com o capuz do moletom cinza cobrindo parte do rosto, observando o mundo através de uma barreira invisível de indiferença. Ou, pelo menos, era isso que ele queria que todos acreditassem.
O problema tinha nome, sobrenome e um sorriso que parecia desafiar as leis da física: Park Jimin.
Jimin era o oposto solar de Yoongi. Ele não entrava em uma sala; ele a iluminava. Era um estudante de dança contemporânea que fazia algumas cadeiras teóricas na faculdade de música, e sua presença era como um acorde maior e vibrante em meio à melodia melancólica que Yoongi compunha para sua própria vida.
Naquela manhã de terça-feira, o ar condicionado da sala parecia estar ajustado para o Polo Norte. Yoongi apertou o casaco contra o corpo, os dedos longos e pálidos batucando nervosamente sobre o caderno de espiral. Ele tentava se concentrar na explicação do professor sobre contraponto, mas seus olhos, traidores como sempre, desviaram-se para a terceira fileira.
Lá estava Jimin. Ele usava um suéter de lã creme que parecia macio demais, e seus cabelos loiros caíam suavemente sobre os olhos enquanto ele fazia anotações apressadas.
— O senhor Min teria algo a acrescentar sobre a estrutura da fuga de Bach? — A voz do professor ecoou, arrancando Yoongi de seus devaneios.
Yoongi pigarreou, a expressão endurecendo instantaneamente.
— A complexidade não reside na repetição, mas na forma como as vozes se entrelaçam sem perder a identidade individual — respondeu ele, a voz desprovida de qualquer emoção. — É matemática pura aplicada ao sentimento.
O professor assentiu, satisfeito. Yoongi sentiu um olhar sobre si. Ao virar levemente o rosto, encontrou os olhos de Jimin. O garoto sorria para ele — um sorriso pequeno, doce, com os olhos se transformando em dois risquinhos encantadores. Yoongi desviou o olhar imediatamente, sentindo um incômodo familiar no peito. Não era dor; era algo muito mais perigoso. Era calor.
Quando a aula terminou, Yoongi tentou sair o mais rápido possível. Ele guardou seu material com movimentos bruscos, querendo apenas o refúgio do estúdio de produção, onde o silêncio era sua única companhia. No entanto, o destino — ou a persistência de Park Jimin — tinha outros planos.
— Ei, Yoongi-hyung! — A voz melodiosa o alcançou antes que ele cruzasse a porta.
Yoongi parou, os ombros tensos. Ele fechou os olhos por um breve segundo antes de se virar com a habitual máscara de tédio.
— O que foi, Jimin?
Jimin parou na frente dele, levemente ofegante. Ele era menor que Yoongi, o que o forçava a olhar um pouco para cima, algo que sempre fazia o coração do mais velho errar uma batida.
— Você explicou aquilo de um jeito tão bonito — disse Jimin, ajeitando a alça da mochila. — Sobre as vozes se entrelaçarem. Eu nunca tinha pensado na música desse jeito.
— É apenas técnica — respondeu Yoongi, curto. — Nada de especial.
— Para você, talvez — Jimin deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Mas para quem só sente a música, como eu, parece mágica. Você vai para o estúdio agora?
— Vou. Tenho muito trabalho.
— Eu estava indo para a sala de ensaio, é no mesmo bloco — Jimin sorriu, ignorando a frieza de Yoongi. — Podemos ir juntos?
Yoongi queria dizer não. Queria dizer que preferia caminhar sozinho, mergulhado em seus pensamentos cinzentos. Mas, ao olhar para Jimin, viu uma mancha de café na manga do suéter dele e um fio de cabelo desalinhado, e algo dentro de sua armadura rachou.
— O caminho é público, Jimin. Faça o que quiser.
