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Tatsro

Fandom: Jogos Vorazes em chamas

Criado: 24/09/2026

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DistopiaPós-ApocalípticoDramaAngústiaRomanceDor/ConfortoSobrevivênciaTragédiaEstudo de PersonagemAbuso de Álcool
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Cinzas Sobre o Fogo Eterno

O som de uma flecha cortando o vento frio da manhã era a única coisa capaz de silenciar o zumbido incessante na cabeça de Tatsuyo.

Ela soltou a corda do arco. O projétil de ponta metálica assobiou, cravando-se com violência exatamente no centro de uma marcação improvisada no tronco de um carvalho nodoso, além dos limites da cerca do Distrito 12. Os nós dos seus dedos estavam dormentes pelo frio e pelo atrito contínuo, mas ela não se importava. Puxou outra flecha da aljava pendurada às costas, o movimento mecânico, fluido, quase uma oração desesperada.

Tatsuyo tinha a pele parda, um traço marcante de seus ancestrais nativos, e os cabelos pretos, longos até a cintura com ondas suaves, estavam presos na costumeira e firme trança lateral caída sobre o ombro esquerdo. Seus olhos escuros eram duas fendas afiadas que vigiavam o mundo como se a qualquer segundo a floresta fosse explodir em fumaça ou monstros de laboratório da Capital.

Ela respirava com dificuldade, o ar condensando-se diante do rosto. Não dormira. De novo.

Os pesadelos eram carrascos pontuais. Às vezes era o sangue quente de Rue manchando suas mãos, o olhar inocente da menininha esvaindo-se no gramado úmido da arena. Às vezes era a imagem de sua irmã caçula, de apenas doze anos, subindo as escadas do palco da Colheita, sendo engolida viva pelo Capitólio porque Tatsuyo não tinha conseguido chegar a tempo de gritar "eu me voluntario".

Mas o pior de todos — aquele que a fazia acordar engasgando com o próprio grito, o coração martelando dolorosamente contra a caixa torácica — era o dos três primeiros dias dos Jogos. Tatsuyo lembrava-se do pavor visceral de ser encurralada por aqueles dois garotos de Distritos carreiristas. Lembrava-se da risada asquerosa, das mãos brutas tentando rasgar suas roupas, do eco sufocante do que três garotos do Distrito 12 já haviam feito com ela quando tinha apenas treze anos. Aquele trauma primordial, a pior ferida de sua alma, estava prestes a se repetir na arena, diante dos olhos voyeuristas de toda Panem.

Na vida real, Kuro havia surgido do meio dos arbustos como uma tempestade de fúria silenciosa, rasgando as gargantas dos agressores e a salvando. Mas no pesadelo... no pesadelo Kuro nunca chegava. Ela estava sempre sozinha no escuro, revivendo o inferno.

— Se continuar massacrando essa árvore, não vai sobrar lenha para o inverno — disse uma voz grave, vinda de trás dos arbustos.

Tatsuyo não abaixou o arco imediatamente. Virou-se de soslaio, a postura pronta para o combate, antes de relaxar os ombros ao ver quem era.

Kuro caminhava em sua direção com passos leves, quase sem quebrar os gravetos secos. Ele tinha um metro e oitenta, o corpo esculpido por anos de trabalho bruto e o treino brutal que antecedeu os Jogos; a camisa de manga comprida colava-se ao peitoral musculoso. Seus cabelos curtos e repicados eram quase totalmente brancos, um contraste chocante com a pele clara e os olhos castanhos profundos. Mas ali, rente ao couro cabeludo, uma faixa de quase dois centímetros de cabelo castanho-claro se acumulava. Sem tinta no Distrito 12, as raízes denunciavam sua herança.

A herança daquele pacificador da Capital que violentara sua mãe. O monstro que Kuro nunca conheceu, mas que aprendera a odiar visceralmente. Ele pintava o cabelo para apagar o pai do reflexo do espelho, mas a biologia insistia em rastejar de volta.

— Eu precisava de ar — murmurou Tatsuyo, desarmando o arco e deixando os braços caírem ao lado do corpo.

Kuro parou diante dela. Seus olhos castanhos desceram pelo rosto pardo da garota, lendo instantaneamente as olheiras fundas e a tensão na mandíbula. Ele ergueu a mão, os dedos ásperos tocando de leve a ponta da trança negra de Tatsuyo, deslizando com uma ternura que ele só reservava a ela.

