
Abbie x Claire
Fandom: Fundamental paper education FPE
Criado: 23/09/2026
Tags
Ecos de Papel e Frequências Estranhas
A atmosfera pesada dos corredores daquela escola nunca deixava ninguém totalmente em paz. As paredes, feitas de uma textura que lembrava folhas grossas de caderno cobertas por traços de grafite e manchas pontuais de tinta escura, pareciam sussurrar a cada passo. Claire caminhava em direção à sala de artes vazia, segurando alguns cadernos contra o peito. Seu corte chanel simples balançava suavemente com a brisa fria que corria pelas frestas das janelas de papelão prensado, e o pequeno laço no topo de sua cabeça permanecia impecavelmente alinhado. Ela ajeitou a gola da camisa branca de mangas compridas, passando os dedos pelos dois botões centrais para se certificar de que tudo estava em ordem. Seus shorts brancos e as meias até o tornozelo contrastavam fortemente com os sapatos pretos, que produziam um som abafado a cada passo ritmado.
Claire era conhecida por sua gentileza inabalável, uma das poucas alunas que ainda tentava manter a civilidade em um lugar onde a menor nota baixa poderia resultar em uma perseguição mortal pelas garras afiadas dos professores. No entanto, até mesmo a paciência da garota tinha limites bem definidos.
Ela empurrou a porta rangente da sala e entrou. O espaço estava silencioso, iluminado apenas por uma lâmpada fluorescente que piscava no teto alto, emitindo um zumbido elétrico preguiçoso. Claire colocou seus cadernos sobre uma das mesas de madeira compensada e respirou fundo, tentando afastar a paranoia constante que assombrava todos os estudantes daquele prédio.
De repente, sem aviso prévio, a lâmpada estalou e se apagou completamente.
A escuridão foi instantânea e absoluta, como se alguém tivesse derramado um frasco inteiro de tinta preta sobre a realidade. Antes que Claire pudesse dar um único passo para trás, um estrondo violento ecoou pela sala: a porta bateu com tanta força que o tremor subiu pela sola dos seus sapatos.
O coração da garota deu um salto na garganta. Ela recuou dois passos, esbarrando na quina da mesa.
— Oliver? — Claire falou, com a voz ligeiramente trêmula, mas tentando parecer muito mais confiante do que realmente se sentia. — Edward? Zip? Se forem vocês de novo, fiquem sabendo que isso não tem a menor graça!
Silêncio. Apenas a sua própria respiração acelerada preenchia o ar sufocante.
Com um estalo agudo, a lâmpada voltou a acender, banhando o cômodo com sua luz pálida e estéril. Claire piscou várias vezes, apertando os olhos para se acostumar com a claridade repentina. Seus punhos se fecharam nas laterais do corpo. Ela olhou diretamente para a porta fechada, a indignação substituindo o susto inicial.
— Quem tá aí?! — exclamou ela, irritada, cruzando os braços com firmeza. — Eu sei que vocês três adoram passar o dia infernizando todo mundo, mas eu não vou cair nessas brincadeirinhas infantis! Aparece logo, Oliver!
Ela esperava ouvir as risadas debochadas de Zip ou ver o aviãozinho de papel de Oliver planar pelo ar. Mas nenhuma resposta humana veio.
Em vez disso, um som bizarro, gutural e abafado quebrou a quietude, vindo de algum lugar acima de sua cabeça.
— Ribbit.
Claire congelou. Os olhos dela se arregalaram. Um calafrio desceu por sua espinha, eriçando os pelos de seus braços cobertos pelas mangas compridas.
— O... o quê? — sussurrou ela, sentindo um choque genuíno paralisar seus músculos.
Ela hesitou por uma fração de segundo antes de levantar o queixo e olhar diretamente para o teto alto da sala. Lá em cima, preso de forma inacreditável entre as vigas e os canos de ventilação, com as mãos e os pés firmemente apoiados como se fosse uma rã gigante e desesperada, estava Abbie.
