
Amor
Fandom: Jogos vorazes
Criado: 22/09/2026
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Cinzas sob a Raiz
A névoa úmida da arena grudava na pele de Tatsuyo como uma mortalha fria. Escondida no oco apodrecido de um tronco caído, com os joelhos colados ao peito e as mãos trêmulas agarradas à sua única trança lateral escura, ela respirava tão baixo quanto um animal ferido. Seu corpo de dezesseis anos doía em lugares que nem sabia que existiam. A pele parda estava marcada por arranhões roxos, coberta de lama seca e da poeira áspera de três dias sem água decente ou comida.
Tatsuyo não era uma guerreira. Ela nunca tivera a ilusão tola de que duraria tanto tempo. No Distrito 12, sua sobrevivência sempre fora um milagre frágil, sustentado por sobras de carvão, silêncios prolongados e a constante vigilância para não cruzar o caminho errado na Costura. Mas o destino era implacável. Quando o papel com o nome de sua irmãzinha de doze anos foi retirado daquela redoma de vidro reluzente sob o sol impiedoso da Colheita, Tatsuyo não pensou. Ela apenas se moveu, gritando o voluntariado antes que a mente pudesse calcular o peso da sentença de morte.
Depois, veio o trem.
A lembrança da viagem ainda pulsava como uma queimadura em sua mente. Ela tivera uma crise avassaladora de pânico, o ar recusando-se a entrar em seus pulmões, o chão de veludo da Capital girando sob seus pés enquanto Effie Trinket dava gritinhos alarmados e Haymitch Abernathy apenas observava com uma garrafa na mão. Fora Kuro quem se aproximara. Kuro, o rapaz de dezoito anos que ela conhecia apenas de vista pelas ruas de terra do Distrito 12 — dois anos à frente na escola, sempre distante, sempre silencioso —, ajoelhara-se ao lado dela e dissera para ela respirar, que o trem não iria engoli-la. Fora a única vez que trocaram palavras. Depois que as portas da carruagem se abriram na Capital e a opulência monstruosa os recebeu, Tatsuyo fechara a boca para nunca mais abri-la. Um voto mudo imposto pelo terror puro.
No terceiro dia dos Jogos Vorazes, o silêncio já não bastava para protegê-la.
Um estalo seco de galho quebrado rompeu a quietude opressiva da floresta.
O estômago de Tatsuyo afundou. Ela encolheu-se ainda mais contra a madeira úmida e cheia de musgo, fechando os olhos pretos com força desumana. Mas não adiantava tapar a visão; a audição trazia o pesadelo com clareza cristalina.
— Eu vi um vulto por aqui — disse uma voz masculina, áspera e confiante. — Estava mancando. Não deve estar longe.
— Deixe que corra um pouco — respondeu um segundo garoto, rindo com um deboche cruel. — Caçar presa assustada é a melhor parte.
Tatsuyo sentiu o sangue congelar. Eram tributos carreiristas, ou talvez garotos de distritos mais fortes que haviam formado um bando temporário. O pavor que subiu por sua garganta não era apenas o medo ordinário da morte: era o gatilho monstruoso de sua infância despedaçada. Quando tinha treze anos, em um beco escuro e úmido atrás do Prego, dois rapazes mais velhos a cercaram do mesmo jeito. O riso baixo, a forma predatória de encurralar, o cheiro de suor rançoso e a violência absoluta que lhe roubara a infância e a deixara em pedaços para sempre.
Uma mão pesada e suja agarrou a gola de sua jaqueta, arrancando-a do tronco com tanta força que seu couro cabeludo estalou.
Tatsuyo soltou um engasgo mudo, incapaz sequer de gritar. Ela caiu de costas nas folhas mortas, os olhos arregalados, o corpo inteiro entrando em convulsões de terror paralítico. Seus braços não se ergueram para empurrar. Suas pernas não chutaram. O trauma a desarmava por completo, transformando-a em pedra, exatamente como acontecera três anos antes.
O tributo diante dela — um garoto maciço do Distrito 2, com um corte sangrento na bochecha e um machado de mão reluzente — sorriu de lado ao ver o estado lamentável de Tatsuyo.
— Olha só o que temos aqui — zombou ele, aproximando-se com passos lentos. — A ratinha do Doze. Disseram que você nem abria o bico na Capital. Vamos ver se você sabe gritar.
O outro garoto, mais magro e armado com uma foice curta, parou logo atrás, rindo com os braços cruzados.
— Acaba logo com isso — disse o segundo. — Ela nem tem suprimentos. É uma perda de tempo.