— O mesmo pesadelo? — perguntou ele em voz baixa.

— O de sempre — respondeu ela, engolindo o nó na garganta.

Kuro não respondeu com palavras vãs. Ele apenas deu mais um passo à frente e a puxou para um abraço. Tatsuyo enterrou o rosto no peito largo dele, sentindo o calor do corpo de Kuro afastar o gelo fantasma da arena. Ela passou os braços ao redor da cintura dele, apertando com força, buscando o chão.

Eles se amavam com a intensidade desesperada de dois náufragos que encontraram a mesma tábua de salvação em alto-mar. Havia beijos roubados na penumbra da casa imensa na Aldeia dos Vitoriosos, carícias sussurradas, o toque reconfortante de duas almas estilhaçadas. Mas nunca falavam sobre "namoro". Não havia rótulos. Em Panem, colocar um nome naquilo era assinar uma sentença de morte. Se Snow percebesse que o coração de Tatsuyo batia inteiramente por Kuro, usaria Kuro para destruí-la. E se soubessem que Kuro queimaria o mundo para mantê-la a salvo, o fariam assistir à ruína dela. O silêncio era a única armadura que tinham.

Kuro inclinou a cabeça, encostando os lábios na têmpora dela em um beijo suave e demorado.

— Estou aqui — sussurrou ele contra a pele dela. — Eu sempre vou chegar a tempo, Tatsuyo. Sempre.

Ela fechou os olhos, querendo acreditar que aquele refúgio duraria para sempre. Mas a paz, mesmo a paz fraturada que compartilhavam na mansão onde moravam com a mãe e a irmãzinha de Tatsuyo, sob os olhares cínicos de Haymitch, era uma ilusão frágil.

— Temos que voltar — disse ela, afastando-se com relutância. — O pronunciamento do Presidente Snow para o Massacre Quaternário vai ao ar ao meio-dia. Haymitch mandou avisar.

Kuro cerrou os dentes de leve, a expressão escurecendo.

— Vamos acabar logo com isso.


A sala da mansão principal na Aldeia dos Vitoriosos cheirava a mogno polido e ao uísque barato que Haymitch entornava copiosamente. O antigo mentor do Distrito 12 estava sentado em uma poltrona de veludo gasto, um copo balançando entre os dedos trêmulos, os olhos injetados cravados na enorme tela de televisão que dominava a parede.

Tatsuyo e Kuro entraram lado a lado. Ela guardou o arco perto da porta e sentou-se na beirada de um sofá rígido. Kuro permaneceu de pé atrás dela, com uma das mãos pousada sutilmente sobre o encosto de madeira, perto o bastante para que ela sentisse sua presença como uma muralha protetora.

Na tela, o hino estridente de Panem soava com sua pompa doentia. O Presidente Snow apareceu, impecavelmente trajado em seu terno cinza, a rosa branca presa à lapela parecendo um aviso mortal. Um jovem garoto de vestes cerimoniais da Capital carregava uma caixa ornada com envelopes amarelados, selados há décadas.

Snow discursou sobre o valor do Massacre Quaternário, sobre as lições de submissão e o custo da traição do passado.

— "No septuagésimo quinto aniversário" — leu Snow, abrindo o envelope dourado com movimentos lentos e venenosos —, "como um lembrete aos rebeldes de que nem mesmo os mais fortes entre eles são capazes de superar a Capital, os tributos masculinos e femininos de cada distrito serão colhidos a partir de seu grupo existente de vitoriosos."

O silêncio que se abateu sobre a sala foi absoluto, cortado apenas pelo barulho de vidro se esmigalhando no chão. Haymitch havia deixado seu copo cair.

Tatsuyo sentiu o sangue sumir do rosto, as pontas dos dedos gelando instantaneamente.

Um grupo existente de vitoriosos.

O Distrito 12 tinha apenas três vencedores vivos: Haymitch Abernathy, Kuro e Tatsuyo.

Ela era a única mulher.

Não haveria sorteio para o tributo feminino. Não haveria chances, nem voluntariado, nem reviravoltas da sorte. Ela já estava condenada. Seu nome nem precisava ser tirado da urna. O contrato sagrado, a promessa eterna de que um vencedor nunca mais voltaria àquela carnificina, fora rasgado na frente de toda a nação.