O garoto parecia estar à beira de um colapso nervoso. Seus olhos esbugalhados fitavam Claire com puro pavor, e a pequena folha decorativa no topo de sua cabeça tremia tanto que parecia prestes a se soltar do papel. Ele estava em alerta máximo, respirando aos solavancos, prensado contra o forro como se estivesse tentando escapar de um predador invisível.
Ao perceber que havia sido descoberto, o corpo de Abbie cedeu. Ele se soltou do teto em um salto desajeitado e caiu em direção ao chão.
Claire deu um passo para trás em sobressalto, mas, contra todas as leis da física, o garoto conseguiu aterrissar em pé, flexionando os joelhos para amortecer o impacto antes de se erguer desengonçado. Suas pernas tremiam de maneira visível, batendo uma contra a outra.
— N-não era... não era minha intenção! — gaguejou Abbie imediatamente, erguendo as duas mãos espalmadas em um gesto patético de defesa. — E-eu juro, Claire! Eu não queria te assustar! A porta... o vento empurrou a porta e a lâmpada falhou e eu entrei em pânico e acabei subindo e... e...
Claire colocou as mãos na cintura, fitando-o com uma expressão severa que raramente usava, mas que naquele momento era completamente justificada.
— Abbie! Você tem noção do susto que acabou de me dar?! — repreendeu ela, elevando a voz em uma bronca firme. — Eu achei que fosse o Oliver pronto para me empurrar contra um armário ou coisa pior! O que você estava fazendo agarrado no teto como uma lagartixa assustada?!
Abbie encolheu os ombros, abaixando a cabeça em pura humilhação e desespero. Cada palavra de Claire parecia atingi-lo como uma régua de ferro.
— E-eu estava tentando me esconder... — murmurou ele, com a voz embargada. — A senhorita Circle estava no corredor com aquele compasso gigante e eu... eu não consegui terminar a lição de matemática e...
Ele tentou engolir em seco, mas o nervosismo travou sua garganta. Diante do olhar incisivo de Claire, o garoto não conseguiu formular outra desculpa e, em vez de palavras, soltou mais um som involuntário:
— Ribbit.
Claire parou de falar no mesmo instante. Suas sobrancelhas se arquearam, e a carranca severa quase se desfez em pura incredulidade.
— Você acabou de coaxar de novo? — perguntou ela, semicerrando os olhos.
Abbie cobriu a boca com as duas mãos, o rosto queimando de vergonha.
— Foi um soluço! — guinchou ele por trás dos dedos. — É um reflexo nervoso! Eu juro que é só um espasmo!
Claire suspirou profundamente, soltando os ombros e relaxando a postura. Era impossível ficar brava com Abbie por muito tempo; o garoto era tão assustado com a própria sombra que parecia prestes a desmoronar em pedaços a qualquer momento.
— Tudo bem, respira fundo antes que você desmaie de verdade — disse Claire, balançando a cabeça em tom de resignação. — Já passou. Não tem nenhum professor aqui.
— Tem certeza? — perguntou ele, olhando freneticamente para todos os cantos da sala, como se temesse que Miss Circle brotasse das sombras atrás do quadro negro. — Você trancou a porta? A gente devia colocar uma cadeira na maçaneta... ou duas... ou empurrar essa mesa inteira!
— Não vamos empurrar nada, Abbie — respondeu Claire com calma, virando-se para a mesa onde havia deixado suas coisas. — Na verdade, já que você conseguiu despencar lá de cima sem quebrar nenhum osso, talvez possa me ajudar com uma coisa estranha que eu encontrei mais cedo.
Abbie franziu a testa, curioso apesar do medo evidente.
— O que você encontrou? Não é nada proibido, né? Se for contra o regulamento, nós vamos virar rascunho de papel antes do almoço!
— Relaxa — disse ela, pegando uma caixa de papelão fina que estava escondida sob um de seus cadernos. — Eu achei isso no armário de achados e perdidos perto da enfermaria. Estava etiquetado de um jeito esquisito, alguém escreveu "O Bebê" com caneta permanente na tampa.