Eles caminharam lado a lado pelo campus coberto de folhas secas. Jimin falava sobre uma nova coreografia que estava montando, gesticulando com as mãos pequenas e expressivas. Yoongi apenas ouvia, emitindo um "hum" ou um aceno de cabeça ocasional. Para um observador externo, parecia uma conversa unilateral, mas Jimin parecia ler as entrelinhas do silêncio de Yoongi.
— Você é sempre tão quieto, hyung — comentou Jimin, parando em frente ao Bloco B. — As pessoas acham que você é assustador.
— E eu não sou? — Yoongi arqueou uma sobrancelha, parando também.
Jimin riu, um som claro que pareceu aquecer o ar gelado.
— Nem um pouco. Eu acho que você é como uma daquelas músicas de piano que começam tristes e sombrias, mas que escondem uma melodia linda se a gente prestar atenção.
Yoongi sentiu o rosto esquentar — uma reação que ele detestava. Ele deu um passo para trás, recuperando sua distância segura.
— Você lê muita poesia, Jimin. Isso vai acabar atrofiando seu cérebro.
— E você foge muito das pessoas, hyung. Isso vai acabar atrofiando seu coração.
O golpe foi certeiro, mas Jimin o desferiu com tanta doçura que Yoongi não conseguiu se sentir ofendido. Antes que ele pudesse responder, Jimin acenou e começou a se afastar em direção à sala de dança.
— Até amanhã, Yoongi! Não trabalhe demais!
Yoongi ficou parado ali por um longo tempo, observando a silhueta de Jimin desaparecer. Ele levou a mão ao peito, sentindo as batidas aceleradas contra a palma.
— Garoto idiota — sussurrou para si mesmo, embora não houvesse nenhum veneno em suas palavras.
As semanas se passaram e a rotina se estabeleceu. Jimin sempre encontrava uma maneira de cruzar o caminho de Yoongi. Às vezes era um café deixado na mesa da biblioteca com um bilhete encorajador; outras vezes, era apenas Jimin sentando-se ao lado dele no refeitório, comendo em silêncio enquanto Yoongi revisava partituras.
Aos poucos, a resistência de Yoongi começou a ruir. Ele começou a guardar um lugar para Jimin na sala de aula, embora fingisse que era apenas para colocar sua mochila. Ele começou a trazer um cachecol extra, "esquecendo-o" na cadeira de Jimin quando percebia que o mais novo estava tremendo de frio.
O ponto de ruptura aconteceu em uma noite de sexta-feira. Yoongi estava no estúdio, lutando contra uma composição que simplesmente não ganhava vida. A melodia estava lá, mas faltava alma. Frustrado, ele bateu as mãos contra o teclado, o som dissonante ecoando pelas paredes acústicas.
Uma batida suave na porta o interrompeu.
— Está aberto — resmungou Yoongi, passando a mão pelo rosto cansado.
A porta se abriu e Jimin entrou, carregando duas sacolas de papel que cheiravam a comida tailandesa. Ele parecia exausto, com olheiras sob os olhos, mas seu sorriso ainda estava lá, firme e forte.
— Imaginei que você estivesse aqui — disse Jimin, fechando a porta com o pé. — E imaginei que não tivesse comido nada desde o café da manhã.
— Eu estou ocupado, Jimin.
— Ocupado demais para respirar? — Jimin colocou a comida sobre a mesa de mixagem, afastando alguns cabos com cuidado. — Vamos, hyung. Só dez minutos.
Yoongi suspirou, mas se rendeu. O cheiro da comida era tentador demais, e a presença de Jimin era, estranhamente, o que ele precisava para acalmar os nervos. Eles comeram no chão do estúdio, sentados sobre o carpete.
— Por que você faz isso? — perguntou Yoongi de repente, apontando para o pote de comida.
— O quê? Comer? É uma necessidade biológica, hyung.
— Não brinque comigo — a voz de Yoongi soou mais séria do que ele pretendia. — Por que você gasta seu tempo comigo? Eu sou frio, eu sou grosso, eu não sou uma boa companhia.