— Malditos desgraçados! — rugiu Kuro.

O jovem vitorioso perdeu completamente o controle. Ele avançou em direção à mesa lateral e desferiu um soco furioso, partindo a madeira maciça com um estalo seco. O vaso de porcelana que estava sobre o móvel voou contra a parede, explodindo em centenas de cacos brilhantes.

A respiração de Kuro vinha em arquejos pesados, o peito subindo e descendo com violência, os nós dos dedos ensanguentados pelo impacto. Os olhos castanhos chispavam em um ódio cru, mortal, direcionado à tela onde o sorriso sutil de Snow ainda brilhava.

— Kuro... — Tatsuyo tentou intervir, a voz quase inaudível.

— Eles vão pagar — sibilou ele, sem olhar para trás, a voz tremendo de uma raiva assassina. — Eu juro por tudo que é mais sagrado, eu vou arrancar a cabeça daquele velho com as minhas próprias mãos!

Sem esperar qualquer resposta, Kuro girou nos calcanhares e marchou para fora da sala, batendo a porta pesada de carvalho com tanta força que o lustre estremeceu. Ele precisava descontar a adrenalina em alguma coisa que pudesse sangrar ou quebrar, antes que perdesse a razão de vez e atacasse os pacificadores no centro do distrito.

A sala mergulhou em uma calmaria fúnebre.

Tatsuyo baixou o olhar para as próprias mãos, que tremiam incontrolavelmente. Ela respirou fundo, puxando o ar do fundo dos pulmões até conseguir firmar o pulso. A postura de desespero deu lugar a uma frieza cortante, a mesma frieza que a manteve viva entre as árvores da septuagésima quarta arena.

Ela levantou a cabeça e encarou Haymitch. O homem mais velho encarava a poça de uísque no tapete, parecendo subitamente dez anos mais velho.

— Você já sabia? — perguntou ela, a voz baixa, afiada como lâmina.

— Ninguém sabia, Tatsuyo — respondeu Haymitch, a voz rouca e amarga. Ele se abaixou com lentidão, pegando um caco do copo e jogando-o de volta na mesa com desgosto. — Mas deveríamos ter previsto. Snow não podia deixar passar o que vocês dois fizeram. O truque dos amantes trágicos, a ameaça de suicídio duplo... Vocês acenderam uma faísca nos Distritos. Snow quer apagar essa faísca mostrando vocês dois sendo estraçalhados na arena como cães.

Tatsuyo ergueu o queixo, a trança escorregando pelo peito.

— Eu vou voltar. Isso é um fato. Não há outra mulher no 12.

— Eu sei — disse ele, encarando-a com uma seriedade rara, despida de qualquer sarcasmo habitual.

— Então temos que falar sobre o Kuro — disse Tatsuyo com firmeza.

Haymitch soltou uma risada seca e sem humor.

— O que tem ele? O garoto vai querer ir no meu lugar se eu for sorteado. Você viu o estado dele. Ele preferiria queimar no inferno a deixar você entrar naquela arena sozinha.

— Não — interrompeu Tatsuyo, levantando-se. Seus olhos pretos faiscavam com uma determinação inabalável. — Se o nome dele for tirado daquela urna, Haymitch, você vai se voluntariar. Você vai no lugar dele.

Haymitch franziu o cenho, surpreso. Ele se recostou contra a estante de livros, cruzando os braços.

— Você está louca, garota? — perguntou ele, apontando para a porta por onde Kuro havia saído. — Kuro é uma máquina. Ele tem dezenove anos, é forte, ágil, e sabe lutar melhor do que qualquer um de nós. Mais importante: ele sabe bajular a Capital quando precisa. Ele sabe rir para as câmeras de Caesar Flickerman, sabe encantar os patrocinadores, arranjar remédios e comida do ar. Eu sou um bêbado acabado com meio fígado e as pernas podres. Se o garoto for com você, as chances de pelo menos um de vocês sair vivo dobram.