— Perda de tempo nada — retrucou o primeiro, ajoelhando-se com brutalidade sobre uma das pernas de Tatsuyo, prendendo-a contra o chão. A proximidade daquele corpo pesado, a respiração quente e o olhar sádico fizeram o peito de Tatsuyo travar. Ela estava sufocando. Não conseguia puxar o oxigênio. As sombras dos dois garotos do passado sobrepunham-se às figuras diante dela, fundindo a memória nefasta à realidade da arena. — Vamos nos divertir um pouco antes de mandar o canhão disparar.
Ele estendeu a mão livre, áspera e imunda, na direção do rosto dela, segurando sua mandíbula com força suficiente para deixar hematomas.
Tatsuyo fechou os olhos, as lágrimas escorrendo quentes pelas têmporas, rendendo-se ao abismo. Não havia como lutar. Ela era fraca. Ela era apenas a garota quebrada da Costura, destinada a morrer violada e espancada em uma terra estranha.
O golpe veio do nada.
Não houve aviso, nem grito de guerra, apenas o som seco e horrendo de osso se partindo quando uma bota pesada colidiu com a têmpora do garoto que a prendia. O impacto arremessou o tributo do Distrito 2 para o lado, rolando violentamente na terra.
Tatsuyo abriu os olhos sobressaltada, engasgando com o ar que finalmente entrou em seus pulmões ardendo como fogo.
Uma figura alta e ágil se colocara entre ela e os agressores.
Era Kuro.
Com seu um metro e oitenta de altura, os músculos do peito e dos braços sobressaindo através da camisa rasgada da arena, ele se movia com a ferocidade de um predador encurralado. Seus olhos castanhos escuros queimavam com uma fúria sombria e concentrada. O cabelo branco, cortado curto e repicado, estava desalinhado pelo suor e pela sujeira da floresta, mas o detalhe mais visível era a base: uma faixa nítida, de quase um dedo de largura, de fios castanho-claros brotando do couro cabeludo. A raiz natural revelava o segredo que ele tentara apagar com tinta durante anos — a marca do Pacificador que violentara sua mãe, a herança maldita que Kuro tanto odiava carregar. Na arena não havia tintura, e sua verdadeira origem começava a surgir, manchando a brancura artificial de sua revolta.
— Fica longe dela — rosnou Kuro, a voz rouca vibrando com uma ameaça visceral.
O garoto magro com a foice hesitou por uma fração de segundo, mas a soberba falou mais alto. Ele avançou com um golpe horizontal em direção ao pescoço de Kuro.
Kuro não recuou. Ele abaixou o tronco no momento exato, deixando a lâmina cortar o ar a centímetros de sua cabeça, e entrou na guarda do adversário com uma violência brutal. Seu punho fechado atingiu o estômago do garoto, dobrando-o ao meio, seguido por uma cotovelada impiedosa que quebrou o nariz do rapaz com um estalo nauseante. A foice caiu no chão coberto de folhas. Kuro agarrou o braço do oponente, girou o próprio corpo usando a força do outro contra ele e desferiu um chute certeiro na lateral do joelho. O osso estalou em um ângulo grotesco.
O garoto berrou de agonia, caindo de lado, mas o do Distrito 2 já estava de pé, cambaleando, com sangue escorrendo pelo ouvido e o machado erguido em desespero cego.
— Eu vou estripar você, seu desgraçado do Doze! — gritou ele, arremessando-se para a frente.
Tatsuyo encolheu-se, cobrindo as orelhas com as mãos, tremendo em um frenesi absoluto. A visão da luta, o cheiro metálico de sangue que invadia a clareira, o som dos corpos colidindo — tudo aquilo a arrastava para o fundo de seu pavor. Ela estava catatônica, balançando o tronco para a frente e para trás, com os olhos fixos no chão, incapaz de processar a violência ao seu redor.
Kuro esquivou-se do machado, a lâmina cortando de raspão o tecido de seu ombro. Em um contra-ataque rápido, ele segurou o pulso armado do tributo com ambas as mãos, torcendo-o com força implacável até que os dedos do garoto se abrissem em agonia. O machado tombou na relva. Antes que o inimigo pudesse recuperar o equilíbrio, Kuro usou a própria lâmina caída para cortar-lhe a garganta em um único movimento fluido, preciso e fatal.
O som do sangue borbulhando foi seguido pelo tombo pesado do corpo sem vida na lama.
O segundo garoto, rastejando com a perna quebrada e chorando de desespero, tentou alcançar a vegetação para fugir. Kuro não hesitou. Ele deu dois passos largos, alcançou o fugitivo e enterrou a lâmina entre suas omoplatas, pondo fim à caçada antes que o garoto pudesse chamar reforços.