Jimin parou de comer e olhou fixamente para Yoongi. O silêncio que se seguiu foi denso, preenchido apenas pelo zumbido dos equipamentos eletrônicos.
— Você não é frio, Yoongi — disse Jimin suavemente. — Você é apenas protegido. E você não é uma má companhia. Você é a única pessoa com quem eu sinto que posso ficar em silêncio sem que seja desconfortável.
Jimin estendeu a mão e, por um momento de hesitação, tocou os dedos de Yoongi que estavam apoiados no chão. Yoongi não recuou. Pela primeira vez, ele permitiu que o contato acontecesse. A pele de Jimin era quente, um contraste gritante com a temperatura constante de Yoongi.
— Eu vejo você — continuou Jimin, a voz quase um sussurro. — Vejo como você cuida das pessoas de longe. Como você se esforça em cada nota que escreve. Eu não estou aqui por pena ou por insistência. Estou aqui porque eu quero estar.
Yoongi sentiu algo se quebrar definitivamente dentro de si. A barreira que ele construíra durante anos para se proteger do mundo, das decepções e da própria vulnerabilidade, desmoronou diante da sinceridade nos olhos de Jimin.
— Eu não sei como fazer isso — confessou Yoongi, a voz falhando. — Eu não sei ser o que você espera.
— Você não precisa ser nada além do que já é — Jimin sorriu, e desta vez não foi o sorriso radiante de sempre, mas algo mais profundo, mais íntimo. — Eu gosto do Min Yoongi que gosta de café amargo e de silêncio.
Yoongi olhou para as mãos unidas no chão. Ele virou a palma para cima, entrelaçando seus dedos nos de Jimin. Era um gesto pequeno, mas para ele, significava o mundo.
— A música que eu estava tentando escrever... — começou Yoongi, pigarreando para disfarçar a emoção. — Ela não estava funcionando porque eu estava tentando torná-la lógica.
— E agora? — perguntou Jimin, inclinando a cabeça.
Yoongi olhou para ele, permitindo que, pela primeira vez, seus sentimentos transparecessem em seu olhar. A frieza havia desaparecido, dando lugar a uma intensidade que fez Jimin prender a respiração.
— Agora eu acho que sei como terminá-la. Ela precisa de um pouco mais de sol.
Jimin riu, aproximando-se mais, até que seus ombros se tocassem.
— Eu posso ajudar com isso.
Naquela noite, o estúdio não foi apenas um lugar de trabalho. Foi o lugar onde Yoongi entendeu que o silêncio não precisava ser um refúgio de solidão, mas poderia ser um espaço compartilhado. Ele ainda era o homem sério, o compositor de poucas palavras e expressão fechada, mas, enquanto observava Jimin adormecer encostado em seu ombro horas depois, ele soube que o inverno em seu coração finalmente havia chegado ao fim.
Ele pegou uma caneta e, na margem da partitura inacabada, escreveu uma única frase:
"Para a melodia que me ensinou a sentir o calor."
Yoongi sabia que o caminho não seria fácil. Ele ainda teria dias em que se fecharia em seu próprio mundo, dias em que sua frieza voltaria a ser um escudo. Mas agora, ele tinha Park Jimin. E Jimin tinha a chave para todas as portas que Yoongi um dia pensou ter trancado para sempre.
— Hyung? — murmurou Jimin, meio sonolento, sentindo o movimento de Yoongi.
— Durma, Jimin — disse Yoongi, e sua voz, embora ainda rouca, carregava uma doçura que ele nunca pensou ser capaz de expressar. — Eu não vou a lugar nenhum.
E, pela primeira vez em muito tempo, Min Yoongi sorriu de verdade, um sorriso que apenas as sombras do estúdio e o garoto em seus braços puderam testemunhar. O gelo havia derretido, e o que restava era a música mais pura que ele já havia criado: a promessa de um recomeço.