— O... o bebê? — repetiu Abbie, dando um passo cauteloso para mais perto. — Que tipo de coisa tem esse nome?
Claire abriu a embalagem sem rodeios e tirou de lá um objeto cilíndrico, de plástico liso e cor-de-rosa vibrante, com pontas arredondadas e um único botão prateado no centro. Era, inconfundivelmente, um massageador eletrônico — um vibrador compacto de alta potência, muitas vezes esquecido por funcionários ou usado para relaxamento muscular, mas totalmente deslocado naquele cenário escolar assustador.
— Olha só para isso — disse Claire, segurando o aparelho com naturalidade e mostrando-o diretamente para o garoto. — O tal "bebê" é literalmente um vibrador portátil. Dá para acreditar que alguém deixou isso largado perto dos curativos?
Os olhos de Abbie quase saltaram das órbitas. Ele deu um pulo para trás tão repentino que tropeçou nos próprios pés, batendo as costas contra uma fileira de cavaletes vazios.
— O QUÊ?! — gritou Abbie, a voz afinando duas oitavas enquanto apontava um dedo trêmulo para o dispositivo. — Isso... isso é... por que você tá segurando isso com tanta calma?! Isso é uma máquina do caos, Claire! Joga isso fora! Isso deve ter radiação ou algo pior!
— Para de escândalo, Abbie, é só um aparelho elétrico! — Claire franziu o cenho, achando a reação exagerada dele cômica. — É só um massageador de ponto! Não vai morder você!
— Parece perigoso! Por que alguém chamaria isso de bebê?! Isso não faz sentido nenhum! — exclamou o garoto, hiperventilando e abraçando o próprio peito.
— Provavelmente era uma piada interna de quem perdeu — respondeu ela, apertando distraidamente o botão central prateado.
No mesmo segundo, o motor interno do aparelho despertou com uma fúria inacreditável.
BZZZZZZZZZZZZZZZZT!
O zumbido não era suave; parecia uma furadeira em miniatura girando em rotações absurdas. A vibração foi tão violenta que o braço de Claire chegou a sacudir levemente com a força do motor. O barulho reverberou pelas paredes de papel da sala de aula, soando assustadoramente alto no silêncio do ambiente.
— AAAAAAH! — Abbie cobriu os ouvidos, agachando-se no chão em posição fetal. — DESLIGA ISSO! VAI ATRAIR A MISS BLOOMIE! O BARULHO VAI CONDENAR A GENTE!
Claire tentou apertar o botão novamente para desligar, mas a peça parecia emperrada no modo de potência máxima, chacoalhando loucamente em sua mão.
— Não tá desligando! — disse ela, rindo do desespero cômico da situação enquanto tentava manter o controle do objeto saltitante. — Mas olha, Abbie, não faz nada demais, é só vibração! Segura aqui para você ver que não machuca!
— NÃO! Nem pensar! Fica longe de mim com essa abelha assassina! — gritou ele, rastejando para trás.
— Deixa de ser medroso, testa isso logo para você parar de tremer por qualquer coisa! — Claire deu dois passos rápidos na direção dele e, antes que Abbie pudesse se levantar para escalar a parede novamente, ela estendeu o braço e empurrou o aparelho para as mãos dele. — Testa!
— NÃO, ESPERA, CLAIRE, POR FAV—
No momento em que os dedos de Abbie se fecharam em torno do plástico rosa, o choque mecânico tomou conta de todo o seu corpo frágil de papel.
A força da vibração fez as mãos de Abbie começarem a tremer em uma frequência tão alta que pareciam apenas um borrão embaçado. O choque das oscilações subiu pelos seus pulsos, passou pelos cotovelos e atingiu seus ombros, fazendo a cabeça dele sacudir de um lado para o outro como um boneco de mola defeituoso. Seus dentes batiam uns contra os outros em um ritmo ensurdecedor: clac-clac-clac-clac-clac!
— C-C-CL-CLAIREEEEE! — tentou berrar ele, mas sua voz saía completamente picotada e distorcida pela vibração violenta que sacudia suas cordas vocais. — N-N-NÃO D-DÁ P-PRA S-S-SOLTARRRR!