Dois disparos de canhão ecoaram pela arena, um logo após o outro, sacudindo as copas das árvores com seu estrondo metálico e fúnebre.
O silêncio desceu sobre a clareira como um peso de chumbo.
Kuro permaneceu de pé por alguns instantes, ofegante, o peito subindo e descendo com força, observando os dois corpos imóveis aos seus pés. O sangue alheio manchava suas mãos e respingava em seus braços definidos. Ele passou as costas da mão pela testa, empurrando as mechas brancas repicadas e expondo ainda mais a raiz castanha que ele tanto detestava. Ele odiava a violência. Odiava o sangue que corria em suas veias, o mesmo sangue do homem que forçara sua existência. Mas na arena, a violência era a única moeda de troca para respirar por mais um dia.
Ele virou-se lentamente e olhou para Tatsuyo.
A garota continuava sentada no mesmo lugar, encolhida em posição fetal entre as raízes retorcidas, as mãos cobrindo os ouvidos com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ela soluçava sem emitir som algum, o corpo inteiro sacudido por espasmos incontroláveis, os olhos arregalados fitando o vazio, afogada em uma crise de pânico que a desconectava completamente da realidade.
Kuro soltou o machado ensanguentado no chão, limpou as mãos na calça o melhor que pôde e aproximou-se devagar, fazendo barulho de propósito para não assustá-la ainda mais. Ele se abaixou a um metro de distância dela, ajoelhando-se para ficar na mesma altura.
— Tatsuyo — chamou ele, com a voz tão baixa e controlada quanto conseguia manter.
Ela não respondeu. Nem sequer piscou. Suas pupilas estavam dilatadas pelo terror do ataque e pela carnificina diante de seus olhos.
— Tatsuyo, olha para mim — pediu Kuro, inclinando a cabeça para tentar cruzar o olhar com o dela. — Eles já foram. Acabou. Ninguém vai tocar em você.
O nome dela parecia não fazer efeito. Ela continuava presa no beco do Distrito 12, presa sob as mãos sujas do passado, presa na iminência da própria destruição.
Lembrando-se da viagem no trem, quando o desespero dela quase a fez pular da janela do vagão em alta velocidade, Kuro estendeu a mão com cuidado extremo, movendo-se em câmera lenta para que ela pudesse ver cada centímetro do gesto. Ele tocou suavemente o ombro dela, mantendo o toque firme, mas sem nenhuma agressividade.
O contato fez Tatsuyo estremecer violentamente, como se tivesse levado uma descarga elétrica, e seus olhos pretos finalmente focaram nele. Havia tanta dor, tanta vulnerabilidade e tanto medo acumulado naqueles olhos que Kuro sentiu um nó apertar a própria garganta.
— Sou eu — disse ele, sustentando o olhar apavorado da garota. — É o Kuro. Do Distrito Doze. Lembra?
O lábio inferior de Tatsuyo tremeu. As lágrimas desceram grossas, abrindo caminhos claros na poeira de seu rosto pardo. Ela soltou as mãos da cabeça com lentidão, os braços caindo pesadamente no colo, como se não tivesse forças para sustentá-los.
— Eles estão mortos — continuou Kuro, apontando com a cabeça na direção oposta, sem desviar os olhos dela para poupá-la da visão dos corpos. — O aerodeslizador vai vir buscar os corpos daqui a pouco. Nós precisamos sair daqui agora. Você consegue levantar?
Tatsuyo tentou se mover, mas suas pernas simplesmente cederam sob o peso do próprio corpo. Ela emitiu um gemido rouco, sufocado, balançando a cabeça em uma negativa desesperada. O medo de ser deixada para trás lutava contra a paralisia motora provocada pelo choque.
Kuro suspirou, não de impaciência, mas de cansaço. Ele olhou para a floresta densa ao redor, ciente de que outros tributos poderiam ser atraídos pelo estrondo dos canhões. Depois, olhou de volta para a garota de dezesseis anos que se sacrificara para salvar a irmã mais nova e que agora definhava em silêncio.
— Tudo bem — murmurou ele, passando um braço por baixo dos ombros dela e o outro sob os joelhos, erguendo-a do chão com a facilidade que sua força física lhe permitia. Tatsuyo era leve demais, castigada por anos de desnutrição na Costura. — Segura em mim. Eu vou tirar a gente daqui.
Instintivamente, a mão de Tatsuyo agarrou o tecido da camisa de Kuro, apertando o pano com força cega. O calor do corpo dele era a única âncora real em meio ao pesadelo. Ela enterrou o rosto contra o ombro do rapaz, fechando os olhos com firmeza para não ver as poças escuras no chão da floresta.