— Ele não aguenta outra arena, Haymitch! — disparou ela, dando um passo à frente, a dor transbordando em suas palavras. — A cabeça dele já está em pedaços! Você não ouve os gritos dele à noite? Você não vê o quanto ele se odeia por cada morte que causou para me salvar? Se Kuro voltar para lá, ele não volta inteiro. Ele vai se jogar na frente de uma espada na primeira oportunidade para garantir que eu viva, e eu não vou deixar isso acontecer!

Haymitch suspirou pesadamente, esfregando o rosto cansado com as duas mãos ásperas.

— E você acha que a Capital vai deixar você sair viva de qualquer maneira? — rebateu o mentor, a voz dura, jogando a realidade crua sobre a mesa. — Snow odeia você, Tatsuyo. Odeia sua postura, seus olhos altivos, seu silêncio desafiador. Ele te acha impulsiva, perigosa. Mas você sabe por que você é tão perigosa? Porque lá fora, nos distritos, você é um símbolo. Eles veem essa sua trança, seu arco, essa sua cara fechada e veem uma faísca de rebelião. Kuro é o herói trágico e charmoso; você é a faísca da fogueira.

Tatsuyo sustentou o olhar dele sem pestanejar.

— Então me use como faísca. Use tudo o que eu sou. Mas deixe o Kuro fora disso.

Haymitch a estudou demoradamente. Sob a névoa do álcool e do cinismo, ele reconheceu o sacrifício puro, visceral, o mesmo tipo de amor desesperado que o levara a perder tudo anos atrás. Ele balançou a cabeça em resignação.

— Se o meu nome sair — disse Haymitch lentamente —, Kuro vai se voluntariar por mim num piscar de olhos. Você sabe disso. Ele não vai me deixar entrar lá.

— Então você tem que ser mais rápido do que ele na Colheita — ordenou Tatsuyo, a voz falhando ligeiramente pela emoção contida. — Se o nome dele sair, você se voluntaria antes que ele processe a chamada. Me prometa, Haymitch. Me prometa que vai protegê-lo dele mesmo.

Haymitch caminhou lentamente até a garrafa de uísque que ainda restava intacta sobre o balcão. Ele a destampou e deu um longo gole direto no gargalo, engolindo o líquido que queimava como fogo líquido.

— Que droga de vida — resmungou ele, limpando a boca com as costas da mão. Ele olhou para Tatsuyo, os olhos cansados cheios de uma tristeza infinita. — Está bem, garota. Se o nome dele sair, eu vou no lugar dele. Eu prometo.

Tatsuyo sentiu um peso esmagador deixar seus ombros, apenas para ser substituído pelo terror gélido do que viria a seguir. Ela não agradeceu. Não havia espaço para gratidão entre condenados.

Ela virou-se e caminhou em direção à varanda dos fundos, onde o ar gélido soprava as folhas secas pelo gramado. Kuro estava lá fora, no quintal, golpeando furiosamente um poste de madeira com um pedaço de ferro enferrujado, os nós dos dedos sangrando sobre o metal.

Tatsuyo desceu os degraus de madeira com calma. O som de seus passos fez Kuro parar. Ele estava sem fôlego, a raiz castanha de seu cabelo brilhando sob a luz pálida do sol entre as mechas brancas repicadas. Ele soltou o pedaço de ferro, que caiu com um baque surdo na terra batida.

Sem dizer uma única palavra, Tatsuyo se aproximou dele. Kuro estendeu os braços e a envolveu em um abraço desesperado, apertando-a contra si como se ela pudesse desaparecer a qualquer instante. Tatsuyo enterrou o rosto na curva do pescoço dele, sentindo o pulsar violento de sua veia e o cheiro de suor e floresta que era exclusivamente dele.

— Eu não vou deixar eles tocarem em você — sussurrou Kuro com a voz rouca, os lábios roçando a orelha dela, o corpo inteiro tremendo de impotência e amor. — Eu vou te proteger, Tatsuyo. Nem que eu tenha que queimar a Capital inteira até o chão.

Tatsuyo fechou os olhos com força, deixando uma única lágrima silenciosa escorrer por sua bochecha parda, perdendo-se entre os cabelos dele.

— Eu sei — mentiu ela suavemente, segurando-o contra o peito. — Eu sei que vai.

Na sua mente, porém, o juramento já estava feito. Kuro ficaria para trás. Ele viveria, mesmo que para isso ela tivesse que queimar na arena uma última vez.

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