— Solta, Abbie! É só abrir a mão! — gritou Claire, agora rindo abertamente enquanto dava um passo para trás para observar a cena ridícula.
Mas o pânico fez o efeito oposto no garoto: em vez de soltar, os músculos de suas mãos travaram ao redor do aparelho com a força do puro desespero. Ele cambaleou para a esquerda, depois para a direita, sendo praticamente guiado pela inércia do motor furioso. Seus sapatos derrapavam no chão enquanto ele vibrava por inteiro.
— M-M-MINHAS M-MÃOS V-VÃO D-DESCOLARRRR! — berrou Abbie, girando nos próprios calcanhares enquanto tentava arremessar o objeto, sem sucesso.
A folha no topo da cabeça dele parecia um helicóptero prestes a decolar. Ele deu mais três passos trôpegos em direção ao centro da sala, os braços esticados para frente como se segurasse uma granada prestes a explodir, até que esbarrou na borda de uma cadeira. O impacto o fez tropeçar, e com um puxão final de adrenalina, Abbie finalmente conseguiu abrir os dedos.
O aparelho escapou voando de suas mãos, zumbindo como um besouro metálico no ar, antes de colidir contra o quadro negro com um estrondo oco:
TOC!
O impacto fez a tampa traseira do compartimento de pilhas se soltar. Duas pilhas saltaram para lados opostos, rolando pelo piso de papel, e o zumbido finalmente cessou. O silêncio retornou à sala de forma abrupta e pesada.
Abbie desabou de joelhos no chão, apoiando as duas mãos espalmadas contra o piso. Ele arfava pesadamente, os olhos completamente vidrados e o corpo ainda tremendo por inércia residual.
Claire levou uma mão à boca, tentando disfarçar a crise de riso, mas não conseguiu se conter e soltou uma gargalhada alta e límpida que quebrou toda a tensão do ambiente.
— Você... você devia ter visto a sua cara! — disse ela, respirando fundo entre os risos. — Parecia que você estava sendo eletrocutado por uma tomada mágica!
Abbie levantou a cabeça lentamente, os cabelos desgrenhados e uma expressão de pura derrota estampada no rosto pálido.
— Eu quase morri, Claire — murmurou ele, com a voz rouca e ainda ligeiramente trêmula. — Meu cérebro chacoalhou tanto que eu acho que esqueci até a tabuada do sete.
— Você nunca soube a tabuada do sete, Abbie — lembrou ela, caminhando até onde o aparelho quebrado havia caído e chutando a carcaça de plástico para debaixo de um armário, garantindo que não causaria mais problemas.
Ela então se aproximou de Abbie e estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar. O garoto olhou para a mão dela com desconfiança, temendo que ela estivesse escondendo outra invenção barulhenta, mas ao ver o sorriso genuíno e acolhedor de Claire, ele finalmente aceitou a ajuda e se pôs de pé.
— Viu só? — disse ela, dando tapinhas gentis nos ombros dele para tirar a poeira de giz. — Nenhum professor apareceu, ninguém virou rascunho e você sobreviveu ao teste do bebê barulhento.
Abbie ajeitou o uniforme com dedos ainda meio dormentes e soltou um longo suspiro de alívio, sentindo o pulso finalmente começar a desacelerar.
— Nunca mais... na minha vida... eu toco em nada que venha daquele armário — declarou ele com extrema solenidade.
— Combinado — respondeu Claire, pegando seus cadernos na mesa e caminhando em direção à porta. — Agora vamos sair daqui antes que o sinal toque, porque se a senhorita Circle nos pegar fora do lugar, nem o seu salto de teto vai conseguir salvar a gente.
Abbie engoliu em seco, assentindo rapidamente com a cabeça. Ele deu dois passos rápidos para alcançar Claire, colando-se ao lado dela enquanto os dois empurravam a porta e saíam cautelosamente para o corredor monocromático da escola, torcendo para que a próxima surpresa do dia fosse bem menos barulhenta.