Kuro pegou a foice caída com a mão livre, prendendo-a no cinto improvisado, e disparou pela vegetação fechada, afastando-se o mais rápido que podia da área dos disparos.
Ele correu por cerca de vinte minutos, subindo uma colina pedregosa e adentrando uma fenda natural entre duas grandes rochas cobertas de líquen — um abrigo estreito, quase invisível do exterior, protegido do vento e da visão aérea.
Ele colocou Tatsuyo no chão devagar, recostando-a contra a rocha fria. A garota ainda tremia, mas sua respiração começava a desacelerar, saindo do estado de colapso para um torpor pesado.
Kuro sentou-se à frente dela, cruzando as pernas e apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele passou a mão pelo cabelo branco e repicado mais uma vez, sentindo a raiz castanha com a ponta dos dedos. Aquele contraste ridículo em sua cabeça era uma ferida aberta, mas naquele momento, ele tinha problemas muito mais urgentes.
— Você não pode ficar sozinha aqui fora — disse Kuro, quebrando o silêncio do esconderijo de pedra. A voz dele era serena, sem cobranças. — Você não sabe lutar e fica travada quando o sangue sobe. Se eu não tivesse chegado... você sabe o que teria acontecido.
Tatsuyo baixou os olhos escuros para as próprias mãos pousadas no colo. Ela sabia. Sabia com uma clareza cortante que a fazia querer desaparecer da face da terra.
— E eu não vou conseguir durar muito tempo se tiver que ficar caçando enquanto olho para trás a cada segundo — continuou ele, com honestidade pragmática. — Eles caçam em bandos. Nós precisamos fazer o mesmo.
Tatsuyo ergueu o olhar lentamente, fitando o rosto dele. Kuro era forte, musculoso, capaz de abater dois garotos maiores com as próprias mãos em questão de segundos. Ele não precisava carregar um fardo inútil como ela. No Distrito 12, ninguém dividia comida com quem não podia minerar ou negociar. Mas os olhos castanhos dele não mostravam desprezo, nem maldade. Mostravam apenas a mesma amargura profunda de quem também fora moldado pela violência do mundo.
— Você conhece plantas, não conhece? — perguntou Kuro, apontando com o queixo para a trança lateral dela, onde pequenas folhas secas haviam ficado presas. — Eu vi você no centro de treinamento. Você sabia quais eram venenosas e quais serviam para comida. O Haymitch comentou que você sabia essas coisas da floresta.
Tatsuyo hesitou por um longo instante. Depois, de forma quase imperceptível, assentiu com a cabeça.
— Então é isso — declarou Kuro, firmando a voz. — Você acha a comida e cuida dos nossos rastros. Eu luto. Eu protejo você de qualquer um que tentar encostar um dedo de novo. Até onde der para ir. Nós dois somos do Doze. A Capital quer que a gente se estraçalhe como cães famintos, mas a gente não precisa facilitar para eles.
Tatsuyo engoliu em seco. Sua garganta ardia, seca e áspera após três dias inteiros de silêncio absoluto. Ela olhou para a raiz castanha crescendo no cabelo branco de Kuro — o símbolo visível de uma dor secreta que ela não compreendia inteiramente, mas reconhecia na postura tensa dele. Ele também carregava fantasmas.
Com um esforço imenso, que pareceu rasgar os músculos de sua laringe, Tatsuyo forçou o ar a passar por suas cordas vocais. A voz saiu fraca, rouca e quebrada, quase engolida pelo barulho do vento nas pedras:
— Eles... iam me machucar.
Kuro parou, surpreso pelo som da voz dela depois de tantos dias de mudez total. A dor crua naquela frase simples continha um eco que ia muito além daquela tarde na floresta. Ele entendeu, sem precisar de detalhes, que ela já havia sido ferida daquela maneira antes da arena existir. Ele conhecia o Distrito 12; sabia que a escuridão daquele lugar engolia os fracos sem deixar rastros.
O olhar de Kuro endureceu com uma determinação sombria, a mandíbula travada.
— Nunca mais — prometeu ele, sem hesitar nem por um segundo. — Nenhum deles vai encostar em você enquanto eu estiver de pé.
Tatsuyo soltou o ar que parecia preso em seu peito há três anos. Uma lágrima solitária escorreu pela bochecha, mas ela não baixou a cabeça desta vez. Estendeu a mão parda, trêmula e suja de terra, na direção dele.
Kuro olhou para a mão pequena e frágil estendida no ar. Ele esticou a sua — grande, calejada, marcada pela violência necessária daquele dia — e apertou os dedos de Tatsuyo em um pacto silencioso.
Dois tributos do Distrito 12, quebrados pelo passado e caçados pelo presente, finalmente unidos contra a arena.
